You Love Him
🕊 Wren
O alarme já está tocando quando abro os olhos. Não é um som alto; ele aumenta devagar, suave e insistente, como se tentasse não me assustar, mas falha mesmo assim. Fico encarando o teto por alguns segundos, enquanto um filete da luz da manhã corta o quarto escuro ao lado da minha cama. Não sei por que o alarme está tocando. Quando estico a mão para pegar o celular, erro na primeira tentativa, como se minha mão, assim como o resto de mim, tivesse acordado antes do meu corpo.
A tela brilha de volta para mim.
7:12 AM
MEDICAMENTOS.
COMER.
LER AS ANOTAÇÕES.
Eu solto o ar.
"Certo", sussurro.
Não me lembro de ter programado isso. Sento-me rápido demais. O quarto gira para o lado por um segundo terrível, depois se estabiliza como se nada tivesse acontecido. Meu estômago embrulha. Espero. Conto até cinco. Quando o chão permanece onde deveria estar, pego meu celular e abro o aplicativo de notas. Tem uma lista fixada no topo.
Manhã: Tomar remédios.
Frasco azul.
Beber água.
Comer algo simples.
Ler o espelho.
Verificar a agenda.
Leio uma vez, depois leio de novo, só para ter certeza.
"Ok", digo para o quarto vazio. "Começar por aqui."
Começar por aqui é algo que eu entendo. Levanto-me devagar, mantendo uma mão no criado-mudo até a tontura passar. Meu apartamento está quieto, exceto pelo zumbido da geladeira e o som fraco do trânsito lá embaixo; sons normais e seguros que sei identificar. Levo meu celular para o banheiro como se fosse a prova de que tenho um plano. Post-its cobrem o espelho sem escondê-lo completamente; amarelos, brancos e roxos claros, alguns organizados, outros apressados, alguns escritos com tanta força que a tinta marca o papel.
Tomar remédios antes do café.
Não tomar dose dupla. Verifique a caixa de pílulas primeiro.
Comer, mesmo sem fome.
Luzes baixas se a dor de cabeça começar.
Aproximo-me. Algumas anotações estão datadas de ontem, anteontem, da semana passada, mas não me lembro de ter escrito nenhuma delas. A letra é minha; isso deveria ajudar, mas não ajuda. Um frasco azul de remédios está ao lado de uma caixinha de plástico marcada com os dias da semana. O compartimento de quarta-feira está aberto e as pílulas sumiram. Verifico meu celular mesmo assim. Quarta-feira.
"Bom", digo baixinho. "Bom. Já feito."
Minha voz soa calma, embora meu peito não esteja. Bebo a água em temperatura ambiente ao lado da pia e encontro outra anotação debaixo do copo.
Água fresca antes de dormir. Você fez isso por você mesma.
Isso faz minha garganta apertar, embora eu não saiba por quê. Coloco o copo na bancada e olho de volta para o espelho. Um pequeno bilhete roxo claro está enfiado entre dois práticos. Não tem data, tópico ou instrução, apenas quatro palavras na minha caligrafia.
Você o ama.
Fico encarando, depois leio de novo.
"Isso não ajuda", digo.
Minha voz está fina demais agora. Analiso as notas ao redor, procurando um nome ou uma pista, qualquer coisa, e não encontro nada. Tudo o resto me diz como sobreviver ao café da manhã, medicação, consultas e dores de cabeça. Este bilhete me diz que amo alguém, como se fosse um fato que eu deveria saber. Pressiono dois dedos contra a têmpera. Uma pressão surda espera ali, não é exatamente dor, é mais como um aviso.
"Não", sussurro. "Agora não."
Arranco o bilhete do espelho. O papel enrola levemente na minha mão, e quando o viro, o verso está em branco. É claro que está.
"Quem é ele?", pergunto.
O banheiro não me devolve nada, apenas meu próprio rosto cansado. O cabelo lavanda cai solto pelos meus ombros, minhas sardas se destacam na pele que parece pálida demais, e meus olhos estão um pouco inchados, como se eu tivesse chorado recentemente. Talvez eu tenha. Não sei, e essa é a pior parte, não saber o que meu próprio corpo já passou. Colo o bilhete de volta onde o encontrei, mas minha mão não está firme e ele fica torto.
Você o ama.
Afasto-me dele.
"Agenda", digo, forçando-me a voltar para a lista. "Verificar agenda."
Abro meu celular novamente. Tenho uma consulta às dez. Dr. Vale. Retorno. Levar registro de sintomas. Meu estômago afunda. Não quero um retorno. Não quero um registro de sintomas. Não quero uma vida que precise de instruções coladas no vidro. Bloqueio o celular e aperto a borda da pia até a sensação passar.
"Comece devagar", digo para mim mesma.
As palavras soam familiares. Talvez eu as diga com frequência. Saio do banheiro e ando com cuidado pelo apartamento, que é organizado de um jeito que não parece natural. Etiquetas marcam as gavetas da cozinha, um quadro branco pendurado na geladeira e uma cesta perto da porta, marcada como COISAS DE FORA, guarda minhas chaves, carteira, óculos escuros e um saco de lixo amarrado. Um bilhete está colado na porta acima dela.
Levar o lixo antes da consulta.
Normal e fácil. Eu consigo fazer o normal e fácil. Pego o saco, calço meus tênis e destranco a porta. O corredor tem um carpete macio, paredes bege e luzes no teto brilhantes o suficiente para me fazer semicerrar os olhos. Minha cabeça dá um pequeno latejo enquanto fecho a porta e me viro em direção ao elevador. Uma porta se abre do outro lado do corredor e um homem sai com o cabelo escuro bagunçado, camisa preta, braços tatuados, tinta subindo pela lateral do pescoço e prata no lábio inferior.
"Snake bites", percebo. Ele parece alguém que eu notaria, embora não me lembre de tê-lo notado. Ele não trava como um vizinho pego de surpresa; seu corpo inteiro fica estático, uma mão no batente da porta e as chaves penduradas na outra. Seus olhos percorrem meu rosto cuidadosamente, como se verificasse se há danos, e o saco de lixo amassa na minha mão.
"Bom dia", digo, porque é isso que uma pessoa normal diz a um vizinho no corredor.
Por um momento, ele não responde. Então ele pisca, e algo em sua expressão se acalma, gentil, porém cauteloso.
"Bom dia", ele diz.
Sua voz é grave e mais suave do que as tatuagens sugerem, o que parece injusto. Olho para o elevador, depois volto a olhar para ele. Ele ainda está me observando, não exatamente encarando, mas como se esperasse que eu fizesse algo a seguir.
"Desculpe", digo, porque o silêncio começa a me incomodar. "Nós nos conhecemos?"
Sua mandíbula tensiona apenas um pouco, mas eu vejo.
"Nós nos conhecemos", ele diz.
Essa não é uma boa resposta. Minha mão aperta o saco de lixo. "Recentemente?" Ele olha para mim por um longo segundo.
"Sim."
Odeio essa pausa. Odeio o jeito que ele diz "sim", como se aquilo lhe custasse algo.
"Ok. Sinto muito, eu... eu tenho alguns problemas de memória, então se eu esqueci de uma apresentação normal de vizinhos, a culpa é minha."
"A culpa não é sua", ele diz.
A pressão atrás dos meus olhos aumenta.
"O que quer dizer?"
"Significa que você não precisa se desculpar."
Essa é uma resposta melhor, mas ainda não parece a completa. Dou meio passo para trás. Ele nota imediatamente, seus ombros relaxando um pouco como se tentasse parecer menos ameaçador.
"Sou Noah", ele diz. "Noah Hayes. Moro do outro lado do corredor."
Noah. O nome não faz sentido na minha cabeça; ele faz algo pior, puxando algum ponto pequeno e doloroso sob minhas costelas. Olho para a porta dele, depois para a minha, e para o trecho estreito de corredor entre nós. Do outro lado do corredor. Ele não é um estranho na rua, alguém de quem posso me afastar e nunca mais ver. Ele está bem ali.
"Wren", digo automaticamente.
Os olhos dele suavizam.
"É."
Meu pulso acelera.
"Você... sabe."
"Sim."
"Porque eu te contei?"
Novamente, aquela resposta cuidadosa. Novamente, aquela sensação de que estou no meio de uma conversa que começou sem mim. Olho para as mãos dele. Nenhum movimento. Nenhum gesto. Sem se aproximar. Ele está me dando espaço, e isso deveria me fazer sentir mais segura. E faz, o que me incomoda.
"Eu deveria levar isso", digo, levantando levemente o saco de lixo.
"Ok."
Ele ainda não pressiona nem explica. Passo por ele em direção à lixeira no final do corredor, cada passo soando alto demais. Sinto-o atrás de mim, mas ele não me segue. Quando chego à lixeira, empurro o saco rápido demais e a portinhola de metal faz um barulho alto o suficiente para me fazer estremecer.
"Droga", sussurro.
A dor de cabeça pulsa novamente. Pressiono meus dedos na têmpera e respiro fundo. Um. Dois. Três. Quando me viro, Noah ainda está perto da porta dele, segurando as chaves tão forte que seus nós dos dedos ficaram pálidos. Algo nisso aperta minha garganta. Volto devagar. Eu deveria entrar, trancar a porta, ler as notas e entender a história do médico. Em vez disso, paro na frente do meu apartamento e olho para ele.
"Você não está surpreso", digo.
Ele faz uma pausa novamente.
"Com o quê?"
"Que eu não me lembre de ter te conhecido."
O olhar dele baixa por meio segundo antes de voltar ao meu.
"Não", ele diz.
O corredor parece menor.
"Por que não?"
Ele inspira como se estivesse escolhendo entre respostas ruins.
"Porque isso já aconteceu antes."
As palavras não caem de forma alta ou dramática; apenas parecem erradas. Meus dedos ficam gelados ao redor das minhas chaves.
"O que aconteceu?"
Ele não responde rápido o suficiente. Aquele silêncio faz mais estrago do que a frase. Dou um passo atrás até meu ombro roçar na minha porta.
"Noah", digo, e o nome dele parece estranho na minha boca. "O que aconteceu antes?"
O rosto dele muda quando digo seu nome. Não muito. O suficiente.
"Você já me esqueceu antes", ele diz baixinho.
O corredor fica quieto demais. Ouço o zumbido da geladeira dentro do meu apartamento através da porta. Ouço minha própria respiração. Ouço aquelas três palavras do espelho sem vê-las.
Você o ama.
Meu estômago embrulha. Olho para Noah: braços tatuados, voz suave, distância cuidadosa e um rosto que parece já saber como isso termina.
"Não", digo.
Sai rápido demais. Ele não discute. Isso me assusta ainda mais. Procuro a maçaneta atrás de mim.
"Preciso ir."
"Ok."
Lá está de novo, aquela aceitação silenciosa, como se ele tivesse praticado me deixar partir. Destranco a porta com as mãos trêmulas. Antes de eu entrar, ele diz: "Wren". Paro, embora não queira. A voz dele está cuidadosa agora, cuidadosa demais.
"Talvez você tenha escrito algo sobre mim."
Minha mão escorrega na maçaneta. Não me viro porque não preciso. O bilhete queima na minha mente.
Você o ama.
"Eu... não sei o que você quer dizer."
É uma mentira fraca e inútil, e Noah não me confronta. Ele apenas diz, mais suavemente: "Ok". Entro no meu apartamento, fecho a porta e fico encostada nela, com uma mão sobre a boca, respirando rápido demais. Do outro lado do cômodo, o espelho do banheiro me espera, coberto de instruções e da prova de que tenho tentado me salvar. Bem no meio de toda essa sobrevivência, há um bilhete impossível.
Você o ama.






Intriguing. 🤔