Chapter 1
— Você está atrasada.
A voz de Delphine saiu exatamente como ela queria: monótona, apenas uma observação, sem demonstrar preocupação alguma. Angelique estava sete minutos atrasada, o que não era incomum para ela, mas o jeito como ela entrou pela porta foi diferente — silenciosa, sem nenhuma saudação sarcástica, sem reclamações sobre a caminhada desde o metrô. Ela apenas se jogou na cadeira à frente de Delphine e tirou seu caderno, sem fazer contato visual.
— Eu sei — disse Angelique com a voz rouca, antes de pigarrear. — Desculpe.
Inclinando a cabeça, Delphine observou as sombras sob os olhos de Angelique, o jeito como seu cabelo castanho-claro estava preso de um jeito mais desleixado que o habitual, e o leve inchaço que sugeria um choro que ela preferia que ninguém soubesse. Nada daquilo era da conta de Delphine. Ela era uma tutora. Aquilo era uma transação. Angelique pagava pelo seu tempo, Delphine entregava fluência, e nada mais acontecia entre elas.
Mas Angelique olhava para o caderno agora, e seu lábio inferior fazia aquele movimento mínimo, tremendo antes que ela o mordesse para se controlar. Delphine sentiu algo se mexer em seu peito que não sentia há muito tempo. Algo que queria atravessar a mesa. Algo que queria perguntar.
Mas ela não se aproximou. Ela não perguntou. Ela era muito boa em não fazer as coisas que queria fazer.
Mesmo assim, ela suavizou a voz, apenas uma fração. O suficiente para que alguém atento pudesse notar: — Angelique.
Angelique olhou para cima. Seus olhos cor de avelã estavam avermelhados — o tipo de vermelho que Delphine estava tentando ativamente não ver, não deixar que importasse. Em vez disso, ela deixou o silêncio se estender. Ela era paciente. Tinha aprendido que as pessoas preenchiam os silêncios com coisas que não pretendiam dizer.
— Estou bem — disse Angelique, conseguindo até um sorriso, tenso e pouco convincente. — Noite longa. Drama com a colega de quarto. Sabe como é.
Delphine não sabia como era. Ela morava com sua esposa em uma casa de cinco quartos com um jardim que pagava para outra pessoa cuidar, e não tinha uma colega de quarto desde que tinha dezenove anos e dormia em um colchão em Montpellier. Mas ela assentiu como se entendesse, porque era isso que as pessoas queriam.
— Se você precisar remarcar...
— Não preciso. — Angelique abriu o livro com mais força do que o necessário. — Podemos começar? Por favor?
Por favor. Aquilo era novidade. Angelique nunca dizia por favor. Ela dizia tá bom, tanto faz e você não é minha mãe de verdade, como uma piada que não era totalmente uma piada. Mas agora ela dizia por favor, e soava como não me faça falar sobre isso, e Delphine sabia a hora de insistir e a hora de deixar passar.
Ela observou Angelique por mais um instante antes de falar novamente.
— Página quarenta e dois — disse ela. — O condicional passado. Você errou no último teste.
— Obrigado por me lembrar.
— Não estou sendo cruel. Estou sendo honesta. — Delphine recostou-se na cadeira, cruzou as pernas e deixou seu rosto inexpressivo e indecifrável novamente. — Você tem duas semanas para melhorar sua nota, ou o departamento vai te tirar do programa. Então, precisamos trabalhar. Você consegue trabalhar?
Angelique encontrou seu olhar e havia algo como gratidão ou alívio, talvez, pelo fato de Delphine não estar insistindo.
— Eu consigo trabalhar — disse Angelique.
— Ótimo. — Delphine pegou sua caneta. — Então conjugue venir no condicional passado, e não me olhe desse jeito.
— Desse jeito como?
— Como se você estivesse prestes a me perguntar algo pessoal.
Angelique riu, apenas uma vez, pega de surpresa, e foi o primeiro som real que ela fez a tarde toda. — Talvez eu estivesse.
— Não faça isso. — Delphine disse suavemente. — Conjugue.
Então Angelique conjugou, e Delphine a observou escrever, e nenhuma das duas mencionou as mãos trêmulas ou os olhos vermelhos.