Capítulo 1
A capital cheirava a vida.
Não era limpa, nunca era limpa, mas era viva.
Rose desceu da carruagem e o perfume atingiu-a de uma só vez: pão quente e carne assada vindos de uma cozinha aberta, suor de cavalo e ferro da rua, lã húmida, pedra antiga, ervas esmagadas e algo azedo por baixo de tudo isto... detritos atirados à pressa para as sarjetas e mal lavados. O fumo agarrava-se ao ar como um véu, suavizando os contornos das construções e tornando a luz do sol melíflua.
Ela parou, apenas por um momento.
Aquela cidade já fora do seu pai.
O seu capuz preto estava baixo sobre a testa, o tecido pesado e bem feito, engolindo o vermelho e o preto do vestido que usava por baixo. O vestido tinha um corte fino, mas não espalhafatoso — painéis de um vermelho profundo debruados a preto, justo no corpete e fluido nas saias. Nobre, mas contido. Os seus guardas mantinham-se a alguns passos atrás, perto o suficiente para proteger, longe o bastante para a deixar respirar.
Ela dirigiu-se para as montras.
O vidro brilhava — vidro verdadeiro, não pergaminho oleado — captando a luz. Lá dentro: pentes de cabelo prateados em forma de folhas, luvas bordadas com pequenas pérolas, frascos de vidro cheios de água de rosas e óleo de violeta. A loja de uma costureira exibia fitas enroladas em cavilhas de madeira, tingidas de carmesim, roxo-vinho e um azul tão profundo que parecia quase preto.
Rose inclinou-se mais, a sua respiração embaciando o vidro por um segundo.
Nunca tinha visto tantas coisas bonitas reunidas num só lugar.
“Menina.”
A voz era fraca.
Ela virou-se.
Uma criança estava ali — descalça apesar do frio, cabelo cortado de forma irregular, sujidade encrustada na pele das mãos. Demasiado magra. Demasiado nova para estar a pedir esmola sozinha.
“Por favor,” disse a criança, com os olhos fixos não no rosto dela, mas nas suas mãos. “Para pão.”
Rose não hesitou.
Meteu a mão na bolsa pequena à cintura e colocou moedas na palma da criança. Mais do que uma. A criança ficou a olhar, depois pestanejou rapidamente e correu.
Ela sorriu fracamente e voltou-se para a montra.
“Senhora.” Outra voz.
Mais velha desta vez. Rouca.
Depois outra.
E outra.
Vinham como se chamadas apenas pelo cheiro — mãos estendidas, vozes sobrepostas, algumas gratas, outras atrevidas, outras desesperadas. Rose parou de caminhar. Deu sem hesitar, sem contar, os seus dedos movendo-se entre a bolsa e as palmas das mãos à espera.
Os seus guardas mexeram-se, inquietos.
“Menina,” murmurou um deles, baixo. “Já chega.”
Ela abanou a cabeça uma vez e continuou a dar.
Quando a sua bolsa ficou leve, a multidão dispersou, desapontada, mas silenciosa. Rose suspirou e seguiu em frente, com o coração estranhamente pesado, os olhos voltados de novo para as montras, para a vida que nunca conhecera.
Ela não o viu de imediato, mas ele vira-a no momento em que ela saiu da carruagem.
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Ela não pertencia à rua.
Não por causa do seu vestido — muitas mulheres usavam vestidos finos —, mas por causa da forma como ela se mantinha, como se o barulho e a imundície não a assustassem, apenas a deixassem maravilhada. Porque dava moedas como se dinheiro não fosse algo a ser guardado. Porque o sol refletia-se na sua pele, quente e real, não pálida e protegida, e nos seus olhos, dourados.
Não amarelos. Não claros.
Dourados, quando ela se virava daquela maneira.
O seu coração bateu forte contra as costelas, repentino e violento, como se a tivesse reconhecido antes dele.
Estás lixado, disse uma parte silenciosa de si.
Ele afastou-se da parede e atravessou a rua.
De perto, ela era ainda mais perigosa.
A sua pele estava bronzeada — não escura, mas beijada por longos dias debaixo do céu aberto. O seu cabelo, preto e espesso, escapava do capuz numa suave rebeldia, captando a luz. Os olhos dela elevaram-se para ele, castanhos aprofundados por centelhas cor de âmbar, intensos e gentis ao mesmo tempo.
Ela parou quando o viu.
“Sim?” perguntou ela. A sua voz era firme. Curiosa. Sem medo.
Ele esqueceu-se, por meio suspiro, de como falar.
“Perdoe-me,” disse ele finalmente, inclinando a cabeça o suficiente para ser educado, não o suficiente para ser servil. “Estava a pensar se poderia dispensar uma moeda.”
As sobrancelhas dela uniram-se ligeiramente.
“Não parece precisar,” disse ela.
Ele sorriu, apesar de si mesmo. “As aparências enganam.”
Ela estudou-o abertamente agora, as suas mãos limpas, as botas bem feitas cobertas de pó, a forma como ele estava de pé, como se a rua lhe pertencesse.
“Não é um mendigo,” disse ela.
“Não,” concordou ele.
Ela inclinou a cabeça. “Então por que pede?”
“Porque você dá,” disse ele simplesmente.
Isso valeu-lhe uma risada contida.
“E se eu não desse?” perguntou ela.
“Então ainda teria tido o prazer de a parar,” disse ele. “O que parece uma compensação justa.”
Ela considerou-o por mais um momento, depois colocou uma moeda na sua mão de qualquer maneira.
“Pronto,” disse ela. “Pela sua honestidade.”
Os seus dedos roçaram-se.
O seu pulso acelerou dolorosamente.
“Obrigado,” disse ele, e significava muito mais do que a moeda. “Posso saber o seu nome?”
Ela hesitou, apenas por uma fração de segundo.
“Rose,” disse ela.
O nome atingiu-o como uma promessa e uma maldição ao mesmo tempo.
“Rose,” repetiu ele. “Espero que nos voltemos a encontrar.”
Ela abanou a cabeça levemente, já a virar-se. “Não vamos.”
“Se nos encontrarmos,” disse ele rapidamente, “terá de casar comigo.”
Ela riu-se, distraída, já a olhar de volta para as montras. “Então esperemos que o destino seja mais gentil consigo do que isso.”
Ela seguiu caminho.
Ele viu-a partir, com o coração a arder, o sangue quente, já sabendo uma coisa com uma certeza aterradora: ele iria encontrá-la novamente.
E qualquer que fosse ela, qualquer segredo que caminhasse ao seu lado na sombra, não o impediria.
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O som dos seus passos desvaneceu-se na azáfama da rua.
Ele ainda estava ali quando o barulho voltou — vendedores a gritar, rodas a rolar sobre pedra, um cão a ladrar algures atrás dele. O ar cheirava a suor, especiarias e fumo novamente, como se ela nunca tivesse passado por ali.
“Estás a respirar ou devemos ir buscar um padre?”
Ele não se virou.
Botas arrastaram-se perto. Vozes familiares. Demasiado perto.
“Bem,” acrescentou outro, divertido, “ela foi-se embora. É normalmente quando os homens começam a lembrar-se de como respirar.”
Ele expirou lentamente pelo nariz.
“Ela levou o teu coração, não foi?” disse o primeiro. “Coisa bonita. Nobre também, aposto. Parecia sarilhos embrulhados em veludo.”
“Ela deu moedas a mendigos,” disse o segundo. “Isso é ou estupidez ou linhagem.”
Ele finalmente olhou para eles.
Eles estavam a sorrir, descontraídos e descuidados, homens que o seguiam há tempo suficiente para saber quando falar e quando não, mas não o suficiente para terem medo ainda. Um apoiava-se num poste, a mastigar um pedaço de fruta seca. O outro mexia os ombros, os olhos ainda a seguir a direção para onde ela fora.
“Devemos começar a planear o casamento?” perguntou o primeiro. “Vou precisar de botas novas.”
O maxilar dele contraiu-se.
“Ela não sabe quem eu sou,” disse ele.
“Isso nunca te impediu antes.”
“Agora vai impedir.” Isso deixou-os um pouco mais sóbrios.
Ele olhou de volta para a rua, para a multidão que a engolia por inteiro, para o lugar onde o vermelho e o preto tinham desaparecido.
“Ela é um erro,” disse o segundo levemente. “Vais esquecê-la.”
“Não,” disse ele.
A palavra saiu seca. Certa.
Eles trocaram um olhar.
“Bem,” disse o primeiro, limpando a garganta, “se acabaste de estar aí parado como se tivesses sido esfaqueado, há a questão do tanoeiro perto do cais sul. Deve-te três meses. Diz que pagará quando o rio congelar.”
Um sorriso fraco surgiu na sua boca. Não continha calor.
“Devia resolver isso,” murmurou ele.
“O quê?”
“As minhas dívidas,” disse ele. “Antes que cresçam.”
Eles seguiram-no enquanto ele se afastava, a rua a estreitar à medida que avançavam para sul, o ar a tornar-se mais denso com o cheiro a água do rio e a podridão. As lojas deram lugar a armazéns, a portas fechadas e pedra partida. O barulho diminuiu. As sombras tornaram-se mais longas.
O local do tanoeiro acocorava-se perto do cais, a humidade a infiltrar-se pelas paredes, o cheiro a madeira molhada e cerveja antiga pesado no ar. A luz brilhava fracamente através de uma janela rachada.
Eles não bateram à porta.
Lá dentro, o homem olhou para cima demasiado tarde.
“Por favor,” começou ele, recuando aos tropeções, com as mãos escorregadias de algo que poderia ter sido óleo. “Eu disse aos teus homens, terei o dinheiro em breve, juro—”
Ele fechou a porta atrás de si.
Lentamente.
O quarto cheirava a medo agora. Intenso. Humano.
“Não duvido que o tenhas,” disse ele, com a voz calma, quase gentil. “Duvido é que o tenhas para mim.”
Os olhos do tanoeiro dispararam para os homens atrás dele.
“Levem-no para fora,” disse ele baixinho.
Eles levaram.
O que se seguiu não foi ruidoso.
Sem gritos. Sem espetáculo.
Apenas o som de algo pesado a atingir madeira, um suspiro sufocado, um gemido interrompido. Quando a porta se abriu novamente, o tanoeiro estava encolhido no chão, vivo, a tremer, agarrado ao braço como se já não lhe pertencesse.
Ele limpou as mãos num pano e voltou para a rua. O rio fedia a lama e decadência. Algures acima, os sinos tocaram a hora.
O seu sangue ainda ardia, mas agora tinha uma direção.
“Ela voltará,” disse um dos homens com cuidado, observando-o.
Ele olhou novamente para a cidade, para onde a luz se adensava e o mundo se tornava perigoso.
“Sim,” disse ele. “E quando ela voltar, não a encontrarei assim.”
O seu olhar endureceu. “Preciso de estar pronto.”









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