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O Que os Cães Se Lembram

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Resumo

Cillian Rourke enterrou o amor de sua vida há três anos. Então, seus cães o encontraram. Vivo. Em uma arena de luta clandestina.

Status
Completo
Capítulos
59
Classificação
5.0 2 avaliações
Classificação Etária
18+

O Nome que Ele Não Disse

O homem na cadeira falava há onze minutos.

Cillian sabia disso porque ele estava contando. Onze minutos de desculpas ditas com uma voz que rachava nas bordas como gesso molhado — a remessa atrasou, o motorista foi pego, o produto ficou parado em um contêiner no Porto da Filadélfia por seis dias porque alguém, em algum lugar, fez uma cagada, e não foi ele, Sr. Rourke, juro por Deus que não foi ele.

Cillian sentou-se do outro lado da mesa em uma cadeira que era exatamente igual à do outro homem. Mesma altura. Mesma estrutura de carvalho. Mesmo assento de couro. Ele tinha escolhido as cadeiras de propósito anos atrás, porque havia algo instrutivo em fazer um homem acreditar que estava em igualdade de condições antes que o chão desaparecesse sob seus pés.

Ele deixou o homem falar.

Conor estava perto da porta com os braços cruzados, a mandíbula mascando um chiclete. Ele tinha a postura de alguém assistindo a um documentário sobre a natureza — interesse clínico, intenção zero de intervir.

“— e eu tenho os recibos, os formulários alfandegários, tudo. Posso te mostrar o rastro de papel. Leva direto para os rapazes do Devlin em Jersey. Eles ficaram em cima do...”

“Tommy.”

Uma palavra. Silenciosa. A sala se fechou ao redor dela.

Tommy Gallagher parou de falar. Sua boca permaneceu aberta por meio segundo, como um peixe tirado da água, antes de se fechar.

Cillian inclinou-se para frente. Cotovelos nos joelhos. Suas mangas estavam arregaçadas até o antebraço, e a luz do teto pegou a borda da cicatriz que atravessava sua sobrancelha esquerda. Suas mãos pendiam relaxadas entre os joelhos — paciente. O anel de prata em sua mão direita refletiu um brilho fosco.

“Sabe o que eu acho uma piada em tudo isso?”, disse ele. Sua voz era como Dublin arrastada no cascalho, cada vogal achatada, cada consoante cortada bruscamente. “Onze minutos. Estou sentado aqui há onze minutos e você não disse a palavra desculpe nenhuma vez.”

A garganta de Tommy deu um nó. “Eu... Sr. Rourke, eu...”

“Eu sou muito bom com desculpas, Tommy. De verdade. Todo mundo tem uma. Elas são como cus: abundantes e, na maioria das vezes, desagradáveis.” Ele inclinou a cabeça. Seus olhos — cinza-pálidos, da cor de gelo velho — mantiveram os de Tommy sem piscar. “Mas veja, aqui está o problema. Seis dias, essa remessa ficou parada. Seis dias é tempo suficiente para a Alfândega ficar curiosa. Tempo suficiente para os Federais pedirem um mandado. Tempo suficiente para colocar o meu pessoal — minha família — em uma posição muito desconfortável. E você está me falando de rastros de papel.”

“Eu posso consertar. Eu posso...”

“Você pode, é.” Cillian levantou-se. O movimento foi sem pressa, quase preguiçoso, e essa era a pior parte. A ausência de urgência. Ele abotoou um único botão de seu paletó cinza-chumbo com a mão esquerda — automático, memória muscular, o gesto de um homem criado para se vestir como uma armadura. “Conor.”

“Chefe.”

“O Tommy aqui vai te dar todos os nomes envolvidos no atraso dessa remessa. Cada um deles. Motoristas, trabalhadores do cais, o bando do Devlin, o sujeito que varre o chão daquele armazém em Jersey, caso ele tenha olhado para o nosso contêiner de lado.” Ele fez uma pausa. Olhou de volta para Tommy. “E Tommy. Se eu descobrir que você está nessa lista — se eu descobrir que qualquer parte desse atraso remete à sua negligência — terei uma conversa muito diferente com você. E serei consideravelmente menos paciente.” Ele sorriu. Foi breve, mecânico, e não chegou nem perto de seus olhos. “Estamos entendidos?”

Tommy assentiu com tanta força que seu corpo todo balançou.

“Ótimo. Pode ir.”

Tommy Gallagher saiu daquela sala a uma velocidade que quase virou uma corrida. A porta se fechou atrás dele. Conor cuspiu seu chiclete em um papel e colocou no bolso.

“Ele está na lista”, disse Conor.

“Claro que está.”

“Quer que eu...”

“Dê a ele uma semana. Deixe-o se enforcar com a própria corda.” Cillian ajeitou os punhos. A tatuagem na parte interna de seu antebraço esquerdo — grá, escrita com a caligrafia de uma mulher — desapareceu sob o tecido. “Quero saber o que o Devlin está tramando antes de agirmos. Se o Tommy é estúpido, é uma coisa. Se o Devlin está nos testando, é outra.”

“E se forem as duas coisas?”

“Então cuidamos das duas.”

Conor o estudou por um momento. “Está indo para casa?”

“Estou, sim.”

“Certo.” Uma pausa. Conor era um homem grande, de traços rudes, com o tipo de rosto que absorveu muitos impactos ao longo dos anos e manteve sua forma essencial. Ele tinha o talento raro de conseguir não dizer absolutamente nada e fazer soar como uma frase completa. “Precisa de alguma coisa?”

A pergunta caiu com o peso cuidadoso de algo ensaiado. Conor perguntava isso todas as noites por volta desse horário, exatamente nesse tom, com essa mesma expressão de casualidade estudada. Significava: Daqui a três dias é o aniversário. Você vai reconhecer isso, ou vou te assistir segurando as pontas como nos últimos dois anos?

“Estou bem”, disse Cillian.

Ele estava sempre bem.

A cobertura ocupava o último andar de um edifício anterior à guerra na Rittenhouse Square. O elevador abria diretamente no saguão — piso de mármore, iluminação baixa, o tipo de silêncio que custa caro.

Duas formas se materializaram da escuridão antes que as portas terminassem de abrir.

Boru chegou primeiro. Ele sempre chegava. O Wolfhound irlandês tinha quase um metro de altura na cernelha, um monumento de pelos cinzas e intenção gentil, e ele pressionou seu crânio maciço contra o quadril de Cillian com a força de um veículo pequeno. Seu rabo balançava em um arco lento e constante. Atrás dele, Nyx esperava — preta, compacta, orelhas voltadas para a frente, olhos âmbar rastreando as mãos de Cillian até que ela se convencesse de que ele estava inteiro. Então, ela pressionou seu flanco contra a perna dele, um único gesto controlado de contato, e essa era a versão dela da mesma saudação.

“Tudo bem, tudo bem.” Cillian soltou uma mão para cada um deles. Os pelos ásperos de Boru. A pelagem lisa de Nyx. As duas texturas tinham se tornado o começo e o fim do seu dia — a primeira coisa que ele tocava de manhã, a última à noite. “Venham aqui. Eu sei. Estou atrasado.”

Ele os alimentou na cozinha. Duas tigelas de aço, preenchidas com a precisão de quem mede tudo porque o controle era a única droga que lhe restava. Boru inalou sua comida com o entusiasmo de um animal que nunca conheceu um dia difícil. Nyx comeu metodicamente, parando uma vez para olhar para Cillian, avaliando.

Ele se encostou no balcão e observou os dois comerem.

A cozinha era toda de nogueira escura e granito preto. Linda. Estéril. Um showroom com uma cafeteira. O único sinal de habitação era uma única caneca no escorredor — a de Cillian, lavada à mão todas as manhãs porque a máquina de lavar louça parecia obscena para uma única xícara.

Uma xícara. Sempre uma.

Ele abriu a geladeira. Encarou seu conteúdo com a atenção vazia de um homem que sabia que deveria comer, mas tinha esquecido como ter vontade. Fechou-a. Serviu dois dedos de Redbreast da garrafa sobre o balcão, bebeu de pé e colocou o copo na pia, ao lado da caneca.

O apartamento se estendia atrás dele. Três quartos. Um escritório. Uma sala de estar com janelas do chão ao teto que davam para a praça, onde as árvores estavam começando a mudar, outubro se instalando na cidade como um hematoma. Tudo estava limpo. Tudo estava no lugar. O ar cheirava a cedro e silêncio.

No quarto, a cama era king-size. Cillian dormia do lado esquerdo. Boru ficava com o lado direito e a maior parte do meio, uma bolsa de água quente de setenta quilos que se contorcia no sono e ocasionalmente rosnava para coelhos imaginários. Nyx dormia aos pés, enrolada em uma meia-lua preta, com uma orelha sempre atenta à porta.

Havia um closet. Um closet grande, porque o prédio exigia esse tipo de excesso. O lado de Cillian era organizado com uma disciplina que beirava a compulsão — ternos por cor, camisas por peso de tecido, sapatos em uma linha tão reta que poderia ter sido traçada com uma régua.

O outro lado estava vazio. Cabides vazios. Prateleiras vazias. Um vácuo de espaço onde a vida de alguém costumava ficar pendurada.

Bem no fundo, atrás de uma fileira de sobretudos, havia uma bolsa. Plástico transparente, selado a vácuo, do tipo usado para preservação de arquivos. Dentro dela: uma jaqueta de couro. Marrom. Gasta. A gola ainda guardava o formato de um pescoço.

Cillian a tinha selado três anos atrás. Duas semanas após o funeral. Ele tinha voltado para casa do enterro de um caixão vazio, limpou o apartamento de fotografias, empacotou três caixas de pertences que ele não conseguia doar e selou aquela jaqueta em plástico porque Conor tinha mencionado — casualmente, do jeito que Conor mencionava coisas que importavam imensamente — que o perfume era a primeira coisa a desaparecer.

Ele não tinha aberto a bolsa desde então.

Ele estava na entrada do closet agora, o uísque queimando em seu peito, e olhou para ela como olhava todas as noites. Um olhar breve e controlado. Conferência de inventário. Ainda lá. Ainda selada. Ainda mantendo sua forma.

Ainda.

Ele se virou. Desabotoou sua camisa. Pendurou-a em seu cabide designado. A rotina era meticulosa: jaqueta, gravata, camisa, calças, tudo em ordem, tudo no lugar. Ele vestiu uma camiseta preta que estava macia de tanto lavar e velha o suficiente para não ter memórias ligadas a ela. Parou diante do espelho do banheiro.

O rosto que o encarava era de ângulos agudos, cortado de algo mais duro que carne. Cabelo preto jogado para trás de uma testa alta. Olhos claros que não devolviam nada. Uma mandíbula que poderia ter sido esculpida em concreto. Ele parecia seu pai, o que era útil para os negócios e miserável para todo o resto.

Havia covas sob suas maçãs do rosto que tinham se aprofundado nos últimos três anos. Uma leve marca de exaustão abaixo dos olhos que o corretivo disfarçava para reuniões, mas que nada resolvia nas horas entre as duas e quatro da manhã, quando o apartamento parecia uma respiração contida, os cães se aproximavam mais e a cidade lá fora se movia sem ele.

Ele jogou água no rosto. Secou-o. Foi até a janela.

A Filadélfia à noite era uma grade de luzes antigas. A praça abaixo estava silenciosa — corredores, passeadores de cães, o ocasional par de estudantes cortando caminho para algum lugar que importava para eles. O rio Schuylkill estava lá fora em algum lugar, uma veia escura através do corpo da cidade. Ele conseguia ver a linha das árvores da trilha do rio onde corria todas as manhãs às cinco, os cães trotando ao seu lado no escuro, as passadas de Boru enormes e pesadas, as de Nyx curtas e precisas.

Ele pressionou a testa contra o vidro. Estava frio. Um frio de outubro, o tipo que prometia algo pior.

Três dias. Em três dias, seriam três anos desde o funeral. Desde que ele esteve na St. Patrick's vestindo um terno preto e fez um elogio fúnebre para um homem cujo corpo nunca foi encontrado, e os bancos estavam cheios de pessoas que o temiam ou o lamentavam, e ele teve vontade de queimar cada uma delas por olharem para ele como se ele fosse algo quebrado.

Ele era algo quebrado.

Ele apenas escondia as linhas de fratura melhor do que a maioria.

Boru se aproximou e se encostou em sua perna. Quase setenta quilos de calor e pressão, ancorando-o da mesma forma que o lastro estabilizava um navio. A mão de Cillian encontrou a cabeça do cão. Coçou atrás da orelha onde o pelo era mais macio.

“Bom garoto”, murmurou ele. “Você é um bom garoto.”

Em três dias, seriam três anos.

Ele iria para o escritório. Ele comandaria a família. Ele comeria quando Conor o lembrasse e dormiria quando seu corpo forçasse a situação, e ele manteria a máquina da organização Rourke girando com o tipo de eficiência brutal que triplicou o território e dobrou a receita desde que ele assumiu as rédeas, porque se ele parasse — se ele deixasse as engrenagens pararem por uma única hora — o silêncio se encheria com uma voz que ele não podia mais se dar ao luxo de ouvir.

Havia um nome que ele não dizia em voz alta há três anos. Um nome que ficava atrás de seus dentes como uma pedra, lisa de tanto ser rolada. Ele sentia seu peso todos os dias. Pressionava o céu da sua boca quando ele acordava. Acomodava-se no fundo de sua garganta quando ele engolia. Vivia no espaço entre um batimento cardíaco e o próximo, e ele o mantinha lá — enjaulado, guardado, não dito — porque dizê-lo tornaria real.

Real significava pretérito.

Pretérito significava foi embora.

Ele se afastou da janela. Os cães o seguiram para a cama. Boru reivindicou seu território com a sem-vergonhice de um animal que nunca questionou seu direito ao conforto. Nyx girou duas vezes e se acomodou aos pés, com o focinho voltado para a porta.

Cillian deitou-se na escuridão, encarou o teto e não pensou em nada, cuidadosa e deliberadamente, com o foco de um homem desarmando uma bomba.

Seu telefone vibrou na mesa de cabeceira. Uma mensagem de Conor.

O grupo Solomon vai fazer uma noite de lutas quinta-feira. Kensington. O convite é mais para uma convocação. Achei que deveria saber.

Cillian encarou a tela. A luz fez seus olhos doerem.

Quinta-feira. Daqui a três dias.

O aniversário.

Ele digitou de volta: Eu irei.

Então, virou o telefone com a tela para baixo, pressionou a mão contra as costelas de Boru para sentir o fole maciço da respiração do cão e fechou os olhos.

No closet, a jaqueta de couro mantinha sua forma na escuridão. Esperando. Do jeito que tudo neste apartamento esperava — por uma porta se abrir, por uma voz preencher os quartos, pela segunda xícara aparecer no balcão.

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