MELODIA DO CORAÇÃO

Resumo

Jimin acreditava ter sua vida sob controle: um namorado estável, um melhor amigo inseparável e um futuro aparentemente perfeito. Até que, numa noite chuvosa, descobre que as duas pessoas em quem mais confiava o traíam há meses. Com o coração partido e sem ter para onde ir, ele acaba morando em frente ao único garoto capaz de desarmá-lo com um violão e um olhar intenso demais: Jungkook. Entre canções compartilhadas no meio da noite, silêncios que dizem muito e sentimentos impossíveis de ignorar, Jimin descobrirá que, às vezes, perder tudo é a única forma de encontrar a pessoa certa.

Status
Completo
Capítulos
30
Classificação
5.0 3 avaliações
Classificação Etária
18+

PRÓLOGO

Jimin

Acabei de dar um soco na cara de alguém. E não de qualquer pessoa. Do meu melhor amigo. Do meu colega de apartamento. Bom, acho que, de cinco minutos para cá, ele virou meu ex-colega de apartamento.

O nariz dele começou a sangrar quase na hora e, por um segundo, senti pena de ter batido nele. Mas aí lembrei que ele é um bastardo mentiroso e traidor, e me deu vontade de bater de novo. E eu teria feito isso, se o Jackson não tivesse se metido entre nós.

Então, em vez de bater no Wonho, acabei acertando o Jackson. Infelizmente, não machuquei o Jack. Pelo menos, não tanto quanto machuquei a minha mão.

Dar um soco em alguém dói muito mais do que eu imaginava, embora eu nunca tenha parado para pensar em como é socar outra pessoa. Mas, agora que vi uma mensagem do Jungkook no meu celular, me deu vontade de fazer tudo de novo.

Outro com quem preciso ajustar contas. Sei que, tecnicamente, ele não tem nada a ver com a confusão em que estou metido agora, mas ele poderia ter me avisado antes. Só por isso, também me deu vontade de dar um soco nele.

Jungkook: Você está bem? Quer subir antes que comece a chover mais?

Claro que não quero subir. Minha mão já está doendo o suficiente. Se eu subisse até o apartamento do Jungkook, ia doer ainda mais depois de socar ele também.

Me viro para olhar em direção à varanda dele. Ele está encostado na porta de correr de vidro, me observando com o celular na mão. Já está escurecendo, mas as luzes do pátio iluminam o rosto dele. Ele me encara com seus olhos escuros, e o jeito que ele curva os lábios num sorriso doce e arrependido faz com que seja difícil lembrar por que estou bravo com ele também. Ele passa a mão livre pelo cabelo que cai na testa e sua preocupação fica mais evidente. Ou talvez seja uma expressão de culpa. Como deveria ser.

Decido não responder e, em vez disso, mostro o dedo do meio para ele. Ele balança a cabeça e dá de ombros, como se dissesse “eu tentei”. Depois, entra no apartamento e fecha a porta de correr.

Guardo o celular no bolso antes que ele molhe e dou uma olhada no pátio do condomínio onde vivi nos últimos dois meses. Quando nos mudamos para cá, o verão escaldante de Daegu estava devorando os últimos sinais da primavera, mas este pátio parecia insistir em viver. Os caminhos que levam aos blocos e à fonte no centro eram cercados por hortênsias em tons vibrantes de azul e violeta.

Agora que o verão chegou ao seu ponto mais insuportável, a água da fonte evaporou. As hortênsias não passam de uma lembrança triste e murcha da alegria que senti quando Wonho e eu nos instalamos aqui. Olhar para o pátio, derrotado pelo verão, parece um reflexo perturbador de como me sinto agora: derrotado e triste.

Estou sentado na borda da fonte de cimento, agora vazia, com os cotovelos apoiados nas duas malas que contêm a maior parte das minhas coisas, esperando o táxi que deve vir me buscar. Não tenho ideia de para onde vou, mas sei que qualquer lugar é melhor do que este. Em outras palavras, virei um sem-teto.

Poderia ligar para os meus pais, mas isso seria dar a eles a munição que precisam para começar a me bombardear com o papo de “nós avisamos”.

“Nós avisamos para você não ir morar tão longe, Jimin.”

“Nós avisamos para não se entusiasmar tanto com esse garoto.”

“Nós avisamos que, se você escolhesse Direito em vez de Música, nós pagaríamos seus estudos.”

“Nós avisamos para você bater com o polegar para fora do punho.”

Bom, talvez eles nunca tenham me ensinado a técnica correta de soco, mas se eles têm tanta razão sempre, deveriam ter ensinado, porra.

Fecho o punho, estico os dedos e fecho de novo. Minha mão dói muito e não tenho dúvidas de que preciso de gelo. Tenho pena de gente violenta. Socar é horrível, e acho que vou seguir a linha do pacifismo a partir de agora.

E tem outra coisa que também é horrível: a chuva. Ela sempre escolhe o momento mais inoportuno para cair, como agora, quando acabei de me tornar um sem-teto.

O táxi finalmente chega e me levanto para pegar as malas. Levanto-as enquanto o motorista desce do carro e abre o porta-malas. Antes mesmo de entregar a primeira mala, meu coração afunda ao lembrar que nem estou com a minha mochila.

Merda.

Olho ao redor, para onde eu estava sentado com as malas, e depois tateio o corpo, como se a mochila fosse aparecer magicamente no meu ombro. Sei exatamente onde ela está. Tirei-a das costas e joguei no chão bem antes de tentar socar a cara perfeita do Wonho.

Suspiro.

E depois começo a rir. Claro que deixei a mochila para trás. Se estivesse comigo, meu primeiro dia como sem-teto seria fácil demais.

—Desculpe —digo ao motorista, que está colocando a segunda mala no carro—. Mudei de ideia. Já não preciso do táxi.

Sei que tem um hotel a menos de um quilômetro daqui. Se eu tiver coragem de voltar lá e pegar minha mochila, vou a pé até lá e fico num quarto até decidir o que fazer. De qualquer jeito, já estou encharcado.

O motorista tira as malas de volta, deixa na calçada bem na minha frente e volta para o banco do motorista sem nem olhar para mim. Ele entra no carro e vai embora, como se a minha desistência fosse um alívio.

Será que pareço tão patético assim?

Pego as malas e volto para o mesmo lugar onde estava sentado antes de perceber que também sou um sem-mochila.

Olho para cima, para o meu apartamento, e me pergunto o que aconteceria se eu subisse para pegar minhas coisas. A verdade é que fiz um espetáculo antes de sair, então prefiro ser um sem-teto na chuva a voltar lá em cima.

Sento-me na mala e analiso a situação. Poderia pagar alguém para ir lá buscar,

mas... quem? Não tem ninguém por aqui e, além disso, como vou saber se o Jackson ou o Wonho entregariam minha mochila para um desconhecido?

Isso é uma merda. Sei que, no fim, não vai ter outro jeito a não ser ligar para algum amigo, mas agora estou morrendo de vergonha de contar para qualquer um o quão ingênuo fui nos últimos dois anos. Vivi completamente enganado.

Já odeio ter vinte e dois anos, e olha que ainda faltam 364 dias. É tudo tão nojento e patético que estou... chorando?

Legal. Agora estou chorando. Sou um sem-teto e um iludido, sem dinheiro, chorão, dramático e violento. E, embora eu deteste admitir, também estou com o coração partido. Dá para ser mais estereótipo de gay que isso?

Droga, estou soluçando. Imagino que seja essa a sensação de ter o coração partido.

—Está chovendo. Anda logo.

Olho para cima e vejo um cara bem acima de mim. Ele se protege com um guarda-chuva e me olha com inquietação enquanto pula de um pé para o outro, como se esperasse que eu fizesse alguma coisa.

—Estou me molhando. Anda logo.

O tom dele é meio autoritário, como se estivesse me fazendo um favor e eu estivesse sendo ingrato. Arqueio a sobrancelha ao olhá-lo e protejo meus olhos da chuva com a mão.

Não sei por que ele reclama que está se molhando, ele está debaixo do guarda-chuva mesmo.

Este dia não poderia terminar pior... Estou sentado em cima de quase todas as minhas coisas, sob uma chuva torrencial, enquanto um cara com cara de poucos amigos manda em mim.

Ainda estou hipnotizado olhando para seu rosto perfeito e irritado, quando ele pega na minha mão e me levanta num puxão.

—O Jungkook já tinha me dito que você agiria assim. Tenho que ir trabalhar. Me segue que vou te mostrar onde fica o apartamento.

Ele pega uma das minhas malas, puxa a alça e empurra na minha direção. Depois, se apropria da outra e atravessa o pátio a passos decididos. Sigo-o, nem que seja porque ele levou uma das minhas malas e quero que a devolva.

Quando ele começa a subir a escada, vira-se para gritar por cima do ombro:

—Não sei quanto tempo pretende ficar, mas só tenho uma regra: nem pense em entrar no meu quarto.

Ele chega a um apartamento e abre a porta sem nem se dar ao trabalho de ver se eu o segui. Quando chego ao final da escada, paro logo à frente e observo a samambaia que, alheia ao calor, cresce num vaso ao lado da porta. Ela tem folhas verdes e exuberantes, como se aquela negativa em sucumbir ao calor fosse uma forma de mandar o verão se foder. Sorrio para a planta e sinto orgulho dela. Depois, franzo a testa ao perceber que invejo a capacidade de resistência de uma samambaia.

Balanço a cabeça, desvio o olhar e, caminhando de forma hesitante, entro no apartamento desconhecido. O layout é parecido com o meu, só que este tem quatro quartos no total, dois deles comunicantes. O apartamento que o Wonho e eu dividíamos tem dois quartos, mas a sala tem o mesmo tamanho.

A outra diferença notável é que por aqui não vejo nenhum bastardo traidor e mentiroso com o nariz sangrando. Nem vejo a louça suja do Wonho ou as roupas dele jogadas por aí.

O garoto deixa minha mala perto da porta, depois se afasta e espera que eu... Bom, na verdade, não sei o que ele espera que eu faça.

Com um gesto de impaciência, ele agarra meu braço e me obriga a passar pela porta e entrar no apartamento.

—Que porra aconteceu com você? Sabe falar? —ele dispara.

Ele começa a fechar a porta, mas de repente para e se vira para mim com os olhos arregalados. Ele levanta um dedo.

—Espera —ele diz—. Você não é...? —Ele faz outro gesto de impaciência e bate na própria testa—. Oh, meu Deus, você é surdo.

Oi? O que há com esse cara? Faço um gesto de negação com a cabeça e me preparo para responder, mas ele me interrompe.

—Parabéns, Hobi —ele resmunga. Passa as mãos pelo rosto e lamenta, ignorando completamente o fato de que estou dizendo que não com a cabeça—. Às vezes, você é um bastardo insensível.

Caramba. Esse garoto tem um problema grave de habilidades sociais. Ele é uma espécie de bastardo, sim, embora se esforce para não ser. Agora ele acha que sou surdo. Nem sei o que dizer. Ele balança a cabeça, como se estivesse decepcionado consigo mesmo, e depois me encara.

—EU TENHO... QUE IR... TRABALHAR... AGORA! —ele grita bem alto e com uma lentidão exasperante.

Eu me encolho e dou um passo para trás, o que deveria dar a ele uma pista de que ouvi muito bem seus gritos, mas ele não se toca. Ele aponta para a porta no fundo do corredor.

—O JUNGKOOK ESTÁ... NO... QUARTO... DELE!

Antes que eu tenha tempo de dizer para ele parar de gritar, ele sai do apartamento e bate a porta atrás de si.

Não sei o que pensar. Nem o que fazer. Estou encharcado no meio de um apartamento estranho e a única pessoa que tenho vontade de socar —além do Jackson e do Wonho, claro— está a poucos passos de mim, em outro quarto.

E falando no Jungkook, por que caralhos ele mandou aquele psicopata do namorado dele me buscar? Pego o telefone e já estou enviando uma mensagem quando a porta do quarto dele se abre.

Ele sai para o corredor carregado com alguns cobertores e um travesseiro. Assim que ele faz contato visual comigo, prendo a respiração. Espero que não tenha sido óbvio demais, mas é que até agora nunca o tinha visto de perto... e a poucos metros de distância ele é ainda mais bonito do que do outro lado do pátio.

Acho que nunca tinha visto olhos capazes de falar. Não sei muito bem o que quero dizer com isso, mas é como se bastasse ele me dar o mais discreto dos olhares para que eu soubesse exatamente o que ele quer que eu faça. Ele tem um olhar intenso e penetrante e... Oh, meu Deus, faz um tempo que estou olhando para ele.

Ao passar por mim para ir em direção ao sofá, ele curva o canto dos lábios num sorriso de cumplicidade.

Apesar desse rosto tão bonito e da expressão meio ingênua, sinto vontade de socá-lo por ser tão falso. Ele não deveria ter esperado mais de duas semanas para me contar. Gostaria de ter tido a oportunidade de planejar tudo um pouco melhor. Não entendo como podemos ter passado duas semanas conversando sem que ele sentisse, em nenhum momento, a necessidade de me contar que meu namorado e meu melhor amigo estavam transando.

Jungkook joga os cobertores e o travesseiro no sofá.

—Eu não vou ficar aqui, Jungkook —digo, na intenção de fazê-lo parar de perder tempo sendo hospitaleiro.

Sei que ele tem pena de mim, mas mal nos conhecemos e eu me sentiria muito mais confortável num quarto de hotel do que dormindo no sofá de um estranho.

Mas, para ir a um hotel, preciso de dinheiro.

Coisa que não estou carregando neste exato momento.

Coisa que está dentro da minha mochila, do outro lado do pátio, num apartamento onde, agora mesmo, se encontram as duas únicas pessoas do mundo que eu não quero ver.

Talvez o sofá não seja uma ideia tão ruim, afinal de contas.

Jungkook termina de arrumar o sofá, vira-se para mim e depois abaixa o olhar para minhas roupas molhadas. Contemplo a poça de água que estou deixando no meio da sala.

—Oh, desculpe —murmuro.

Meu cabelo está colado no rosto e a camiseta que uso é uma barreira bem precária —além de bem transparente— entre o mundo exterior e meu peito.

—Onde fica o banheiro?

Ele aponta para a porta do banheiro com um movimento de cabeça.

Viro-me, abro uma mala e começo a procurar o que preciso enquanto o Jungkook volta para o seu quarto. Fico feliz que ele não tenha feito perguntas sobre o que aconteceu depois da nossa conversa de mais cedo. Não estou com vontade de falar sobre isso.

Pego um agasalho, uma camiseta e meu nécessaire, e vou em direção ao banheiro. Me incomoda que tudo neste apartamento me lembre o meu, com exceção de algumas diferenças sutis. É o mesmo banheiro, com as mesmas portas à direita e à esquerda que levam aos dois quartos adjacentes. Uma delas é a do Jungkook, obviamente. Sinto curiosidade em saber quem dorme no outro quarto, mas não o suficiente para abrir a porta. A única regra do cara psicopata é que nem pense em entrar no quarto dele, e ele não parece ser do tipo que gosta de brincadeiras.

Fecho a porta que dá para a sala e tranco. Depois, verifico as trancas das portas que dão para os dois quartos para garantir que ninguém entre. Não sei se mora mais alguém neste apartamento além do Jungkook e do cara psicopata, mas prefiro não correr riscos.

Tiro as roupas molhadas e deixo na pia para não molhar o chão. Abro a torneira do chuveiro e espero até que a água comece a sair quente para entrar. Fico debaixo do jato e fecho os olhos, grato por não estar mais sentado na rua, debaixo de chuva. Mas, ao mesmo tempo, também não estou muito feliz por estar onde estou.

Nunca imaginei que meu vigésimo segundo aniversário terminaria num banho em um apartamento desconhecido, dormindo no sofá de um cara que conheço há apenas duas semanas, e tudo por obra e graça das duas pessoas que eu mais amava e em quem mais confiava neste mundo.