Episódio 1: Pesadelo na Entrega de Pizza
O pior pesadelo de uma entregadora de pizza? Chegar ao endereço de uma entrega e dar de cara com o namorado abrindo a porta usando apenas uma toalha, enquanto a mulher que está com ele grita: "Amor, por que está demorando tanto?"
Imagine só: um pesadelo que não acaba quando você entrega a pizza de calabresa e diz: "Dá 14,80", enquanto o seu namorado sussurra: "Eu posso explicar".
A situação se arrastou tanto que a mulher que estava com ele jogou uma nota de vinte na sua mão, passou o braço em volta dele e reclamou: "Amoooor, anda logo".
Só que a loira de pernas longas não era nenhuma garotinha. Ela estava cobrindo os seios com a camiseta que você tinha dado a ele de aniversário. É, não era uma menina, era uma mulher pelo menos vinte anos mais velha que vocês dois.
Claro que o pesadelo continuou; por que terminaria só porque eles bateram a porta na sua cara? Você se virou lentamente, com a nota de vinte amassada apertada contra o peito. O mesmo peito onde seu coração disparava, porque, ao se virar, você percebeu que, do outro lado da rua, sua pior inimiga da porra tinha visto tudo.
Shiloh desejava que alguém a tivesse acordado desse pesadelo na vida real, mas não, ninguém acordou, e do outro lado da rua *ele* tinha testemunhado tudo. Parado ali estava Pierce, o filho da puta do Dickson.
Ela nem sabia que ele morava fora do campus.
Tendo visualizado o dilema de Shiloh com clareza, você entende por que a entregadora de pizza cambaleou de volta para seu carro de trabalho — você sabe, aquele obviamente coberto com desenhos de pizza e uma placa neon amarela escrito "Hot Box" no teto. Ela entrou no carro e bateu a cabeça várias vezes contra o volante, gritando: "Acorda!"
"Acorda, Shiloh!" "Garota, o que deu em você? Você não dormiu nada essa noite?" Ciara perguntou à amiga. Esfregando os olhos e se espreguiçando, Shiloh Simmons respondeu: "Nem um minuto". Ela fechou os olhos novamente.
Ciara bateu os livros na mesa, forçando Shiloh a levantar a cabeça com um gemido: "A hora da soneca acabou. Você nem deveria estar tirando soneca!"
Isso lhe rendeu vários "shiiius" de outros estudantes na biblioteca da universidade. Shiloh levantou a cabeça de vez, tentando, sem sucesso, alisar a página que ela tinha amassado enquanto dormia. Ela tinha certeza de que marcas do livro ficaram marcadas em suas bochechas.
A loira colocou as mechas do seu corte chanel atrás da orelha enquanto se sentava. Ela estreitou seus olhos azul-gelo para quem a mandou calar a boca e disse, sem sussurrar: "Não me diga que você está deixando aquele babaca tirar o seu sono. Faz uma semana, é óbvio que ele ainda está tentando".
Ciara esticou suas pernas longas embaixo da mesa.
Shiloh revirou os olhos. Ela não poderia se importar menos com as tentativas do ex de reatar. "Por favor, eu bloqueei ele. Preciso te lembrar que ele não tem o direito de tentar nada? Foi ele quem me mandou mensagem dizendo que não estava 'dando certo'". Noah Henning tinha sido seu namorado por quase dois anos. Shiloh não ia ficar remoendo o tempo que passaram juntos, já que ele provavelmente passou a maior parte desse tempo enfiando o pau em mulheres que poderiam ser mãe deles. Shiloh olhou em volta da biblioteca e, ao ver o relógio na parede acima das portas, percebeu que eram 9 horas. Ela tinha ido para a biblioteca depois do seu turno e de um banho rápido; estava lá desde as 3 da manhã. Ela não sabia quando tinha pegado no sono, mas o progresso que pretendia fazer nos estudos não passou de um arranhão leve. "Eu peguei mais turnos. Ninguém quer trabalhar à noite e você sabe..."
Shiloh não precisou terminar a frase, porque Ciara completou por ela: "É, eu sei". Sua amiga de quase dois anos suspirou: "Você precisa do dinheiro. Ugh! Entre o Noah e o seu pai, não sei qual desses homens irritantes eu quero chutar a bunda primeiro".
Diante das opções A e B, Shiloh escolheu a opção C: o cara que guardava o segredo de um dos momentos mais constrangedores — se não o mais — de toda a sua vida. O tal cara atravessou as portas duplas. Shiloh o seguiu com o olhar enquanto ele entrava cercado, como sempre. Agindo como se não ligasse para a multidão, mas ele era constantemente seguido.
Os olhos dele encontraram os dela. Ele deu um sorriso de canto e fez um movimento elegante de quem toma chá, posicionando os dedos como se segurasse uma xícara. Shiloh estreitou os olhos e sibilou: "Você poderia começar pelo Pierce Dickson".
"Hã?" Ciara inclinou a cabeça para seguir a linha de visão de Shiloh. "Ah. Eu ainda não entendo por que você odeia ele. Nunca vi vocês dois conversando".
É, pensou Shiloh. Isso era porque, quando ela conheceu Pierce, foi no seu primeiro dia na Universidade de Maryland. Ela não conhecia a Ciara naquela época. Não conhecia ninguém, mas, oficialmente, no segundo dia, ela já odiava alguém com todas as fibras do seu ser. E, nos últimos dois anos, esse ódio cresceu, floresceu até, tornando-se uma emoção saudável e bem nutrida. Shiloh dava atenção a ele, cuidava dele como a um recém-nascido.
Com um metro e noventa de altura, Pierce era pura massa muscular, cabelos loiros compridos, sorrisos de canto, moletons e jaquetas de couro. Ele era a própria imagem do bad boy. Se fosse nos anos 90, ele seria o cara de quem todo pai dizia para a filha ficar longe. Ridículo. Shiloh poderia ficar falando sobre o quão ridículo tudo aquilo era. Todos deveriam odiar aquele babaca arrogante. Em vez disso, todos estavam encantados com a vibe dele de "sou um ambivertido incompreendido". Shiloh não estava encantada. Ela estava furiosa, e tinha bons motivos para isso.
Vamos montar o cenário: o céu estava azul, nem uma nuvem à vista. O campus brilhava sob os raios do sol e tudo estava vibrando e apressado, inclusive o sangue de Shiloh. Era isso. Embora sua mãe, Lo-Ann, estivesse tremendo há quase um mês, elas tinham vindo na picape velha da tia dela, porque aquela era a saída de Shiloh. Sua única saída.
A dupla de mulheres de um metro e cinquenta e sete começou a desempacotar quase imediatamente e estavam indo bem. Tudo bem, elas estavam se esforçando. Então, quando as caixas pesadas de livros foram tiradas das mãos dela e de sua mãe, Shiloh ficou grata.
O gigante de um homem sorriu para elas, exibindo dentes brancos e retos com caninos levemente pontudos. Ele estava envolto pela luz do sol como um anjo. Usava o cabelo em um coque masculino, com as laterais raspadas contrastando com o comprimento no topo, um piercing preto na orelha e seu perfume a deixou dopada. Ele se apresentou como Pierce Dickson. Disse que cursava negócios e engenharia. Estava no seu segundo ano lá.
Pierce ajudou com cada item. Ele deu a elas um tour pelo campus e pagou pela comida. Ele abraçou a mãe dela de jeito desajeitado antes de ela ir embora. Shiloh se apaixonou pelo homem imediatamente. Ele era gostoso, doce, gentil e tão alto. Do jeito que ela gostava.
A mensagem da mãe foi como um sinal verde para ela.
Ele é um garoto tão doce. Espero que vocês dois se tornem grandes amigos, com um emoji de piscadela.
Certo, ela estava esperançosa. Eles seriam amigos primeiro e depois, talvez, mais do que isso — o tipo de "mais" que envolveria ela perder a virgindade. Ela tinha dezenove para vinte anos e estava imaginando nomes para bebês em vez de dormir.
No dia seguinte, quando Shiloh o viu parado com um grupo de amigos, ela caminhou até lá, ajustando sua bolsa e estufando o peito. "Oi, Pierce". Seu coração estava acelerado. Ela mordeu o lábio e ele olhou para ela como se nunca a tivesse visto antes. Ela achou que ele tinha esquecido seu nome. Aquilo doeu, mas tudo bem, era um nome bem incomum, então ela o lembrou: "É Shiloh. De ontem".
O grupo explodiu em risadas. Alguém deu uma risadinha: "Continuando a esquecer o nome das suas foda, pelo que vejo". Todos deram tapinhas nas costas dele.
Shiloh ficou surpresa: "O quê?" Ela protestou: "Nós não transamos!"
Um dos caras se virou para ela, lambendo os lábios: "Querendo entrar na fila, baixinha? Você pode entrar na fila dele ou pode entrar na minha". A risada na voz dele fez a pele dela se arrepiar. Ela estava prestes a chorar. Aquilo era cruel e Pierce não tinha dito nada. O Pierce doce e gentil tinha sumido. *Desaparecido*. Ele lhe deu um olhar entediado, talvez até indiferente. O cara estendeu a mão para tocá-la. Ela estava chocada demais para dar um passo atrás. A tempo, Pierce segurou a mão do cara e se inclinou, ficando mais perto da altura dela. Ele deu um sorriso cruel: "Cai fora, Xícara".
Shiloh foi embora. É claro que ela foi embora. Ela não poderia ter ficado ali tentando convencer Pierce de que eles se conheciam, especialmente quando estavam rindo dela. *Ele* estava rindo dela.
Desde aquele dia, ela o odiava.
"Shiloh! Sério, você precisa parar de viajar na maionese", resmungou Ciara, "você nem me respondeu".
"Esquece". Shiloh fechou seus livros com um estrondo e levantou: "Eu nunca quero falar sobre isso". Ela juntou suas coisas.
Ciara revirou os olhos: "Ok, tanto faz, mas você ainda vai encontrar a gente na lanchonete, né?"
Shiloh tinha esquecido tudo sobre aquilo. Ela já tinha furado uma vez na semana passada depois dos eventos óbvios. Não podia furar de novo. Então ela forçou um sorriso: "Claro, estarei lá".








