Ch. 1 - Ódio Instantâneo
Capítulo Um – Ódio Instantâneo
Um recomeço. Afinal, era o que ele queria depois de tanto se afundar na autopiedade, e tinha que ser ali, em Sunny Hill, longe de todo o drama. Jonathan suspirou enquanto arrumava seus produtos de higiene de forma organizada na prateleira do banheiro. Estava mais do que grato pela suíte pequena, feita para acomodar ele e outro aluno, algo bem diferente dos quartos duplos e banheiros comunitários que eram a regra.
Não que tivesse morado em um lugar assim antes de chegar ali. Antes, ele era alguém, mas como qualquer "alguém" que precisava pagar pelos erros do passado, descer do salto alto e aceitar dividir espaço com outro ser humano fazia parte do acordo.
Ele franziu a testa ao empurrar o porta-escova para alinhar perfeitamente com o creme de barbear. "Vai se acostumando", disse para o próprio reflexo no espelho.
O momento de se afundar mais na autopiedade foi interrompido pela porta da frente abrindo e fechando. Só podia ser seu colega de quarto, e embora Jonathan preferisse passar por torturas medievais de arrancar unhas a encarar o pesadelo que esse cara devia ser, considerando sua sorte recente, era melhor resolver logo de uma vez.
Saiu do banheiro tentando ao máximo manter uma expressão neutra. Em silêncio, rezou para que o parceiro não fosse algum atleta, mas como esses geralmente dividiam as famosas e barulhentas repúblicas, as chances eram pequenas.
Que alívio. Os olhos de Jonathan caíram sobre um rapaz, ou melhor, sobre uma mochila gigante que praticamente escondia seu dono. Definitivamente não era um atleta. O colega de quarto parecia franzino.
Pigarreou discretamente, o que fez o desconhecido, que provavelmente não tinha ouvido ele se mexendo, virar de repente e perder o equilíbrio. Por um ou dois segundos, seus braços se agitaram de forma cômica. Por sorte, a cama estava bem atrás dele, então caiu em cheio no colchão.
Jonathan correu para ajudar o rapaz desastrado. "Me desculpa, de verdade. Não quis te assustar. Você está bem?"
Estendeu a mão, e o desconhecido a aceitou. Um sorriso enorme iluminou seu rosto. Era nerd, mas de um jeito fofo, Jonathan notou na hora e logo se repreendeu mentalmente por julgar alguém pela aparência. Mesmo assim, não podia negar que o colega não parecia nem um pouco ameaçador. Olhos castanhos brilhantes piscavam para ele por baixo de uma cabeleira de cabelo castanho.
"Tudo certo", respondeu o rapaz. "Acha que pode me ajudar a sair dessa?" Apontou para a mochila enorme.
"Claro." Jonathan se apressou para soltar as fivelas daquela coisa monstruosa e ajudar o colega a se livrar do problema.
Finalmente livre da geringonça, o cara afastou os fios de cabelo que caíam sobre os olhos e estendeu a mão. "Eu sou o Ray."
Jonathan apertou a mão dele de forma rápida. "Prazer, Ray. Eu sou o Jonathan. Jonathan Hamilton."
"Ah, estamos usando nome completo." Ray sorriu para ele. "Ray Franklin."
Jonathan mal conseguiu evitar sorrir de volta. E tinha prometido a si mesmo que seria mais cauteloso com novas amizades. Foi por falta de cuidado que acabou nessa situação, tendo que mudar de escola antes do terceiro ano.
Outra promessa que tinha feito era garantir que não houvesse espaço para mal-entendidos. "Não quero parecer precipitado", começou rápido, para evitar qualquer hesitação por causa da desconfiança geral na humanidade, "mas preciso te avisar uma coisa desde já."
Ray estava vestido com uma camisa listrada e uma calça cáqui, ambas um pouco largas demais para seu corpo. Balançava o peso de um pé para o outro. Parecia inofensivo. "Claro."
Jonathan respirou fundo. "Sou gay. Espero que não seja um problema, mas se for, acho que—"
"Sem problema." Ray o interrompeu na hora e lançou outro sorriso radiante. Inclinou-se na direção de Jonathan e lançou um olhar cúmplice. "Pra te falar a verdade, eu só assumi que era hétero ano passado, então." Deixou as palavras no ar e mexeu as sobrancelhas.
Os lábios de Jonathan se contraíram em diversão. Por mais miserável que estivesse se sentindo minutos antes, parecia que Ray tinha entrado pela porta trazendo os últimos raios de sol do verão.
"Então quer dizer que muita gente simplesmente assume que você é gay?", perguntou.
Ray soltou um suspiro profundo e revirou os olhos. "Você não faz ideia. Dá pra imaginar o que isso faz com meu jogo de paquera. As garotas só me querem como o gay-melhor-amigo-por-enquanto."
"Nem sabia que isso existia."
"Pois é. Acredite, acabei me tornando especialista em tudo que é gay por causa desses mal-entendidos. Até assisti reprises de Queer as Folk com a namorada número três."
"Deve ter sido uma experiência e tanto", Jonathan comentou, sem saber muito bem como oferecer consolo para uma situação daquelas.
Ray sorriu. "É. Na quarta temporada, ela ainda não tinha sacado que eu gostava dela de verdade."
"E o que aconteceu na quinta temporada?"
"Ela achou que tinha me corrompido de alguma forma e confessou que não queria me 'endireitar'. Nesse ponto, quase aceitei e disse que ela era a melhor terapia de conversão que já existiu, pra ela assumir a responsabilidade."
"Mas você não disse."
"Não. Falei a verdade. Ela ficou surpresa. E continuamos amigos. Mais ou menos. Digamos que tive que terminar de assistir a quinta temporada sozinho."
Jonathan sentiu as bochechas doerem de tanto sorrir. O que quer que Ray tivesse, era altamente contagioso. Dois minutos com o cara e já tinha esquecido todas as suas preocupações.
"Bom, Ray, prometo que não vou te torturar com séries gays de quinze anos atrás."
Ray se jogou na cama. "Sem problemas. Eu até gostei. Mas, cara, esse ano preciso dar um jeito no meu jogo de paquera. Acabei de me transferir pra cá, e espero que as garotas vejam em mim algo mais do que um gay—"
"—melhor-amigo-por-enquanto", Jonathan completou a frase. Uma ruga lenta se formou em sua testa. "Então acho que você não vai querer andar muito comigo." Não queria ser tão direto, mas a franqueza era um daqueles defeitos que não conseguia largar nem que o matassem.
"Que nada!", Ray pulou na cama, testando as molas. "Isso é mais um motivo pra gente andar junto, além de você parecer um cara legal, e acho que vamos nos dar bem."
Jonathan não sabia o que dizer. Era difícil lutar contra aquela sensação boa que se espalhava pelo peito. "Eu pareço?", perguntou hesitante. "Um cara legal, digo."
Ray assentiu com entusiasmo. "Com certeza. E você vai ser o wingman perfeito. É assim que a gente vai fazer. As garotas vão querer saber de você porque você é lindo. Elas vão me procurar", apontou para si mesmo, "porque vão achar que eu posso ajudá-las a ficar com você. E aí", fez um círculo convincente no ar com o dedo indicador, "a gente solta a bomba nelas."
"A bomba?", Jonathan perguntou, um pouco confuso.
"É. A gente diz que um de nós é gay e o outro é hétero, e elas têm que adivinhar. Quem perder tem que sair comigo. Bingo!" Deu um soco vitorioso no ar.
"Esse plano é bem elaborado", Jonathan concordou. "Então você está dizendo que eu não pareço gay?" Estava realmente interessado na resposta.
Ray o examinou de cima a baixo, pensativo. "Você tem um senso de moda impecável, no estilo preppy. Mas é só isso que eu diria que é gay em você. E quando digo gay, quero dizer fabuloso. Acho que as pessoas não imaginam que caras altos, de ombros largos e bonitos como você sejam gays. Mas", apontou para si mesmo de novo, "magricela, desengonçado e nerd já é sinônimo de gay no livro delas."
"Acho que você ainda não conheceu gente suficiente", Jonathan ofereceu um pouco de consolo. "Obrigado por me achar bonito. Se serve de consolo, você também não parece gay pra mim. Embora me preocupe um pouco o fato de eu não parecer gay pra você. Prefiro que as pessoas não tirem conclusões erradas."
"Eu não rotulo as pessoas", Ray disse com outro sorriso largo. "Agora que você contou pro seu melhor amigo seu maior segredo, qual é o seu jogo de paquera?"
Melhor amigo? Jonathan não lembrava quando isso tinha sido estabelecido, mas como Ray parecia tão feliz com a ideia, não podia rejeitá-lo de cara. "Acabei de me transferir, como você, então ainda não pensei nisso." Não era toda a verdade, mas podia revelar seus planos depois para o colega curioso, se é que eles realmente se dessem bem.
"Legal. Pelo menos quer dizer que não vou ser o único peixe fora d’água. Vamos ser os caras novos. Quem sabe até montamos uma banda. Os Caras Novos." Ray fez um semicírculo com a mão, como se já visse o nome em neon.
"Infelizmente, não tenho o menor talento pra tocar instrumento, e se você me ouvir cantar, vai querer enfiar cera no ouvido pra bloquear os sons horríveis que saem da minha garganta."
Ray riu de verdade. "Somos dois, então. Enfim, você tem namorado?"
Jonathan balançou a cabeça rápido. "Não."
Ray bateu palmas, animado. "Ótimo. Vamos procurar o amor juntos esse ano. Quer dizer, se você estiver a fim de amor. Se estiver a fim de pegação—"
Jonathan balançou a cabeça. Pegação era uma palavra que ele odiava e sempre odiaria. "Não, de jeito nenhum."
Uma pegação que deu errado tinha sido suficiente para destruir sua reputação e a vida que conhecia até então. Seus pais não precisavam de outro baque daquele tamanho. Só de pensar nisso, Jonathan sentiu o rosto queimar.
"Ah, eu sonho com uma garota legal que não ligue pro meu cartão V", Ray disse com um suspiro exagerado.
"Cartão V?", Jonathan perguntou. As pessoas falavam assim mesmo?
Ray lançou um olhar solidário. "Tá, foi informação demais? Sinto muito, mas seu melhor amigo não é do tipo que guarda segredos. E ainda bem que temos dois quartos. Logo, logo você vai me odiar por causa da minha bagunça."
Jonathan sorriu. "Quão ruim pode ser?"
Ray deu um tapinha na mochila enorme. "Minha vida inteira está aqui dentro. E não está exatamente organizada, se é que você me entende."
"Entendi. Vou deixar você desfazer as malas. Coloquei meus produtos de higiene do lado esquerdo da prateleira do banheiro, mas se preferir, posso mudar."
Ray fez um gesto com a mão. "Não precisa. Ei, Jonathan", chamou quando ele começou a se afastar. "Vamos ter um terceiro ano incrível. É uma promessa."
Jonathan sorriu de novo para o colega. Pelo menos isso já estava resolvido. Claro que teria que controlar o entusiasmo de Ray quanto a terem um jogo de paquera em comum. Diferente de antes, quando cometeu o erro de pensar com a cabeça de baixo, dessa vez, se surgisse a oportunidade, iria pela opção segura.
O que significava, é claro, alguém assumido e orgulhoso, e não um cara que pedia sexo oral escondido enquanto fingia ser hétero no resto da vida. Sim, Jonathan já tinha passado por isso o suficiente para três vidas, não só uma.
***
"Como somos os novatos", Ray começou assim que se sentaram em uma mesa no refeitório, lotado na hora do almoço, "precisamos aprender rapidinho quem é quem por aqui."
"Você quer ser popular?", Jonathan questionou enquanto olhava as batatas fritas no prato com desconfiança. Pareciam gordurosas e nada apetitosas, mas junto com a salada que tinha escolhido, até que dava para chamar de refeição. Não uma refeição decente, claro, mas ainda assim.
"Ei, o negócio é saber quem vale a pena conhecer, né?", Ray disse com um dar de ombros. Diferente de Jonathan, ele devorava o hambúrguer como se não comesse há semanas. "O lance é que os alunos populares são a porta de entrada pra conhecer os outros."
"Você quer andar com as garotas populares?", Jonathan provocou. "Qual é, Ray, isso é superficial. E eu achei que você estava procurando o amor verdadeiro."
"É, mas pode ser que eu precise de algumas tentativas antes de chegar lá. Enfim, eu fiz minha pesquisa e—"
"Pesquisa? Quando teve tempo? Faz só alguns dias que a gente ainda estava desfazendo as malas." Jonathan olhou o pacotinho de molho e decidiu deixar pra lá. Ainda bem que a suíte tinha uma cozinha pequena, onde dava para preparar algo básico.
"Sunny Hill Xpress", Ray disse, satisfeito.
"O que é isso?"
"Uma publicação digital bem interessante que documenta quem é quem aqui em Sunny Hill. Até tem fotos e tudo."
"Tipo o Facebook?"
"Melhor." Ray mal podia esperar para compartilhar as descobertas da pesquisa com Jonathan. "Esse site te deixa por dentro dos últimos boatos, com todos os detalhes suculentos. Quem quer que esteja por trás disso, te garanto, não está de brincadeira."
"Então é um tabloide", Jonathan comentou. Sentiu um desconforto crescente só de pensar nisso. Um olhar rápido ao redor meio que o convenceu de que não havia paparazzi de araque por perto. Seus ombros relaxaram um pouco. Uma coisa que precisava fazer era se convencer de que, ali em Sunny Hill, Jonathan Hamilton não era ninguém, e pretendia continuar assim. "Não acredite em tudo que está escrito lá."
"Ei, foi bem educativo, e pra que estamos aqui, nessas salas de aula tão distintas, se não for pra aprender?"
Jonathan duvidava que conseguisse discutir com Ray sobre qualquer coisa. "Tá bom", admitiu com um leve dar de ombros.
"Vamos lá, JJ, você não quer saber quem é gay, solteiro e assumido pra cima de tudo?"
Num momento de fraqueza, ou só porque Ray insistiu como um gato farejando erva, ele tinha admitido que seu jogo de paquera era exatamente esse. Embora pretendesse algo sério dessa vez, Jonathan não queria se jogar de cabeça ainda.
"Então, quem é o aluno mais importante por aqui? Ou os alunos?", perguntou, querendo que Ray e suas ideias de casamenteiro se afastassem do assunto.
"Nossa, JJ, você fala como se tivesse oitenta anos", Ray respondeu com um aceno de mão.
Outra coisa que não fazia ideia era quando tinha virado JJ. Havia algo em Ray que fazia ele aceitar tudo o que o cara jogava em cima dele. Toda aquela conversa de virarem melhores amigos já não parecia tão absurda.
"Olha", Ray começou e virou na cadeira para apontar uma mesa a alguns metros deles.
A primeira coisa que Jonathan notou foi uma camisa vermelha de futebol esticada sobre uma costa tão larga que devia precisar de uns três estádios para acomodar um tamanho daqueles. O aluno estava de pé, bloqueando a visão da mesa, mas os outros eram tão barulhentos que era impossível não notar. As pessoas que passavam paravam para conversar com eles, trocavam high-fives e faziam todas aquelas coisas idiotas que os alunos populares fazem.
O grandalhão finalmente se sentou, e Ray continuou. "Esse é o Dexter Solomon, o Dex, como os amigos o chamam. Ele joga futebol, e dizem por aí que ele consegue beber um barril inteiro sozinho. Segundo o Xpress, ele já fez isso pelo menos uma vez."
"Que clichê", Jonathan murmurou.
"O moreno do lado direito dele", Ray disse, sem se abalar com o comentário, "é o Kane Dubois. O pai dele estudou aqui e hoje é um figurão na indústria farmacêutica. Vale a pena conhecer."
Ray não estava errado. Como alunos de química, entrar no ramo farmacêutico era uma opção a considerar. Jonathan examinou Kane rapidamente. Ele também era atlético, não tão grande quanto Dex, mas impressionante à sua maneira. Como esperado, Ray era atraído como mariposa pela chama para o clube dos atletas, ou um dos muitos.
"Kane joga lacrosse", Ray acrescentou. "E aquele ali é o Rusty Parker."
Jonathan observou o loiro atraente com nome de cachorro, que se levantou e acertou um arremesso perfeito com uma bolinha feita de guardanapo amassado, mandando-a direto no "aro" formado pelos braços de uma aluna igualmente atraente, que gritou de alegria. Ray não precisava dizer de qual esporte ele gostava. Que exibição tediosa.
Claro que eles também eram do tipo que marcava pontos, Jonathan pensou e balançou a cabeça. Seus olhos se desviaram e então notou que havia mais alguém na mesa. Diferente dos companheiros, que pareciam agitados como crianças depois de um quilo de açúcar, esse estava largado na cadeira, um braço preguiçosamente apoiado no encosto do amigo, e uma perna comprida, coberta por jeans, esticada no caminho entre as mesas.
Os olhos de Jonathan se estreitaram quando notou a outra mão do aluno brincando com um palito branco na boca. Seria um cigarro? Sério?
Não, era um pirulito, Jonathan percebeu. E lábios perfeitos envolviam o doce com um abandono lascivo.
Abandono lascivo? Precisava mesmo dar um jeito na cabeça. O cara só estava chupando um pirulito. Incomodado com a direção dos próprios pensamentos tão cedo, Jonathan continuou a observar o aluno. Cabelos pretos e rebeldes cobriam os olhos, mas dava para ver um maxilar marcado e uma pele bronzeada mesmo de longe. Havia algo de brincalhão e travesso na forma como ele girava o doce na boca, só para tirá-lo de vez em quando e trocar uma piada com os amigos. Algo lânguido e predatório transparecia em seus movimentos, uma prova da atitude de "não estou nem aí" que parecia definir aquele personagem.
Pelo visto, hoje ele estava com uma veia poética, então Jonathan decidiu não lutar contra isso. Nada poderia dar errado se ele apenas olhasse para aquele exemplar perfeito da variedade masculina. Mal conseguiu conter um risinho ao ver as mangas da camiseta dobradas. Claro que o exemplar perfeito era meio babaca, não era surpresa. Não que seus bíceps impressionantes não valessem a pena serem exibidos, ou seus peitorais perfeitos, claramente visíveis através da camiseta branca tão colada nele que parecia mais uma segunda pele do que uma peça de roupa.
Tinha hora e lugar para tudo, inclusive para exibir os atributos, mas o almoço no refeitório da faculdade não era um deles.
“Quem é aquele?”, Jonathan perguntou, de repente percebendo que tinha ignorado o papo do Ray enquanto admirava o tal aluno.
“É o Maddox Kingsley”, Ray respondeu, animado por finalmente Jonathan parecer interessado em algo que ele sabia. “Ou Mad Dawg, como o chamam.”
“Mad Dog?”
“Não, não, não”, Ray disse com ar de importância. “Repete comigo. Mad Dawg.” Ele arrastou as palavras como um figurante de filme de máfia.
“Como você quiser”, Jonathan respondeu. “Que esporte ele pratica? Ele anda com outros atletas, então—”
“Na verdade, ele não é atleta. O que ele curte”, Ray se inclinou sobre a mesa e baixou a voz, “são lutas ilegais.”
“Tá de sacanagem.”
“Chama do que quiser. Mas ele é selvagem, perigoso, e todas as garotas o querem.”
“Não posso dizer que estou surpreso.”
Ray não pareceu captar o sarcasmo na voz dele. “O ponto é: ele é o melhor, o máximo, o BMOC.”
“Você pode falar em português normal?”
“O cara mais importante do campus”, Ray disse num tom que sugeria que Jonathan tinha acabado de sair de debaixo de uma pedra. “Precisamos fazer amizade com ele.”
“Não, não precisamos”, Jonathan retrucou.
“Por quê?”, Ray o encarou com desconfiança.
Porque Maddox, Mad Dawg, ou qualquer que fosse o apelido dele, era um pesadelo vestido numa camiseta tão justa que não deixava nada para a imaginação em relação à anatomia perfeita do seu tronco. Se a perna comprida esticada como obstáculo para os outros alunos que passavam fosse algum indício, a parte de baixo devia ser igualmente bem trabalhada. Jonathan não tinha a menor intenção de repetir o mesmo erro, mesmo que o cara demonstrasse interesse, o que estava fora de questão, já que a menção às garotas se jogando em cima dele tinha deixado esse aspecto dolorosamente claro.
“Porque caras assim nunca andariam com a gente”, Jonathan tentou amenizar a situação para Ray.
“Por quê?”, Ray perguntou de novo.
“Porque nós somos os bonzinhos. Eles”, Jonathan apontou para o grupo barulhento, “são os bad boys. Água e óleo. Não combinamos, tá? E aposto que ele está vendendo drogas ou algo do tipo. Olha só quanta gente para pra falar com ele. O que será que eles querem?”
Ray não parecia totalmente convencido. “O Xpress não confirmou os boatos sobre as drogas. Ei, acho que quero outro refrigerante.”
Então havia mesmo um boato sobre drogas, mas Jonathan não ia acreditar em tudo o que um tabloide obscuro dizia. Porém, qualquer coisa que servisse para ele parar de babar por um bad boy hétero valia a pena considerar.
“Eu vou”, Jonathan se ofereceu. Não precisava de outro refrigerante; tomaria água pura, se é que eles tinham isso.
***
“Cara, é bom estar de volta, né?”, Dex se espreguiçou e bocejou, exibindo o corpo e chamando a atenção de pelo menos metade da população feminina presente.
Maddox bufou. “Qual é o seu problema? Não dormiu direito?”
“Fiquei na farra com os meus amigos da cidade até tarde. Depois dirigi até aqui.”
Era típico do Dex, claro. O rei da festa até o último osso do corpo.
“Você não vai começar a contar as histórias do verão como se a gente estivesse na terceira série, né?”, Rusty interveio. “Eu tô mais interessado no futuro promissor, ou seja, a carne fresca.”
“Cansou de pegar todas as novatas?”, Kane questionou.
Ao contrário dos outros, que curtiam variar, Kane era o único num relacionamento sério. O mais admirável era que ele e a namorada não estudavam na mesma faculdade, e mesmo assim faziam dar certo, apesar da distância. Maddox esperava que Kane desse o nó e os convidasse para um casamento daqueles bem grandões logo depois do último ano. Mas ainda havia tempo para curtir a farra, já que o terceiro ano estava só começando.
“Ei, elas me querem”, Rusty disse. “E eu nunca digo ‘não’ para uma dama.”
“É, você é o perfeito cavalheiro”, Kane comentou. “E aquelas transferidas recém-chegadas? Também tá interessado nelas?”
“Do nosso ano? Claro que tô interessado, desde que sejam gostosas”, Rusty respondeu.
Maddox deixou os olhos percorrerem o refeitório lotado em busca, assim como Rusty, de rostos novos. Ou melhor, de bundas novas, já que ele era conhecido como um total apreciador de traseiros. Assim que estava avaliando uma morena baixinha com tudo no lugar certo, algo mais entrou em seu campo de visão. Ou melhor, alguém, um cara na fila. Devia ser um dos alunos transferidos de que Kane tinha falado, porque nada na postura dele dizia que era calouro. Maddox examinou o perfil do desconhecido com interesse. Ele estava vestido com uma calça chino bege e uma polo rosa-claro. As roupas caíam bem nele, como se fossem feitas sob medida, não compradas prontas. Com os sapatos Oxford nos pés, o visual gritava conservador e dinheiro antigo. Quando o cara enfiou as mãos nos bolsos, a calça se ajustou a um traseiro de primeira. Mesmo sendo hétero, Maddox não conseguia deixar de notar quando um cara tinha uma bunda legal. Essa aí estava no topo da lista, firme e empinada, preenchendo aquelas calças do jeito certo.
A próxima coisa que Maddox notou foi que o cara era alto. Maddox não se considerava baixo com seu 1,88m, mas esse aí parecia um pouco mais alto. No meio dos outros alunos, ele se destacava. Talvez fosse por causa das roupas impecáveis ou do penteado perfeito. O cabelo castanho-claro ondulado estava repartido de lado, num estilo certinho, e ele parecia alguém que se esforçava muito para ficar daquele jeito. Quando virou a cabeça, Maddox também teve a chance de examinar um perfil clássico, com nariz reto e maçãs do rosto salientes. O rosto podia ser considerado um pouco severo, mas era equilibrado por uma boca sensual. Não que Maddox costumasse pensar em caras nesses termos, mas esse aí era de tirar o fôlego, nível galã de cinema. Um galã dos anos 1950, mas ainda assim um galã.
“Quem é aquele?”, ele apontou com o pirulito para o cara.
“Quem? A morena baixinha? Já chamei pra mim, brother”, Rusty disse na hora.
“Por que você já tá chamando pra você tão cedo? Eu mal acordei”, Maddox protestou. “Não era dela que eu tava falando. Era dele.” Apontou de novo.
“Uau, quem é o futuro presidente?”, Rusty perguntou.
“Deve ser um dos transferidos”, Kane interveio. “O cara é bonito. Vocês deviam tomar cuidado, senão as garotas vão esquecer vocês e fazer fila pra ele.”
Rusty bufou. “É, quem é que curte esse estilo certinho hoje em dia? Aposto que ele é um chato pra caramba. As garotas não vão fazer fila nenhuma pra ele, não se preocupa, a menos que queiram ficar com um vovô.”
“Alguém tá com inveja”, Kane disse rindo.
Rusty passou a mão pelo cabelo bagunçado, de repente consciente de como devia estar perto do cara de quem estavam falando. “Eu? Inveja? Nem pensar. Bom, se ele ousar ser mais popular que eu com as garotas, vou desafiá-lo pra um duelo ou algo do tipo.”
“Tipo um rap battle?”, Kane perguntou.
“Não, vou fazer ele jogar bola comigo. Aí a gente vê quem é o macho.”
“O cara é bem alto. E se ele te vencer no seu próprio jogo?”, Kane levantou uma questão filosófica na hora. “Aí ele vai ficar com todas as garotas e ainda te humilhar no processo.”
“Eu não me preocuparia se fosse você”, Dex finalmente entrou na conversa. O grandalhão conseguia qualquer garota sem nem tentar, e isso o deixava bem tranquilo. Rusty era o único que sempre tinha alguma coisa pra reclamar, e Maddox simplesmente não ligava. Se uma mina curtisse algum dos amigos dele, ele ficava fora.
Ainda assim, o comentário do Dex o deixou curioso. “Por que não devíamos nos preocupar? O cara tem classe”, ele disse. “As minas curtem isso.”
“É, mas ele é gay”, Dex disse sem rodeios.
“O quê?”, Rusty exclamou, um pouco alto demais. “Gente, me explica como é que esse macho alfa, 100% hétero, consegue saber uma coisa dessas só de olhar pro cara.”
“Pode ser que os pais dele tenham passado o gaydar pra ele”, Kane disse na lata. “Como uma herança de família.”
Esse tipo de papo era totalmente aceito no grupo deles. Dex tinha dois pais incríveis que o criaram desde que o adotaram aos cinco anos. Apesar de ser novo demais para se lembrar em detalhes da dor de ter sido abandonado pelos pais biológicos, Dex tinha suas próprias cicatrizes, que Maddox entendia e respeitava. Ele também sabia que Dex adorava os pais, e eles eram seus maiores fãs.
“Nem vem que ele é gay”, Rusty insistiu, enquanto Maddox encarava a bunda perfeita do cara com interesse renovado. Com um traseiro daquele, ele tinha que ser passivo, mesmo que, fora isso, houvesse algo de dominante e até um pouco intimidador na postura dele. Devia ser por causa da altura, ou dos ombros largos, ou algo assim. Pelo menos versátil, senão ter uma bunda daquelas seria uma injustiça com todos. “Dex, você tem que nos contar como sabe.”
Dex apontou com a lata de refrigerante. “Vocês estão vendo a morena baixinha que vocês todos chamaram pra vocês? Nos últimos cinco minutos, enquanto vocês ficaram aí de papo furado, ela tá tentando chamar a atenção dele. Tudo o que ele deu pra ela foram algumas palavras. Nem uma vez o cara olhou pro decote dela. E olha só que decote. Ele só olhava pra cara dela enquanto falava.”
“Então talvez ele não curta peitos”, Rusty protestou. “Ou, como o Kane, já tem uma bola e corrente.”
“Cala a boca, cara. Eu tenho uma namorada, não uma prisão perpétua. E posso dizer que a garota é bonita. Bem cheinha e com tudo no lugar certo”, Kane acrescentou. “Não sou cego.”
Dex deu de ombros. “Vocês não precisam acreditar em mim. Mas o cara também tem bunda. Minha aposta é que ele curte caras, e eu mantenho o que disse.”
Então Maddox não era o único a ter notado o traseiro perfeito do cara.
Rusty inclinou a cabeça e deu uma boa olhada no aluno novo. “Se eu fosse gay, com certeza dava em cima dele.”
“Você daria em cima de uma vovó enquanto ajuda ela a atravessar a rua”, Kane atirou, provavelmente ainda chateado com a provocação anterior do Rusty.
“É, se eu curtisse velhinhos. Mas não curto”, Rusty respondeu, totalmente indiferente ao comentário do Kane. “Eu só tava dizendo se fosse gay. Agora que sei que ele não curte minas, posso confirmar que ele é o sonho molhado de qualquer gay com toda aquela tralha no porta-malas.”
“Vocês são todos uns pervertidos, comentando a bunda de um cara desse jeito”, Dex disse com um sorriso largo. “Vendo que nenhum de vocês é gay.”
Rusty se irritou. “Ei, foi você quem começou. Mas a gente já tem um nome pro futuro presidente slash bunda perfeita?”
Maddox os surpreendeu levantando-se. “Eu vou descobrir.”
Não esperou os outros comentarem sua decisão repentina. Afinal, ele era tranquilo e sempre fazia amigos mais rápido que todos eles. Descobrir o nome do aluno novo seria moleza. Por que estava tão interessado em saber, ele não sabia dizer.
“Ei, você acha que pode me deixar furar a fila? Meus amigos estão com sede e impacientes que nem crianças de três anos”, ele perguntou para a morena baixinha, que abriu um sorriso interessado no mesmo instante em que ele começou a falar.
“Claro”, ela respondeu e deixou ele passar na frente.
“Valeu, linda”, ele disse e piscou para ela.
Ela sorriu e mordeu o lábio inferior, parecendo prestes a dizer algo, mas ele esqueceu dela no mesmo instante em que olhou mais de perto para o cara — sim, definitivamente mais alto que ele por uns dois centímetros. Olhos âmbar o encararam por um momento e então se desviaram, parecendo entediados.
“Ei, parece que você é novo aqui. Eu sou o Maddox.” Estendeu a mão.
Os olhos âmbar pousaram nele, e as sobrancelhas perfeitamente arqueadas acima deles se franziram. “E eu não estou interessado.”
Maddox ficou parado por um segundo. Como é? “Interessado em quê?”, perguntou com um risinho.
“No que quer que você esteja vendendo.” O cara teve a cara de pau de desviar o olhar. “Uma lata de refrigerante e um copo d’água, por favor”, disse para a moça do caixa. “Água da torneira. Sim.”
Maddox sentiu os dedos coçarem para agarrar o cara pela gola da polo. Tinha uma vontade louca de perguntar qual era o problema dele. Em vez disso, se contentou com um rosnado baixo.
O cara o encarou. “Você acabou de rosnar pra mim?” A moça do caixa entregou o refrigerante e o copo d’água. “Que babaca”, ele jogou por cima do ombro enquanto se afastava.
“Playboy metido”, Maddox gritou atrás dele, atordoado demais para uma resposta mais inteligente.
O cara nem se virou para olhar. Maddox balançou a cabeça, incrédulo, e voltou pisando duro para a mesa.
“Você não queria nada?”, a garota que o deixou furar a fila gritou atrás dele.
“Outra hora”, Maddox respondeu rápido.
Ele se jogou na cadeira e soltou um suspiro alto.
“Que diabos aconteceu ali?”, Kane perguntou.
“Eu oficialmente odeio esse cara, seja lá quem ele for”, Maddox respondeu na lata. “Ele é um babaca arrogante”, acrescentou, enquanto todos o encaravam, esperando que ele explicasse.
“Então você não descobriu o nome dele?”, Rusty perguntou.
Maddox olhou para ele como se tivesse crescido uma segunda cabeça.
“E o da garota?”, Rusty insistiu, imune ao olhar fulminante.
“Que garota?”, Maddox rosnou, irritado.
Rusty sorriu. “Totalmente chamando pra mim, brother.”
Maddox enfiou o pirulito de volta na boca. Seu dia estava completamente fodido. Olhos âmbar slash bunda sexy podia ir se foder.
***
“Meu Deus, o Maddox acabou de falar com você?”
Jonathan colocou a lata de refrigerante na frente do Ray, se parabenizando por ter a mão firme apesar dos nós no estômago. O cara tinha olhos cinzentos lindos, com cílios escuros, e um sorriso que faria calcinhas caírem num piscar de olhos. Podia ser mais ridículo de bonito? Ainda por cima, tinha que chegar de fininho daquele jeito, pegando ele totalmente desprevenido.
“Não, na verdade não”, respondeu com rigidez.
“Ah, qual é, eu vi”, Ray insistiu. “Ele queria se apresentar, né?”
“Ele basicamente rosnou pra mim. Não é à toa que o chamam de Mad Dawg.”
“Mad Dawg”, Ray corrigiu.
“Tanto faz.”
“O que aconteceu? Foi um momento bem intenso ali.”
“Eu, bom, achei que ele estava tentando me empurrar drogas. Posso ter falado algo nesse sentido”, Jonathan optou pela verdade.
“Meu Deus, por que você disse isso? Eu falei que os boatos não estavam confirmados.”
Jonathan balançou a cabeça. Por que estava se importando tanto? “Foi reação automática, o que posso dizer? O cara tem cara de traficante. E ainda rosnou pra mim”, acrescentou. “Desculpa, Ray, mas acho que a gente não vai andar com o Mad Dawg tão cedo”, enfatizou o apelido, “e sua turma.”
“O que nele te faz pensar que ele é traficante?”, Ray perguntou, ainda parecendo chocado com o que tinha acontecido. “Cara, daquele ângulo parecia ódio instantâneo”, concluiu. “Mas tanto faz. Eu prefiro andar com você mesmo.”
“Ódio instantâneo? Acho que é exagero”, Jonathan disse.
“Não. Acho que você arranjou um inimigo.” Ray fez um pequeno gesto com o queixo na direção do Maddox.
Jonathan arriscou uma olhada. É, o cara parecia muito puto, mastigando o pirulito, com uma carranca profunda entre as sobrancelhas. E o encarava com uma cara de poucos amigos.
Só restava soltar um gemido de exasperação. Mesmo que não precisasse ser amigo de um Mad Dawg, a ideia de arranjar um inimigo tão rápido era irritante, pra dizer o mínimo.
Continua...


