Chapter 1 - Seis anos atrás 2017
Ayla Villar
Seis anos atrás — 2017
— Pikena, não me digas que dispensaste o filho do presidente! — diz Lena, indignada.
— Ele não fazia o meu tipo. Fazer o quê? Nem se fosse o homem mais rico do mundo. Se eu não gosto, não gosto, e nada me faz mudar de ideia.
— Mas esse é o terceiro filho do presidente! Se nenhum faz o teu tipo, então não lhes dês esperança — continua ela.
— Eles passariam muita vergonha a levar um fora. Então deixo-os pensar que me impressionaram, depois deixo claro que não. A partir do momento em que deixo claro, já não me importo com mais nada. E, antes que continues, sim, eu apareci naquelas fotos… contra a minha vontade.
— Ai é? Então por que participaste? — ela pergunta, sarcástica.
— Oxi! Não achas que estás a fazer perguntas demais? Não estou num tribunal.
— Fica quieta e responde-me. Só isso que peço. Quando me deixaste para curtir com o terceiro filho do presidente… qual é mesmo o nome dele?
— Ah, tanto faz. Fiquei curiosa quando te vi na rede social, ainda por cima com a família dele numa festa. Tens noção disso? Como a tua mãe aceitou? E ainda por cima não me contaste!
— Ah, Lena, não me lembres disso. Foi fingimento e foi vergonhoso, mas eu estava muito linda. E, como já te disse, foi só para ele não passar vergonha. Além disso, todos os irmãos estavam acompanhados. Qual é o problema? Foi apenas a festa de aniversário de casamento do presidente.
— “Apenas” uma festa dessas? Sabes quem estava lá? O arquiteto Gaudí. E não só ele… muitos famosos, sua cretina! Parece até que querias provar um pouco do luxo, saber como é a vida deles. O que mais me impressiona é como chegaste lá. Uma menina de quinze anos sai de casa com uma dobra para comprar um doce, chega à loja, solta o cabelo, ajeita a roupa e começa a andar como uma modelo. Os rapazes começam a chamar-te de todos os nomes e tu nem ligas.
Até que um se aproxima e puxa aquela conversinha:
— Quando caíste, não te aleijaste, não?
— O quê???
— É que pareces um anjo que caiu do céu.
— Então não devia meter-te com “elas”, porque elas são as mais malvadas.
O moço fica surpreendido com a resposta. Continuas:
— Meu bem, anjos caídos do céu são banidos do paraíso. Melhor dares um fora daqui.
Mesmo assim ele não desiste:
— Se vieres comigo, dou-te umas gorjetas.
— Achas que sou mulher de vida?
Ele nega com a cabeça:
— Se não for com outras intenções, tudo bem.
— Mesmo assim não quero o teu dinheiro. Quero comida. Sabes o que é isso? Comida deixa-me satisfeita, não o teu dinheiro. Pouco me importa o teu dinheiro.
— Então vamos. Os meus amigos só querem saber se eu consegui essa beleza ou não. E, outra… não te acho nada disso. Calma, levo-te a um restaurante.
E foi assim, do irmão mais velho até ao mais novo, a tentar e a tentar. Kkkkkk. Foi muito engraçada essa história.
— Mas, Ayla, não sabias que ele era o filho do presidente?
— Pikena, não me perguntes. Se eu soubesse, tinha virado no caminho direto para casa. Quando disse “restaurante”, achei que era só para me impressionar, não que era mesmo um restaurante… e ainda por cima quatro estrelas! Só me dei conta quando estavam a entrar no carro e vi uma Ferrari e advinha só de quem era? Daí pensei “fiz merda”. Achas que fui nessa moto com ele, minha irmã? Não. Disse-lhe que não ia andar no meio de todos aqueles meninos e pedi para cancelar, fingir que nunca me viu. Ele disse “então venho buscar-te mais tarde”. Juro que não queria voltar a ser celebridade. As pessoas iam começar a chamar-me de interesseira, por isso não gosto de gente de alta classe. Mas, para meu azar, são sempre nelas que eu me esbarro. Até em ti! A minha melhor amiga é filha de cantor, empresário, cozinheiro e blogueiro. Às vezes pergunto-me se essas coisas se misturam.
— Ah, nem venhas. És rica e nem sabias?
— Só se for rica de pobreza.
— Não! Rica de sorte.
— E agora, o que vais fazer?
— Curtir as férias com a minha melhor amiga.
— Desculpa, mas vou passar as férias com o meu namorado. Combinámos isso desde o ano passado.
— Tu não vais, não.
— Sabias que discutimos muito por tua causa? Ele quer passar mais tempo com a namorada, mas a namorada passa mais tempo com a amiga… ou preocupada com a amiga.
— Está bem. Só porque não quero ver o meu casal favorito a brigar por minha causa. Mas fica a saber: sei cuidar muito bem de mim.
— E viajas que dia?
— Daqui a dois dias.
...
Dois dias passaram muito rápido, mas aproveitei cada segundo.
Estamos a caminho do aeroporto. Levo-os, junto com os pais da Lena, mas não volto com eles. Vou fazer umas compras de roupas. Aos fins de semana encontramos peças mais baratas e mais chiques.
Eles partem. A minha amiga quase chora por me deixar sozinha, mas eu conforto e digo que vai ficar tudo bem.
Então pego um carro e vou para a praça. Na praça está um fardo de roupas de moda a vender, bem baratas. Faço as minhas compras com as minhas economias — não é muito, mas dá para o gasto.
Quando termino, percebo que acabei com o dinheiro e não tenho para pagar uma moto para casa. Burrice minha, muita. Tento ligar para a minha mãe, mas ela não atende. Tentei mais duas vezes e, por fim, ela atendeu dizendo que só poderia buscar-me depois do trabalho e que eu precisava aprender a ter mais juízo.
Telefono ao meu pai: ele atende, diz que está muito longe e não volta hoje. É praga, só pode ser praga.
Vou para um parque no centro da cidade e sento-me num banco com as compras. Fico ali cerca de uma hora, quase a dormir, até que um carro pára à minha frente e abre a porta do carona.
Não conheço a pessoa, então nem olho.
A pessoa chama o meu nome.
Viro e dou de caras com um rapaz moreno, de olhos verdes claros, que aparenta uns dezoito anos.
Mesmo assim, não vou. Imagina estar a chamar alguém com o mesmo nome que eu!
Ele insiste outra vez.
Viro para ele, e ele faz um gesto com a cabeça para eu entrar.
Não conheço a pessoa, mas estou a precisar de boleia: ou passo a noite no centro da cidade com sacos de roupa à espera que a minha mãe apareça, ou arrisco uma boleia de um desconhecido.
Fico indecisa.
— Anda — ele diz, com um meio sorriso. — Prometo deixar-te em casa, Ayla.
Penso por um segundo, olho para os sacos, para a rua a escurecer… e respiro fundo.
— Está bem. Mas qualquer coisa, eu sei me cuidar mesmo.
— Fechado — responde ele, rindo, enquanto liga o carro.
NOTINHA DA AUTORA:
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