The Professional Bridge
O sinal da St. Jude’s High School tocou, liberando uma debandada de adolescentes cheios de hormônios no ar úmido da tarde. Por todos os motivos, Kris deveria estar vivendo o auge de sua vida. Ele era loiro, possuía olhos da cor de âmbar líquido e um rosto que softwares de reconhecimento facial confundiam rotineiramente com o de um protagonista de anime. As garotas viviam derrubando seus livros na frente dele.
O detalhe trágico? Elas só derrubavam os livros para poder se abaixar e perguntar se Tyler Vance estava solteiro.
“Kris! Ai, meu Deus, Kris, espera!”
Kris parou perto de seu armário, soltando um suspiro pesado e dramático que mexeu com sua franja. Chloe Harrison — uma líder de torcida cuja máscara de cílios poderia repelir radiação gama — parou derrapando ao lado dele. Ela segurava seus pompons contra o peito como se fossem um escudo de pureza.
“Oi, Chloe”, disse Kris, com a voz plana e os olhos dourados embotados pela exaustão infinita de um homem que trabalha em um emprego de varejo que paga em danos psicológicos. “Deixa eu adivinhar. Você quer saber se o Tyler vai ao baile de primavera.”
“Cala a boca, sem chance! Sério?” Chloe guinchou, ignorando completamente o fato de que Kris tinha respondido à sua pergunta antes mesmo que ela a fizesse. “Ele vai? Ele tem um par? Será que ele sequer gosta de loiras? Espera, você acha que ele notaria se eu tingisse meu cabelo exatamente do mesmo tom de caramelo do macchiato dele de manhã?”
Kris fechou a porta de seu armário com um clanc oco. “Chloe, o Tyler toma café puro. Ele não olha para nada que seja cor de caramelo, a menos que esteja em um cardápio de sobremesas. E não, ele não vai ao baile. Ele vai ficar em casa remoendo seu livro de economia como um órfão vitoriano com tuberculose.”
“Ugh, ele é tão misterioso”, suspirou Chloe, pressionando as palmas das mãos nas bochechas ardentes. “Um imperador tão frio. Tipo, ele literalmente fuzilou a Jessica com o olhar quando ela tentou dar um cupcake para ele ontem. Foi tão sexy. Você acha que poderia entregar uma carta de amor para ele por mim, Kris? Você é o melhor amigo dele! Vocês compartilham uma alma!”
“Eu compartilho o vestiário com ele, Chloe, que é composto basicamente de desodorante Axe e tensão não resolvida”, Kris murmurou, jogando a mochila nos ombros. “E não, eu não sou seu pombo-correio. Da última vez que entreguei uma carta sua, o Tyler usou para raspar chiclete debaixo da mesa dele.”
Antes que Chloe pudesse implorar mais, um braço pesado foi jogado casualmente sobre os ombros de Kris. A temperatura no corredor pareceu cair três graus, não por causa do ar-condicionado, mas por causa da aura pura e sombria irradiada pelo garoto que acabara de chegar.
Tyler Vance não dava sorrisos casuais. Ele fazia um leve movimento nos lábios que, para o corpo estudantil, passava por diversão. Com cabelos pretos como a noite caindo descuidadamente sobre olhos afiados e cor de obsidiana, e uma mandíbula esculpida em puro despeito arquitetônico, Tyler parecia ter sido geneticamente projetado em um laboratório para arruinar a vida das mulheres — e, aparentemente, a vida social de Kris.
“Anda logo, loirinho”, disse Tyler, sua voz um barítono profundo e natural que fez Chloe esquecer instantaneamente como formar vogais. “O treinador vai nos tirar do time se chegarmos atrasados para a pista, e eu não vou correr voltas só porque você estava ocupado brincando de conselheiro sentimental para o time de líderes de torcida.”
“Tyler!” Chloe guinchou, dando um passo frenético para trás enquanto alisava a saia. “O-oi! Você... você vai para a pista? Eu vou torcer! Eu tenho pompons!”
Tyler nem olhou para ela. Seu olhar permaneceu fixo inteiramente em Kris, suas sobrancelhas escuras franzidas em leve irritação. “Nós temos treino, Kris. Vamos.”
“Certo, certo. Já vou, sua majestade”, Kris resmungou, deixando Tyler arrastá-lo pelo corredor.
Assim que ficaram fora do alcance dos ouvidos, Kris virou a cabeça bruscamente. “Sabe, um desses dias, uma garota vai falar comigo porque ela gosta do meu rosto, Tyler. Apenas do meu rosto! Não da minha proximidade com suas bochechas majestosas e sombrias!”
“Duvido”, respondeu Tyler suavemente, sem quebrar o passo. “Seu rosto é ok, eu acho. Um pouco feminino demais. Se você colocasse uma peruca, provavelmente passaria por uma aluna do segundo ano.”
“Eu sou um espécime majestoso da juventude moderna!” Kris protestou, cutucando as costelas musculosas de Tyler. O dedo ricocheteou como se tivesse atingido uma placa de concreto. “Ai! Por que você é tão duro? Você come drywall no café da manhã?”
“Shakes de proteína. E para de me cutucar, idiota.” Tyler empurrou a mão de Kris, finalmente oferecendo um sorriso microscópico. “Além disso, você deveria estar me agradecendo. Pense em todos os lanches grátis que as garotas te dão só para chegar até mim. Lembra daquele brownie triplo de chocolate de terça-feira?”
“Tinha um rastreador nele, Tyler! Ou uma poção do amor! Eu me senti estranho por seis horas!”
Dez minutos depois, sentado nas arquibancadas de metal atrás do ginásio enquanto o resto do time se alongava, Kris decidiu que tinha atingido seu limite. Ele observou Tyler jogar casualmente uma bola de beisebol para o alto e pegá-la, parecendo totalmente indiferente às três garotas do segundo ano que sussurravam e riam atrás da cerca de arame.
“Tyler”, disse Kris solenemente, cruzando as pernas no estilo índio.
“Hm.”
“Precisamos conversar sobre sua vida amorosa.”
Tyler não desviou os olhos da bola de beisebol. “Minha vida amorosa está ótima. Ela não existe, o que significa que exige manutenção zero.”
“Esse é precisamente o problema!” Kris jogou as mãos para o alto em uma exasperação teatral. “Nós temos dezoito anos! Estamos no nosso último semestre do ensino médio! Você sabe o que adolescentes normais fazem aos dezoito? Eles vão ao baile, dão as mãos na chuva, eles se pegam atrás das arquibancadas em vez de ficarem sentados nelas como gárgulas deprimidas!”
“Eu gosto das arquibancadas. Elas têm uma boa integridade estrutural”, disse Tyler inexpressivo.
“Eu estou falando sério, Tyler! Você é um perigo humano ambulante. Você parece um ídolo de K-pop cruzado com um serial killer, e isso está arruinando minhas chances de conseguir uma namorada. Toda vez que eu convido uma garota para sair, ela olha por cima do meu ombro, vê você ali parado como uma estátua gótica e diz: ‘Ah, o Tyler está solteiro?’ Estou farto de ser o aperitivo, Tyler! Eu quero ser o prato principal!”
“Então diga não a elas”, disse Tyler simplesmente.
“Eu digo! Mas então elas choram, e aí você olha para mim como se eu tivesse assassinado um filhote pessoalmente!”
Tyler finalmente abaixou a bola de beisebol, virando seus olhos escuros e penetrantes para o melhor amigo. Um sorriso lento e irritante surgiu em seus lábios. “Você pareceria terrível com uma namorada de qualquer jeito, Kris. Você provavelmente esqueceria o aniversário dela, vestiria as roupas dela por acidente e choraria durante comédias românticas. Ah, espera — você já faz isso sozinho.”
“Eu sou um homem sensível e multidimensional!” Kris protestou, ficando vermelho brilhante. “Diferente de você, que tem a amplitude emocional de uma parede de porão úmida! Sério, quando foi a última vez que você sequer olhou para uma garota com intenção romântica? Cite uma! Eu te dou cem dólares se você conseguir citar uma única garota em todo este código postal que você quis namorar!”
O sorriso de Tyler desapareceu. O ar casual e provocador evaporou dele instantaneamente, substituído por um silêncio pesado e sufocante. Ele deixou a bola de beisebol cair no colo, a mandíbula travada enquanto encarava fixamente o gramado.
Kris piscou, arrependendo-se instantaneamente do tom. “Uh... Ty? Cara, eu estava brincando. Você não precisa—”
“Não”, Tyler o cortou, sua voz baixando uma oitava, perdendo todo o seu sarcasmo habitual. “Você tem razão. Eu não posso.”
Kris franziu a testa, aproximando-se. “O que você quer dizer?”
Tyler desviou o olhar, os nós dos dedos ficando brancos enquanto ele agarrava a borda do banco da arquibancada. “Esquece isso, Kris.”
“De jeito nenhum, você abriu a porta. Por que você não pode namorar ninguém? Você é um monge secreto? Você é alérgico a estrogênio?”
“Porque”, Tyler murmurou, sua voz mal sendo mais alta que o vento roçando na cerca de arame, “não importaria de qualquer maneira.”
Kris encarou-o, perplexo, antes que uma compreensão repentina o atingisse como um golpe físico. A brincadeira morreu em sua garganta. Ele olhou para o melhor amigo — olhou de verdade — e viu a postura tensa e miserável de seus ombros.
Ah, pensou Kris. Ah, não.
Avançando seis meses. O ensino médio era uma memória, e eles estavam no salão de festas grandioso e exageradamente climatizado de um hotel cinco estrelas.
Era o dia do casamento de Zara.
A irmã mais velha de Kris, Zara — vinte e oito anos, impossivelmente chique e possuindo um intelecto aterrorizante que poderia fazer homens adultos chorarem — estava se casando com um homem chamado Richard, um investidor de risco cujos dentes eram tão brancos que pareciam brilhar no escuro. A recepção era um vórtice giratório de pessoas ricas, taças de champanhe tilintando e quartetos de cordas clássicos tocando versões de músicas pop.
Kris estava perto da fonte de chocolate, vestindo um smoking sob medida que o fazia parecer um anjo principesco, tentando desesperadamente controlar quantos mini éclairs ele tinha consumido.
Ao lado dele estava Tyler. Tyler vestia um smoking preto personalizado que se ajustava aos seus ombros largos e porte musculoso como uma segunda pele. Ele parecia um vilão aristocrático que acabara de herdar uma propriedade mal-assombrada e, consequentemente, três damas de honra diferentes já haviam tentado entregar a ele as chaves de seus quartos. Tyler ignorou todas elas, seus olhos fixos inteiramente na pista de dança onde Zara estava fazendo uma salsa surpreendentemente agressiva com seu novo marido.
Quando o relógio marcou meia-noite e os convidados começaram a sair, Kris encontrou Tyler sozinho perto das portas da varanda, uma taça de scotch meio vazia apertada em sua mão.
Kris caminhou até ele, entregando-lhe um guardanapo. “Noite pesada, quase-cunhado?”
Tyler não pegou o guardanapo. Ele olhou para o céu noturno escuro, sua respiração embaçando levemente o vidro. “Ela se casou.”
“Sim, Tyler. Isso é geralmente o que acontece em casamentos. Normalmente, tem uma certidão envolvida.”
“Ela foi para Paris, Kris.”
“Para a lua de mel, sim. É assim que as luas de mel funcionam. Você geralmente não vai para Ohio.”
Tyler virou a cabeça lentamente, seus olhos castanhos escuros vítreos com uma mistura de melancolia profunda e coragem líquida. Ele olhou para Kris com uma expressão tão devastada que Kris realmente deu um passo para trás, chocado.
“Eu amo ela, Kris”, sussurrou Tyler.
A música do salão cresceu fracamente lá dentro, tocando uma valsa suave e romântica. Kris congelou, um éclair pela metade parado no meio do caminho para sua boca.
“Você... o quê?”
“Eu a amo desde que tinha quatorze anos”, disse Tyler, sua voz falhando levemente — um som que Kris literalmente nunca tinha ouvido na década em que foram amigos. “Desde o dia em que ela voltou da faculdade e nos ajudou a consertar nossa casa na árvore quebrada. Desde que ela me comprou aquele gibi estúpido quando eu estava com catapora. Eu amo a Zara.”
O cérebro de Kris entrou em curto-circuito. Ele encarou Tyler, seus olhos dourados arregalados. “Minha irmã? Minha irmã Zara? Aquela que uma vez te trancou no porão porque você comeu o iogurte artesanal dela?”
“Ela não sabia que era artesanal! Estava escondido atrás das ervilhas congeladas!” Tyler rebateu defensivamente, antes de se recostar contra a porta de vidro, parecendo um herói shakespeariano trágico que acabara de ser esfaqueado pelo melhor amigo. “E ela se casou com o Richard. Richard com os dentes brilhantes. Richard que investe em criptomoedas.”
Kris soltou um bufo súbito e involuntário. Então ele tentou transformar aquilo em uma tosse. Então ele começou a chiar de rir.
“Não ria”, avisou Tyler sombriamente, apontando um dedo para ele. “Isso é uma tragédia de proporções gregas. Minha vida acabou. Eu sou uma casca vazia de homem. Vou morrer sozinho cercado por gatos vadios e planilhas financeiras.”
“Tyler, cara, ela tem vinte e oito anos! Ela estava literalmente me segurando quando deixei cair minha primeira chupeta! Quando tínhamos dez anos, ela costumava nos perseguir pelo jardim com uma mangueira gritando sobre o patriarcado!”
“Ela era feroz”, Tyler suspirou sonhadoramente, olhando para o teto. “Ela era uma tempestade magnífica e aterrorizante.”
Kris apertou a ponte do nariz, sentindo uma enxaqueca se formando atrás de seus olhos cor de âmbar. Memórias brilharam em sua mente: Tyler se voluntariando para carregar os livros pesados de psicologia da Zara durante todo o ensino fundamental; Tyler decorando o aniversário da Zara com meses de antecedência e comprando para ela um livro raro de primeira edição enquanto Kris nem conseguia lembrar em que série ele estava; Tyler espreitando pela cozinha deles como um cachorrinho perdido sempre que Zara voltava para casa no fim de semana, oferecendo-se para consertar o carro dela, limpar as calhas ou basicamente se jogar no trânsito se ela parecesse minimamente incomodada.
Como eu nunca notei? Kris pensou, encarando o destroço patético de um imperador frio parado diante dele. Ele estava jogando xadrez psicológico de longo prazo, e a rainha era minha irmã!
“Ok, ok, pare, pare de parecer um cachorrinho chutado”, Kris suspirou, caminhando até lá e dando tapinhas desajeitados no ombro musculoso de Tyler. “Olha, Ty. Eu te amo como a um irmão, mas você não pode passar o resto da sua vida suspirando por uma mulher casada que agora tem ‘Sra. Sterling’ monogramado nos roupões. Você precisa seguir em frente.”
“Eu não consigo”, Tyler murmurou para seu scotch. “Meu coração está enterrado em Paris com as malas do Richard.”
“Seu coração vai ser enterrado debaixo de uma pedra se você não cair na real”, disse Kris firmemente. “E mais importante — se você não arranjar uma namorada, todas essas garotas da faculdade ainda vão usar a mim como seu serviço de mensageiro pessoal para chegar a você! Você sabe como é humilhante explicar para uma garota que meu melhor amigo está emocionalmente indisponível porque ele está de luto pela felicidade matrimonial da minha irmã? Elas olham para mim como se eu estivesse falando aramaico antigo!”
Tyler finalmente olhou para ele, um lampejo leve e fantasmagórico de seu antigo sorriso voltando. “Bem, o que você propõe, gênio? Você é o estudante de moda. Você lê todas aquelas revistas ridículas com títulos como Dicas de Sedução para Leigos. Como eu ‘arranjo uma vida’?”
Kris estufou o peito, uma faísca de energia pura e caótica brilhando em seus olhos âmbar. “Oh, não, amigo. Você não vai procurar uma. Eu vou encontrar uma para você. Eu vou transformar você em um namorado normal, funcional e não obsessivo, mesmo que isso me mate — ou mate você!”
“Deus ajude quem tentar namorar comigo”, murmurou Tyler para seu copo.
“Amém para isso”, Kris cantarolou alegremente, completamente alheio ao fato de que, em poucos meses, ele seria o único vestindo uma peruca loira, tentando desesperadamente seduzir seu próprio melhor amigo apenas para salvar sua sanidade.




