Capítulo Um: O Bombeiro
Quando o homem morto abriu os olhos, Mara Quinn já sabia que aquela noite tinha dado errado.
A energia tinha falhado duas vezes em dez minutos.
Não completamente. Apenas um piscar de olhos a cada vez. Um engolir seco de escuridão antes que as luzes fluorescentes voltassem a zumbir.
A chuva batia nas janelas estreitas do subsolo do Hospital St. Agnes. A água escorria pelo vidro em fios prateados, distorcendo as luzes do estacionamento lá fora. Em algum lugar acima do necrotério, um trovão rolava sobre Grayhaven.
Mara estava parada ao lado da mesa de exame de aço inoxidável com uma mão enluvada perto do ombro do homem morto.
As pálpebras dele se abriram de repente.
Seus olhos eram azuis.
Claramente. Assustados. Fixos nos dela.
Mara parou de respirar.
Então, o quarto ficou escuro.
As unidades de refrigeração morreram com um suspiro mecânico baixo.
Por um segundo terrível, tudo o que ela conseguia ouvir era a chuva e o pulsar do sangue em seus ouvidos.
O metal rangeu.
Algo se moveu sobre a mesa.
Mara deu um passo para trás, batendo no balcão atrás dela. Os instrumentos tilintaram na bandeja.
As luzes de emergência piscaram.
O necrotério voltou a ter um brilho vermelho fraco.
Fileiras de gavetas de aço alinhavam-se na parede ao fundo. Armários projetavam longas sombras pelo chão de azulejos. A mesa de exame brilhava sob a luz carmesim.
O homem morto estava imóvel.
Seus olhos estavam fechados.
Mara olhou fixamente para ele.
"Não", ela sussurrou.
A palavra desapareceu no silêncio zumbinte.
Ela se forçou a olhar para a prancheta.
AARON PIKE. IDADE 34. CORPO DE BOMBEIROS DE GRAYHAVEN. ESTAÇÃO ONZE.
Declarado morto às 23h07 após um incêndio em um armazém perto da orla leste do rio.
Ele havia carregado duas crianças para fora em meio à fumaça e às chamas que desabavam.
Depois, ele tinha voltado lá dentro.
Aaron era de ombros largos, mesmo sob o lençol, feito como um homem acostumado a levantar peso sem pedir ajuda. Seu cabelo loiro escuro estava úmido e achatado de forma irregular sobre a testa. Fuligem marcava uma de suas maçãs do rosto. Uma cicatriz antiga ia do canto da boca em direção ao maxilar.
Seus olhos permaneceram fechados.
Mara engoliu em seco.
"Você imaginou isso."
Ela não parecia convencida.
A exaustão podia fazer coisas estranhas. Ela assistia a aulas desde a manhã, dormira por apenas quatro horas e depois aceitou cobrir o turno da noite quando outro assistente do necrotério ligou dizendo que estava doente.
Mara sempre aceitava.
Era mais fácil do que explicar por que o subsolo não a assustava.
Os vivos esperavam respostas.
Os mortos pediam apenas dignidade.
Normalmente.
Seu reflexo pairava fracamente no armário de aço ao lado de Aaron. Aos dezoito anos, Mara ainda parecia mais jovem quando estava cansada. O cabelo castanho escuro escapara do coque frouxo na nuca, enrolando-se suavemente ao redor de seu rosto pálido. Sardas cruzavam a ponta do nariz. Seus olhos cinza-esverdeados pareciam grandes demais sob as luzes de emergência.
Ela usava um conjunto de hospital azul-ardósia sob um cardigã preto grande demais e tênis brancos ainda úmidos da caminhada pela tempestade.
As luzes voltaram ao brilho total.
As unidades de refrigeração gemeram ao ligar.
Mara soltou o ar.
Ela deveria ligar para o Dr. Chen.
Em vez disso, ela notou a mão de Aaron.
O lençol tinha deslizado durante o transporte, expondo seu pulso. Queimaduras formavam bolhas em sua pele. Fuligem escurecia as linhas de sua palma e se acumulava sob suas unhas.
Sua mão parecia inacabada.
Como se ele estivesse alcançando algo quando morreu.
Mara ajeitou o lençol.
Seus dedos enluvados roçaram o pulso dele.
Nada aconteceu.
Uma risada nervosa escapou dela.
Claro que nada aconteceu.
Ela puxou a luva e estendeu a mão em direção à caixa no balcão para pegar um par novo.
Suas pontas dos dedos nuas tocaram a pele de Aaron.
O necrotério desapareceu.
O calor atingiu-a como um soco.
Não era calor humano.
Fogo.
Fumaça encheu sua boca. Seus pulmões travaram. Seus olhos ardiam.
Ela estava se movendo.
Não.
Alguém mais estava se movendo através dela.
Seu corpo era maior. Mais pesado. Mais forte.
Um garotinho se agarrava ao seu peito, seu suéter vermelho enegrecido pela fuligem. Suas mãos estavam cerradas na frente do casaco de um bombeiro.
O casaco de Aaron.
Um rádio estalou perto do ouvido de Mara.
"Pike, saia daí! O teto vai cair!"
O armazém gemia ao redor dele.
Chamas subiam pelas prateleiras de metal em lençóis de laranja e branco. Sprinklers cuspiam inutilmente através da fumaça. Em algum lugar acima, o aço gritou.
O menino tossiu contra o peito de Aaron.
"Não solte", disse Aaron.
Sua voz saiu pela garganta de Mara.
Baixa. Rouca. Firme.
"Eu estou com você."
Ele cambaleou pelas portas de carga para a chuva.
O ar frio atingiu seu rosto.
Mãos alcançaram o menino.
Uma paramédica agarrou a manga de Aaron.
"Você já fez o bastante", ela gritou. "Pike, chega."
Então, uma criança gritou dentro do armazém.
Uma menina.
Aaron se virou.
A paramédica apertou sua pegada.
"Não."
Aaron se soltou.
Mara sentiu o medo dele.
Não era algo limpo ou nobre.
Ele sabia que o teto desabaria.
Ele sabia que talvez não saísse de lá novamente.
Mesmo assim, ele correu de volta para dentro.
A fumaça o engoliu.
Ele encontrou a garota embaixo de uma mesa de metal, com talvez seis anos, usando botas de chuva cor-de-rosa e um casaco amarelo manchado de cinzas.
"Eu quero minha mamãe", ela chorou.
"Eu sei", disse Aaron. "Vamos encontrá-la."
O prédio tremeu.
Uma viga despencou.
Aaron cobriu a menina com seu corpo.
A dor explodiu nas costas de Mara.
Aaron empurrou para cima.
Seus ombros tremiam.
A viga se moveu.
Ele levantou a menina e correu.
As portas de carga apareceram através da fumaça.
Dez metros.
Seis.
Três.
Aaron cambaleou para a chuva e entregou a criança aos braços que esperavam.
Então seus joelhos bateram no pavimento.
Alguém gritou seu nome.
Alguém pediu oxigênio.
Aaron olhou para além deles.
Um homem estava parado atrás da linha de fogo.
Imóvel.
Observando.
Ele usava um longo sobretudo preto abotoado até o pescoço. A chuva escurecia seu cabelo prateado. Seu rosto pálido permanecia calmo.
Calmo demais.
Quase satisfeito.
Um símbolo de prata brilhava acima de seu coração.
Um círculo cruzado por três linhas estreitas.
Aaron viu aquilo.
O medo se intensificou dentro dele.
Não medo da morte.
Reconhecimento.
O homem ergueu uma mão em cumprimento.
Aaron tentou falar.
Seus pulmões travaram.
A lembrança se despedaçou.
Mara foi lançada para trás.
Seu ombro bateu com força em um armário. As bandejas dentro dele chacoalharam.
Ela caiu sobre um dos joelhos, ofegante.
O necrotério cheirava a desinfetante e metal frio, mas parecia haver fumaça presa em seus pulmões.
Seus dedos nus formigavam violentamente.
Aaron jazia imóvel sob o lençol.
Morto.
Completamente morto.
Bateram na porta do necrotério.
Mara deu um pulo.
A maçaneta girou antes que ela respondesse.
Dois homens entraram vestindo uniformes cinzas de manutenção.
O primeiro era alto e de ombros largos, com a cabeça raspada e um rosto quadrado de traços rígidos. O segundo era mais magro, com cabelos castanhos penteados cuidadosamente para o lado e olhos claros que percorriam o ambiente rápido demais.
Ele carregava uma prancheta.
“Boa noite”, disse o homem de cabelos castanhos.
Mara olhou para o relógio.
23h56.
“O que vocês querem?”
“Problema na rede elétrica.”
“As luzes já voltaram.”
“Um problema temporário.” O olhar dele passou por ela. “Precisamos da sala.”
Mara notou o crachá dele.
O logotipo do St. Agnes estava quase correto.
Quase.
Os crachás reais de manutenção tinham bordas azuis.
O dele tinha bordas cinzas.
O homem mais alto fechou a porta atrás deles.
Suas botas estavam secas.
As botas de ambos os homens estavam secas.
Lá fora, a chuva inundava as ruas.
Mara sentiu algo estranho se instalar dentro dela.
Não era exatamente calma.
Prontidão.
O homem de cabelos castanhos abaixou a prancheta.
“Você não deveria estar aqui sozinha.”
“Não vou deixar o corpo desacompanhado.”
O sorriso desapareceu do rosto dele.
A porta se abriu atrás deles.
Jonah Reyes entrou no necrotério carregando papéis sob um braço e dois copos de café nas mãos.
Seus cachos escuros estavam úmidos pela tempestade, caindo desordenadamente sobre a testa. Pele morena quente. Olhos cor de mel. Uma cicatriz fina cortava uma das sobrancelhas. Ele usava calças cargo pretas, tênis gastos e uma jaqueta de treinamento de paramédico azul-marinho sobre um moletom encharcado.
Seus sapatos deixavam pegadas molhadas pelo piso.
Os dos homens da manutenção, não.
Jonah percebeu.
Seu olhar se moveu de Mara para os homens, e então para Aaron.
“Trouxe café”, disse ele casualmente.
O homem de cabelos castanhos se virou.
“Estamos trabalhando.”
“À meia-noite?”, perguntou Jonah. “Que dedicação impressionante.”
O homem mais alto deu um passo em direção a ele.
Jonah olhou para Mara.
“O que fazemos?”
A resposta deveria ter vindo rápido.
Chamar a segurança.
Correr.
Trancar a porta.
Em vez disso, Mara congelou.
Muitas possibilidades surgiram de uma vez.
Se corressem, os homens poderiam segui-los.
Se lutassem, Jonah poderia se machucar.
Se ela escolhesse o caminho errado—
Alguém mais pagaria por isso.
O homem mais alto se moveu.
Jonah não esperou.
“Corredor de serviço.”
Ele jogou um dos cafés no rosto do homem de cabelos castanhos.
O copo estourou.
Líquido quente espirrou no queixo do homem.
Jonah agarrou o pulso de Mara e a puxou para a porta lateral.
Eles correram.
O corredor de serviço depois da patologia era estreito e mal iluminado, repleto de painéis utilitários e carrinhos de metal. Luzes de emergência brilhavam em âmbar no teto.
Passos soaram atrás deles.
Rápidos.
“Esquerda”, disse Jonah.
Eles fizeram a curva e alcançaram o corredor da baia de carregamento.
Uma placa vermelha de SAÍDA brilhava acima da porta ao fundo.
Quase lá.
O homem de cabelos castanhos bloqueou o caminho.
Ele deve ter pego outro caminho.
Sua camisa molhada colava no peito. O café manchava um lado de seu rosto.
A prancheta havia sumido.
Uma pistola preta estava em sua mão.
“Parem.”
Mara freou bruscamente.
Passos se aproximavam por trás.
O homem mais alto.
Se aproximando.
“Mãos onde eu possa vê-las”, disse o homem armado.
Jonah levantou as mãos lentamente.
Mara fez o mesmo.
Seus dedos nus tremiam.
O homem mais alto os alcançou por trás e jogou Jonah contra a parede.
“Jonah!”
Mara se moveu.
O homem mais alto pegou uma bandeja de aço inoxidável de um carrinho e a balançou em direção ao rosto dela.
A bandeja brilhou como prata.
Mara a segurou.
O impacto percorreu seu pulso.
Mas ela não recuou.
O homem encarou.
Mara também.
O calor surgiu dentro dela.
Força.
Fumaça.
Aaron.
Mara arrancou a bandeja das mãos dele e o empurrou para longe.
Ele voou para trás contra a parede de azulejos.
O homem armado levantou a pistola.
Uma maca estava por perto.
Estrutura de aço pesada. Rodas travadas.
Mara a agarrou e levantou.
A maca inteira subiu de lado.
Ela a empurrou pelo corredor.
A maca bateu entre eles, jogando o homem armado contra a parede.
Sua pistola deslizou pelo chão.
Jonah encarou Mara.
“O que foi isso?”
“Eu não sei.”
“Descobrimos depois.”
Ele a puxou para uma sala segura da patologia e passou seu crachá.
Luz verde.
A porta destravou.
Eles entraram às pressas e bateram a porta.
A maçaneta foi sacudida violentamente do outro lado.
Jonah passou a tranca e firmou as costas contra a porta.
Mara estava no centro da pequena sala de armazenamento, respirando com dificuldade.
O corredor ficou em silêncio.
Silêncio demais.
Seu corpo ainda vibrava com a força emprestada.
Jonah olhou para ela, pálida sob as luzes fracas.
“Mara”, sussurrou ele. “O que aconteceu lá dentro?”
Ela encarou a porta.
A maçaneta trêmula.
Sua própria mão nua.
Então, a verdade se instalou friamente dentro dela.
Aqueles homens não vieram por arquivos.
Não vieram pelas câmeras de segurança.
Não vieram nem por ela.
Eles vieram por Aaron Pike.
Um bombeiro morto.
E de alguma forma, antes mesmo de Mara tocá-lo, eles já sabiam exatamente quanto o corpo dele valia. Capítulo Dezessete: A Descida









As soon as I got answers I got more questions and in need me some answers while not sure if I want the answers. Also very immersive keep going.
tyy my love