Prólogo
A neve havia parado, mas o frio que se instalara sobre Ravenshade não era o do inverno que se retirava - era outro, mais antigo, que se infiltrava nas pedras do castelo e na alma de quem ali habitava.
Na capela do palácio, as velas ardiam baixas, e suas chamas tremiam não pelo vento, mas por algo que nenhum dos padres ali presentes saberia nomear. O Padre Gregor benzia as paredes pela terceira vez naquela noite, murmurando as palavras que o Bispo Mathias lhe ensinara, enquanto o Padre Elias, ajoelhado diante do altar, sentia o peso de um silêncio que não devia existir num lugar sagrado.
Nos calabouços, Grimalda já não dormia. Ou talvez nunca mais dormiria - não como antes, não como humana. Seus olhos, antes castanhos e gentis, agora guardavam um vazio que se alimentava da escuridão entre as pedras, e em seus lábios, palavras de uma língua esquecida ecoavam baixinho, como uma canção de ninar para algo que ainda dormia, mas que despertaria em breve.
Em sua cela vizinha, Helena ouvia tudo. E rezava - não às mesmas divindades que o Bispo invocava, mas a algo mais antigo, mais silencioso, que parecia responder-lhe com o frio que subia pelo chão de pedra.
No gabinete, o Conde Alistar não dormia também. Sobre sua mesa, a carta ao Alto Magistrado já havia partido, levando consigo o destino de Helena e, com ele, talvez o destino de todo o condado. Ele sabia - sentia nos ossos, como sentira a morte de sua esposa anos atrás - que aquele julgamento não traria paz. Traria apenas o início de algo que nenhuma fogueira seria capaz de extinguir.
E nas profundezas que nenhum mapa registrava, onde nem mesmo a luz do dia ousava penetrar, algo se movia - não com pressa, pois o tempo, para o que ali reinava, não significava o mesmo que para os homens.
Mais ao norte, Vor'Khaless avançava sobre as terras que já reconheciam seu domínio; no Salão Oval, vozes antigas começavam a se dissolver como névoa ao sol; e o destino, indiferente a fogueiras e julgamentos, já reservava a Conrrad e a Grimalda títulos que um dia pertenceram a outros - enquanto, distante das vistas da corte, Tylda Veilborn reunia-se em segredo com Mayrá, Anhangá, Uirá e Dariam Mordrak, fundando uma irmandade que nenhum mapa registraria e nenhuma lei reconheceria.
Vor'Khaless acenderia. Ravenshade era, enfim, a próxima fronteira de seu reino.








