Poppy Hartwell
Fintan Callaghan não gostava de livrarias.
Não porque não gostasse de livros. Muito pelo contrário. Sua cobertura em Hampstead abrigava uma biblioteca cuidadosamente organizada, com estantes do chão ao teto feitas por um marceneiro especializado de Bath, e primeiras edições ocupando lugares de destaque atrás de vidros. Para Fintan, os livros representavam conhecimento, trabalho artesanal e permanência.
As livrarias, no entanto, representavam ineficiência.
Sem um sistema claro. Clientes vagando sem rumo. Funcionários organizando prateleiras em velocidades inexplicáveis. O cheiro de café se misturando aos livros de capa comum. Tudo aquilo era bastante caótico.
Ele estava parado logo após a porta da Foxglove Books, com uma mão no bolso do sobretudo azul-marinho enquanto o pequeno sino de latão anunciava sua chegada.
Lá fora, Londres seguia em seu ritmo impaciente de sempre. Lá dentro, a atmosfera mudou imediatamente.
Aconchego.
Uma música instrumental suave tocava em algum lugar acima.
O cheiro de café e papel.
Um spaniel dormia sob um mostruário intitulado Livros Que Fazem Você Se Sentir em Casa.
Fintan franziu a testa levemente para a placa.
Ele tinha quarenta e sete anos, era diretor executivo da Callaghan Human Capital e totalmente capaz de comprar um presente de aniversário sem ajuda.
Na teoria.
Na prática, era impossível comprar algo para Marcus.
Fintan vinha tentando resolver o problema há três semanas.
Marcus tinha dinheiro. Mais do que o suficiente para adquirir o que quisesse para si mesmo. Ele valorizava a qualidade, mas tinha pouca paciência para futilidades. Flores seriam um absurdo. Uísque, previsível. Experiências dificilmente o agradariam.
Livros continuavam sendo a única opção viável.
Infelizmente, Fintan não fazia ideia de por onde começar.
Ele foi mais para o fundo da loja.
Um jovem estava sentado de pernas cruzadas no chão na seção de viagens, absorto em um guia sobre o Japão. Duas senhoras discutiam os méritos de Agatha Christie versus Dorothy L. Sayers com uma ferocidade surpreendente. Em algum lugar mais ao fundo, alguém riu baixinho.
Não havia um balcão de recepção no sentido tradicional.
Em vez disso, havia um balcão largo de carvalho coberto com pilhas de títulos recém-chegados.
Atrás dele, uma jovem reorganizava uma vitrine de clássicos de capa dura.
Seu cabelo loiro-mel caía em ondas longas e naturais pelas costas, capturando a luz do fim da tarde que entrava pelas janelas da frente. Ela usava um cardigã verde-floresta sobre uma blusa creme, com um pequeno colar de prata descansando na base do pescoço. Óculos de leitura estavam pousados no topo de sua cabeça.
Ele não notou nada disso imediatamente.
O que ele notou foi a expressão em seu rosto.
Contentamento.
Como se organizar livros fosse uma maneira perfeitamente razoável de passar uma tarde de terça-feira.
Ele se aproximou do balcão.
Ela olhou para cima.
"Oi", disse ela, sorrindo gentilmente. "Posso ajudá-lo a encontrar alguma coisa?"
A pergunta foi tão direta que Fintan acabou respondendo com sinceridade.
"Espero que sim."
O sorriso se alargou um pouco.
"O que estamos procurando?"
"Um presente de aniversário."
"Isso é fácil de resolver", garantiu ela.
Fintan quase sorriu.
"É para um amigo."
"Conte-me sobre ele."
Ele hesitou.
O pedido em si não era desarrazoado.
No entanto, impressionou-o como a maioria das pessoas abordava essas interações de forma diferente.
Elas recomendavam best-sellers.
Vales-presente.
Livros de arte para mesas de centro.
Aquela jovem queria contexto.
"Ele é...", Fintan pausou. "Exigente."
Os cantos dos olhos dela se enrugaram.
"Notei que as pessoas costumam dizer 'exigente' quando querem dizer 'difícil'."
"Ele não é difícil."
"Não?"
"Não."
Ela se inclinou levemente sobre o balcão.
"O que ele lê?"
"História. Psicologia. Filosofia. True crime."
"Ficção?"
"Ocasionalmente."
"Ele relê livros?"
Fintan piscou.
"Sim."
"Faz anotações neles?"
"Religiosamente."
A jovem assentiu com seriedade.
"Capa dura ou brochura?"
"Capa dura."
"Qual é o livro favorito dele?"
Fintan refletiu.
"Eu não sei."
A admissão pareceu mais estranha em voz alta.
O sorriso que ela ofereceu não continha julgamento.
"Então vamos trabalhar de trás para frente."
Ela contornou o balcão.
"Eu sou Poppy, a propósito."
"Poppy?"
"Hartwell."
"Fintan Callaghan."
"Prazer em conhecê-lo, Sr. Callaghan."
"Fintan está ótimo."
Poppy o guiou pela loja com uma facilidade que sugeria que ela conhecia cada estante intimamente.
"O que seu amigo faz?"
"Ele trabalha com investimento privado."
"E ele preferiria ser deixado em paz em uma festa?"
As sobrancelhas de Fintan se ergueram.
"Sem hesitar."
Poppy riu baixinho.
"Certo."
Ela parou diante de uma seção de ficção literária.
"Ele gosta de pessoas?"
"Muito poucas."
"Interessante."
Fintan viu-se observando-a enquanto ela examinava as prateleiras.
Não havia nada de apressado em seus movimentos.
Nada performático.
Ela não estava tentando impressioná-lo.
Ela estava tentando resolver um problema.
Eventualmente, ela retirou um livro de capa dura e se virou para ele.
"Acho que ele poderia gostar deste."
Fintan aceitou o livro.
"Você não sabe se ele vai gostar?"
Poppy inclinou a cabeça.
"Acho que livros são um pouco como apresentações", disse ela pensativa. "O certo faz com que as pessoas se sintam compreendidas. Isso não significa necessariamente que elas vão gostar dele."
Ele olhou para a capa.
Depois olhou para ela novamente.
"Você parece ser muito boa nisso."
A cor subiu às bochechas dela.
“Eu só gosto muito de ajudar as pessoas a encontrarem histórias que elas levarão consigo.”
A simplicidade da afirmação o pegou desprevenido.
Sem menção a metas de vendas.
Sem pensamento estratégico.
Sem autopromoção.
Apenas uma sinceridade tranquila.
Um cliente apareceu ao lado deles segurando um exemplar de Rebecca.
“Desculpe”, disse a mulher. “Você por acaso sabe se tem alguma recomendação da Daphne du Maurier?”
Poppy se animou na hora.
“Ah, com certeza.”
Ela se virou para Fintan.
“Pode me dar dois minutos?”
“Claro.”
Fintan permaneceu onde ela o deixara.
Ele observou enquanto ela guiava a cliente para outra seção, falando animadamente sobre atmosfera, suspense e o litoral da Cornualha.
A cliente riu.
Poppy riu também.
As senhoras perto da seção de crimes chamaram pelo nome dela.
O spaniel que dormia levantou a cabeça quando ela passou.
Havia uma força de atração curiosa nela.
Não era carisma.
Não era beleza.
Era algo mais suave.
As pessoas ficavam relaxadas perto de Poppy Hartwell.
Cinco minutos depois, ela retornou.
“Desculpe por isso.”
“Não precisa se desculpar.”
“Você se decidiu?”
Fintan olhou para o livro em suas mãos.
“Acho que sim.”
Poppy sorriu.
“Espero que seu amigo goste.”
“Eu também.”
Enquanto ela embrulhava o livro em um papel pardo e amarrava uma fita azul-marinho ao redor do pacote, ela perguntou casualmente: “Você sempre compra presentes de aniversário três dias antes da data?”
Ele levantou o olhar.
“Você se lembrou disso?”
“Você disse que era para sábado.”
“Ah.”
Poppy deslizou o pacote para ele.
“Acho que ele vai apreciar o esforço.”
Fintan pegou a carteira.
“Tenho certeza de que ele vai.”
Ao sair da loja, minutos depois, com o presente sob o braço, ele percebeu que passara quase quarenta minutos dentro da Foxglove Books.
Quarenta minutos discutindo literatura com uma livreira de vinte e um anos.
Era ridículo.
O sino de latão tocou suavemente atrás dele conforme a porta se fechava.
Londres pulsava ao seu redor mais uma vez.
Trânsito.
Vozes.
Prazos.
Seu celular vibrou com uma mensagem do seu advogado sobre o processo de divórcio.
Fintan olhou brevemente para a tela antes de guardar o aparelho no bolso.
Então, inesperadamente, ele pensou em Poppy Hartwell.
Na forma como ela o ouvira.
Na seriedade com que ela tratou o presente de aniversário de um estranho.
Na certeza tranquila com que ela falara sobre histórias.
Uma sensação estranha se instalou sob suas costelas.
Não era atração.
Ainda não.
Algo mais calmo.
Alívio.
Como se, por um breve momento, ele tivesse entrado em um mundo onde nada precisava ser consertado.
Então o sinal de trânsito mudou.
Fintan ajustou o pacote sob o braço e continuou andando.
Atrás dele, sem ser notado, o pequeno sino de latão sobre a Foxglove Books tocou novamente enquanto outro cliente entrava.
Fintan entrou no sobrado pouco depois das sete.
A casa era linda.
Sempre fora.
Uma propriedade vitoriana de seis quartos em Chelsea, com tetos altos, lareiras originais e aquele tipo de elegância discreta que parecia sem esforço, até que se percebia quanto dinheiro era necessário para mantê-la. Flores frescas estavam no hall de entrada. Música clássica vinha suavemente de algum lugar do andar de cima. O perfume de velas caras pairava no ar.
Victoria sempre teve o dom de fazer os ambientes parecerem vividos.
Fintan colocou as chaves no prato de porcelana ao lado da porta e afrouxou a gravata.
“Vic?”, ele chamou.
“Aqui dentro.”
Ele seguiu o som da voz dela em direção à cozinha.
Victoria estava junto à ilha de mármore, descalça apesar das pedras frias sob seus pés. Cachos escuros escapavam do coque frouxo na nuca, e ela usava calças de linho manchadas de tinta e um dos seus antigos moletons da universidade. Uma taça de vinho branco pela metade estava ao lado de um notebook que exibia amostras de cores para algum evento de caridade que ela aparentemente ajudava a organizar.
Ela levantou o olhar quando ele entrou.
“Aí está você.”
Fintan atravessou o cômodo e deu um beijo rápido em sua bochecha, mais por hábito do que por afeto.
“Como foi seu dia?”
“Três reuniões de comitê, um desastre de patrocínio e uma discussão com um florista que insistia que rosas bege são elegantes.” Victoria pegou seu vinho. “Elas não são. São flores de funeral fingindo ser champanhe.”
Fintan quase sorriu.
“Como foi o seu?”
Ele mostrou o pacote de papel pardo.
“Encontrei o presente de aniversário do Marcus.”
Victoria encarou o objeto.
“Você está obcecado com isso há semanas.”
“Não é fácil comprar para ele.”
“Ninguém que possui seis relógios e uma ilha é fácil de presentear.”
Fintan colocou o pacote cuidadosamente sobre a ilha.
Victoria o pegou imediatamente.
“O que é?”
“Um livro.”
Sua expressão se fechou.
“Um livro.”
“Marcus gosta de ler.”
“Marcus gosta de analisar as pessoas”, corrigiu Victoria. “Ler é apenas como ele adquire informações.”
Ela desamarrou a fita azul-marinho sem esperar permissão.
Fintan resistiu à vontade de impedi-la.
Victoria abriu o papel pardo.
Então piscou.
“Ah.”
“Ah?”
“Ah, não.”
Fintan franziu a testa.
“O quê?”
Victoria ergueu o livro de capa dura.
“Ele vai odiar isso.”
“Ele não vai.”
“Ele com certeza vai.”
“Você não leu.”
“Eu não preciso ler.”
Victoria agitou o livro no ar.
“Marcus é o tipo de homem que organiza documentos legais por cores e que provavelmente tem uma marca preferida de clipes de papel.”
“Ele não tem.”
“Vê só?” Victoria disse triunfante. “Você sabe disso na hora. Porque você já pensou sobre o assunto.”
Fintan apertou a ponte do nariz.
“Victoria.”
“Eu estou falando sério.”
Ela colocou o livro de volta no balcão.
“Marcus gosta de certezas. Isso...” ela gesticulou vagamente para o romance, “...parece introspectivo.”
“Ele gosta de introspecção.”
“Ele gosta de ter razão.”
“Ele pode gostar das duas coisas.”
Victoria suspirou dramaticamente.
“É por isso que eu não entendo os homens.”
“As mulheres dificilmente são diretas.”
Victoria riu.
“Não, mas pelo menos nós admitimos isso.”
Fintan pegou o pacote.
“É um presente atencioso.”
“É um presente terrível.”
“Não é.”
“É sim.”
Fintan olhou para ela.
“Por quê?”
Victoria devolveu o olhar.
“Porque o Marcus não quer algo atencioso.”
“O que ele quer?”
Victoria não hesitou.
“Reconhecimento.”
A certeza no tom dela irritou-o desproporcionalmente.
“Você o encontrou três vezes.”
“Eu o observei três vezes.”
“Isso dificilmente é suficiente.”
Victoria tomou um gole de vinho.
“Você pediu a minha opinião.”
“Eu perguntei se você achava que ele gostaria do presente.”
“E eu disse que não.”
“Então talvez devêssemos deixar por isso mesmo.”
Victoria abaixou a taça.
A atmosfera mudou.
Sutilmente.
Quase imperceptivelmente.
“Na verdade, você não quer a minha opinião”, disse ela.
“Isso não é verdade.”
“É sim.”
“Não.”
“Você só quer que eu concorde.”
Fintan sentiu um cansaço se espalhar silenciosamente sob suas costelas.
“Estamos discutindo um presente de aniversário.”
“Estamos discutindo o fato de que toda conversa vira uma negociação.”
“Eu discordo.”
Victoria riu.
“Claro que discorda.”
O silêncio instalou-se entre eles.
Fintan envolveu o pacote com a fita novamente, com uma precisão cuidadosa.
Do outro lado da cozinha, Victoria o observava.
“Sabe”, disse ela depois de um momento, “o Marcus provavelmente vai apreciar o esforço.”
Fintan levantou o olhar.
“Mas?”
“Mas eu ainda acho que ele vai odiar o livro.”
Apesar de si mesmo, um sorriso relutante puxou o canto de sua boca.
Victoria notou imediatamente.
“Aí está ele.”
“Aí está quem?”
“O homem com quem me casei antes de ele virar o Diretor Executivo de Tudo.”
“Eu nunca fui o Diretor Executivo de Tudo.”
“Você tentou otimizar o itinerário da nossa lua de mel.”
“Foi um sucesso logístico.”
Victoria gemeu.
“Você agendou o descanso.”
“Isso evitou um estresse desnecessário.”
Victoria olhou para ele por um longo momento.
Então ela sorriu.
Suavemente, desta vez.
“Nós somos impossíveis, não somos?”
Fintan encontrou o olhar dela.
Por um breve segundo, ele os viu como eles costumavam ser.
Brilhantes.
Divertidos.
Completamente incompatíveis um com o outro.
“Não”, disse ele calmamente.
“Apenas diferentes.”
O sorriso de Victoria vacilou nas bordas.
“Imagino que esse seja o problema.”
Nenhum deles mencionou o divórcio.
Nenhum precisava mencionar.
Os papéis já existiam.
Os advogados já tinham sido instruídos.
O fim tinha começado muito antes de qualquer um deles admitir em voz alta.
Victoria terminou o restante de seu vinho.
“Então”, disse ela levemente. “Quando Marcus inevitavelmente odiar o seu presente atencioso, eu posso dizer ‘eu te avisei’?”
Fintan prendeu o pacote sob o braço.
“De jeito nenhum.”
Victoria sorriu.
“Vê só? É exatamente disso que estou falando.”
“O quê?”
“Você nunca me deixa ganhar.”
Fintan olhou para ela.
Para a mulher vibrante que todos adoravam.
A mulher que argumentava apaixonadamente sobre política, arranjos de flores, romances, reservas em restaurantes e o uso apropriado de ponto e vírgula.
A mulher que, certa vez, pareceu tão viva que amá-la era como estar perto demais de uma fogueira.
Ela não estava errada.
Ele não a deixava ganhar.
E ela nunca parava de tentar.
“Vou pedir o jantar”, anunciou Victoria, já pegando o celular. “Você escolhe.”
Fintan hesitou.
Então:
“O que você preferir.”
Victoria bufou.
“Ah, de jeito nenhum.”
E por razões que não conseguia explicar totalmente, Fintan deu por si a pensar em ondas castanho-douradas e olhos cor de avelã atrás do balcão de uma livraria.
Em uma jovem que ouvia com atenção antes de fazer uma recomendação.
Uma jovem que tinha dito:
Eu acho que os livros são como apresentações. O certo faz as pessoas se sentirem compreendidas.
Poppy Hartwell nunca o contradissera nem uma vez.
O pensamento veio e foi tão rápido que ele mal percebeu.
Ele certamente não o analisou.
Em vez disso, ele afrouxou a gravata mais um pouco e seguiu Victoria para a sala de jantar, com o livro embrulhado ainda guardado firmemente sob o braço.
Atrás dele, despercebida na ilha da cozinha, a fita azul-marinho que Poppy tinha amarrado permanecia em um laço perfeito.





