A garota sem lobo
O último dia de aula deveria ser importante.
Para a maioria dos formandos da Blackwood Academy, era.
Era o fim de um capítulo e o começo de outro. O dia em que deixavam de ser crianças e entravam na vida adulta.
Para lobisomens, a vida adulta significava responsabilidade.
Significava descobrir seu lugar na alcateia.
Encontrar seu lobo.
Encontrar seu parceiro.
Encontrar a si mesmo.
Luna Blackwood sentou-se na última fileira da aula de história, olhando pela janela enquanto todos ao seu redor riam e falavam sobre as festas de formatura.
O sinal final tocaria em menos de dez minutos.
Todos pareciam animados.
Todos, exceto ela.
“Você vai hoje à noite?”, sussurrou sua amiga Maya.
Luna piscou e desviou o olhar da janela.
“Hã?”
“A fogueira.”
“Ah.”
Maya revirou os olhos.
“Você não estava ouvindo.”
“Desculpe.”
“Você vive com a cabeça em outro lugar a semana toda.”
Luna forçou um sorriso.
“Estou bem.”
Era a mesma mentira que ela contava há anos.
Maya não estava convencida.
“Seu aniversário é amanhã.”
Lá estava ele.
O assunto que Luna tentava desesperadamente evitar.
Dezoito anos.
A idade pela qual todo lobisomem esperava.
A idade em que o lobo despertava completamente.
A idade em que eles se tornavam oficialmente parte da alcateia.
Uma onda de empolgação tomou a sala de aula quando alguém mencionou sua próxima transformação.
Luna desviou o olhar.
Ela não precisava de outro lembrete.
Aos dezesseis anos, a maioria dos lobos começava a ouvir sussurros do seu lado lobo.
Aos dezessete, eles sentiam instintos mais fortes e sentidos aguçados.
Aos dezoito, o vínculo estava completo.
Luna não tinha experimentado nada disso.
Nada.
Sem voz.
Sem instintos.
Sem lobo.
Como se parte dela simplesmente não existisse.
O sinal tocou.
Todos saltaram de seus lugares.
Gritos de alegria ecoaram pela sala.
Livros foram fechados com força.
Cadeiras arrastaram pelo chão.
O ano letivo tinha acabado.
Luna permaneceu sentada por mais um momento.
Observando.
Ouvindo.
Sentindo-se mais sozinha do que nunca.
“Pronta?”, perguntou Maya.
Luna se levantou.
“O mais pronta que posso estar.”
Juntas, elas caminharam até o corredor lotado.
Alunos se abraçavam.
Professores desejavam sorte.
Pais esperavam do lado de fora.
O prédio inteiro vibrava de animação.
Então, a multidão se moveu de repente.
Abrindo alas.
Saindo do caminho.
Luna não precisou olhar para saber o porquê.
Noah Nightfang tinha chegado.
Futuro Alfa.
O queridinho da alcateia.
Toda conversa parecia parar sempre que ele entrava em uma sala.
Ele caminhava pelo corredor cercado de amigos.
Alto.
Confiante.
Irritantemente bonito.
Cabelos escuros caíam sobre sua testa enquanto risadas ecoavam ao seu redor.
As garotas o observavam passar.
Os garotos o respeitavam.
Os professores o adoravam.
Luna o odiava.
Como se sentisse o olhar dela, Noah olhou para cima.
Seus olhos se encontraram.
Por um segundo, nenhum dos dois se moveu.
Então, a expressão dele endureceu.
O sorriso sarcástico de sempre apareceu.
“Ainda por aqui, Blackwood?”
Luna suspirou.
Lá estava ele.
Bem na hora marcada.
“O que te fez pensar isso?”, ela perguntou com frieza.
Os amigos dele riram.
Noah cruzou os braços.
“Imaginei que talvez você tivesse finalmente fugido para se juntar aos humanos.”
Risadas explodiram ao seu redor.
A piada era velha.
De anos atrás.
Mas, por algum motivo, ele nunca se cansava dela.
Porque todos sabiam o que ele queria dizer.
Sem lobo.
Quebrada.
Diferente.
Luna sentiu o calor subir em seu peito.
"É bom saber que sua criatividade não melhorou desde o ensino fundamental."
Alguns alunos riram.
Desta vez, de Noah.
O sorriso presunçoso dele desapareceu.
Bom.
Por um breve momento, uma sensação de satisfação a aqueceu.
Então, Noah se aproximou.
Perto o suficiente para que ela pudesse ver os pontos verdes em seus olhos.
Perto o suficiente para que ela se lembrasse de uma época em que ele não a olhava como uma inimiga.
"Você deveria ter cuidado amanhã", disse ele baixinho.
Luna franziu a testa.
"O quê?"
Mas Noah já estava se afastando.
Seus amigos o seguiram.
Em segundos, ele desapareceu no meio da multidão.
Maya ficou olhando para onde ele fora.
"O que foi isso?"
Luna observou o corredor vazio.
"Quem dera eu soubesse."
A casa dos Blackwood ficava perto da borda do território da alcateia.
Ao contrário da enorme propriedade do Alfa, a casa do Beta parecia calorosa e cheia de vida.
O cheiro de pão fresco recebeu Luna no segundo em que ela abriu a porta da frente.
"Ela chegou!", chamou sua mãe.
Luna sorriu, apesar de si mesma.
Sua família podia ser estranha.
Eles podiam esconder coisas.
Mas a amavam.
Disso ela não tinha dúvida.
Seu pai emergiu do escritório primeiro.
David Blackwood.
O Beta.
O segundo em comando de toda a alcateia.
Alto e de ombros largos, ele parecia intimidador para quase todos.
Exceto para Luna.
Para ela, ele era simplesmente o papai.
"Aí está minha formanda."
Antes que ela pudesse reagir, ele a envolveu em um abraço esmagador.
"Pai!"
"Estou orgulhoso de você."
Ela riu.
"Você diz isso todos os dias."
"Porque é verdade todos os dias."
Um calor se espalhou por seu peito.
Por um momento, ela esqueceu o mal-estar que a perseguia constantemente.
Esqueceu as perguntas.
Esqueceu os sussurros.
Então ela notou.
Um olhar.
Uma troca de olhares entre seus pais.
Desapareceu quase instantaneamente.
Mas ela percebeu.
Novamente.
O mesmo olhar.
Aquele que ela vira a vida toda.
Preocupação.
Medo.
Culpa.
Alguma coisa.
"O quê?", perguntou Luna.
Ambos os pais congelaram.
"O que o quê?", respondeu sua mãe.
"Aquele olhar."
"Que olhar?"
"Aquele que vocês acabaram de trocar."
Silêncio.
Silêncio demais.
Então seu pai sorriu.
"Você sempre teve uma imaginação ativa."
Lá estava ele.
Desvio.
Novamente.
O estômago de Luna revirou.
"Certo."
Sua mãe mudou de assunto imediatamente.
"O jantar está quase pronto."
Claro que estava.
Sempre que Luna chegava perto de uma pergunta, alguém mudava de assunto.
Todas as vezes.
Naquela noite, Luna não conseguiu dormir.
O luar entrava pela janela do seu quarto.
Sombras prateadas se estendiam pelas paredes.
Ela encarava o teto.
Amanhã ela faria dezoito anos.
Amanhã tudo deveria fazer sentido.
Só que ela já sabia que não faria.
Uma batida suave interrompeu seus pensamentos.
Seu pai entrou carregando duas canecas.
"Também não conseguiu dormir?", perguntou ele.
Luna sentou-se.
Ele lhe entregou um chocolate quente antes de se acomodar ao lado dela.
Por um tempo, ninguém falou nada.
O silêncio parecia confortável.
Familiar.
Então, Luna finalmente fez a pergunta que carregava há anos.
"Pai?"
"Hm?"
"O que há de errado comigo?"
O corpo dele ficou tenso.
A reação durou menos de um segundo.
Mas foi o suficiente.
Luna viu.
Medo.
Medo real.
“Pai.”
“Você não está quebrada.”
“Então por que eu não tenho um lobo?”
Silêncio.
Daquele que machuca.
Daquele que respondia mais do que qualquer palavra poderia.
Luna foi a primeira a desviar o olhar.
Lágrimas ameaçavam cair.
“Está vendo?”, ela sussurrou.
“O quê?”
“Você não vai responder.”
O pai dela encarava a própria caneca.
Pela primeira vez na vida, ele parecia cansado.
Mais velho.
Como se carregasse um fardo pesado demais.
“Eu queria poder explicar.”
“Então explique.”
A dor passou pelo rosto dele.
“Você precisa confiar em mim.”
Luna riu com amargura.
“Esse é o problema.”
Os olhos dele se arregalaram.
Ela se arrependeu imediatamente de ter dito aquilo.
Porque ela o amava.
Amava seus dois pais.
Mas ela estava cansada.
Cansada de mentiras.
Cansada de segredos.
Cansada de ser tratada de um jeito diferente.
“O que você não está me contando?”, ela perguntou baixinho.
O pai dela fechou os olhos.
Por um momento, ela achou que ele finalmente responderia.
Que finalmente contaria a verdade.
Em vez disso, ele se levantou.
“Feliz aniversário, Luna.”
Então ele foi embora.
Deixando-a sozinha com perguntas.
De novo.
Logo após a meia-noite, Luna saiu escondida.
A floresta sempre a acalmava.
O ar fresco era bom na sua pele.
Os grilos cantavam na escuridão.
As folhas farfalhavam acima dela.
Pela primeira vez no dia todo, ela conseguia respirar.
Ela caminhou para mais fundo entre as árvores.
Passou pelas trilhas familiares.
Passou pelos velhos campos de treino.
Passou pelos lugares onde ela e Noah costumavam brincar quando crianças.
Uma lembrança surgiu.
Ela não conseguiu evitar.
Oito anos de idade.
Dando risadas.
Correndo pela floresta.
Noah correndo atrás dela.
“Você está roubando!”, ele gritou.
“Não estou!”
“Você saiu na frente!”
A pequena Luna riu tanto que tropeçou.
Noah parou na hora.
Em vez de zombar dela, ele estendeu a mão.
“Está tudo bem?”
Ela assentiu.
“Estou bem.”
O menino sorriu.
Então ele colocou uma pequena coroa de flores na cabeça dela.
“Eu que fiz.”
Luna piscou.
“Para mim?”
Ele deu de ombros, sem jeito.
“Óbvio.”
A lembrança se quebrou.
Luna parou de andar.
O peito dela doeu.
Porque aquele Noah não existia mais.
Em algum momento entre a infância e agora, ele desapareceu.
Substituído por alguém cruel.
Alguém frio.
Alguém que ela mal reconhecia.
Uma dor repentina explodiu atrás dos seus olhos.
Luna arfou.
O mundo girou.
As árvores ficaram embaçadas.
Um zumbido estranho encheu seus ouvidos.
Então—
Um grito.
O grito de uma mulher.
Sangue cobrindo pedras.
Correntes de prata.
Olhos dourados brilhando na escuridão.
Uma voz sussurrou:
“Acorde.”
Luna tropeçou para trás.
A visão desapareceu instantaneamente.
O silêncio voltou.
Seu coração batia forte.
“O que foi isso?”
O medo percorreu suas veias.
Não pelo que ela tinha visto.
Mas porque parecia familiar.
Como algo enterrado bem fundo na sua mente.
Algo tentando desesperadamente escapar.
Em algum lugar na escuridão, um lobo uivou.
O som ecoou pela floresta.
Ancestral.
Solitário.
À espera.
E, pela primeira vez em dezoito anos, Luna não tinha certeza se estava sozinha dentro de si mesma.








