Prólogo
A Noite em que a Lua se Tingiu de Sangue.
A Alcateia Silvercrest não via uma Lua de Sangue há quase três séculos.
Os anciãos a chamavam de presságio sagrado. Os sacerdotes proclamavam ser a maior bênção da Deusa da Lua. Todo lobo sem par acreditava que a lua carmesim revelaria destinos transformadores antes do amanhecer.
Lyra desejava que o céu tivesse permanecido escuro.
Ventos gelados das montanhas varriam os pinheiros imponentes enquanto centenas de membros da alcateia se reuniam no antigo Círculo da Lua. Grandes pilares de pedra cercavam o solo sagrado, com suas superfícies gastas esculpidas com os nomes de cada Alfa e Luna que governou Silvercrest desde sua fundação. Tochas tremeluziam entre os pilares, projetando sombras inquietas sobre rostos ansiosos.
A empolgação pairava em cada conversa sussurrada.
Esta noite, futuros líderes conheceriam os companheiros escolhidos pela Deusa da Lua.
Esta noite, laços inquebráveis seriam formados.
Lyra estava perto do fundo da multidão, esperando que ninguém notasse suas mãos trêmulas. Seu vestido cerimonial branco e simples não tinha o bordado e o fio de prata usados pelas filhas das famílias nobres. Ela o havia pegado emprestado de uma ômega mais velha, depois de passar semanas convencendo a si mesma de que não compareceria.
Uma ômega não tinha motivos para esperar pelo destino.
Ela já tinha aceitado isso há muito tempo.
“Pare de se esconder.”
Uma voz alegre rompeu seus pensamentos.
Sua melhor amiga, Nora, deslizou ao seu lado com um sorriso encorajador.
“Se continuar olhando para o chão, vai perder tudo.”
Lyra conseguiu um sorriso fraco.
“Prefiro perder tudo do que passar vergonha.”
“Você não vai.”
“Eu sempre passo.”
Nora apertou sua mão.
“A Deusa da Lua não comete erros.”
Lyra queria acreditar naquelas palavras.
O chifre cerimonial ecoou pelo vale.
As conversas morreram instantaneamente.
Todo lobo baixou a cabeça quando o Ancião Rowan entrou no círculo, suas vestes prateadas esvoaçando atrás dele. Erguendo um cajado de pedra da lua esculpido, ele olhou para o céu carmesim.
“A Lua de Sangue surgiu.”
Sua voz ecoou sem esforço pela clareira silenciosa.
“Esta noite, a Deusa revelará aqueles cujas almas foram entrelaçadas antes do nascimento. Honrem a escolha dela, pois nenhum laço é maior do que o laço de companheiros verdadeiros.”
Um coro de reverências respeitosas se seguiu.
O coração de Lyra disparou.
Ela não tinha medo de encontrar seu companheiro.
Ela tinha medo de não ter um.
O futuro Alfa entrou no centro do Círculo da Lua.
Kael.
Alto.
Poderoso.
Confiante o suficiente para comandar a atenção sem dizer uma palavra.
Todo guerreiro o admirava. Todo ancião o elogiava. Toda jovem sonhava em se tornar sua Luna.
Ele se portava como um rei muito antes de herdar o título de Alfa.
O luar cintilava nas marcas cerimoniais pintadas em seus braços enquanto ele se aproximava do altar.
O Ancião Rowan assentiu.
“Erga seus olhos.”
Kael obedeceu.
No momento em que seu olhar prateado encontrou o de Lyra, o mundo desapareceu.
Uma dor aguda atravessou seu peito.
Um calor percorreu cada parte de seu corpo.
Sua loba, silenciosa por anos, despertou com uma alegria avassaladora.
Companheiro.
A palavra única ecoou em sua alma.
Lágrimas encheram os olhos de Lyra antes que ela percebesse que estava chorando.
A Deusa da Lua o tinha escolhido.
Por um batimento cardíaco impossível, Kael apenas encarou.
O choque brilhou em seu rosto.
Então desapareceu.
Sua expressão endureceu em algo mais frio que o inverno.
Descrença.
Depois, desgosto.
Os sussurros alegres ao redor do círculo desapareceram em um silêncio atordoado.
“Não...”
“Uma ômega?”
“Isso não pode estar certo.”
Kael caminhou em direção a ela.
Cada passo estilhaçava outro pedaço da esperança que florescia em seu coração.
Ele parou a poucos metros de distância.
Perto o suficiente para ela ver a raiva ardendo por trás de seus olhos.
Perto o suficiente para ouvir sua respiração.
Ela buscou em seu rosto qualquer sinal de aceitação.
Não encontrou nenhum.
“Você?” ele perguntou baixinho.
Sua voz não tinha nem espanto nem alívio.
Apenas desprezo.
Lyra engoliu em seco.
“Eu...”
“Você é minha companheira?”
Ela assentiu, incapaz de forçar uma única palavra.
Uma risada cruel escapou dele.
“A Deusa da Lua espera que eu governe ao lado de uma ômega?”
A multidão se moveu inquietamente.
Alguns baixaram a cabeça.
Outros observavam com curiosidade aberta.
Kael lentamente se virou para enfrentar toda a alcateia.
“Eu recuso.”
O rosto do Ancião Rowan perdeu a cor.
“Futuro Alfa...”
“Eu recuso este laço.”
Sua voz soou por todo o solo sagrado.
“Eu rejeito Lyra como minha companheira destinada.”
Uma dor explodiu em seu corpo.
Parecia que garras invisíveis tinham rasgado diretamente sua alma.
Seus joelhos bateram no chão de pedra.
Um grito quebrado escapou de seus lábios antes que ela pudesse impedir.
Sua loba uivou em agonia.
Então...
Silêncio.
A conexão desapareceu.
Lyra lutou para respirar enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto.
Ao redor dela, ninguém se moveu.
Ninguém falou.
Ninguém ofereceu uma mão.
Kael olhou para ela sem remorso.
“Eu mereço uma Luna digna de Silvercrest.”
Suas palavras pesaram mais que a própria rejeição.
“Uma linhagem forte.”
“Uma família respeitada.”
“Uma mulher que inspire lealdade.”
Seu olhar a varreu com inconfundível decepção.
“Não uma ômega fraca que não conquistou nada.”
Risadas surgiram de algum lugar no meio da multidão.
Outros logo se juntaram.
Lyra fechou os olhos.
Cada sussurro se tornou uma nova ferida.
Cada olhar a lembrava de quão pouco ela importava.
O Ancião Rowan apertou seu cajado com força.
“Você não pode rejeitar uma companheira sob uma Lua de Sangue. A própria Deusa—”
“Eu fiz minha escolha.”
A voz do futuro Alfa cortou o aviso.
“Se a Deusa desejava uma resposta diferente, ela deveria ter escolhido uma mulher diferente.”
Uma rajada violenta varreu o Círculo da Lua.
Todas as tochas se apagaram de uma vez.
A escuridão engoliu a reunião.
Lá no alto, a lua carmesim ardia mais forte que antes.
Um rugido trovejou pelas montanhas.
Não de um lobo.
Não de qualquer criatura que a alcateia reconhecesse.
O som carregava um poder antigo.
O medo se espalhou pela multidão.
Vários guerreiros alcançaram instintivamente suas armas.
Até Kael olhou para os picos distantes.
Muito além de Silvercrest...
Além das florestas...
Além dos reinos dos lobos...
Uma enorme fortaleza de pedra negra erguia-se sobre rios de fogo derretido.
Dentro de seu salão do trono, uma figura solitária sentava-se em um trono de obsidiana esculpido dos ossos de dragões há muito esquecidos.
Olhos dourados se abriram.
Antigos.
Pacientes.
Inabaláveis.
Por séculos, nada havia despertado seu interesse.
Esta noite, algo impossível despertara.
Um batimento cardíaco.
Uma linhagem.
Uma presença que ele procurara por gerações.
O Lorde Dragão levantou-se.
Chamas se enrolavam ao redor de suas botas sem queimar a pedra sob elas.
Seus comandantes observavam em silêncio atordoado enquanto ele caminhava em direção à sacada aberta com vista para o interminável deserto vulcânico.
Um sorriso fraco tocou seus lábios.
“Então...”
Sua voz retumbou como um trovão distante.
“Ela vive.”
Sob a lua vermelha como sangue, o destino dos lobos e dragões começou a mudar silenciosamente.









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