A Princesa Sem Magia por Batistad em Inkitt
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A Princesa Sem Magia

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Resumo

Nasci na única dinastia onde a magia desperta em cada herdeiro. Em cada um deles, menos em mim. Enquanto meus irmãos incendiavam os céus, convocavam tempestades e dobravam criaturas ancestrais à própria vontade, eu cresci escondida entre corredores frios, tratada como a vergonha da coroa, a princesa que o reino preferia esquecer. Então o palácio caiu. Na noite em que assassinos atravessaram os portões e o sangue da minha família manchou o mármore, uma criatura feita de estrelas surgiu entre as ruínas e se ajoelhou diante de mim. Sua voz ecoou dentro dos meus ossos com duas palavras capazes de destruir tudo o que eu acreditava saber: Minha rainha. Meu poder nunca esteve ausente. Ele foi acorrentado. Agora, para recuperar meu reino, preciso dominar uma magia antiga o bastante para apagar deuses da existência — antes que ela consuma minha mente, meu corpo e tudo o que ainda resta de mim. Minha única esperança é Kadren, o príncipe do reino inimigo, o homem que nasceu para me destruir e que, contra toda razão, continua arriscando a própria vida para me salvar. Mas existe uma profecia escrita antes do nascimento de nossas coroas. Antes que esta guerra termine, um de nós terá de matar o outro. Porque alguns amores são abençoados pelas estrelas. O nosso foi criado por elas como uma sentença de morte.

Gênero
Fantasy
Autor
Batistad
Status
Em Andamento
Capítulos
34
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

Capítulo 1 — A Princesa Esquecida 

O primeiro raio de sol ainda não havia alcançado as torres mais altas quando uma explosão de fogo atravessou o céu sobre o pátio de treinamento.

O clarão tingiu as muralhas de dourado. O calor percorreu o ar como uma onda invisível, fazendo os estandartes reais vibrarem. Alguns segundos depois, uma chuva de brasas caiu lentamente sobre a arena, sem queimar uma única pedra. Os nobres aplaudiram de pé. Os soldados sorriram orgulhosos.Meu irmão Lucien apenas abaixou a mão.Como se incendiar o céu fosse tão comum quanto respirar.Parei na entrada do pátio e observei tudo em silêncio.Era sempre assim.Astralis acordava celebrando a magia.E eu acordava lembrando que não possuía nenhuma.A brisa da manhã atravessou os corredores de pedra, levantando discretamente a barra do meu vestido azul-escuro. Respirei fundo antes de descer os últimos degraus. O cheiro de fumaça encantada misturava-se ao perfume das rosas brancas dos jardins reais, criando um aroma que eu conhecia desde criança.Para qualquer outra pessoa, aquele cheiro significava lar.Para mim, significava julgamento.— Lá vem ela.A frase chegou antes que eu alcançasse a arena.Não precisei procurar quem havia falado.Os filhos dos duques nunca se preocupavam em esconder o desprezo.— Será que hoje finalmente acontece um milagre?— Acho mais fácil um dragão pedir desculpas.As risadas vieram logo depois.Continuei caminhando.Anos ouvindo aquelas mesmas palavras ensinaram meu corpo a permanecer firme, mesmo quando alguma parte de mim queria simplesmente desaparecer.Meu pai dizia que uma princesa jamais deveria demonstrar fraqueza diante da corte.Nunca percebeu que eu aprendia essa lição justamente por causa da corte.Lucien caminhou em minha direção.Meu irmão mais velho parecia ter sido moldado pelos próprios deuses para ocupar um trono. Alto, postura impecável, cabelos dourados presos na nuca e olhos que carregavam o brilho vivo das chamas que dominava.Ao redor dele, pequenas faíscas flutuavam sem esforço.A magia gostava de estar perto dele.— Está atrasada.Olhei para o enorme relógio solar.Ainda faltavam cinco minutos.— Acho que não.— Para quem não faz nada, qualquer horário serve.Os nobres riram novamente.Senti a velha pontada atrás das costelas.Ela nunca desaparecia completamente.Apenas mudava de lugar.— Bom dia para você também.Ele deu um sorriso curto.Não era exatamente crueldade.Era pior.Era costume.Lucien realmente acreditava que eu era um erro.Lyra aproximou-se logo depois.Ao contrário do irmão, ela parecia feita de inverno.Seus cabelos prateados desciam até a cintura, enquanto pequenos cristais de gelo surgiam e desapareciam ao redor de seus pulsos sempre que respirava mais profundamente.Ela me lançou um olhar discreto.Não de pena.Quase de preocupação.— Ignore.— Estou acostumada.Ela desviou os olhos.Os acostumados costumam ser os mais feridos.Caelan apareceu correndo poucos segundos depois.O vento bagunçava seus cabelos castanhos enquanto folhas secas giravam atrás dele como se fossem animais brincando.— Mila!Foi o único a sorrir ao me ver.Abracei meu irmão mais novo rapidamente.— Dormiu?— Quase nada.— Pesadelos?Ele fez uma careta.— Sonhei que Lucien ficava sem voz.Não consegui impedir um sorriso.— Que sonho cruel.— Para quem?— Para o reino inteiro. Ele morreria tentando falar.Caelan riu alto.Lucien apenas revirou os olhos.Era estranho.Entre todos ali, apenas Caelan conseguia me fazer esquecer, ainda que por alguns minutos, quem eu era dentro daquele castelo.Ou melhor.Quem todos acreditavam que eu era.O comandante Eryon bateu a lança contra o chão.O som metálico ecoou por todo o pátio.— Formação.Os soldados se organizaram imediatamente.Os herdeiros também.Exceto eu.Minha posição sempre era alguns passos atrás.Não porque alguém ordenasse.Porque ninguém sabia exatamente onde colocar uma princesa sem magia.O treino começou.Lucien ergueu uma muralha de fogo que serpenteou pelo céu antes de assumir a forma de um enorme falcão incandescente.Lyra congelou um lago inteiro apenas movendo os dedos.Caelan criou pequenos tornados que levantavam alvos de madeira e os lançavam uns contra os outros.Aplausos.Sempre aplausos.Enquanto isso, eu observava.Meu treinamento era diferente.Espadas.Adagas.Estratégia.Idiomas.Diplomacia.História.Tudo aquilo que parecia importante apenas enquanto a magia resolvia não existir.— Princesa Mila.Levantei os olhos.Eryon me observava.Havia algo diferente em sua expressão.Não consegui identificar o quê.— Venha.O silêncio tomou conta do pátio.Meu estômago apertou.No centro da arena repousava uma pequena esfera cristalina.A Pedra da Origem.O objeto usado para revelar a afinidade mágica de cada criança da família real.Toquei aquela pedra cinco vezes durante minha infância.Cinco fracassos.Cinco silêncios.Cinco humilhações.Olhei para meu pai.O rei Orion permanecia sentado no alto da arquibancada principal.Seu rosto era impossível de ler.Ao lado dele, minha mãe segurava discretamente os braços do trono.Ela fazia isso sempre que estava nervosa.Respirei.Um passo.Depois outro.As vozes desapareceram.O mundo parecia pequeno demais.— Segure.A esfera foi colocada entre minhas mãos.Estava fria.Muito fria.Fechei os olhos.Nada.Como sempre.Ou quase.Algo aconteceu.Não dentro da pedra.Dentro de mim.Foi apenas um instante.Como se uma brisa percorresse meu peito por dentro.Uma sensação leve.Antiga.Distante.Meu coração bateu mais forte.A pedra permaneceu apagada.Silêncio.Depois vieram as risadas.— Nada.— Outra vez.— Nunca muda.Fechei os dedos ao redor da esfera.Foi então que aconteceu.Tão rápido que quase pensei ter imaginado.Uma pequena rachadura luminosa apareceu dentro do cristal.Muito fina.Como uma estrela distante refletida sobre água.Durou menos de um segundo.Desapareceu.Ninguém pareceu notar.Ninguém.Exceto duas pessoas.Eryon.E minha mãe.Vi quando ela se levantou abruptamente do trono.Vi quando sua mão levou automaticamente ao peito.Vi quando seus olhos encontraram os meus.Ela estava assustada.Não decepcionada.Assustada.Aquilo fez meu sangue gelar.Devolvi a esfera.— Posso ir?Minha voz saiu quase inaudível.Eryon demorou alguns segundos para responder.Seus olhos permaneceram presos em minhas mãos.— Sim... Alteza.Afastei-me antes que alguém pudesse rir outra vez.Atravessei os corredores do castelo quase sem perceber o caminho.Conhecia aquelas paredes melhor do que conhecia meu próprio rosto.As tapeçarias contando as vitórias dos reis antigos.As estátuas dos fundadores de Astralis.As janelas de cristal encantado que mudavam de cor conforme o sol atravessava o céu.Tudo parecia grandioso.Exceto eu.Parei diante de uma varanda voltada para os jardins.Respirei profundamente.Ali, pelo menos, ninguém costumava me procurar.Fechei os olhos.O vento tocou meus cabelos.Tão delicadamente que parecia uma mão.— Às vezes eu queria desaparecer...As palavras escaparam antes que eu pudesse impedir.Foi apenas um sussurro.Mas o jardim respondeu.As flores pararam de balançar.Os pássaros silenciaram ao mesmo tempo.Até a água da fonte pareceu interromper o próprio movimento durante um único segundo.Abri os olhos.Tudo voltou ao normal.Franzi a testa.Talvez tivesse imaginado.Talvez.Abaixei-me perto de um pequeno canteiro de lírios brancos.Passei a ponta dos dedos sobre uma flor que havia murchado dias antes.A pétala estremecia sob meu toque.Então...Muito lentamente...Ela voltou a florescer.O branco recuperou o brilho.As folhas se ergueram.O perfume tornou-se intenso outra vez.Meu coração disparou.Afastei imediatamente a mão.A flor permaneceu viva.Olhei ao redor.Ninguém.Absolutamente ninguém.Mesmo assim, uma sensação estranha percorreu minha nuca.Como se o próprio castelo estivesse respirando comigo.Como se alguma coisa tivesse acabado de despertar.Muito longe dali...Nas sombras da floresta que cercava Astralis...Um homem de olhos dourados observava as torres do palácio.Ao seu lado, uma criatura feita de sombras ergueu lentamente a cabeça.— Ela respondeu? — perguntou a criatura.O homem permaneceu em silêncio durante alguns segundos.Depois abriu um pequeno mapa encantado.Um ponto de luz, quase invisível, acabava de surgir exatamente sobre o castelo.Ele fechou os dedos lentamente.— Não...Sua voz era baixa.Grave.Perigosamente calma.— Ela começou a acordar.E, pela primeira vez em muitos anos, Kadren sorriu.Voltei para meus aposentos com a sensação de que havia deixado uma parte de mim naquele jardim.A flor branca continuava viva atrás de mim.Eu sabia disso sem precisar olhar.Era absurdo. Impossível. Ridículo até para uma princesa criada em um castelo onde crianças aprendiam a dobrar fogo antes de escrever o próprio nome. Ainda assim, eu sabia. Como se um fio invisível ligasse a ponta dos meus dedos àquela pétala recém-aberta.E isso me assustava mais do que os risos no pátio.Humilhação era conhecida.Magia não.Fechei a porta do quarto e encostei as costas na madeira, tentando respirar sem fazer barulho. Meu quarto ocupava a torre leste, longe dos aposentos principais, longe das salas de guerra, longe do corredor onde ficavam os herdeiros importantes. Era bonito, claro. Tudo no palácio precisava parecer bonito para que ninguém percebesse o quanto algumas belezas também serviam como exílio.As janelas altas deixavam entrar a luz pálida da manhã. Cortinas azuladas se moviam devagar. Sobre a penteadeira, escovas de prata, frascos de perfume e joias delicadas repousavam em ordem perfeita. Presentes de aniversário. Compensações silenciosas. Como se colares pudessem preencher o lugar onde deveria haver orgulho.Aproximei-me do espelho.Meu reflexo me encarou de volta.Cabelos escuros caindo sobre os ombros. Olhos cinzentos demais para serem brilhantes. Pele fria. Boca firme. Uma princesa montada com cuidado para não revelar as rachaduras.Levei a mão à garganta.Nada brilhava.Nada ardia.Nenhum sinal de poder.— Você imaginou — sussurrei.A vela apagada sobre a mesa acendeu.Dei um passo para trás.A chama era pequena. Azulada. Silenciosa.Não tremia como fogo comum.Parecia me observar.O ar saiu dos meus pulmões em um fio.— Não.A chama se inclinou na minha direção.O mesmo movimento da Pedra da Origem.Meu coração bateu tão forte que doeu.Peguei uma jarra de água e despejei sobre a vela. A chama não apagou. A água escorreu pelo castiçal, caiu sobre a mesa e molhou cartas antigas, mas o fogo permaneceu ali, intacto, azul, vivo.A maçaneta girou.Eu me virei no mesmo instante, escondendo a vela com o corpo.Minha mãe entrou sem esperar resposta.Rainha Selene não corria. Nunca. Nem em incêndios, nem em funerais, nem quando meu irmão Caelan quebrou o braço caindo da torre dos ventos aos oito anos. Mas naquele momento ela entrou rápido demais, fechou a porta e passou a chave por dentro.Seus olhos foram diretamente para a vela.Por um segundo, todo o sangue pareceu abandonar seu rosto.— Mila...O modo como disse meu nome não parecia chamado.Parecia lamento.— O que está acontecendo comigo?Ela não respondeu de imediato. Aproximou-se da mesa, ergueu a mão sobre a chama azul e murmurou palavras numa língua que eu não conhecia. O fogo se contorceu como se sentisse dor. Depois se apagou, deixando um cheiro estranho no ar.Não era cheiro de fumaça.Era cheiro de chuva sobre metal.— Quem mais viu? — ela perguntou.— Ninguém.— Tem certeza?— Eu estava sozinha.Ela fechou os olhos por um breve instante.— Graças às estrelas.Senti algo dentro de mim endurecer.— Não agradeça ainda. Eu fiz uma flor morta florescer no jardim.Minha mãe abriu os olhos.Pela primeira vez na vida, vi medo nela sem máscara.Não preocupação de mãe.Medo.— Onde?— No canteiro perto da varanda sul.Ela levou a mão à boca, mas se conteve antes de tocar os lábios.— Preciso mandar fecharem aquela ala.— Mãe.— Preciso falar com Eryon.— Mãe.Ela parou.— Olhe para mim.Ela olhou.E eu, que passei a vida implorando silenciosamente para ser vista, quase me arrependi de pedir.— Eu tenho magia?O quarto ficou tão quieto que ouvi o vento arranhar as pedras da torre.Selene não se moveu.Não mentiu rápido.Esse foi o primeiro sim.— Responda.— Não da maneira que eles entendem.— Eles quem?Ela desviou o olhar para a porta, como se as paredes pudessem ouvir.— O Conselho. A Ordem. Talvez seu pai.A última palavra caiu entre nós como faca.— Meu pai sabe?— Sabe menos do que pensa.— E você sabe mais do que disse.Ela respirou fundo.— Eu sei o suficiente para temer o que acabou de começar.Ri uma vez, sem alegria.— Passei vinte anos sendo chamada de vazia. Inútil. Erro real. E agora você me diz que havia algo em mim esse tempo inteiro?— Eu escondi para mantê-la viva.A frase me atingiu antes que eu pudesse levantar qualquer defesa.Viva.Não aceita.Não feliz.Viva.— Quem queria me matar?Minha mãe se aproximou e segurou meus braços.— Mila, escute. A magia da nossa família vem das estrelas, mas a sua... a sua não vem apenas delas. Ela responde ao que existe antes da magia. Ao nascimento das coisas. À morte delas. Ao espaço entre uma respiração e outra.— Isso não é resposta. Isso é poesia para evitar a verdade.Ela apertou meus braços.— A verdade é perigosa demais para ser dita em um quarto com janelas.Nesse instante, algo bateu contra o vidro.Nós duas nos viramos.Um corvo negro estava parado do lado de fora, no parapeito estreito. Tinha os olhos brancos. Brancos como ossos polidos. No bico, segurava uma fita vermelha.Minha mãe empalideceu.O corvo inclinou a cabeça.Depois abriu o bico.A voz que saiu dele não pertencia a animal algum.— A estrela respirou.O corpo da minha mãe ficou rígido.A ave soltou a fita. O tecido vermelho grudou no vidro como sangue.— E o Eclipse ouviu.A janela rachou.Selene ergueu a mão e lançou uma barreira prateada diante de nós. A rachadura parou no meio do vidro, tremendo como se lutasse contra a força dela.Eu não conseguia me mover.— Afaste-se da janela — ordenou ela.Obedeci, mas meus pés pareciam não tocar o chão.O corvo abriu as asas.Por baixo das penas, havia pequenas marcas gravadas na carne escura. Símbolos circulares. Correntes. Uma lua partida.— Entreguem a princesa antes do próximo pôr do sol — disse a voz. — Ou Astralis sangrará por ela.A ave explodiu em fumaça.A barreira de minha mãe se desfez.Por um momento, nenhuma de nós falou.Então os sinos do palácio tocaram.Uma badalada grave.Depois outra.Depois outra.Não era alarme de invasão.Era convocação real.— O Conselho — murmurou minha mãe.— Eles sabem?— Ainda não tudo. Mas saberão o bastante se alguém tiver visto o corvo.— O que é a Ordem do Eclipse?Ela fechou os olhos.— Aqueles que selaram você.O chão pareceu desaparecer.— Selaram?Antes que ela respondesse, bateram à porta.— Majestade — chamou uma voz masculina. — O rei exige sua presença imediata na sala do trono. A princesa Mila também foi convocada.Minha mãe não respondeu.O silêncio do lado de fora se prolongou.— Majestade?Ela abriu a porta apenas o suficiente para encarar o guarda.— Diga ao rei que iremos em instantes.— Perdoe, Majestade. As ordens foram para acompanhá-las agora.A mão de minha mãe desceu discretamente para o anel que usava no dedo.— Ordens de quem?O guarda hesitou.— Do Conselho.A palavra pareceu mudar a temperatura do quarto.Minha mãe sorriu.Um sorriso de rainha.Frio, educado, cortante.— Desde quando o Conselho dá ordens dentro dos aposentos da rainha?O guarda abaixou a cabeça.— Desde que Astralis recebeu ameaça direta de guerra, Majestade.Atrás dele, no corredor, vi mais três soldados.Não eram da guarda pessoal do meu pai.Usavam braçadeiras cinzentas.Homens do Conselho.Minha mãe também percebeu.— Muito bem — disse ela. — A princesa precisa trocar de roupa.— O Conselho solicitou que ela vá como está.Como está.Como acusada.Senti minha coluna endireitar sozinha.A velha Mila, a princesa esquecida, teria baixado os olhos. Teria suportado. Teria seguido em silêncio.Mas havia uma vela azul apagada sobre minha mesa.Uma flor renascida no jardim.Um corvo com olhos de osso dizendo que o Eclipse me ouviu.E, pela primeira vez, a humilhação não encontrou em mim apenas ferida.Encontrou fogo.— Eu irei — falei.Minha mãe virou-se para mim.— Mila.— Se querem me olhar, que olhem.Passei por ela e saí para o corredor.Os soldados me cercaram com uma formalidade quase ofensiva. Não tocaram em mim. Não precisavam. Havia muitas formas de prender uma pessoa antes das correntes.Caminhamos pelo palácio.O castelo parecia diferente.Ou talvez eu estivesse diferente dentro dele.As colunas brancas se erguiam como ossos de gigantes. Os vitrais lançavam manchas de luz sobre o chão polido. Em cada tapeçaria, antigos reis de Astralis seguravam estrelas nas mãos, vitoriosos, intocáveis, dourados pela lenda.Nenhum deles parecia comigo.Ainda assim, quando passei diante da tapeçaria da Primeira Rainha, os fios prateados de sua coroa brilharam.Apenas um segundo.O suficiente para eu perceber.O suficiente para um dos soldados perceber também.Ele franziu a testa.Minha mãe, caminhando ao meu lado, viu e ficou ainda mais pálida.Então era verdade.A magia estava em tudo.No meu medo.Na minha raiva.Nos meus passos.Talvez sempre tivesse estado.Talvez eu nunca tivesse sido vazia.Talvez só tivessem me ensinado a chamar de ausência aquilo que era prisão.As portas da sala do trono se abriram.O salão estava cheio.Meu pai ocupava o trono central, com Lucien à sua direita e Lyra à esquerda. Caelan estava mais abaixo, inquieto, tentando avançar, mas impedido por dois guardas. Os membros do Conselho formavam um semicírculo diante do estrado. Nobres ocupavam as laterais, todos famintos por desastre.Entrei.Todas as conversas morreram.O rei Orion olhou para mim.Havia cansaço em seu rosto.E alguma coisa parecida com culpa.— Mila — disse ele.Não “minha filha”.Apenas Mila.Fiz uma reverência.— Majestade.Vi o impacto discreto da palavra.Boa.Se eu seria julgada como peça política, responderia como uma.O conselheiro Morvain avançou. Era magro, alto, com cabelos grisalhos presos por uma fita negra. Seus olhos pareciam sempre medir o valor das pessoas em moedas invisíveis.— Princesa Mila, esta manhã ocorreu um incidente durante o teste de afinidade mágica.Lucien cruzou os braços.Lyra me observava com atenção demais.Caelan balançou a cabeça, tentando me avisar alguma coisa sem palavras.— Incidente? — perguntei.Morvain sorriu.— A Pedra da Origem respondeu.Um murmúrio atravessou o salão.Meu pai se inclinou para frente.Minha mãe permaneceu imóvel ao meu lado.— A pedra falhou — disse Lucien. — Como sempre.— Talvez — respondeu Morvain. — Talvez não.Ele ergueu a mão.Um servo trouxe a Pedra da Origem sobre uma almofada escura.Meu estômago se contraiu.Dentro do cristal, havia agora uma rachadura fina.Luminosa.Como uma estrela tentando nascer.O salão inteiro viu.O silêncio mudou.Antes, era desprezo.Agora, era medo.Morvain voltou-se para o rei.— Astralis não pode ignorar isso. Se a princesa possui uma manifestação tardia, ela precisa ser avaliada.— Avaliada por quem? — perguntou minha mãe.— Pelo Conselho.— Não.A palavra dela veio imediata.Forte.Todos olharam para a rainha.Morvain estreitou os olhos.— Majestade, com todo respeito...— Eu disse não.Meu pai se levantou.— Selene.Ela não olhou para ele.— Minha filha não será entregue a homens que passaram a vida chamando-a de falha e agora tremem porque talvez tenham errado.Um calor estranho atravessou meu peito.Pequeno.Dolorido.Quase amor.Morvain sorriu com delicadeza venenosa.— Não se trata de orgulho materno. Trata-se da segurança do reino.— Tudo é sempre segurança do reino quando desejam controlar uma mulher — respondi.O salão congelou.Literalmente.Uma camada fina de gelo se espalhou pelo chão a partir dos pés de Lyra.Minha irmã percebeu e conteve a magia, mas seus olhos estavam em mim.Surpresa.Talvez aprovação.Morvain voltou seu olhar para mim.— Vossa Alteza deve compreender sua posição.— Compreendo perfeitamente. Quando acreditavam que eu não tinha poder, queriam me casar para comprar alianças. Agora que talvez eu tenha, querem me prender para estudar.Alguns nobres desviaram os olhos.Outros ficaram rígidos.Morvain perdeu parte do sorriso.— Palavras perigosas.— Costumam ser as únicas verdadeiras.Caelan riu baixo.Lucien o fuzilou com o olhar.Meu pai desceu um degrau do trono.— Basta.A voz dele ainda tinha força suficiente para dobrar o salão.— Ninguém tocará na princesa sem minha ordem.Minha mãe finalmente respirou.Mas Morvain não parecia derrotado.Parecia paciente.— Então talvez Vossa Majestade deseje ouvir a mensagem que chegou da fronteira norte antes de decidir.Um guarda entrou carregando uma caixa de ferro.O cheiro chegou antes que abrissem.Sangue.Carne queimada.Medo.Minha mãe segurou minha mão.A caixa foi aberta.Dentro havia uma coroa pequena feita de ossos de pássaros e fitas vermelhas.No centro, um bilhete.Morvain o pegou e leu em voz alta:— “A princesa sem magia despertou. Entreguem a estrela selada antes do próximo pôr do sol, ou o palácio cairá por dentro.”Meu corpo inteiro esfriou.Palácio.Por dentro.Alguém no salão sabia.Alguém ali havia contado.Os olhos de todos se voltaram para mim.Mas eu olhei para a Pedra da Origem.A rachadura brilhava mais forte.E, dentro dela, por um instante, vi um reflexo que não pertencia à sala do trono.Um homem parado entre árvores negras.Olhos dourados.Sombra nos ombros.Observando-me como se pudesse me ver de volta.A voz dele ecoou dentro da minha cabeça, baixa e impossível.“Finalmente encontrei você.”A Pedra explodiu em luz.E todas as estrelas pintadas no teto do salão se apagaram ao mesmo tempo.

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