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Onde os Mortos Brilham

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Resumo

Em Ossuário, os mortos nunca desaparecem completamente. A cidade foi construída sobre as ruínas de um antigo império, erguida camada após camada sobre aquilo que seus habitantes preferiram esquecer. Entre ossos acumulados nas profundezas, existe uma história que há séculos permanece enterrada.

Gênero
Fantasy
Autor
Pururuca
Status
Completo
Capítulos
3
Classificação
n/a
Classificação Etária
13+

CAPÍTULO I — O SANGUE QUE RESTOU

Cidade de Ossuário.

Ossuário não foi construída — foi empilhada sobre camadas de ruínas.

Galerias de pedra que um dia foram palácios, ossadas que haviam deixado de ser lembradas.

Torres de mármore ergueram-se sobre elas.

Mercados cobertos, vielas estreitas.

Dizia-se pela boca do povo, que ali, o passado não ficava para trás.

Era sustento para que tudo se mantivesse em pé.

E, de fato, era difícil caminhar sem sentir, sob os pés, o eco de algo mais antigo que as próprias pedras.

Alucard conhecia cada sombra. Cada pequeno canto da cidade de Ossuário.

Havia três semanas que dormia em um canto de um armazém abandonado,

perto do Bairro Inferior — local onde mercadores faziam seus negócios sob as luzes trêmulas de lanternas a óleo.

Três meses atrás, havia cruzado a fronteira sem dizer de onde vinha.

Não havia memória.

Nem de um lar, nem mesmo de alguém.

Apenas um nome.

Um nome que lhe parecia sempre ter estado ali, gravado no fundo da mente...

Alucard.

Caminhava de cabeça baixa.

A gola do casaco levantada, com os olhos atentos a cada esquina. Evitava multidões como se fossem fogo.

Evitava contato com qualquer coisa que pudesse machucá-lo.

O mercado estava em seu auge.

A luz do sol quase não alcançava as esquinas.

Carroças carregadas de legumes, tecidos, ferragens e perfumes disputavam espaço com pessoas que falavam alto e gesticulavam.

Alucard apertou o passo.

Queria atravessar a praça antes que o movimento piorasse.

Mas alguém vinha na direção contrária, carregando duas cestas cheias de frutas.

— Sai da frente, vagabundo! — gritou o homem, sem sequer olhar para trás.

O impacto foi forte.

Alucard perdeu o equilíbrio e caiu de lado.

Seu cotovelo bateu com força contra a borda de uma fonte de pedra.

A dor foi aguda.

Antes que pudesse se levantar, avistou uma gota vermelha e quente brotando na pele rachada.

Ela tocou o chão.

Mas não se espalhou, não manchou como deveria.

Seu sangue endureceu e brilhou.

Em poucos instantes, onde deveria haver apenas uma mancha vermelha, ali estava um pequeno fragmento branco.

Liso como vidro polido. Emitindo uma luz fraca, pulsante.

Como um coração.

Alucard sentiu o corpo gelar.

Seus olhos se arregalaram. Rapidamente agarrou o fragmento.

Antes que qualquer um visse, escondeu-o no fundo do bolso, junto de um pano velho e algumas moedas.

Se levantou depressa e ignorou a dor.

Seguiu adiante, sem olhar para trás.

O susto se manteve. Alguém poderia ter visto.

Ele sabia o que era aquilo.

Todo mundo sabia, embora ninguém tocasse no assunto.

As relíquias.

Fragmentos de um tempo que se foi.

Capazes de guardar memórias, curar, fortalecer feitiços.

Fazer seu portador sentir coisas que nunca vivenciou.

Nobres pagavam fortunas por elas.

Colecionavam em estojos, disputavam em leilões fechados.

Matavam por elas.

Rumores sobre pessoas que não encontravam relíquias nas escavações circulavam por aí.

Dizia-se que algumas pessoas as produziam. Corpos que, ao sangrarem, davam origem àquelas luzes proibidas.

Essas pessoas eram caçadas.

Alucard aprendeu a se esconder cedo demais.

E aprendeu uma coisa acima de tudo: Se alguém descobrisse o que ele era, não o veriam como uma pessoa.

Veriam uma fonte. E fariam de tudo para tirar dele cada gota possível.

Mais tarde, de volta ao seu refúgio, Alucard tirou o pequeno fragmento do bolso.

Ainda brilhava.

Sua luz era mais fraca agora.

Mas constante.

Alucard nunca os vendia.

Sempre que alguém tocava em uma relíquia, algo acontecia.

Uma lembrança alheia.

Uma voz.

Um rosto.

E, estranhamente, eram sempre de pessoas que ele conhecia.

Ou que pelo menos sentia conhecer.

Guardou o novo fragmento numa caixa de madeira, junto de outros poucos que possuía.

Ficou sentado no chão, ouvindo a cidade zumbir do lado de fora.

Foi então que ouviu um som.

Passos de alguém que claramente não se importava de ser ouvido.

Alucard se encolheu nas sombras.

A porta foi empurrada para o lado.

Um homem.

Recortado contra a luz do entardecer.

Alto, seus ombros eram largos.

Vestia um casaco de couro escuro que parecia absorver a pouca luz que ali ainda havia.

Não havia arma à mostra.

Mas pela forma como permanecia imóvel, fazia Alucard pensar em caçadores que não precisavam de armadilhas.

Os olhos do homem varreram o pequeno espaço.

Avistou a caixa de madeira aberta, que escapava um brilho muito suave.

— Você não esconde direito, Alucard.

Sua voz era calma e grossa.

Sem raiva. Apenas uma certeza fria.

Alucard deu um passo para trás. Suas costas encontraram a parede.

— Não sei quem você é. — disse Alucard, com a voz mais firme que conseguia.

— E não tenho nada que lhe interesse.

O homem não se moveu.

— Eu sou Kaelen.

Por um instante, o único som era o zumbido da cidade.

— E você tem algo que o mundo inteiro quer. Só que você ainda não entendeu o que é.

Kaelen respirou fundo. O som saiu baixo, quase como um rosnado.

— E a partir do momento em que alguém viu você cair, em plena luz do dia... — disse inclinando levemente a cabeça — já não há como voltar a ser invisível.

Alucard sentiu o ar faltar nos pulmões.

Não era apenas medo de ser capturado.

Era a certeza de que, pela primeira vez em todo o tempo que conseguia lembrar...

Alguém sabia o que ele era.

Alucard permaneceu imóvel, com as costas contra parede.

Entre ele e Kaelen e a caixa de madeira permanecia aberta.

As relíquias brilhavam suavemente.

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