Capítulo 1: Wren
O ar de Boston é diferente.
Mais cortante. Mais frio. É aquele tipo de frio que entra na sua pele e fica, misturando-se ao cheiro do vento do porto, do expresso dos carrinhos de rua e do cheiro de torrada queimada das saídas do metrô. Eu respiro fundo mesmo assim, forçando o ar para dentro, deixando que ele arranhe o interior dos meus pulmões como se eu merecesse esse castigo.
Eu aguento o frio.
É com o gelo que eu não tenho certeza.
O Boston Reapers Training Center surge diante de mim como algo saído de um documentário esportivo: aço, vidros fumê, faixas balançando com os rostos dos jogadores e um enorme logotipo dos Reapers pairando acima, sombrio e icônico. A cidade pulsa atrás de mim: trânsito, buzinas, o grito distante de um vendedor e a honestidade brutal pela qual Boston é famosa.
No segundo em que cruzo as portas, o impacto vem:
Hóquei.
Homens.
Calor envolto em frio.
O cheiro de suor, óleo de patins e perfume caro. Corpos movendo-se com propósito. Vozes ecoando pelo concreto e metal. Discos batendo nas tabelas. O rosnado baixo de alguém xingando na pista.
Meu pulso falha por um momento, depois se estabiliza.
É exatamente isso que eu aceitei fazer.
E exatamente o que eu prometi a mim mesma que evitaria.
Mas as contas não se importam com promessas.
Uma recepcionista me faz um sinal para passar. “Wren Harper? O técnico está esperando por você. Vestiário, Hall C.”
Ajusto a bolsa no ombro e sigo pelo corredor. Cada passo traz à tona memórias que eu não quero: luzes brilhantes, torcedores gritando, gelo tão limpo que brilhava como um espelho.
E então, a queda.
A sabotagem.
A humilhação.
Engulo em seco e forço o passado para longe.
Desta vez é diferente.
Cidade nova. Emprego novo. Uma nova versão de mim.
Paro em frente ao Hall C. A porta está entreaberta. Vozes vêm de dentro: altas, sem filtros, rudes. Há risadas. O barulho de equipamentos caindo no chão. Algo bate com força contra um armário.
Empurro a porta.
E paro de respirar.
Oito homens — seminu, metade vestidos, todos esculpidos como estátuas gregas que falam palavrão demais — viram-se na minha direção.
O quarto fica em silêncio. Um silêncio tenso e vibrante que deixa o ar pesado, quase úmido.
Então, alguém dá um assobio baixo.
“Porra”, murmura um jogador. “A gerência finalmente acertou em alguma coisa.”
Ergo uma sobrancelha. “Sou Wren Harper, a nova preparadora física e especialista em reabilitação de vocês.”
Alguns dos caras parecem decepcionados por eu não estar desfilando de lingerie.
Alguns parecem desejar que eu estivesse.
Alguns parecem imaginar que eu estou, de qualquer forma.
E então ele aparece.
Kael Mercer.
Capitão. Defensor. Uma lenda de Boston.
Alto, sem camisa, com uma toalha baixa nos quadris; gotas de água escorrem pelo seu tronco como se estivessem sendo puxadas pela gravidade e por algo maior. Peitoral esculpido. Ombros largos. Maxilar afiado o suficiente para cortar vidro. E aqueles olhos: cinza-gelo, avaliadores, perigosos da mesma forma que uma arma carregada sobre a mesa de centro é perigosa.
Ele trava ao me ver.
Não por muito tempo.
Apenas o suficiente.
O olhar dele percorre meu rosto. Minha garganta. Meu peito. a linha da minha cintura. Não é um olhar vulgar. Não se demora. É apenas... minucioso. Como se ele estivesse catalogando coisas que não deveria notar.
“Você está adiantada”, diz ele, com a voz baixa e rouca.
“Deveria me atrasar?”, pergunto.
Os olhos dele brilham com algo: interesse ou irritação, difícil dizer.
Antes que ele possa responder, outro corpo entra em cena.
Alto. Esguio. Com um sorriso de quem peca por diversão.
Finn Rourke.
Goleiro. O queridinho da mídia esportiva de Boston. Uma tatuagem na costela espreita pela borda da toalha, como se também estivesse flertando.
Ele me analisa de cima a baixo sem vergonha nenhuma.
“Porra”, ele murmura, “se eu soubesse que a nossa nova treinadora seria assim, teria torcido alguma coisa semana passada.”
Pisco. “Dê dez minutos. Você ainda pode.”
Ele sorri, malicioso e bonito. “Promete?”
Um riso profundo e cínico ecoa atrás dele.
E então Atlas Ward aparece.
O enforcer dos Reapers.
O vândalo favorito da liga.
Tatuado da garganta aos pulsos, músculos sobre músculos, expressão esculpida em violência e tédio.
Ele me olha como se eu fosse um problema novo que ele não pediu.
“Ótimo”, resmunga Atlas. “Uma criança.”
Uma criança?
Dou um passo à frente — não perto o bastante para tocá-lo, mas o suficiente para que ele precise abaixar o queixo para continuar me encarando.
“Seu troglodita de um metro e sessenta”, digo calmamente, “já joguei homens crescidos no chão por bem menos que isso.”
O vestiário explode.
Finn se dobra de tanto rir.
Vários jogadores engasgam com o que quer que estivessem bebendo.
Até a boca de Kael se contrai, como se ele estivesse lutando contra um sorriso.
Atlas encara.
Então, bem discretamente, ele abre um sorriso de lado.
Perigosamente atraente.
Infelizmente atraente.
“Certo”, diz ele. “Talvez não uma criança.”
Kael dá um passo à frente, cortando o caos com precisão.
“Chega”, ele dispara. A sala inteira silencia. Até o sorriso de Finn diminui.
Kael olha para mim. “Siga-me.”
Eu o sigo.
Porque, honestamente? Minhas pernas não parecem interessadas em fazer outra coisa.
Ele me leva para a sala de treinamento — fria, silenciosa, cheia de equipamentos e macas de tratamento. A porta fecha atrás de nós, abafando o barulho.
O silêncio entre nós parece ainda mais denso.
Kael se vira totalmente para mim. “Antes de começar, entenda uma coisa.”
Cruzo os braços. “Estou ouvindo.”
“Este time está instável agora. Você está entrando no meio de uma tempestade.”
“Não tenho medo de tempestades.”
(Apenas do gelo. Apenas de cair de novo. Mas ele não precisa saber disso.)
O olhar dele demora na minha boca. Tempo suficiente para que eu sinta isso.
Ele está perto demais.
Ele tem cheiro de cedro, de inverno e de algo masculino e quente por baixo disso.
E o frio de Boston NÃO explica por que minhas bochechas parecem estar pegando fogo.
“Você não deveria estar aqui”, ele diz, com a voz mais baixa.
“O quê?” Meu pulso acelera. “Por quê?”
“Porque você parece encrenca.”
O olhar dele percorre meu rosto, minha garganta, meus quadris.
“E este time já tem encrenca demais.”
Engulo em seco. “Está me dizendo para não fazer o meu trabalho?”
“Não”, ele diz calmamente. “Estou lhe dizendo para ter cuidado.”
É um tom protetor.
Quase íntimo.
E irritantemente magnético.
Antes que eu possa responder, o rinque explode em barulho — gritos, o som de corpos colidindo contra as bordas.
Kael pragueja baixo e pega seu equipamento.
“Bem-vinda a Boston”, ele murmura ao passar por mim, a voz roçando meu ouvido como um toque. “Tente não se machucar.”
***
O treino é o puro caos.
Gelo voando. Corpos colidindo. Jogadores rosnando uns para os outros como lobos brigando por uma carcaça.
E os torcedores de Boston acham que hóquei é uma religião? Estar aqui embaixo é como entrar em uma catedral onde todos os santos são pecadores disfarçados.
Finn é o primeiro a errar.
Ele desliza com muita força contra a trave, atingindo-a com o ombro primeiro. Ele levanta como se nada tivesse acontecido, mas quando ele passa patinando por mim, percebo a tensão no seu maxilar.
“Finn!”, eu chamo. “Saia do gelo!”
Ele finge que não ouviu, então caminho até lá e agarro sua camisa.
A respiração dele falha — só um pouquinho.
“Eu disse para sair do gelo”, repito.
“Você gosta de me agarrar, Harper?”, pergunta Finn, com a voz baixa e maliciosa.
“Se eu gostasse de te agarrar, eu seguraria mais forte.”
Ele dá um sorriso de lado, como se aquilo tivesse acabado de se tornar sua nova religião.
Mas quando ele senta no banco, ele faz uma careta, e depois tenta esconder.
Pressiono meus dedos gentilmente contra seu ombro. A respiração dele falha de novo — desta vez de dor.
“Você teve uma distensão”, digo.
“Estou bem.”
“Você ficará, depois do tratamento. Isso não é uma sugestão.”
Ele me olha de um jeito diferente então. Sem arrogância. Sem flerte.
Com desejo.
“Estou começando a achar que você é perigosa”, ele murmura. “E eu gosto pra caralho de perigo.”
Antes que eu possa responder, a gritaria recomeça.
Eu olho para cima.
Atlas está com outro jogador prensado contra o vidro, com o punho fechado. Sangue no lábio dele. Raiva nos olhos. Todos os outros estão gritando, tentando separá-los.
Kael se lança na confusão, tentando acabar com aquilo.
Eu reajo antes de pensar.
Eu corro para o gelo.
“EI!”, minha voz ecoa pela arena. “PAREM COM ISSO!”
Tudo para.
Atlas congela, com o peito arfando.
Kael encara, com o maxilar travado e os olhos queimando.
O outro jogador pinga sangue no gelo.
Eles estão todos me olhando.
Eu me coloco entre Atlas e o outro homem, com as palmas das mãos viradas para cima.
“Sente-se”, digo a Atlas.
O choque transparece no rosto dele.
Mas ele… senta.
Então eu aponto para o jogador ensanguentado. “Banco. Agora.”
Ele se move imediatamente.
Finalmente, viro-me para Kael.
Os olhos dele descem para a minha boca novamente.
Depois sobem, lentos, perigosos.
“Capitão”, digo. “Terminou?”
A respiração dele desacelera. Os ombros relaxam. A tensão vai embora dele.
Ele acena.
A arena inteira solta o ar.
E eu percebo algo aterrorizante.
Eles me obedeceram.
Todos eles.
Kael.
Atlas.
Finn.
Cada um desses homens enormes, musculosos e instáveis me obedeceu como se fosse eu quem estivesse usando o C no peito.
Meu coração bate forte contra minhas costelas.
Este trabalho vai me arruinar.
Ou vai me incendiar.
I am not a fan of this writingstyle, but I like the topic so I hope I can read over it