A fortaleza de vidro

Todos os Direitos Reservados ©

Resumo

**A Fortaleza de Vidro** Amália acreditava que sua vida seguiria um caminho simples, até cruzar o destino de Lorenzo Gouveia — um bilionário enigmático, respeitado no mundo dos negócios e cercado por segredos capazes de destruir impérios. Quando uma ameaça internacional coloca a vida de Amália em risco, Lorenzo faz da própria existência um escudo para protegê-la. Entre conspirações, jogos de poder, disputas familiares e inimigos que agem nas sombras, os dois descobrem que o amor pode nascer justamente onde o perigo é maior. Mas amar um homem como Lorenzo tem um preço. Cada escolha aproxima Amália de uma verdade que pode mudar tudo o que ela acredita sobre confiança, lealdade e destino. Em um universo onde poder, dinheiro e influência compram quase tudo, resta uma única pergunta: o amor será forte o bastante para sobreviver às guerras travadas por trás das paredes de uma fortaleza de vidro? Um romance intenso, repleto de emoção, suspense, ação e reviravoltas, que prende o leitor do primeiro ao último capítulo.

Status
Em Andamento
Capítulos
58
Classificação
5.0 1 avaliação
Classificação Etária
16+

O Peso das Máscaras

A sala da presidência da Gouveia Holding, no coração financeiro de São Paulo, parecia flutuar acima do mundo. Paredes de vidro do chão ao teto revelavam a imensidão cinzenta da metrópole, mas ali dentro, o mármore importado e o silêncio faziam o caos lá embaixo parecer irrelevante.

Lorenzo Gouveia ajeitou os punhos da camisa sob medida, o reflexo de seu rosto impassível devolvido pelo vidro. Aos trinta e quatro anos, ele era o epítome do sucesso que o dinheiro e a educação internacional podiam moldar. Fluente em quatro idiomas, formado em Wharton, herdeiro de um império. E, ainda assim, profundamente vazio. Para Lorenzo, as pessoas eram como os números nos balanços da holding: ferramentas ou ativos. O amor era uma ficção lírica que ele nunca testemunhara em jantares de gala ou em acordos pré-nupciais de sua classe social.

— Trinta segundos para o ar, Sr. Gouveia — avisou o diretor da emissora de TV, enquanto a maquiadora dava os últimos retoques no terno de Lorenzo.

Lorenzo apenas assentiu, a postura impecável. Ele estava acostumado aos holofotes da mídia de negócios. O que o incomodava naquele dia, na verdade, era a ausência de Antônia, sua secretária executiva anos, internada às pressas na noite anterior com uma crise de apendicite.

Em seu lugar, na periferia do estúdio improvisado, estava a substituta temporária enviada pelo RH.

Amália Flores segurava o tablet contra o peito como se fosse um escudo. O crachá provisório de “Assistente Administrativa” pesava em seu pescoço. Sob o codinome que adotara ao desembarcar ilegalmente no Brasil, ninguém ali imaginava que aquela jovem de olhar atento e postura discretamente rígida havia liderado plantões de trauma complexos em Karachi, no Paquistão. Ninguém sabia que, sob o blazer simples comprado em um brechó do centro, ela carregava o pavor de ser encontrada pelo noivo cinquentenário a quem seu pai a havia vendido para quitar as promessas de jogo da família.

Para a Gouveia Holding, ela era apenas uma imigrante com visto de refugiada humanitária aceitando um salário mínimo corporativo. Para Amália, aquela sala era um esconderijo perfeito: a burocracia era um anestésico contra o medo.

— Três, dois, um... No ar.

A jornalista sorriu para a câmera principal, com a postura profissional de quem domina o jornalismo econômico.

— Boa tarde. Estamos ao vivo com Lorenzo Gouveia, presidente da Gouveia Holding, o homem por trás da mais recente fusão que promete reestruturar o mercado de infraestrutura do país. Sr. Gouveia, o senhor assume este novo desafio em um momento de expansão global da marca. Como conciliar a tradição de uma holding familiar com as demandas agressivas do mercado moderno?

Lorenzo sorriu — um sorriso calculado, que transmitia exatamente a dose necessária de carisma e autoridade.

— A tradição não é uma âncora, é a nossa fundação — Lorenzo começou, a voz grave e pausada enchendo o ambiente. — O segredo da Gouveia sempre foi a leitura fria dos cenários. Onde o mercado enxerga crise, nós enxergamos reestruturação de ativos. Família e negócios, quando geridos com a racionalidade correta, tornam-se indestrutíveis.

Amália, observando do canto da sala, sentiu um arrepio incômodo na espinha. Racionalidade correta. A frase ecoou como um eco distorcido das palavras de seu próprio pai antes de ela fugir de madrugada para o aeroporto: “É apenas um negócio, Amália. Um casamento estratégico para salvar o nosso nome.” Ela engoliu em seco, desviando o olhar para o tablet, forçando-se a focar na pauta da entrevista.

De repente, o ambiente mudou.

Lorenzo continuava falando sobre projeções fiscais quando Amália, com seu olho clínico treinado para o diagnóstico rápido, notou algo errado. O diretor da TV, que operava um dos monitores de retorno, levou a mão ao peito. O homem, visivelmente acima do peso, empalideceu. O suor começou a brotar em sua testa de forma abrupta, e sua respiração tornou-se curta, superficial.

Amália deu um passo à frente, o instinto médico gritando dentro de sua cabeça. Angina. Ou um infarto agudo do miocárdio em curso.

O diretor cambaleou discretamente para trás, tentando não interromper a gravação, mas bateu com o braço em um dos tripés de iluminação. O refletor oscilou perigosamente.

Lorenzo interrompeu a fala no meio de uma frase, os olhos cravados no início do tumulto nos bastidores.

Antes que o equipamento pesado desabasse sobre a jornalista ou que o diretor caísse no chão, Amália moveu-se com uma agilidade que ninguém esperaria de uma assistente administrativa tímida. Ela cruzou o espaço em segundos, segurou o tripé com uma das mãos, estabilizando-o, e com a outra amparou o diretor pelo braço, conduzindo-o suavemente para uma cadeira de apoio próxima.

— Corta! Corta o sinal! — gritou o assistente de estúdio, o pânico se instalando na sala.

— Ele está passando mal! Chamem a ambulância! — a jornalista exclamou, afastando-se.

O caos ameaçou tomar conta do lugar, mas Amália permaneceu no centro dele como uma rocha. Ela ajoelhou-se ao lado do diretor, desabotoando os primeiros botões da camisa dele para facilitar a expansão torácica. Suas mãos, frias e firmes, tomaram o pulso do homem. Rápido, filiforme.

— Senhor, olhe para mim — Amália ordenou. Sua voz mudara completamente. Não era mais a moça acuada do RH; era a autoridade médica. — Sente dor no braço esquerdo? Mandíbula?

O homem apenas assentiu, levando a mão ao esterno, incapaz de falar.

Lorenzo levantou-se da poltrona, os olhos fixos na cena. Ele estava acostumado a ver funcionários congelarem diante de crises, mas aquela mulher estava operando com uma precisão cirúrgica.

— Alguém ligue para o SAMU, agora — Lorenzo comandou, sua voz imponente cortando o burburinho da equipe de TV. Ele caminhou até Amália. — O que ele tem?

Amália ergueu os olhos por um breve segundo. Ao encontrar as pupilas escuras e analíticas de Lorenzo, ela sentiu um estalo de sobriedade. Ela não podia se expor. Não podia agir como médica. Se a investigação descobrisse que ela exercia a medicina ilegalmente ou se chamassem a polícia, seu disfarce cairia.

Ela recalculou a rota imediatamente, engolindo o vocabulário técnico.

— Ele... ele está com os sintomas clássicos de um ataque cardíaco, Sr. Gouveia — Amália disse, forçando a voz a voltar a um tom mais suave, quase trêmulo, fingindo uma segurança que qualquer pessoa que fez um curso básico de primeiros socorros teria. — Eu... eu li sobre isso. Ele precisa de ar. Por favor, afastem-se. E verifiquem se há aspirina na maleta de primeiros socorros da recepção. Duas esmagadas ajudam a afinar o sangue até o socorro chegar.

O assistente de produção correu para buscar. Amália continuou monitorando o pulso do homem, conversando com ele em um tom calmante, aplicando uma leve pressão em pontos de alívio que aprendera na faculdade, mas disfarçando os movimentos como um mero apoio estético.

Dez minutos depois, os paramédicos do próprio edifício corporativo entraram na sala com a maca, assumindo a ocorrência. O diretor foi estabilizado e levado sob os olhares aliviados da equipe.

A sala da presidência começou a ser esvaziada. Os técnicos de TV recolhiam os cabos em silêncio, ainda impactados pelo susto.

Amália recolheu o tripé que havia segurado, as mãos agora tremendo pelo efeito da adrenalina tardia. Ela pegou o tablet de Lorenzo e limpou a tela com o lenço, tentando voltar à sua invisibilidade programada.

— Como é o seu nome mesmo? — a voz de Lorenzo ecoou logo atrás dela.

Amália sobressaltou-se, virando-se devagar. Lorenzo a observava com os braços cruzados, a gravata levemente afrouxada. Não havia gratidão em seus olhos, apenas uma curiosidade fria e cirúrgica. O tipo de olhar que ela mais temia.

— Amália, senhor. Amália Flores — ela respondeu, baixando os olhos.

— Você manteve a calma, Amália. Mais do que os produtores que trabalham com aquele homem há anos — Lorenzo deu um passo à frente, a presença dele preenchendo o espaço entre eles. — E estabilizou um tripé de cinquenta quilos com uma mão enquanto checava os sinais vitais dele com a outra. Onde aprendeu primeiros socorros com tanta... propriedade?

Amália sentiu o estômago revirar. O jogo de xadrez havia começado no primeiro dia.

— No meu país de origem, as crises são comuns, Sr. Gouveia — ela respondeu, escolhendo as palavras como quem pisa em um campo minado. — Aprendemos a não entrar em pânico quando o teto ameaça cair. Com licença, vou organizar os relatórios da fusão que a Antônia deixou pendentes.

Ela fez uma leve reverência e caminhou em direção à porta de vidro.

Lorenzo permaneceu parado, observando o caminhar altivo, porém defensivo, de sua nova assistente temporária. Havia algo de profundamente magnético nela, uma dignidade que não combinava com o cargo e um mistério que suas cifras não conseguiam decifrar. Pela primeira vez em anos, Lorenzo Gouveia sentiu um vislumbre de interesse por algo que não envolvesse lucros ou dividendos.

Lá fora, Amália encostou as costas na parede do corredor, fechando os olhos e respirando fundo. O perigo estava dentro daquela sala de mármore. Lorenzo Gouveia era um homem inteligente demais, poderoso demais, e a última coisa de que ela precisava era da atenção do dono do império.