Chapter 1
Depois que o mundo foi tomado pelos mortos, sobreviver tornou-se apenas o começo.
Protegido por muralhas, plantações e pessoas dispostas a dar a própria vida umas pelas outras, a CNB tornou-se um dos últimos refúgios em um mundo devastado. Liderada por homens e mulheres que dedicaram suas vidas a proteger a comunidade, a base representa esperança em meio ao caos.
O sol ainda nem havia surgido no horizonte quando a CNB começou a despertar.
A madrugada resistia sobre as muralhas reforçadas, cobrindo o céu com tons azulados e cinzentos. Os refletores das torres de vigilância permaneciam acesos, varrendo lentamente a extensão do terreno ao redor. Do lado de fora, além das barreiras de metal, concreto e madeira improvisada, o mundo parecia silencioso demais um silêncio pesado, daqueles que nunca significavam verdadeira segurança.
Dentro da base, porém, a vida começava cedo.
Passos apressados ecoavam pelos corredores. Portas de alojamentos se abriam. Guardas encerravam seus turnos enquanto outros assumiam seus postos. O cheiro de café recém-passado se misturava ao de ferrugem, terra úmida e combustível, compondo o aroma característico daquele lugar que centenas de sobreviventes haviam aprendido a chamar de lar.
Na sala de comando, o ambiente já estava completamente desperto.
Um enorme mapa ocupava quase toda a mesa central. Suas bordas estavam desgastadas pelo uso constante, marcadas por anotações, riscos e pequenas manchas de café. Marcadores coloridos indicavam postos de vigilância, plantações, depósitos, rotas de patrulha e possíveis caminhos de ataque. Algumas áreas haviam sido circuladas em vermelho; outras estavam cobertas por observações escritas às pressas.
Ao redor da mesa, os principais líderes do CNB aguardavam as instruções daquele início de manhã.
De braços cruzados, Molra observava cada detalhe em silêncio.
O homem mantinha o corpo imóvel, mas seus olhos percorriam o mapa sem descanso. Analisavam distâncias, rotas e posições como se cada pequeno marcador pudesse representar uma vida que dependia diretamente de suas escolhas. As noites mal dormidas deixavam sombras discretas sob seus olhos, embora sua postura continuasse firme.
Ele parecia alguém acostumado a carregar o peso das decisões e que já não se lembrava de como era viver sem esse peso.
Molra apoiou uma das mãos sobre a mesa antes de finalmente falar.
- Hoje ninguém inventa moda... Temos novatos chegando, recursos para colher e um comboio para proteger. Quero todo mundo focado.
Sua voz era firme, mas transmitia a tranquilidade de quem sabia exatamente o que estava fazendo.
A ordem não foi dita em tom agressivo. Não precisava.
Quando Molra falava daquela maneira, todos entendiam que cada detalhe já havia sido pensado mais de uma vez.
Antes que alguém pudesse responder, uma voz conhecida atravessou o silêncio da sala.
- Ih... começou o discurso do pai da família! - brincou Ricky, abrindo um sorriso tão grande que contagiou metade da sala.
Ricky estava encostado despreocupadamente contra uma das paredes, como se não existisse nenhuma ameaça do lado de fora das muralhas. O jeito brincalhão contrastava com a seriedade da reunião, mas aquela era justamente a habilidade dele: aliviar o ambiente no momento exato em que a tensão começava a se tornar pesada demais.
Alguns líderes soltaram risadas.
Molra apenas balançou a cabeça, segurando o próprio sorriso.
- Cala a boca e vai trabalhar.
Ricky afastou-se da parede e levou uma das mãos ao peito, adotando uma expressão profundamente ofendida.
- Tá vendo? Ele me ama. - Ricky levou a mão ao peito, fingindo estar profundamente emocionado.
- Confunde respeito com pena. - respondeu Molra sem conseguir esconder um sorriso de canto.
As gargalhadas ecoaram pela sala de comando, quebrando por alguns segundos o peso das responsabilidades daquela manhã.
Até Dhani precisou abaixar a cabeça para esconder a risada.
Por um breve instante, todos pareciam apenas amigos reunidos ao redor de uma mesa.
Não líderes, não sobreviventes e não pessoas responsáveis por manter uma comunidade inteira viva.
Apenas uma família barulhenta e imperfeita que havia aprendido a permanecer unida mesmo quando tudo ao redor tentava destruí-la.
† Treinamento †
Enquanto isso, do lado de fora da base, o pátio de treinamento já estava tomado pelo som de botas, escudos e respirações cansadas.
O espaço ficava entre o setor dos alojamentos e uma das muralhas internas. Bonecos improvisados, feitos com sacos de areia e roupas velhas, estavam distribuídos pelo terreno. Marcas de golpes cobriam suas superfícies. Algumas estruturas de madeira formavam obstáculos, enquanto pneus, cordas e vigas compunham um circuito físico criado com tudo o que havia sido encontrado nas antigas cidades.
Dante caminhava entre os novos integrantes com as mãos para trás, observando atentamente cada movimento.
Nada escapava ao seu olhar.
Uma postura errada, um escudo baixo demai, um passo dado antes da hora e até mesmo a maneira como os recrutas respiravam revelava se estavam com medo, cansados ou prestes a cometer algum erro.
- Postura!... Escudo levantado!... Nunca avancem sozinhos! - sua voz grave ecoava pelo pátio.
Os recrutas tentavam acompanhar o ritmo, mas o cansaço já começava a aparecer em seus rostos. A maioria havia chegado à base há poucos dias. Alguns nunca tinham segurado uma arma. Outros haviam sobrevivido escondendo-se, correndo ou contando com a sorte.
Ali, precisariam aprender que sorte não era uma estratégia.
No fim da fila, Eddie observava tudo em silêncio.
Seus braços estavam cruzados, e sua expressão permanecia séria, embora menos rígida que a de Dante. Enquanto o instrutor se concentrava nos movimentos gerais do grupo, Eddie prestava atenção nas reações individuais.
Quando um dos novatos tentou avançar rápido demais, o pé ficou preso em uma irregularidade do terreno. O garoto perdeu o equilíbrio e caiu de frente na poeira, fazendo o escudo escapar de sua mão.
Alguns colegas soltaram risadas discretas.
O jovem permaneceu no chão por alguns segundos, mais envergonhado do que machucado.
Eddie caminhou até ele e estendeu a mão.
- Levanta. Todo mundo cai na primeira semana. O importante é levantar mais rápido do que caiu. - disse com um pequeno sorriso.
O garoto ergueu o rosto, ainda vermelho de constrangimento. Depois de uma breve hesitação, segurou a mão oferecida e se levantou rapidamente.
- Obrigado.
Eddie deu um leve tapa em seu ombro.
- Agora tenta não repetir a cena. O chão já te conheceu o suficiente por hoje.
Os recrutas riram, dessa vez sem crueldade.
Até o garoto soltou um sorriso sem graça antes de recuperar o escudo e voltar à posição.
Dante observou a cena de longe, mas não interferiu. Apenas esperou até que todos estivessem novamente preparados.
Então ergueu a voz:
- De novo!
Um gemido coletivo percorreu a fila.
Eddie afastou-se com um sorriso quase imperceptível.
Naquele mundo, aprender a cair era importante.
Mas aprender a levantar podia ser a diferença entre voltar para casa e nunca mais atravessar os portões da base.








