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CNB Sombras da Liberdade

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Resumo

Após o colapso da civilização, sobreviver já não significa apenas escapar dos zumbis. Em um mundo dominado pelo medo, pela escassez e por comunidades violentas, o CNB tornou-se um dos últimos refúgios onde ainda existe esperança. Protegida por muralhas improvisadas e liderada por um grupo de sobreviventes dispostos a sacrificar tudo por sua comunidade, a base enfrenta diariamente hordas de mortos, missões arriscadas e a difícil tarefa de reconstruir um futuro em meio às ruínas. Mas quando acontecimentos inexplicáveis começam a colocar vidas em risco, a confiança entre os próprios líderes é abalada. Sabotagens, pistas misteriosas e segredos escondidos indicam que a maior ameaça talvez nunca tenha estado do lado de fora das muralhas. Enquanto uma investigação silenciosa tenta descobrir a verdade, um inimigo muito maior observa cada passo do CNB, preparando um ataque capaz de mudar o destino de todos. Entre batalhas intensas, casais e amores revelados, escolhas impossíveis e laços que se fortalecem diante do caos, os membros do CNB descobrirão que sobreviver exige muito mais do que coragem. Porque, às vezes, as sombras mais perigosas caminham ao seu lado.

Gênero
Scifi
Autor
Rayanne
Status
há um mês
Capítulos
5
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

Capítulo 01 - Uma Família Imperfeita

O sol ainda nem havia rompido completamente o horizonte quando a base principal da CNB começou a despertar.

As primeiras luzes da manhã atravessavam a neblina fina que cobria o terreno, tingindo de dourado as muralhas construídas com concreto reforçado, chapas metálicas reaproveitadas e antigas estruturas de edifícios desmontados. No alto das torres de vigilância, sentinelas encerravam seus turnos enquanto outros assumiam posição, conferindo binóculos, rádios e munições antes da troca definitiva.

Do lado de dentro das muralhas, a comunidade já estava acordada.

O cheiro de café recém-passado misturava-se ao da terra úmida das plantações, da madeira queimando lentamente na cozinha comunitária e do óleo utilizado na oficina mecânica.

Mecânicos abriam os grandes portões do galpão enquanto verificavam caminhões, caminhonetes e motocicletas usados nas expedições.

Na área agrícola, agricultores distribuíam ferramentas antes de seguir para os campos de cultivo. Algumas famílias já colhiam verduras que seriam levadas ao refeitório, enquanto outras organizavam sementes para o plantio da tarde.

No hospital, enfermeiros iniciavam a troca de plantão sob a supervisão de Emy, que revisava rapidamente o quadro de pacientes antes de começar mais um dia.

Perto da escola, Violet recebia as primeiras crianças da comunidade. Algumas chegavam correndo, outras ainda bocejavam enquanto carregavam pequenos cadernos confeccionados pelos próprios moradores.

Do outro lado da praça, Azul montava os equipamentos da aula de sobrevivência. Cordas, armadilhas simples, mochilas e bússolas eram organizadas sobre uma mesa improvisada antes da chegada dos alunos.

Na oficina, Zang já discutia com um dos mecânicos por causa de uma chave inglesa fora do lugar.

— Se eu perder mais cinco minutos procurando ferramenta, vocês vão aprender a consertar motor com colher!

O mecânico apenas abaixou a cabeça e continuou procurando a chave.

Era uma cena tão comum que ninguém mais parecia se importar.

Perto do portão principal, Ricky conversava com a equipe que acabava de retornar da ronda noturna. Enquanto recolhia os relatórios das patrulhas, aproveitava para brincar com os soldados, arrancando algumas risadas mesmo dos mais cansados.

Mais adiante, Sendy conferia discretamente os mapas das rotas externas antes da saída das próximas equipes. Alguns patrulheiros aproximavam-se apenas para lhe entregar pequenas informações ou confirmar mudanças nas rondas. As conversas eram rápidas e discretas, quase sempre encerradas com um simples aceno de cabeça.

Atrás dos alojamentos, protegida por telas metálicas e cercada por pequenos canteiros experimentais, Mikka já trabalhava na estufa.

Enquanto alguns moradores irrigavam as hortaliças, ela examinava cuidadosamente algumas mudas medicinais, anotando observações em um caderno gasto pelo uso. Sobre uma bancada, pequenos frascos de vidro secavam ao lado de ervas recém-colhidas que mais tarde seriam levadas ao laboratório botânico.

Cada pessoa parecia conhecer exatamente o próprio lugar.

Cada setor mantinha outro funcionando.

Cada rotina ajudava a sustentar aquela pequena cidade.

Apesar da tranquilidade aparente, todos sabiam que bastava um erro para tudo desmoronar.

Uma patrulha atrasada.

Um portão aberto.

Uma distração durante a vigília.

Na CNB, sobreviver era resultado da disciplina de todos.

---

No segundo andar do prédio administrativo, onde funcionavam a sala de estratégia, o centro de comunicações e o monitoramento da base, um enorme mapa ocupava quase toda a mesa principal.

Pequenos marcadores coloridos indicavam postos de vigilância, plantações, depósitos, torres, rotas de patrulha, comunidades aliadas e possíveis caminhos de invasão. Papéis estavam espalhados ao lado de rádios que chiavam constantemente com informações vindas das muralhas.

De braços cruzados, Molra observava cada detalhe em silêncio.

Como líder da comunidade, carregava muito mais do que mapas diante de si.

Carregava vidas.

Seu olhar percorria lentamente cada anotação enquanto calculava horários, riscos e prioridades. As poucas horas de sono deixavam discretas olheiras sob seus olhos, mas sua postura permanecia firme.

Ali dentro, ninguém precisava perguntar quem comandava.

Sua presença bastava.

Ao redor da mesa, os demais líderes aguardavam o início da reunião.

Dhani, responsável pela administração, organização dos recursos e coordenação entre os setores, conferia relatórios de estoque enquanto separava pedidos urgentes dos que poderiam esperar até o dia seguinte.

Kelly terminava de revisar um relatório das câmeras de vigilância.

Esaú organizava algumas anotações técnicas que seriam utilizadas mais tarde na manutenção dos servidores.

Ricky apoiava-se descontraidamente contra uma das paredes, girando distraidamente uma caneta entre os dedos.

— Hoje ninguém inventa moda... Temos novatos chegando, recursos para colher e um comboio para proteger. Quero todo mundo focado.

Sua voz era firme.

Calma e segura.

Não precisava aumentar o tom para ser ouvido.

Antes que alguém respondesse, Ricky sorriu.

— Ih... começou o discurso do pai da família.

Alguns líderes soltaram risadas.

Até Esaú levantou discretamente os olhos do caderno.

Dhani precisou esconder um sorriso atrás dos papéis.

Molra apenas balançou a cabeça.

— Cala a boca e vai trabalhar.

Ricky levou dramaticamente a mão ao peito.

— Tá vendo? Ele me ama.

— Confunde respeito com pena.

Dessa vez até Molra deixou escapar um pequeno sorriso.

As gargalhadas preencheram a sala por alguns segundos.

A tensão desapareceu completamente.

Era exatamente aquele tipo de momento que fazia a CNB parecer menos uma organização militar e mais uma enorme família.

Imperfeita.

Barulhenta.

Cheia de pessoas completamente diferentes.

Mas que, de alguma forma, funcionava.

---

Do lado de fora, o pátio de treinamento já estava tomado pelo som de botas batendo contra a terra endurecida.

O choque de escudos de madeira, o impacto das espadas de treino e as ordens dos instrutores ecoavam entre os prédios.

Dante caminhava lentamente entre os novos recrutas com as mãos cruzadas atrás das costas.

Como responsável pelo treinamento militar da comunidade, observava postura, equilíbrio e disciplina com uma atenção quase assustadora.

Nada escapava ao seu olhar.

— Postura!... Escudo levantado!... Nunca avancem sozinhos!

Os recrutas obedeciam imediatamente.

O suor escorria pelos rostos.

Os braços começavam a tremer pelo esforço.

Mesmo assim, ninguém ousava reclamar.

Próximo à fileira, Eddie acompanhava o treinamento em silêncio.

Além de integrar as equipes de combate, era conhecido por sua paciência com os novatos.

Enquanto Dante corrigia técnicas, Eddie observava pessoas.

Percebia quando alguém estava exausto.

Quando o medo começava a vencer a concentração.

Quando bastava uma palavra de incentivo para evitar que alguém desistisse.

Um rapaz tropeçou durante o exercício e caiu de forma desajeitada.

Alguns colegas riram discretamente.

Sem dizer nada, Eddie aproximou-se e estendeu a mão.

— Levanta.

O garoto aceitou a ajuda.

— Todo mundo cai na primeira semana.

Esperou o rapaz recuperar o equilíbrio antes de completar com um sorriso tranquilo:

— O importante é levantar antes que o Dante veja.

O recruta riu.

Logo depois olhou discretamente para o instrutor.

Eddie continuava observando o restante da turma.

Como se não tivesse ouvido.

— Acho que ele não viu...

— Eu vi.

A resposta veio sem que Dante sequer olhasse para trás.

Uma nova onda de risadas percorreu o treinamento.

Até o próprio novato sorriu.

Por um instante, o peso do mundo pareceu menor.

Naquele pequeno pedaço protegido por muralhas, ainda existia espaço para aprender.

Para errar.

E até para rir.

Atrás do hospital e protegida e protegida pelas muralhas, a área agrícola era um dos lugares mais tranquilos da CNB.

Ali ficavam as plantações, a estufa e o pequeno laboratório botânico, onde Mikka passava boa parte dos dias pesquisando plantas medicinais, cultivando mudas raras e preparando compostos utilizados pela comunidade.

O cheiro de terra molhada misturava-se ao perfume das ervas secando em varais de madeira.

O som da água escorrendo pelos regadores competia apenas com o canto dos pássaros que ainda insistiam em viver naquela região.

Enquanto alguns moradores colhiam verduras que seriam levadas ao refeitório, outros removiam ervas daninhas ou transportavam caixas de sementes para o depósito agrícola.

Um senhor mais velho passou empurrando um carrinho carregado de tomates.

— Bom dia, Mikka.

Ela ergueu o rosto e sorriu.

— Bom dia, seu Augusto.

O homem abriu um sorriso antes de continuar o caminho.

Mais adiante, duas adolescentes organizavam pequenas mudas em vasos de barro.

— Essas vão para onde?

— Hospital — respondeu Mikka sem sequer levantar os olhos. — Isa, lembra de pedir mais vasos quando passar na administração.

Isa fez uma anotação rápida no pequeno caderno que carregava consigo.

Além de integrar a equipe de estratégia, ela auxiliava Mikka na organização da estufa e mantinha o controle dos materiais utilizados naquele setor.

— Já está na lista.

Mikka caminhava lentamente entre os canteiros segurando um regador.

Cada planta era examinada com atenção quase científica.

Não observava apenas folhas ou raízes.

Analisava coloração, textura, umidade da terra e até pequenos insetos que pousavam sobre algumas espécies.

Ali cresciam legumes, ervas medicinais e mudas raras que garantiam boa parte da alimentação e dos tratamentos utilizados pela CNB.

Depois de verificar alguns vasos, olhou discretamente para os lados.

Não havia ninguém prestando atenção.

Retirou um cigarro do bolso.

Levantou-o lentamente até os lábios.

— Nem pensa nisso.

A voz surgiu atrás dela tão de repente que Mikka deu um pequeno salto.

Levou a mão ao peito com o susto.

— Um dia você ainda vai me matar do coração.

Isa apareceu segurando um regador, tentando esconder a risada.

— E você... vai parar de aparecer fumando escondida quando?

Mikka arqueou uma sobrancelha.

— Escondida? Todo mundo sabe.

— O Molra finge que não sabe.

— Ele é muito educado.

Isa balançou a cabeça.

— Ou muito paciente.

As duas começaram a caminhar entre os canteiros.

Enquanto Isa conferia algumas anotações sobre irrigação, Mikka orientava dois moradores que transplantavam mudas para uma nova fileira.

— Essas não podem ficar tão próximas.

O rapaz afastou imediatamente os vasos.

— Assim?

Ela observou por alguns segundos.

— Melhor.

A moça ao lado sorriu.

— Você percebe essas coisas de longe.

Mikka apenas deu de ombros.

— As plantas costumam avisar quando alguma coisa está errada.

Os dois trocaram um olhar curioso.

Ainda achavam impressionante como ela parecia entender cada espécie da estufa.

Poucos passos depois, Mikka diminuiu o ritmo.

Seu olhar fixou-se em uma pequena muda próxima à cerca.

Abaixou-se lentamente.

Passou os dedos sobre a terra.

Franziu a testa.

— Essa muda está diferente...

Isa aproximou-se.

— Qual delas?

Mikka afastou cuidadosamente um pouco da terra.

Parecia remexida.

As folhas permaneciam saudáveis.

Mas...

Algo não parecia certo.

Ela permaneceu alguns segundos em silêncio.

Tentando entender aquela sensação.

Isa observou o local.

— Talvez algum dos agricultores tenha mexido nela ontem.

Mikka balançou lentamente a cabeça.

— Não.

Olhou novamente para a terra.

— Eles não deixam esse tipo de marca.

Isa voltou a observar o canteiro.

Dessa vez com mais atenção.

— Então o que foi?

Mikka respirou fundo.

Desviou os olhos para o restante da estufa.

— Não sei...

Sua voz saiu baixa.

— Mas alguém passou por aqui.

Um vento atravessou a cobertura da estufa, fazendo algumas folhas balançarem.

Isa fechou o caderno.

Sem perceber, também começou a observar o restante do ambiente com mais atenção.

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