Sexo E Indecisão por S_MARX em Inkitt
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Sexo e Indecisão

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Resumo

Ela tem três homens. Um quer construir um futuro com ela. O outro é o espelho da própria solidão dela. O terceiro vai amá-la do jeito mais brutal que existe: sem promessas, sem culpa, sem volta. Talita sempre acreditou que indecisão era liberdade. Que manter portas abertas era inteligência. Que ter opções era poder. Durante o dia, é uma mulher elegante que atravessa corredores de repartição pública com livros debaixo do braço. À noite, é uma mulher que escolhe homens que não a obrigam a escolher, porque decidir sempre significou perder alguma coisa. Entre Fred, que a enxerga de verdade, Horácio, que a deseja sem querer possuí-la, e Pedro, o predador que desperta um desejo que beira a destruição, Talita vai descobrir que indecisão não é liberdade. É o lugar mais solitário que existe. Sexo e Indecisão não é um livro sobre escolher entre três homens, mas sobre o que acontece com uma mulher que espera tempo demais para descobrir o que realmente quer — e descobre tarde demais. Quem não decide deixa que a vida decida por ela. Conteúdo: cenas explícitas de sexo, linguagem adulta, temas sensíveis.

Gênero
Erotica
Autor
S_MARX
Status
Completo
Capítulos
10
Classificação
5.0 1 avaliação
Classificação Etária
18+

Capítulo 1 - A Mulher Que Nunca Escolhe

Talita tinha o tipo de beleza que cansava os homens antes mesmo de conquistá-los. Não porque fosse inacessível, mas porque parecia pertencer àquela categoria rara de mulheres que despertam nos outros alguma fantasia antiga de permanência. Como se ao lado dela fosse possível envelhecer elegantemente, comprar vinhos aos domingos, aprender a gostar de silêncio e transformar rotina em delicadeza.

Era bonita desse jeito perigoso. Os cabelos castanho-claros caíam retos até o meio das costas, disciplinados como tudo nela deveria aparentar ser. Os olhos verdes tinham uma serenidade enganosa, quase doce demais para alguém que passava boa parte da vida fugindo de qualquer coisa que ameaçasse durar.

Na Secretaria Pública do Estado, onde trabalhava havia seis anos, Talita parecia existir em câmera lenta dentro da brutalidade burocrática do mundo. Arquivos. Planilhas. Processos. Assinaturas. Carimbos.

A repartição tinha cheiro de papel velho, café requentado e vidas adiadas. E, ainda assim, ela mantinha uma elegância quase absurda naquele lugar. As mulheres comentavam discretamente suas roupas. Os homens prolongavam conversas desnecessárias ao lado da mesa dela. Os estagiários endireitavam a postura quando Talita atravessava os corredores segurando pastas contra o peito. Ela percebia tudo. E odiava perceber, porque atenção masculina era como açúcar: agradava no instante exato em que começava a destruir.

Naquela terça-feira de junho, a chuva caía fina sobre os vidros altos do prédio público enquanto Talita revisava relatórios sem realmente enxergar nenhuma linha. O computador iluminava seu rosto cansado. Não cansado de trabalho, mas de repetição. Ela já conhecia o ciclo inteiro: homem novo; encantamento; mensagens; sexo; promessas vagas; sufocamento; distância; fim.

Às vezes o problema eram eles e às vezes era ela. Na maioria das vezes, ela nem tentava descobrir.

— Você vai sair hoje? — perguntou Denise da mesa ao lado, fechando a bolsa.

Talita demorou a responder. A pergunta parecia simples, mas, na verdade, nunca era.

Porque “sair” significava muitas coisas, como encher o apartamento silencioso de vinho, aceitar algum convite medíocre no celular, ir para um restaurante e observar casais ou simplesmente procurar alguma distração masculina, capaz de anestesiar aquela sensação crescente de ausência que começava sempre depois das oito da noite.

— Não sei ainda — respondeu.

Denise riu.

— Você sempre fala isso quando quer dizer “sim”.

Talita sorriu discretamente.

Era verdade. Ela tinha medo de admitir até os próprios impulsos.

Quando Denise foi embora, o silêncio da repartição aumentou de tamanho. Os corredores ficaram vazios e as luzes frias pareceram mais agressivas. Enquanto a chuva tornava a cidade distante atrás das janelas, Talita permaneceu sentada olhando o monitor desligado. Havia dias em que voltar para casa parecia uma derrota íntima.

Seu apartamento era bonito, organizado, cheiroso e elegante. Porém, profundamente silencioso. E o silêncio, ultimamente, vinha começando a falar. Ela pegou o celular, mas não havia nenhuma mensagem importante. Dois homens insistentes com quem não queria absolutamente nada, que a convidavam para um bar e uma promoção de passagens aéreas. Nada que realmente a alcançasse. Guardou o aparelho na bolsa e saiu.

A cidade respirava vapor e luzes molhadas. Os faróis dos carros riscavam o asfalto como pincéis nervosos em uma tela escura. Havia algo melancólico nas noites de chuva em São Paulo. Como se todos estivessem tentando chegar em algum lugar emocionalmente impossível.

Talita entrou em um pequeno restaurante italiano no centro expandido da cidade. Luz baixa, madeira escura, música suave e taças tilintando discretamente. O tipo de lugar onde homens traíam esposas elegantemente e mulheres fingiam não esperar mensagens. Pediu vinho e se sentou e perto da janela. A intenção era observar a rua em vez das pessoas felizes ao redor. Mas felicidade alheia sempre fazia barulho.

Na mesa atrás dela, um homem segurava a mão da esposa enquanto conversavam baixo. Em outro canto, um casal discutia discretamente usando sorrisos falsos para esconder a violência do desgaste.Talita observava tudo porque livros haviam estragado sua capacidade de não interpretar pessoas. Bibliotecários vivem entre histórias por tempo demais, e talvez por isso ela fosse incapaz de viver a própria sem procurar significados ocultos o tempo inteiro.

Tomou um gole de vinho e pensou em ligar para alguém, mas no mesmo instante desistiu. Não era saudade. Era necessidade de ruído. Foi então que percebeu um homem que também estava sozinho na mesa ao lado. Camisa escura, relógio discreto e postura elegante. Tinha cabelos castanho-claros cuidadosamente desalinhados, corpo forte sem ostentação física e olhar calmo. Muito calmo. “Um gato!”, pensou.

Homens bonitos normalmente carregavam uma ansiedade visível quando olhavam para ela. Uma espécie de fome automática. Aquele homem parecia diferente. A observava sem pressa, sem invasão. Como quem aprecia alguma coisa rara sem precisar imediatamente possuí-la. Aquilo a desestabilizou mais do que deveria.

Talita desviou os olhos primeiro, o que a irritou imediatamente. Pegou o celular apenas para parecer ocupada, e abriu mensagens sem ler nenhuma. Fechou. Abriu redes sociais e nada a interessava. Quando voltou o olhar para o salão, o garçom aproximava-se da mesa.

— Com licença, senhora.

Ela ergueu os olhos.

— O senhor daquela mesa pediu para lhe entregar isto.

Uma nova taça de vinho foi colocada diante dela, mais sofisticado que o anterior. Talita olhou discretamente na direção do homem, que apenas ergueu a própria taça em silêncio. Sem sorriso exagerado, arrogância ou aquela autoconfiança vulgar dos homens acostumados a receber mulheres como prêmio pela insistência. Ela odiou admitir que sentiu curiosidade e isso sempre era o começo do problema.

Alguns minutos depois, ele se aproximou. A movimentação dele era tranquila. Quase elegante demais para os tempos atuais.

— Espero não ter sido inconveniente.

A voz era grave na medida certa, do tipo bonita sem esforço. Ela sustentou o olhar dele, que de perto era ainda mais perigoso porque parecia emocionalmente inteiro, e homens inteiros sempre a deixavam desconfortável.

— Depende da intenção — respondeu.

O canto da boca dele se moveu num sorriso discreto.

— Justo.

Silêncio.

Ele manteve a distância correta. Nem perto demais e nem excessivamente cuidadoso. Como um homem que conhecia o próprio efeito sobre as pessoas e, exatamente por isso, não precisava demonstrá-lo.

— Frederico, mas pode me chamar de Fred.

Ela observou a mão estendida. Mãos masculinas dizem muito sobre um homem e Talita acreditava nisso. A dele era firme, limpa, segura e ela a apertou lentamente.

— Talita.

— Muito prazer, Talita.

O nome dela pareceu diferente na voz dele. Mais lento.

Fred sentou-se apenas depois que ela assentiu discretamente e os dois conversaram. O estranho é que não parecia um flerte comum, mas alguma outra coisa com o que não estava acostumada. Ele perguntava olhando nos olhos, escutava de verdade, não interrompia e não tentava transformar tudo em oportunidade para falar de si mesmo. Quando ela comentou casualmente sobre livros antigos e primeiras edições raras, ele demonstrou interesse genuíno. Quando ela mencionou o trabalho na Secretaria, ele não fez piadas sobre funcionalismo público como quase todos faziam. Quando ela silenciava, ele não corria desesperadamente para preencher os espaços.

Aquilo começou a assustá-la devagar, porque homens emocionalmente barulhentos ela sabia controlar, mas homens tranquilos… Homens tranquilos enxergavam demais.

— Você parece cansada — ele disse em determinado momento.

A frase veio suave. Sem julgamento ou invasão. Mesmo assim, Talita sentiu alguma coisa endurecer dentro dela.

— Cansada?

Fred girou lentamente a taça entre os dedos.

— Como se estivesse carregando pensamentos demais sozinha há muito tempo.

Ela sustentou o olhar dele por alguns segundos e ali aconteceu algo pequeno. Quase invisível, mas decisivo. Talita sentiu vontade de mentir. Rir, mudar de assunto, seduzir ou criar alguma distração elegante. Porque aquela percepção masculina a colocava perigosamente perto de ser vista, o que era algo muito mais íntimo do que sexo.

Lá fora, a chuva engrossou e a música continuava baixa. As luzes âmbar refletiam nos vidros molhados do restaurante enquanto Fred permanecia diante dela com aquela tranquilidade insuportavelmente adulta.

Nesse instante, Talita então percebeu uma coisa estranha. Pela primeira vez em muito tempo, não queria impressionar um homem, mas entender por que aquele desconhecido a fazia sentir como se estivesse prestes a perder alguma coisa que ainda nem havia começado.

Fred não perguntou se ela morava sozinha, sobre ex-namorados, se estava disponível. Não tentou transformar a conversa em interrogatório sedutor como homens normalmente faziam e justamente por isso Talita começou a relaxar. O problema das mulheres bonitas é que quase todos os homens chegam famintos demais, mas Fred parecia diferente. Parecia ser um homem acostumado a possuir tempo.

Ela começou a observá-lo melhor enquanto conversavam. Os detalhes. A forma tranquila como segurava a taça, o jeito atento de ouvir e a ausência completa daquela necessidade masculina de impressionar. Homens ricos normalmente faziam questão de parecer ricos. Homens inteligentes faziam questão de parecer inteligentes. Homens inseguros transformavam tudo em performance. Porém, ele não parecia precisar de plateia.

— Você trabalha com o quê? — ela perguntou.

— Tecnologia.

A resposta curta a fez sorrir.

— Isso foi vago.

— Empresa de software corporativo.

— Dono?

— Sócio.

Talita assentiu devagar. Ela já teria identificado sinais de arrogância em qualquer outro homem naquele momento. Mas Fred falava sobre dinheiro como quem comenta clima e aquilo era perigosamente sedutor, porque segurança verdadeira raramente fazia barulho.

— E você? — ele perguntou.

— Biblioteconomia.

O sorriso dele surgiu imediatamente. Não era um sorriso educado, mas era genuinamente curioso.

— Eu nunca conheci uma bibliotecária bonita antes.

Ela arqueou a sobrancelha.

— Existe um padrão oficial para bibliotecárias?

— Agora eu descobri que existe.

Talita riu pela primeira vez naquela noite e percebeu algo pequeno: não estava rindo para agradá-lo. Estava simplesmente confortável e isso era muito raro de acontecer. A conversa avançou sem esforço. Conversaram sobre literatura, viagens, música e solidão nas grandes cidades. A estranha sensação de que todos fingiam estar emocionalmente melhores do que realmente estavam.

Fred falava pouco sobre si, mas quando falava havia profundidade. Contou sobre o pai militar, a mãe professora, a obsessão da família por educação e as dificuldades do início da empresa. Em nenhum momento houve autopromoção e ela percebeu que ele não usava histórias como ferramentas de sedução. Aquilo era absurdamente raro e em determinado momento ela perguntou:

— Você sempre conversa assim com desconhecidas?

Fred sustentou o olhar dela antes de responder.

— Não.

Houve um silêncio e Talita sentiu alguma coisa atravessá-la lentamente. Uma espécie de calor emocional, desconfortável, íntimo. Ela conhecia desejo masculino. Conhecia química. Conhecia tensão sexual. Mas aquilo parecia outra coisa. Parecia interesse verdadeiro e isso sempre vinha acompanhado de risco.

Do lado de fora, a chuva piorava. O restaurante havia esvaziado lentamente até restarem poucas mesas ocupadas. A música agora parecia ainda mais baixa, como se o ambiente inteiro tivesse diminuído o volume para deixá-los existir ali dentro.

Talita olhou discretamente o relógio. Já passava das onze e pela primeira vez em muito tempo ela não sentia vontade de ir embora antes do homem perder o mistério, o que normalmente acontecia rápido. Os homens começavam interessantes, mas depois surgiam a carência, o ego, a pressa, o controle e a vulgaridade. Fred continuava igual: Calmo, presente, elegante. Aquilo começou a provocar nela uma sensação perigosa. Expectativa|!

Quando o restaurante anunciou discretamente o encerramento das atividades, Fred pegou o paletó.

— Posso te levar em casa?

Talita hesitou. Não era medo dele, mas do que ela própria começava a sentir. Mesmo assim assentiu.

Fred dirigia um carro sofisticado sem ostentação. Interior escuro. Cheiro limpo. Música baixa. Talita observava as luzes correndo pelos vidros enquanto tentava entender por que aquele homem a deixava tão alerta emocionalmente. Ela já havia saído com homens mais bonitos. Mais ricos. Mais intensos. Mas nenhum parecia produzir aquele tipo específico de inquietação. Porque Fred parecia capaz de permanecer e permanência exigia verdade.

No caminho, ele não tentou tocá-la. Não colocou a mão sobre sua perna e nem criou tensão artificial. Apenas conversava e isso a desarmava mais do que sedução agressiva jamais conseguiria.

— Você pensa demais — ele comentou de repente.

Ela virou o rosto lentamente.

— Como sabe?

Fred sorriu de leve.

— Pessoas silenciosas normalmente estão tendo conversas enormes dentro da cabeça.

Talita desviou os olhos para a janela. Aquilo chegou perto demais do seu íntimo.

Quando o carro parou diante do prédio dela, a chuva ainda caía fina sobre os faróis. Fred desceu primeiro e abriu a porta para ela. Um gesto simples que produziu nela uma sensação absurdamente feminina. Antiga. Quase esquecida. Por um instante, Talita imaginou como seria ser amada daquele jeito todos os dias, mas imediatamente sentiu vontade de fugir da ideia.

Pararam diante da entrada do edifício e a cidade parecia distante atrás da cortina de chuva. Ele se aproximou apenas o suficiente para que ela sentisse o calor dele. Nada invasivo ou apressado.

— Gostei da noite — ele disse.

A voz baixa fez alguma coisa se contrair dentro dela. Porque homens normalmente diziam: “Você é linda”, “quero te ver de novo”, “vamos para outro lugar.” Fred falava diferente, como um homem que não precisava correr porque sabia exatamente o valor daquilo que sentia.

Talita sustentou o olhar dele e os olhos castanhos eram perigosamente tranquilos. Então aconteceu. Muito devagar, Fred tocou o rosto dela. O polegar deslizou suavemente próximo à sua mandíbula, afastando uma mecha úmida de cabelo. Talita prendeu a respiração. A delicadeza quase a destruiu naquele instante, porque brutalidade ela sabia suportar, mas cuidado… Cuidado sempre encontrava rachaduras.

— Posso te beijar? — perguntou.

Ela poderia ter transformado aquilo em brincadeira. Poderia ter provocado ou ter escapado. Mas não conseguiu. Apenas assentiu lentamente. Fred a beijou com uma calma que parecia perigosamente íntima. Nada desesperado ou vulgar. Os lábios masculinos tocaram os dela como se houvesse tempo suficiente no mundo e foi exatamente isso que a assustou: Tempo.

Talita sentiu o corpo inteiro reagir de maneira silenciosa enquanto a mão dele permanecia em seu rosto, firme, quente, absurdamente segura. Havia desejo no beijo. Muito desejo. Mas havia outra coisa também. Havia presença. Ela percebeu naquele instante que Fred não beijava mulheres apenas para possuí-las, mas como um homem que sabia permanecer depois.

Quando o beijo terminou, Talita demorou alguns segundos para abrir os olhos. Estava tão molhada quanto a chuva que caía ao redor deles. A cidade respirava luzes respingadas e o coração dela estava rápido demais.

Fred encostou levemente a testa na dela.

— Boa noite, Talita.

Simples. Sem insistência. Sem convite para subir. Sem pressão. Foi o golpe final, porque homens acostumados a conseguir qualquer mulher normalmente tentavam avançar. Porém, ele parecia confortável em esperar.

Ela observou o carro dele desaparecer lentamente na avenida e depois entrou no prédio. Subiu pelo elevador vazio sentindo alguma coisa estranha crescendo dentro do peito. No apartamento silencioso, tirou os saltos. Acendeu apenas a luz da cozinha e bebeu água. Tentou respirar normalmente, mas ainda sentia o gosto dele. Encostou-se na bancada de mármore e fechou os olhos.

A verdade era simples. Cruelmente simples.Talita já conhecia homens capazes de despertar desejo, mas fazia muitos anos que não encontrava um homem capaz de despertar futuro. Talvez tivesse sido exatamente naquele momento, sozinha em sua cozinha silenciosa, que o medo começou.

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