PRÓLOGO
POV CECÍLIA
"Corre, pequena! Corre!"
— Estou correndo! — respondo, ofegante.
"Você é lenta."
— Não sou. — Dou uma risada.
Corro até a árvore do nosso quintal e me escondo atrás do tronco grosso.
"Mais para a esquerda", Athena avisa na minha cabeça.
Seguro o riso, apertando as mãos contra a casca da árvore.
"Ela vai te encontrar."
— Não vai, não! — sussurro, animada.
— Cecília, vamos, meu amor. Você vai se atrasar. — Mamãe me chama, me encontrando em segundos.
Cruzo os braços e bato o pé no chão, aborrecida.
— Você é péssima em esconde-esconde, Athena.
"Eu disse para ir mais rápido!" — a voz rebate na minha mente.
— Cecília... — Mamãe fala, parecendo preocupada. — Com quem você está falando?
— Com a Athena.
O sorriso dela desaparece, como sempre acontece quando digo aquele nome.
Ela segura minha mão com firmeza, embora esteja levemente trêmula.
— Vamos. Está quase na hora da sua consulta. — O olhar dela é triste.
No carro, o silêncio é sufocante.
Ninguém fala comigo.
Willian, meu padrasto, aperta o volante com tanta força que os nós dos dedos ficam brancos.
Até Athena fica quieta.
Isso é estranho.
Ela nunca fica quieta.
Eu gosto do consultório do Dr. Phil. Ele tem um bigode engraçado e, quando ri, parece um canário.
Enquanto conversa com meus pais, deixa que eu desenhe em uma mesa no canto da sala.
Eu desenho Athena.
Sempre desenho Athena.
Depois de um tempo, ele me manda esperar do lado de fora.
Mas a porta fica apenas um pouco entreaberta.
Sem querer...
Eu escuto a conversa.
— Doutor... ela está pior. — A voz da mamãe soa diferente. Parece quebrada. —
Ela continua conversando com... ela.
Um silêncio pesado toma conta da sala.
— Os exames descartam outras possibilidades. — O Dr. Phil explica.
Meu padrasto respira fundo.
— Então o senhor tem certeza?
— Infelizmente... tudo indica esquizofrenia de início precoce.
Silêncio outra vez.
Esquizofrenia.
Palavra estranha.
Será que isso dói?
— Os remédios não estão funcionando. — Mamãe lamenta, com a voz embargada. — Nós já tentamos tudo!
— Ainda não. — O doutor pondera, enquanto ouço o som de papéis sendo manuseados. — Existe um estudo experimental.
Mamãe começa a chorar.
— Ela só tem oito anos...
— O do Instituto Harven? — interrompe Willian.
— Sim. Embora ainda esteja em fase de testes.
Outro silêncio cai sobre a sala.
Então ouço a cadeira do meu padrasto ranger quando ele se inclina para a frente.
— Acho que chegamos a um ponto em que vale a pena considerar qualquer possibilidade.
Meu coração acelera.
Não faço ideia do que eles estão falando.
Mas sinto Athena se encolher no fundo da minha mente.
"Athena?", chamo.
Pela primeira vez na vida, ela não me responde.
O silêncio dela é pior do que qualquer grito.
"Pequena..."
A voz surge de repente. Está trêmula.
Assustada.
Mas Athena nunca sente medo.
"Cecília!"
Ela nunca me chama pelo meu nome.
"Você precisa fugir."
Meu estômago gela.
"Foge, Cecília. Foge!"








