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Além Do Silêncio

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Resumo

Lin Chen morreu acreditando que ninguém sentiria sua falta. Mas, em vez do fim, recebeu uma segunda chance. Ao despertar no corpo de Chen Lin, um universitário que também morreu na mesma noite, ele herda uma vida que não é sua, um passado cheio de segredos e uma única pergunta: o que levou alguém como Chen Lin a escolher a morte? Determinado a descobrir a verdade, Lin Chen retorna à Universidade Yanhua, onde mentiras foram enterradas, provas desapareceram e o silêncio protege aqueles que jamais foram punidos. Em meio à investigação, ele é obrigado a conviver com Gu Wei, o estudante mais admirado do campus. Orgulhosos, teimosos e incapazes de se entender, os dois iniciam uma relação marcada por constantes conflitos. Mas, conforme as máscaras caem e as feridas vêm à tona, a desconfiança dá lugar à amizade e, lentamente, a um amor capaz de transformar até mesmo as cicatrizes mais profundas. Enquanto busca justiça para alguém que perdeu tudo, Lin Chen também precisa enfrentar a própria dor. Porque algumas pessoas recebem uma segunda chance para mudar o destino. Outras recebem uma segunda chance para descobrir que, pela primeira vez, são verdadeiramente amadas.

Status
há 2 meses
Capítulos
26
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

Capítulo 1: O Último Passo

A noite caía sobre a cidade como um sudário de chumbo, engolida por uma cortina de chuva incessante que transformava as ruas em espelhos escuros e distorcidos. As luzes de néon dos grandes edifícios comerciais e dos outdoors eletrônicos borravam-se em manchas disformes através do vidro embaçado e das poças profundas na avenida movimentada abaixo. No alto da passarela de pedestres, uma estrutura metálica esquecida entre duas alças de tráfego pesado, o vento cortante rasgava o tecido fino da blusa encharcada, fazendo os ombros de Lin Chen se contraírem em um tremor involuntário.

Ele olhou para o fluxo contínuo de veículos que passavam em alta velocidade, as lanternas vermelhas e os faróis brancos traçando riscos fluorescentes na escuridão, cortando a noite como cicatrizes de luz.

Não havia desespero estridente em sua mente. Não havia o clímax dramático de uma crise incontrolável, nem lágrimas que pudessem competir com a tempestade lá fora. Naquele momento, o que restava em Lin Chen era apenas um vazio denso, um cansaço absoluto e estrutural, enraizado nos ossos de quem já havia lutado contra a maré por tempo demais.

Enquanto o rugido abafado do tráfego subia como um zumbido mecânico e indiferente, fragmentos dispersos de sua existência desfilavam diante de seus olhos com a crueza de uma fotografia queimada nas bordas. Ele lembrou-se do frio implacável dos invernos no orfanato, onde as cobertas finas nunca conseguiam barrar o vento que uivava pelas frestas das janelas quebradas, lembrou-se da queimação constante no estômago vazio nos dias em que o dinheiro não dava nem para um pão dormido, do cheiro sufocante de mofo e umidade dos porões e quartos minúsculos onde dormira, trocando o pouco de dignidade que lhe restava por turnos longos em trabalhos de subemprego, apenas para pagar o aluguel do dia seguinte e garantir o direito de continuar exausto.

A solidão nunca fora uma fase em sua vida, era o seu estado permanente. Nunca houvera um par de braços estendidos para recebê-lo ao voltar para um lar que nunca teve. Nunca houvera uma mesa com bolo, uma vela de aniversário acesa ou alguém que pronunciasse seu nome com carinho. O mundo sempre exigira dele uma resiliência desumana, cobrando juros altíssimos em troca de nada, oferecendo apenas o privilégio amargo de sobreviver para sofrer o mesmo ciclo na manhã seguinte.

Lin Chen deu um passo à frente, quebrando a barreira invisível que mantinha seu corpo seguro. Suas mãos geladas apertaram a estrutura metálica da grade de proteção. O metal estava úmido, áspero e congelante contra sua pele insensível. Ele olhou para o abismo de asfalto e faróis lá embaixo mais uma vez. Não era um impulso irrefletido ou um salto no escuro do medo, era a conclusão fria e matemática de uma conta que finalmente terminara, o ponto final de uma frase que já se estendera por páginas demais.

Ele fechou os olhos por um segundo, sentindo a chuva fria encharcar seu cabelo, pesando em seus fios, e escorrer pela curva de seu rosto, misturando-se à sua respiração lenta e calculada. Seus pulmões se encheram com o ar úmido da noite pela última vez.

— Desta vez... ninguém vai precisar se preocupar comigo.

O murmúrio de sua própria voz desvaneceu antes mesmo de ecoar, imediatamente engolido pelo uivo do vento e pelo ronco ensurdecedor de um caminhão que cruzou a avenida em alta velocidade. Os dedos de Lin Chen se abriram lentamente, soltando a barra de metal. Ele inclinou o corpo para a frente, entregando-se por completo à gravidade que o puxava para o vazio.

O ar cortou seus ouvidos em um assobio agudo, rompendo a atmosfera pesada enquanto o chão subia velozmente em sua direção.

Então, o impacto veio, não como dor, mas como uma pancada seca que estilhaçou o ar em seus pulmões. O som estridente das buzinas se distorceu, transformando-se em um zumbido metálico e distante que foi se dissolvendo, engolido por um silêncio pesado e definitivo, o frio da chuva sumiu, e o peso do mundo evaporou.

A escuridão durou o espaço de um suspiro ou de uma eternidade.

Até que, de repente, uma claridade branca, cortante e estéril forçou suas pálpebras a se abrirem, queimando sua visão enquanto o cheiro forte de antisséptico invadia suas narinas.

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