Capítulo 1 — Uma motivação diferente
Capítulo 1 — Uma motivação diferente
Eu vinha sentindo que precisava cuidar um pouco mais de mim. Passava horas sentada diante do computador, escrevendo, e meus dias estavam começando a ficar todos iguais. Eu queria me movimentar mais, sair um pouco de casa, ter uma rotina mais saudável. Por isso, decidi começar a treinar na academia.
Havia apenas um pequeno problema: eu era uma grande preguiçosa.
Eu me conhecia bem. Começaria animada, compraria roupas novas para treinar, talvez até uma garrafinha bonita. Na primeira semana, estaria motivada. Na segunda, começaria a inventar desculpas. Na terceira, simplesmente não sairia do sofá.
Eu precisava encontrar alguma coisa que me fizesse permanecer firme.
Lembrei que, na faculdade, eu tinha uma crush no ônibus. Nunca chegamos a conversar de verdade. Eu nem sabia o nome dela. Mas bastava saber que ela pegaria aquele mesmo ônibus todas as manhãs para que eu levantasse da cama, mesmo nos dias em que preferia continuar dormindo.
Era ridículo. E funcionava.
Talvez fosse disso que eu precisasse agora. Se eu conseguisse me apaixonar por alguém da academia, talvez finalmente tivesse um motivo para não faltar.
Cheguei para minha aula experimental bem cedo. O sol ainda estava nascendo, e a academia estava quase vazia. Fiz um pouco de bicicleta, tranquilamente. Suar um pouco realmente fez bem.
No fim da aula, já estava praticamente convencida de que faria a matrícula. Despedi-me do personal e peguei minha garrafa de água.
Foi quando levantei os olhos.
E a vi.
Uma mulher entrou na academia. Linda.
Por um segundo, esqueci completamente onde estava.
Nossos olhos se encontraram.
E alguma coisa dentro de mim simplesmente parou.
Não era possível.
Aquele rosto...
Dez anos desapareceram em um instante.
Eu estava novamente sentada naquele ônibus a caminho da faculdade, fingindo olhar pela janela enquanto, na verdade, tentava encontrar um jeito discreto de olhar para ela sem ser descoberta.
Lembrei da maneira como ela prendia o cabelo. Do sorriso que eu observava pelo reflexo da janela. Daquela sensação absurda de expectativa sempre que ela entrava no ônibus.
Eu nunca soube sequer o nome daquela garota.
Mas reconheceria aquele rosto em qualquer lugar.
Meu coração começou a bater tão forte que tive a impressão de que todo mundo na academia podia ouvir.
Ao entrar, ela cumprimentou a mim e ao personal.
— Bom dia — disse.
— Bb... bom dia — respondi.
Ótimo. Dez anos depois e eu ainda não conseguia falar direito perto dela.
O personal respondeu logo em seguida.
— Bom dia, Melany. Chegou cedo hoje.
Melany.
O nome finalmente ganhou um rosto.
— Troquei o turno no trabalho. Virei pela manhã agora — ela respondeu, caminhando até a esteira.
Melany.
Que nome lindo.
Fiquei alguns segundos olhando para ela antes de perceber que talvez estivesse encarando demais. Desviei os olhos imediatamente.
Será que ela tinha percebido meu nervosismo?
Voltei para casa pisando em nuvens.
Eu tinha ido à academia querendo apenas me movimentar mais, cuidar do meu corpo e sair um pouco da rotina.
Agora tinha descoberto uma motivação muito mais perigosa.
Uma paixão antiga.



