Problema ambulante
Minho's Pov
Eram 4:55 e eu já estava de pé, materiais organizados. Mochila pronta, jaleco dobrado, caderno de anotações na pasta. O ônibus passava às 5:20, e depois eu ainda teria meia caminhada a pé até a clínica. O ar da manhã em Seul era frio e salgado, e eu gostava disso. Gostava que tudo fosse exatamente igual todos os dias.
Tinha dormido mal essa noite, mas nada que pequenos cochilos não resolvam. Me dirigi ao banheiro, logo lavando o rosto e secando com a toalha. Nesse meio tempo, tinha ligado a internet e começaram a chegar as notificações, uma inclusive de meu melhor amigo, Seungmin. Abri a notificação e me deparei com sua mensagem.
Suspirei em desaprovação e digitei uma resposta rápida. Teria de ir sozinho novamente em um ônibus lotado. Quase considerei a ideia de pedir para ele colocar duas partidas, aí seríamos eu e ele juntos, rindo sobre algo idiota que postaram na página de fofoca da Haneul University. Nesse momento, eu já tinha escovado meus dentes e penteado meu cabelo. Não gostava de comer antes de ir para a faculdade; era um hábito que adquiri com o tempo. Enquanto eu terminava de passar o fio dental, senti algo se esfregar contra minhas pernas com um ronronar. Soonie. Isso despertou um sorriso tímido nos meus lábios, que logo se abriu ainda mais quando Doongie apareceu bocejando. Ajoelhei no chão, acariciando meus dois gatos.- Bom dia, gatinhos, já vou colocar a ração de vocês - murmurei para os dois bichanos.
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O ônibus estava lotado, mas fui ligeiro e peguei o ônibus em um ponto antes, assim consegui um lugar menos desconfortável. Me dando a oportunidade de rever quem seriam os meus pacientes do dia, arrancando um pequeno sorriso de entusiasmo. Os dias de estágio eram bem tranquilos porque a clínica era dentro da faculdade, era só passar pelo estacionamento e fazer o check in.
Desci no ponto mais "perto" possível, ainda teria mais alguns minutos de caminhada até a Haneul University. Nesse meio tempo, tinha pegado minha pasta em mãos e andava em passos apertados. Detestava a ideia de chegar atrasado, principalmente os olhares que você recebe quando chega atrasado. Isso era apenas uma das coisas que arruínam o meu dia com facilidade.
Eu estava tão disperso nos meus pensamentos que mal tinha percebido que já tinha chegado no estacionamento da faculdade, e só tive 3 segundos, nem isso, para raciocinar que uma bicicleta desgovernada com um ciclista que me parecia familiar vinha em minha direção. A colisão foi feia, caí no chão feito um saco de batatas, sentindo um líquido quente molhar minha blusa branca. Logo identifiquei o líquido como café...
Enquanto raciocinava que eu tinha acabado de ser atropelado por uma bicicleta desgovernada, vi uma mão em minha frente.
- Ei, foi mal, eu te vi tarde demais - Aquela voz, aquela figura, familiar o suficiente para eu reconhecer Jisung. Foi o suficiente para acabar com o meu dia. Franzi o cenho e me levantei sozinho, dispensando a ajuda.
- Você é cego ou algo do tipo? - reclamei alto. Olhando para a minha camisa branca manchada de café, o olhar do mais novo murchou mais ainda quando viu o tamanho do estrago, não só em mim, mas também os diversos papéis meus e uns de partitura que obviamente são dele. É claro que, para completar, o problema ambulante era musicista. Ele coçou a parte de trás da cabeça.
- Eu não sou cego, você que surgiu do nada. E pelo visto eu estraguei a sua camisa... Eu posso pagar outra para você -
- Não. Não precisa - disse firme, me abaixando para pegar os papéis agora sujos do chão. O mesmo estava me ajudando a recolher.
- Você não precisa me ajudar - disse, tentando puxar os papéis das mãos dele com mais força do que o necessário.
- Eu sei que não preciso, mas vou - ele respondeu, com um tom de voz que parecia genuinamente arrependido. - Fui eu que causei isso, o mínimo que posso fazer é ajudar a limpar a bagunça.
Bufei, mas não insisti. Não tinha energia para discutir com um estranho tão cedo. Recolhi o restante das minhas anotações - algumas estavam manchadas de café, outras amassadas - e as coloquei na pasta com cuidado. Jisung, por sua vez, juntava suas partituras de forma desleixada, amassando algumas no processo.
- Você estuda música? - perguntei, mais para quebrar o silêncio incômodo do que por interesse genuíno.
Ele ergueu a cabeça e me lançou um sorriso. Um sorriso que provavelmente funcionava com todo mundo.
- Produção musical. Han Jisung, prazer em conhecer...?
- Lee Minho. Veterinária.
- Ah, então você é o famoso Lee Minho que todo mundo fala.
Franzi o cenho.
- O que todo mundo fala?
Jisung deu de ombros, ainda com aquele sorriso irritante no rosto.
- Que você é o cara mais difícil de se aproximar na Haneul. Que você nunca vai às festas, que só vive na biblioteca e na clínica, e que tem uma cara de poucos amigos que afasta qualquer um.
Apertei os lábios. Não era mentira, mas ouvir isso dito tão casualmente me incomodava mais do que eu gostaria de admitir.
- E você é o cara que não sabe andar de bicicleta - devolvi, secamente.
Jisung riu. Não era uma risada forçada ou educada; era genuína, alta e contagiante. Eu odiei o fato de ter achado ela agradável.
- Justo - ele disse, ainda rindo. - Olha, me deixe pelo menos pagar sua camisa. Ela é cara, parece. Ou eu posso lavar para você.
- Não precisa - repeti, me levantando e ajustando a mochila. - Só tome mais cuidado da próxima vez. E ande. É mais seguro para todo mundo.
Virei as costas e comecei a andar em direção à clínica. Minha blusa estava manchada, minhas anotações estavam amassadas e meu humor estava no fundo do poço. Tudo isso antes das 7 da manhã.
- Lee Minho! - ouvi a voz dele chamar atrás de mim.
Não parei.
- Sua camisa! Me dá seu número! Para eu pagar!
Continuei andando.
- Não vou desistir, sabia?! - ele gritou, mais alto.
Que dia horrível.
Era o que eu pensava.
O que eu não sabia era que aquele dia horrível era apenas o começo de algo muito pior - ou muito melhor. Ainda não tinha decidido.
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