Capítulo 1 — Sua Própria Missão
Selene escolheu o vestido azul porque Darius o teria detestado.
Não foi por isso que ela o vestiu.
Ela repetiu isso para si mesma duas vezes enquanto estava diante do espelho estreito no quarto alugado acima da estalagem Stoneveil.
O vestido era suave demais para Blackridge. Lã azul-profundo, ajustado na cintura, com mangas que deixavam seus pulsos à mostra. Sem o preto cerimonial. Sem fechos de prata. Nenhuma marca de patente em qualquer parte de seu corpo.
Nada que dissesse filha.
Nada que dissesse espiã.
Nada que pertencesse a ninguém além dela.
Ela prendeu metade de seu cabelo claro para trás e deixou o restante solto. Um toque de óleo de rosas em seu pescoço. O suficiente para aquecer seu perfume. Não o suficiente para anunciar esforço.
Homens confiavam mais na beleza quando acreditavam que ela tinha acontecido por acaso.
O pensamento veio automaticamente.
Os dedos de Selene pausaram contra o frasco de vidro.
Ela o colocou na mesa com mais força do que o necessário.
Seu pensamento.
Sua regra.
Não importava onde ela tinha aprendido isso.
Cinco meses haviam se passado desde que o Alfa Darius de Blackridge morrera, e ninguém cobrava Selene agora por relatórios antes do amanhecer. Ninguém inspecionava o corte de seu vestido perguntando qual efeito ela pretendia criar. Ninguém a chamava de "quase o suficiente".
Ela tinha atravessado quatro territórios desde então sob três nomes.
Ela dormiu em celeiros, quartos de hóspedes, casas de mercadores e uma vez debaixo de uma ponte, porque o estalajadeiro reconheceu seu rosto de um cartaz de procurada que tecnicamente não era mais válido.
Ela sobreviveu.
Mais importante ainda, ela escolheu cada estrada por conta própria.
Esta noite, ela escolheu o Alfa Rennick.
Esse pensamento a satisfez.
Selene ergueu o queixo para a mulher no espelho.
Linda.
Controlada.
Perigosa.
Bom.
A corte comercial de outono de Stoneveil enchia o vilarejo com a luz das lanternas e muitas pessoas que acreditavam que a neutralidade as mantinha a salvo. Mercadores de cidades ribeirinhas discutiam sobre tarifas de sal. Enviados das matilhas fingiam não ouvir uns aos outros. Músicos tocavam sob um toldo de madeira enquanto lobos com audição excelente se aproximavam mesmo assim.
Rennick abrira a corte externa para visitantes por três noites.
Generoso.
Politicamente útil.
E, mais importante, público.
Se Selene tivesse solicitado uma audiência formal, ela teria sido revistada antes de chegar ao segundo portão.
Se ela circulasse em uma corte comercial sob um nome falso, Rennick não poderia levá-la diante de seu conselho sem admitir que a famosa hospitalidade de Stoneveil tinha furos.
Ela sorriu enquanto descia as escadas.
Seu lobo se agitou sob sua pele.
Não nervoso.
Interessado.
"Comporte-se", Selene murmurou.
Seu lobo não prometeu nada.
Lá fora, Stoneveil parecia diferente de Blackridge. Os edifícios eram de pedra cinzenta e cedro escuro, sólidos sem parecerem defensivos. Nenhum espigão de ferro coroava os muros. Nenhuma lanterna vermelha queimava como aviso.
Ainda assim, Selene contou seis guardas antes de chegar à praça.
Dois óbvios.
Quatro fingindo não ser.
O arco oriental tinha a rota mais rápida para a cobertura da floresta. A plataforma dos músicos bloqueava a visão da torre de vigia sul por quatro respirações a cada vez que os dançarinos passavam. Criados entravam na residência central através de uma passagem lateral estreita carregando vinho e pratos limpos.
Selene memorizou tudo.
Hábito antigo.
Hábito útil.
Uma espiã que parava de notar portas geralmente acabava atrás de uma que não conseguia abrir.
Ela pegou uma taça de vinho quente que não queria e circulou pela multidão como se não pertencesse a lugar algum, o suficiente para ser inofensiva.
Dois mercadores perto da fonte discutiam sobre Blackridge. Selene ouviu o nome antes que pudesse se impedir de escutar.
"Ainda não há um Alfa", um murmurou. "Os filhos estão circulando."
"Corven tem a fortaleza."
"Ilyan tem o sul."
Selene continuou caminhando.
Ela não diminuiu o passo.
Ela não perguntou quais vilarejos tinham se declarado ou se as estradas do leste ainda estavam abertas. Isso teria sugerido que Blackridge importava.
Não importava.
A mentira parecia mais suave após cinco meses de prática.
Ela partira com o diário de sua mãe sob as roupas e nada mais que valesse a pena carregar. O que quer que Blackridge se tornasse depois de Darius não era dela para consertar. Seus irmãos quiseram a atenção dele a vida toda. Podiam ficar com a cadeira dele também.
Esta noite não era sobre eles.
Esta noite era sobre o homem que Darius não conseguiu controlar.
Rennick deveria comparecer após o nascer da lua.
Ele chegou cedo.
É claro que ele chegou.
Selene o conhecia pelas descrições.
As descrições eram inadequadas.
Ele era mais alto do que ela esperava, com ombros largos, sem o volume deliberado que alguns Alfas cultivavam. Cabelo castanho-escuro, quase preto sob a luz das lanternas. Uma cicatriz cortava uma das sobrancelhas e desaparecia na têmpora. Ele não usava capa cerimonial, apenas uma camisa cor de carvão com as mangas puxadas até os antebraços e o fecho de Stoneveil no cinto.
Ele não precisava de mais nada.
A corte mudou ao redor dele.
Não foi silêncio.
Foi alinhamento.
As conversas continuaram, mas os corpos se moveram. Os guardas olhavam sem parecer. Dois anciões pararam de discutir o tempo suficiente para notar onde ele estava. Um mercador que estava gritando baixou a voz antes mesmo de Rennick olhar em sua direção.
Interessante.
Darius governava através da pressão.
Delvan governava através da necessidade constante de lembrar a todos que ele podia.
Rennick parecia esperar que a sala continuasse de pé se ele parasse de sustentá-la.
Selene não gostou de ter notado isso.
Então, ele riu de algo que uma mulher mais velha disse.
O som foi baixo, breve, real.
E sua loba ergueu a cabeça.
Ah.
Os dedos de Selene apertaram o copo.
Não.
A atração era aceitável.
A atração era útil.
Ela escolheu um Alfa sem parceira por uma razão. Sem companheira destinada esperando nas sombras. Sem mulher escolhida cujo ciúme complicasse o acesso. Rennick era poderoso, politicamente independente e famoso por não ter interesse em qualquer aliança que viesse envolta em seda de casamento.
Darius o odiava.
Essa era a parte importante.
Anos de negociações fracassadas entre Blackridge e Stoneveil produziram cartas. Acordos privados. Ameaças. Recusas. Darius guardou cópias de algumas correspondências e queimou outras.
Selene suspeitava que Rennick tivesse guardado tudo.
Ela queria esses registros.
Não para Blackridge.
Certamente não para seus irmãos.
Para si mesma.
Seu pai morreu com segredos demais, e Selene cansou de aprender sobre a própria vida através de evidências deixadas por pessoas mortas.
Ela se moveu em direção à mesa de vinhos exatamente como Rennick fez.
Não diretamente.
Nunca diretamente.
Deixe o alvo acreditar que ele notou primeiro.
A regra passou por sua mente na voz de Darius.
Selene esmagou a lembrança antes que ela pudesse se formar.
Rennick alcançou a garrafa ao lado dela.
Ela a alcançou ao mesmo tempo.
Seus dedos se roçaram.
Um calor subiu pela sua mão.
O perfume dele a atingiu de verdade pela primeira vez.
Chuva sobre a pedra. Cedro escuro. Algo mais quente por baixo, como fumaça presa na lã.
Sua loba se inclinou para frente de forma tão abrupta que Selene quase praguejou.
Rennick olhou para as mãos deles.
Depois para ela.
Seus olhos eram cinza-esverdeados.
Não frios.
Pior.
Divertidos.
“Você primeiro”, disse ele.
Sua voz não ajudou em nada o seu pulso.
Selene sorriu.
Suave o suficiente para convidar.
Não o suficiente para prometer.
“Eu odiaria privar um Alfa em sua própria corte.”
“Odiaria?”
A pergunta carregava ceticismo suficiente para interessá-la.
“Profundamente. Sou conhecida pelo meu altruísmo.”
Um canto da boca dele se moveu.
Bom.
Ela o tinha sob sua atenção.
Esse era o primeiro passo.
“Não ouvi isso a seu respeito”, disse ele.
O sorriso de Selene não mudou.
Um pequeno alerta passou pela sua loba.
Ele serviu vinho no copo dela mesmo assim.
“Então seus informantes são decepcionantes.”
“Eles geralmente são excelentes.”
Aí estava.
Não o suficiente para significar algo.
O suficiente para tornar o jogo digno de ser jogado.
Selene tomou um gole lento.
“Talvez você devesse substituí-los.”
“Talvez.” O olhar dele percorreu seu rosto, não seu corpo. “Você está gostando de Stoneveil?”
“Acabei de chegar.”
“Essa não foi a minha pergunta.”
Ela quase sorriu de verdade.
Cuidado.
“Sim”, disse ela. “É menos sombrio do que eu esperava.”
“Você esperava que fosse sombrio?”
“Sua alcateia tem pedra no nome. Preparei-me para cavernas.”
Ele riu novamente.
Sua loba estava se tornando embaraçosa.
Selene se aproximou meio passo, o suficiente para seu perfume alcançá-lo com mais clareza.
As pupilas dele mudaram.
Ali.
Atração.
Real.
Imediata.
A satisfação a aqueceu.
Isso seria mais fácil do que ela temia.
“E você é?” Rennick perguntou.
A mentira estava pronta.
Ela estava pronta há seis dias.
“Lysa. Meu tio negocia lã nas cidades fluviais. Eu cuido das contas que ele é teimoso demais para entender.”
Rennick assentiu como se considerasse cada palavra.
Selene acrescentou o sorriso que ela praticou lá em cima.
“Vim porque dizem que as tarifas de Stoneveil são justas.”
“Um elogio brilhante.”
“Não fique vaidoso.”
O olhar dele se aguçou com interesse.
Ela lhe deu o suficiente. Um pouco de arrogância. Um pouco de humor. Uma ocupação que explicava os números, viagens e movimento independente. Sem marido. Sem pai sobre quem valesse a pena perguntar.
Limpo.
Acreditável.
Rennick colocou o copo na mesa.
Então, ele apoiou um ombro na mesa e olhou para ela com uma calma enlouquecedora.
“Você pode parar de mentir sobre o nome, Selene.”
Tudo dentro dela ficou imóvel.
A música continuou.
As pessoas riam atrás deles.
Um criado passou carregando uma bandeja de castanhas assadas.
A voz de Rennick permaneceu baixa o suficiente para que ninguém se virasse.
“Eu sabia quem você era no momento em que a vi.”
Selene sorriu.
Desta vez, o sorriso tinha dentes.




