The Window
Meu namorado estava tentando me convencer a ficar acordada.
"Você vai se arrepender disso amanhã", disse ele pelo telefone.
Sorri contra o travesseiro. "Já estou me arrependendo."
"Isso foi rápido."
"Você está falando há vinte minutos."
"Vinte e dois."
Olhei para o relógio na minha mesa de cabeceira. "Você está contando?"
"Tenho uma reputação a manter."
Ri baixinho, puxando o cobertor para cima dos ombros. Já estava tarde, a casa toda estava em silêncio, e a única luz no meu quarto vinha da tela do celular. Eu já deveria estar dormindo. Tinha que acordar cedo, e ele tinha prometido que me deixaria descansar.
Pelo visto, ele era um mentiroso.
"Sabe", eu disse, "namorados normais mandam as namoradas irem dormir."
"Eu sou um namorado melhor do que os namorados normais."
"Isso soa como algo que um namorado normal diria."
"Eu também te amo."
Sorri.
Ele sempre fazia isso. De alguma forma, não importava sobre o que estávamos falando, ele conseguia transformar o assunto em algo que me fazia sorrir.
"Eu te amo", eu disse.
Houve uma pausa do outro lado da linha.
Então, sua voz suavizou. "Você realmente precisa dormir."
"Eu sei."
"Desliga o telefone."
"Você primeiro."
"Não sou eu quem tem que acordar cedo."
"Você é péssimo nisso."
"Nisso o quê?"
"Ser romântico."
Ele riu. "Boa noite, linda."
"Boa noite."
Esperei que ele desligasse primeiro.
Ele não desligou.
Nem eu.
Depois de alguns segundos, ele disse: "Você ainda está aí".
"Você também."
"Eu queria ouvir você respirar."
Revirei os olhos, mesmo que ele não pudesse me ver. "Isso é incrivelmente fofo ou profundamente assustador."
"Vou ficar com a opção de fofo."
"Conveniente."
"Vá dormir."
Finalmente encerrei a chamada.
Por um momento, encarei o celular antes de colocá-lo na mesa de cabeceira. O quarto parecia estranhamente silencioso depois de ouvir a voz dele por tanto tempo.
Lancei um olhar em direção à janela.
As cortinas estavam fechadas e o vidro mal era visível na escuridão. Consegui apenas distinguir o contorno suave da moldura sob elas.
Eu a tinha trancado mais cedo.
Eu sempre a trancava.
Meu namorado tinha me lembrado disso duas vezes esta noite, motivo pelo qual zoei com ele.
Sorri para mim mesma enquanto puxava o cobertor para cobrir minha cabeça.
Então fechei os olhos.
Peguei no sono quase imediatamente.
Algo me acordou.
No começo, não sabia o que era.
Fiquei imóvel, meio enterrada debaixo dos cobertores, tentando me forçar a voltar a dormir. Meu quarto estava completamente escuro agora. O abajur estava apagado, a tela do meu celular estava preta e a casa estava silenciosa.
Então ouvi de novo.
Um clique suave.
Meus olhos se abriram.
Encarei a escuridão.
Por vários segundos, nada aconteceu.
Então notei um vulto perto da janela.
Alguém estava parado ali.
Todo pensamento desapareceu da minha mente.
A figura era alta e estava completamente imóvel, parada entre minha cama e a janela, com as costas levemente voltadas para mim. A escuridão tornava impossível ver qualquer detalhe. Eu não conseguia distinguir um rosto, roupas, nem mesmo a cor do que quer que a pessoa estivesse vestindo.
Eu não conseguia respirar.
Meu primeiro pensamento foi que alguém tinha invadido a casa.
O segundo foi que eu estava sonhando.
Nenhum dos pensamentos fazia sentido.
A janela estava fechada.
A porta estava trancada.
E havia uma pessoa parada dentro do meu quarto.
Encarei a figura, esperando que ela se movesse.
Ela não se moveu.
Meu coração batia tão forte que eu conseguia ouvi-lo nos meus ouvidos.
Lenta e cuidadosamente, estiquei a mão em direção à mesa de cabeceira.
Meu celular estava lá.
Meus dedos se fecharam em volta dele, e eu o puxei para baixo do cobertor. A tela iluminou meu rosto.
2h13 da manhã.
Eu o desbloqueei.
O nome do meu namorado ainda estava perto do topo das minhas mensagens.
Eu podia ligar para ele.
Eu deveria ligar para ele.
Meu polegar pairou sobre o nome dele.
Então a figura se moveu.
Quase nada.
Sua cabeça virou na minha direção.
Eu congelei.
Eu não conseguia ver seu rosto, mas sabia que estava olhando para mim.
O celular quase escapou da minha mão.
Eu não pensei mais. Estiquei a mão para alcançar o abajur.
Meus dedos encontraram o interruptor.
Eu o liguei.
O quarto se encheu de luz.
A figura tinha sumido.
Fiquei sentada ali, encarando o espaço vazio ao lado da janela.
Por vários segundos, eu não conseguia entender nada.
Não havia lugar para se esconder.
Meu guarda-roupa ficava do outro lado do quarto. A porta do banheiro estava fechada. A porta do quarto não tinha se movido.
A janela estava bem ali.
Joguei os cobertores para o lado e saí da cama.
Minhas pernas pareciam bambas enquanto eu atravessava o quarto. Fiquei esperando que alguém saísse de trás das cortinas, ou do guarda-roupa, ou de algum lugar que eu não tinha pensado em procurar.
Nada.
Agarrei a cortina e a puxei para abrir.
A janela estava fechada.
Encarei o vidro.
Então verifiquei a tranca.
Trancada.
Toquei nela mesmo assim.
Não se moveu.
Verifiquei de novo, só para ter certeza.
Continuava trancada.
Uma sensação gelada tomou conta do meu estômago.
Olhei ao redor do quarto.
Talvez eu tivesse imaginado.
Só podia ser isso.
Um pesadelo. Paralisia do sono. Alguma alucinação de quando se está meio acordado.
Soltei um suspiro nervoso e passei as duas mãos pelo rosto.
"Eu estou ficando louca."
Minha voz soou alta demais no quarto silencioso.
Quase ri.
Então notei algo no parapeito da janela.
Uma pequena mancha escura.
Cheguei mais perto.
No começo, pensei que fosse sujeira. Mal havia luz suficiente para ver, mesmo com o abajur ligado atrás de mim.
Toquei com a ponta do dedo.
Estava úmido.
Puxei minha mão de volta.
A substância era vermelho-escura.
Meu estômago embrulhou.
Sangue.
Fiquei encarando meu dedo.
Depois olhei para a janela.
A tranca ainda estava no lugar.
O vidro estava intacto.
Não havia como alguém ter passado por ali.
Limpei o dedo na borda do cobertor e dei um passo para trás.
Meu celular vibrou.
Levei um susto tão grande que quase gritei.
Uma mensagem iluminou a tela.
Você está acordada?
Meu namorado.
Encarei as palavras.
Por algum motivo, ver o nome dele fez meu peito relaxar.
Digitei rápido.
Sim.
A próxima mensagem apareceu quase instantaneamente.
O que houve?
Olhei para a janela.
As cortinas tinham se fechado novamente.
Eu não tinha tocado nelas.
Não respondi.
Caminhei até lá e as afastei.
Não havia nada do lado de fora.
Apenas o vidro escuro refletindo meu quarto de volta para mim.
Exceto por uma coisa.
Por um breve segundo, pensei ter visto uma figura parada atrás de mim no reflexo.
Eu me virei num salto.
Meu quarto estava vazio.
Quando olhei de volta, também não havia nada na janela.
Apenas meu próprio reflexo.





