Capítulo 1-A Filha Do Alpha
•Antes de tudo mudar
Sempre gostei do amanhecer.
Talvez porque, em nossa casa, o sol nascesse primeiro sobre o mar e só depois viesse beijar a floresta.
Eu costumava observar aquele momento da janela do meu quarto, especialmente quando o verão começava a despedir-se e as manhãs ficavam ligeiramente mais frescas.
Era uma das poucas alturas do dia em que a comunidade parecia completamente silenciosa.
Antes das vozes.
Antes dos passos.
Antes dos motores dos carros.
Antes dos treinos.
Antes de alguém começar a discutir com alguém.
Aquela tranquilidade durava pouco.
Mas eu gostava dela.
Ficava sentada junto à janela, com os joelhos encostados ao peito, observando o céu mudar lentamente de cor.
Primeiro, o azul escuro começava a desaparecer.
Depois surgiam tons de cinzento.
E, finalmente, o dourado.
A luz atravessava as árvores mais altas da floresta e se espalhava pelo território de nossa matilha.
Eu conhecia aquela paisagem desde que me lembrava.
A floresta.
O mar.
As casas de madeira.
Os caminhos de terra.
O campo de treino.
Para a casa principal.
A nossa casa.
Tudo fazia parte da minha vida.
Tudo parecia familiar.
Seguro.
Normal.
Ou pelo menos era assim que eu pensava.
Naquela manhã, ouvi três batidas na porta.
- Mila.
Fechei os olhos.
Eu sabia aquela voz.
— Já estou acordada.
A porta se abriu mesmo assim.
O meu irmão mais velho apareceu.
Matteo encostou-se ao batente e cruzou os braços.
— Isso não significa que vais levantar-te.
Olhei para ele.
— Estou a considerar a possibilidade.
— Há dez minutos que estás sentada aí.
— Você vai contar?
- Sim.
— Isso é um pouco assustador.
Ele sorriu.
— O pai quer-te lá em baixo.
O meu sorriso desapareceu.
— Agora?
— Agora.
Olhei novamente para a janela.
— Fiz alguma coisa?
— Não.
— Tens certeza?
- Mila....
— O quê?
— Se tivesses feito alguma coisa, provavelmente já saberias.
Suspirei.
— Isso não me tranquiliza.
Matteo riu.
—
Desce antes que ele venha buscar-te.
— O Alpha vem buscar a filha ao quarto?
— Se for necessário.
— Ele faria isso.
— Faria.
— Traidor.
— Também te Adoro.
Ele saiu.
Fiquei alguns segundos sozinha.
Depois finalmente levantei-me.
Olhei rapidamente para o espelho.
O cabelo escuro estava completamente desarrumado.
— Perfeito.
Tentei ajeitá-lo com as mãos.
Piorou.
Desisti.
Peguei numa camisola e saí do quarto.
A nossa casa era grande, mas nunca tinha parecido uma mansão.
Era feita principalmente de madeira e pedra, com grandes janelas voltadas para a floresta.
O meu pai gostava daquele lugar.
Dizia que uma casa precisava de parecer uma casa.
Não um castelo.
Embora, considerando quem ele era, provavelmente pudesse ter construído um castelo se quisesse.
Dominick Lanthon.
Meu pai.
Alpha da nossa alcateia.
E, para mim, simplesmente o homem que reclamava quando eu deixava os sapatos no corredor.
Desci as escadas.
O cheiro de café e pão quente chegou imediatamente até mim.
Jayden estava sentado à mesa.
O meu segundo irmão levantou os olhos.
— Finalmente.
— Bom dia para ti também.
— Dormiste demais.
— Durma o suficiente.
— São quase oito.
— Exatamente. Uma hora perfeitamente razoável para uma pessoa civilizada acordar.
Matteo apareceu atrás de mim.
— Ela estava acordada antes das sete.
Jayden olhou para ele.
— Então por que demorou tanto?
— Porque é a Mila.
- Justo.
Revirei os olhos.
— Vocês são péssimos irmãos.
— E mesmo assim continuas aqui —
disse Jayden.
— Porque não tenho escolha.
— Podes fugir.
— Para onde?
Ele apontou para a floresta.
Olhei para as árvores através da janela.
— Talvez.
Matteo soltou uma gargalhada.
— O pai teria um ataque cardíaco.
Foi nesse momento que ouvi passos.
Todos ficaram em silêncio.
Dominick entrou na cozinha.
Ele não precisava levantar a voz para fazer uma sala inteira ficar em silêncio.
Era uma daquelas características que vinham com ele.
A presença.
O olhar.
A autoridade.
Mesmo quando estava simplesmente de calças de treino e uma camisola escura, continuava sendo o Alpha.
Mas, quando me viu, a expressão dele suavizou.
— Bom dia, Querida.
— Bom dia, pai.
Ele aproximou-se e beijou-me a testa.
— Dormiste bem?
- Sim.
— Tens aulas hoje?
— Infelizmente.
Jayden riu.
— Ela diz isso todos os dias.
— Porque é verdade.
Dominick sentou-se à mesa.
— E depois das aulas?
— Tenho treino.
— Com quem?
— Trevor.
Ele assentiu.
Trevor era um dos Betas responsáveis pelo treinamento dos jovens da comunidade.
Eu conhecia-o desde criança.
Ele era exigente.
Muito exigente.
Segundo ele, eu tinha talento.
Segundo eu, ele gostava de torturar adolescentes.
Segundo o meu pai, Trevor fazia o trabalho dele.
Portanto, naquela discussão, eu estava claramente sozinha.
Dominick tomou um gole de café.
— Não te atrases.
— Não vou.
— E fica com Ashley quando estiveres fora da comunidade.
- OK...
Ele olhou para mim.
— O quê?
— Eu tenho dezassete anos.
— Eu sei.
— Então por que preciso de uma escolta?
Jayden levantou a mão.
— Tecnicamente, Ashley não é uma escolta.
Olhei para ele.
— Obrigada pela ajuda.
— Disponha.
Dominick não sorriu.
— Porque és minha filha.
— Isso não explica.
— Explica tudo.
Fiquei olhando para ele.
Às vezes era impossível discutir com o meu pai.
Principalmente quando ele usava aquela voz.
A voz de Alpha.
Não era agressiva.
Era apenas definitiva.
— Está bem.
Ele assentiu.
— Boa.
Peguei numa torrada.
— Posso pelo menos ir para a escola sem alguém andar atrás de mim?
— Ashley já vai estar com você.
— Isso é andar atrás de mim.
— É andar contigo.
— É diferente?
- Sim.
— Como?
— Porque eu disse que é.
Jayden começou a rir.
— Essa lógica é impecável.
Dominick lançou-lhe um olhar.
Ele parou imediatamente.
Eu tentei não rir.
Falhei.
Meu pai acabou sorrindo também.
E foi assim que começou mais uma manhã normal.
Uma manhã igual a tantas outras.
Eu ainda não sabia que, em pouco tempo, aprenderia que uma vida normal podia mudar muito mais rápido do que imaginamos.
Mas naquele momento?
Eu só estava preocupada com o treino de Trevor.
E com o fato de que provavelmente estou atrasada para a escola.
A comunidade
A comunidade Lanthon não aparecia em nenhum mapa.
Pelo menos não da maneira como realmente existia.
Para quem passasse pela estrada principal, aquela região parecia apenas uma área florestal próxima do litoral.
Havia algumas propriedades espalhadas.
Algumas estradas secundárias.
Algumas casas.
Nada que chamasse particularmente a atenção.
Mas, para nós, aquele lugar era muito mais.
Era território.
Era lar.
Era história.
Nossa comunidade era formada por várias famílias de lobos.
Algumas pertenciam diretamente à nossa alcateia.
Outras mantinham ligações antigas conosco.
Havia casas espalhadas pela floresta, caminhos entre as árvores e uma área central onde aconteciam reuniões, treinos e celebrações.
As crianças cresciam sabendo que eram diferentes.
Mas ninguém dizia isso como se fosse algo ruim.
Ser lobo fazia parte da nossa identidade.
Não era uma maldição.
Não era uma doença.
Era sangue.
Era herança.
Era família.
Eu descobri a minha natureza ainda criança.
A primeira transformação nunca era esquecida.
No meu caso, porém, ela tinha sido diferente.
Não tinha acontecido como nos outros.
Enquanto muitas crianças começavam a demonstrar sinais claros da sua natureza Lupida ainda pequenas, eu tinha levado mais tempo.
Meu pai nunca gostava de falar sobre isso.
Quando eu perguntava, respondia apenas:
— Cada lobo desperta no seu próprio tempo.
Eu aceitava.
Na época.
Hoje, pensava que talvez ele soubesse mais do que dizia.
Mas naquela altura, eu não tinha motivos para desconfiar.
Para mim, o mais importante era aprender a controlar aquilo que já fazia parte de mim.
Força.
Velocidade.
Audição.
Cheiro.
Reflexos.
Tudo era diferente quando éramos lobos.
A nossa comunidade tinha regras específicas.
Nunca revelaríamos nossa existência aos humanos.
Jamais transformaríamos diante de pessoas que não conhecessem nosso segredo.
Nunca colocaríamos a comunidade em risco.
E, acima de tudo, nunca agiríamos sozinhos quando o território estivesse ameaçado.
Essas regras tinham sido ensinadas a mim desde criança.
Eu sabia todas de cor.
Mesmo assim, conseguia quebrar algumas delas simplesmente por teimosia.
Segundo o meu pai, era uma das minhas maiores qualidades.
Segundo Matteo, era um dos meus maiores defeitos.
Segundo Jayden, era provavelmente ambas as coisas.
Eu preferia não escolher um lado.
A Escola
A escola ficava fora da parte mais isolada da comunidade.
Era uma escola normal.
Ou tão normal quanto poderia ser quando metade dos alunos conhecia segredos que nunca poderiam contar aos outros.
Eu gostava de estudar ali.
Gostava de ter aquela separação.
Dentro da comunidade, eu era Milanny Lilly Lanthon.
A filha do Alpha.
A irmã de Matteo e Jayden.
Parte de uma das famílias mais antigas da região.
Na escola, eu era apenas Mila.
E gostava disso.
Quando cheguei ao estacionamento, já conseguia ouvir Maiky discutindo com alguém.
Não precisei sequer vê-lo para saber quem era.
— Tu não pode estacionar aí.
- Eu posso.
— Não podes.
— Já estacionei.
— Isso não significa que podes.
— Significa que consegui.
Sorri.
Michael Hayes.
Meu melhor amigo.
Ou, como ele gostava de dizer, a pessoa que tinha sido obrigada pelo destino a aturar-me.
Ele estava encostado ao carro quando me viu.
— Finalmente,Princesa.
— Bom dia para ti também.
— Você está atrasado.
— Dois minutos.
— Dois minutos e trinta e sete segundos.
Olhei para ele.
— Tu és assustador.
— Eu sei.
Ele sorriu.
Os olhos azuis dele brilhavam com aquela expressão divertida que parecia estar sempre presente.
— Dormiste bem?
- Sim.
— Sonhaste comigo?
— Infelizmente, não.
— Que pena.
- Para você.
Ele levou a mão ao peito.
— Cruel.
Ashley aproximou-se.
— Ignore isso.
— Eu estou tentando.
— Não parece.
Mirian apareceu logo atrás.
— Vocês começaram sem mim?
- Sim -
respondeu Maiky.
— Ótimo.
— Isso não era um convite.
— Eu sei.
Nós quatro começámos a caminhar para dentro da escola.
E foi aí que percebi uma coisa.
Por mais diferentes que as nossas vidas fossem, aqueles momentos eram os mais normais que eu tinha.
Nós ríamos.
Estávamos discutindo.
Falávamos de professores.
Reclamávamos dos trabalhos.
Falávamos de música.
De filmes.
De pessoas.
De coisas completamente inúteis.
E eu gostava disso.
Porque, por algumas horas, ninguém precisava pensar em alcateias.
Alfas.
Betas.
Guerreiros.
Territórios.
Tratados.
Ou responsabilidades.
Éramos apenas quatro amigos.
E eu queria que continuasse assim.
Pelo menos por enquanto.
O treino
Depois das aulas, voltei para a comunidade.
Trevor já estava esperando no campo de treino.
Cruzei os braços.
— Não podias ter escolhido um dia melhor para me torturar?
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Não estou aqui para te torturar.
— Ainda.
— Começa a correr.
Suspirei.
— Claro.
Comecei a correr.
Uma volta.
Duas.
Três.
Na quarta, Trevor gritou:
— Mais rápido!
— Eu já estou rápido!
— Não o suficiente!
Acelerei.
O vento bateu no meu rosto.
O mundo começou a passar mais depressa.
Era uma das coisas de que eu mais gostava.
Correr.
Não precisava pensar.
O corpo sabia o que fazer.
Quando terminei, Trevor aproximou-se.
— Melhor.
— Finalmente.
— Mas estás distraída.
Olhei para ele.
— Não estou.
- Estás.
- Como você sabe?
— Porque eu te conheço desde que era criança.
Ele deu-me uma garrafa de água.
— O corpo acompanha a mente. Se a mente está em outro lugar, o corpo perde precisão.
Bebi água.
— Talvez esteja apenas cansada.
Trevor ficou olhando para mim.
— Talvez.
Não insistiu.
E eu agradeci.
Naquela tarde, não havia nada de estranho.
Nada sobrenatural.
Nada de misterioso.
Era apenas treino.
Mais um dia.
Mais uma corrida.
Mais uma conversa.
Mais uma lembrança de que eu fazia parte daquela comunidade.


