O Homem Que Não Sabia Ir Embora (Conto) por LexSilvas em Inkitt
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O Homem Que Não Sabia Ir Embora (Conto)

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Resumo

Thomas está preso no fim da sua história de amor. Não existe antes. Não existe depois. Só existe o fim em um looping temporal infinito do qual ele está preso no eco emocional do abandono. Sem esperenças. Ou será que existe algo que ele possa fazer pra seguir em frente finalmente.

Gênero
Humor
Autor
LexSilvas
Status
Completo
Capítulos
1
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

O Homem Que Não Sabia Ir Embora (Conto)

O Homem Que Não Sabia Ir Embora (Conto)

Lex Silvas

08/11/25

Sempre começa assim. Ela entra pela porta grande de vidro da lanchonete, com o som abafado da chuva ainda grudado nos ombros. Fecha o guarda-chuva com um gesto firme, quase ritualístico, e o sacode três vezes, como se quisesse expulsar não só a água, mas o dia inteiro que veio grudado nele. O cabelo escuro, preso num coque improvisado, já começa a soltar mechas pela lateral do rosto.

Fala algo com um homem que está prestes a sair — talvez um conhecido, talvez só alguém que sorriu por educação. Ela comenta algo sobre a chuva, claro. A chuva que hoje parece decidida a lavar até os pensamentos mais escondidos. Ele ri, ela também, mas já está olhando para dentro, procurando alguém, que no caso sou eu.

Os olhos dela me encontram antes de qualquer outra coisa. Ela caminha até mim com passos leves, quase silenciosos, como se não quisesse perturbar o ambiente. A lanchonete tem aquele cheiro de fritura e café requentado, e mesmo assim, quando ela se aproxima, parece que tudo muda de temperatura.

Ela se senta na cadeira à minha frente. Não diz nada de imediato. Só me olha. E eu, demoro pra perceber que o rosto dela está mais sério do que o habitual, e quando percebo, eu não digo nada, só espero.

Até ela começar a falar: — Precisamos conversar.

Os lábios dela se mexem de maneira tão suave pra alguém que está prestes a dizer algo terrível. E antes fosse que ela matou uma das minhas plantas, mas não. Ela veio pra terminar comigo. De uma vez por todas. Terminar.

Nosso relacionamento, que até algumas horas atrás parecia bem — pelo menos pra mim — não existe mais. Ela simplesmente deixou de me amar do mesmo jeito que eu a amo. Aparentemente o amor é algo passageiro e não eterno como muitos mentem que é.

Ela fala com calma, como quem ensaiou cada palavra. Como quem já chorou tudo que tinha pra chorar antes de chegar aqui. Eu, por outro lado, estou aprendendo agora o peso de cada sílaba.

— Eu gosto de você, mas não é mais como antes — ela diz, olhando pra xícara de café que o garçom acabou de deixar na mesa, como se fosse mais fácil encarar a porcelana do que meu rosto. — Você não me leva a sério.

O barulho da chuva lá fora continua, indiferente. As pessoas entram e saem da lanchonete, mastigam, riem, vivem. E eu estou aqui, tentando entender como é possível que tudo mude assim tão rápido.

Ela continua falando, mas eu já não escuto tudo. Algumas frases chegam até mim como se estivessem debaixo d’água. “Não quero te machucar.” “Você é incrível.” “Só não é mais o que eu preciso.”

E eu fico ali, imóvel. Com o rosto mais sério do que o normal. Como se isso fosse me proteger de alguma coisa. Como se endurecer o semblante fosse impedir o coração de quebrar.

Mas não impede.

E a única coisa que a minha mente torta, essa mente de homem maldito e inseguro, consegue pensar é: será que existe outro? Será que ela vai me trocar por alguém? E o pior — será que é o maldito do Jerry?

O Jerry do escritório. O Jerry narigudo que uma vez me chamou de Peter. Peter. Esse nem é o meu nome. E ela riu. Não sei se foi do erro ou da situação. Mas riu. E aquilo ficou. Como uma farpa invisível que eu nunca consegui arrancar.

Ela nem me deixa falar. Nem tenta ouvir. Não há espaço pra argumentos, pra explicações, pra súplicas. Ela simplesmente joga o dinheiro na mesa — notas úmidas da chuva, amassadas, como se fossem o recibo final de tudo — e diz, em alto e bom som, como se quisesse que todos ouvissem: — Acabou.

E então ela vai embora. Na chuva. Sem abrir o guarda-chuva. Como se a água lavasse qualquer culpa, qualquer dúvida, qualquer resto de mim que ainda estivesse grudado nela.

E eu confesso. Confesso que talvez eu tenha dito coisas horríveis. Talvez eu tenha falado do Jerry. Ou do Finn também, outro colega do trabalho. O Finn é legal, claro. Todo mundo gosta do Finn. Mas eu vejo nos olhos dele. Aquela gentileza toda, aquele sorriso fácil… é fachada. Ele tem cara de quem quer pegar a mulher dos outros. O tempo todo. E talvez eu tenha dito isso. Talvez eu tenha gritado. Talvez eu tenha quebrado um copo. Ou dois. Talvez o chão da lanchonete ainda tenha cacos espalhados da minha raiva súbita.

E agora eu fico aqui, me perguntando: será que é por isso que eu estou preso nesse inferno? Será que eu quebrei alguma xícara mágica? Será que essa lanchonete é uma espécie de purgatório disfarçado de balcão de milkshake e fritas frias?

Porque isso aqui é uma merda. Uma porcaria. E eu estou revivendo esse momento há dias. Dias. Sempre ela entrando. Sempre a chuva. Sempre o guarda-chuva sendo sacudido. Sempre o “precisamos conversar”. Sempre o “acabou”. Sempre a saída sem olhar pra trás.

E eu? Eu fico. Preso nesse looping. Nesse carrossel de dor e dúvida. Nesse lugar que fede a gordura velha e lembrança ruim. Sob essa luz de neon horrível.

E o pior de tudo é que, mesmo sabendo o que vai acontecer, mesmo tendo decorado cada gesto, cada palavra, cada silêncio… Eu ainda espero que, dessa vez, ela sente e diga outra coisa. Qualquer coisa. Menos “acabou”.

Por onde eu devo começar? Além do fato de que eu acho que morri. E estou no inferno.

E não aquele inferno bíblico, cheio de chamas e gritos eternos. O meu é mais sutil. Tem cheiro de café requentado, fritura velha e tristeza reciclada. Tem uma jukebox quebrada no canto e uma garçonete que nunca envelhece — e que também não se mexe. Ninguém aqui se mexe mais a um bom tempo. Como se estivessem congelados na mesma posição assim como eu. Como se fossem parte de um cenário que só existe pra me torturar.

E tem ela. Sempre ela. Entrando pela porta de vidro com a chuva grudada nos ombros, como se carregasse o peso do mundo e não se importasse.

Ah, é mesmo. Meu nome. Thomas Kingley. Ao seu dispor — embora, sinceramente, não sei mais pra quem eu estaria à disposição sem me mexer nem pra poder coçar o meu nariz.

Eu costumava ser alguém. Alguém com planos, com certezas, com uma mulher que dizia me amar. Agora sou só um homem preso numa lanchonete que repete o mesmo dia. A mesma conversa. O mesmo fim.

E cada vez que ela entra, eu penso: talvez hoje seja diferente. Talvez hoje ela diga que me ama. Talvez hoje ela fique. Talvez, se eu disser que a amo, ela mude de ideia. Mas não adianta. Ela parece decidida a me largar.

Hoje, como ontem, como todos os dias antes, ela diz: — Precisamos conversar.

E aí começa o fim. De novo.

Eu sei o que vem depois. A suavidade dos lábios dela, a crueldade das palavras. O dinheiro jogado na mesa, como se fosse o preço da nossa história. A saída sem guarda-chuva, como se a chuva fosse mais acolhedora do que eu.

E eu fico. Sentado. Com o rosto mais sério do que o normal, tentando entender onde foi que tudo desandou.

Mas agora não importa. Porque estou aqui. Preso. Revendo tudo. Revivendo tudo. Sem conseguir me mexer. Preso nesse banco como se estivesse colado, como se o tempo tivesse me engolido e cuspido de volta só pra assistir meu sofrimento em looping.

E se isso não é o inferno, então é o que vem logo antes.

— Só me sobrou você. Moça loira no banco atrás de mim. De costas pra mim. Imóvel, como todo o resto desse lugar — digo. — De verdade, eu queria ver o seu rosto. Saber se você está me ouvindo. Ou se é só mais uma peça desse cenário congelado que me cerca. Mas já que não podemos nos ver, e temos esse tempinho antes do looping maldito recomeçar, eu vou me descrever. Pra que você me imagine. Prometo ser sincero. Sem enfeitar demais. Sem tentar parecer melhor do que sou:

Tenho trinta dois anos, mas o espelho insiste em me dar mais, pelo menos um dois. Cabelos escuros, bagunçados — por puro descuido. Olheiras profundas, daquelas que não saem com sono nem com creme. Rosto sério. Sempre sério. Mesmo antes disso tudo. Mas agora é como se a seriedade tivesse virado uma máscara permanente.

Tenho mãos que tremem quando estou nervoso, e estou nervoso o tempo todo. Uso uma jaqueta que já foi preta, agora é cinza desbotado. Tem um rasgo na manga esquerda, feito por uma porta que bati com raiva. Não lembro mais qual porta. Talvez nem importe.

Sou alto, mas não imponente. Sou magro, mas não elegante. Olhos castanhos claros. Entradas bem pequenas na cabeça sim, mas eu juro que são parte do meu charme. Sou alguém que foi amado por ela — por um tempo — e que agora não é mais nada além de um eco.

E estou preso aqui. Nesse banco. Nesse dia. Nesse fim.

— Então, moça loira, — posso te chamar de Moira? Eu vou te chamar assim — Digo. — Se você estiver me ouvindo — mesmo que só em pensamento, imagine esse homem que fala com você sem te ver. Imagine esse rosto sério, essa voz cansada, esse corpo colado ao banco como se o tempo tivesse grudado nele. E se puder, imagine que eu ainda sou alguém. Só por alguns minutos. Antes que tudo recomece.

Por falar nisso… Aí vem ela de novo. Sacudindo o guarda-chuva como se estivesse expulsando o mundo. Toda essa merda vai recomeçar.

Ela entra, se senta na mesa, me encara com aqueles olhos sérios. Olhos que, na primeira vez, eu achei que estavam apenas cansados. Mas não. Eles já não estavam felizes em me ver. Eu só não percebi.

Ela abre a boca. Vai começar. Mas antes que qualquer palavra escape, eu me antecipo:

— Antes que você diga qualquer coisa, amor… Quero que conheça minha amiga aqui atrás. A Moira. Fala oi, Moira, pro meu amorzão.

A minha namorada hesita, mas depois só solta: — Thomas, eu…

— O que foi, Moira? — grito, movendo virando o máximo que dá, o que não é nada pra trás. — Eu falo pra ela. A Moira me disse pra te lembrar que eu te amo. E que eu te perdoo por tudo.

Ela tenta de novo: — Thomas, eu…

— O que foi, Moira? Você não falou isso, menina? — digo rindo forçado. — Ela falou que te achou linda. Que você e eu devíamos nos casar. Ter muitos filhos juntos.

— Thomas, eu…

— Eu sei, amor — digo, rindo. — Vamos dar o nome dos nossos filhos de Junior 1, 2, 3, 4, 5. Vai ser divertido. Uma sequência lógica. Tipo uma equação familiar.

Ela me olha como se estivesse diante de um estranho. Como se eu tivesse virado outra coisa. Ou talvez só revelado o que sempre fui.

— Você é um idiota — diz ela, pegando o dinheiro e jogando na mesa. — Acabou.

Ela se levanta. Sai da lanchonete batendo a porta com força. Vai embora na chuva. Nem se dá ao trabalho de abrir o guarda-chuva.

— Te vejo de novo já já — digo, com um sorriso torto. Como se fosse uma piada interna entre mim e o universo.

Ela desaparece. E eu fico pensando. Eu acenaria se eu pudesse mover as minhas mãos que estão na mesa juntas entrelaçadas.

— Viu só? Falei que não adiantava dizer nada diferente. Ela sempre termina comigo. Sempre vai embora na chuva — digo.

E olha que eu já pedi ela em casamento pelo menos doze vezes. Doze. Em todas ela disse não. Com a mesma cara. Com a mesma voz.

Eu estou começando a achar que ela não me ama mais mesmo. Ou talvez nunca tenha amado. Ou talvez o amor seja só isso: Um ciclo que termina sempre no mesmo lugar de merda.

Só queria desaparecer. Sumir. Evaporar. Desse inferno de dia.

— Eu juro por tudo que é mais sagrado que queria ter trazido uma arma comigo — digo, com a voz com o ódio estampado nela. — Poderia acabar com tudo isso fácil. Um estalo. Um fim. Miolos por toda a parede. Inclusive em você, Moira.

E então, do nada, uma voz feminina responde: — Podia usar uma das facas na mesa. Se puder alcançá-las.

Eu grito. Assustado. O corpo inteiro imóvel parece se contrair como se tivesse levado um choque. A cadeira range. O copo quase cai. Mas eu estou grudado ainda.

Olho em volta. Nada se mexe. A garçonete continua congelada. Os clientes continuam em suas poses eternas. Mas a voz… A voz veio de trás.

Da moça loira. A Moira. A que nunca fala. A que nunca se vira.

— Moira? — digo, com a voz trêmula. — Foi você? E você se chama mesmo Moira?

Silêncio. Mas agora tudo parece diferente. Como se algo tivesse se quebrado. Como se o looping tivesse dado uma pequena falha. Uma rachadura.

E eu fico ali. Com o coração acelerado. Com a cabeça doendo. Tentando entender se estou enlouquecendo ou se, finalmente, alguma coisa está prestes a mudar.

— É oficial: eu estou mesmo no inferno — digo.

— Pode ser que esteja em outro lugar — responde a voz feminina, de novo. Dessa vez, não me assusto. Acho que estou me acostumando com a loucura.

— E onde seria esse lugar? — pergunto, sem levantar a cabeça.

— Com certeza não é Connecticut — diz ela. — Eu já estive lá. Não é tão ruim assim.

— Isso é insanidade — digo. — Você é quem, o diabo? Tá só me zoando por ter quebrado uma xícara ou o coração de alguém?

— Acha mesmo que é o único preso nessa merda de looping? — diz ela. — Eu estou aqui há muito mais tempo que você.

— E por que nunca falou comigo?

— Eu falei. Mas você não escuta. Como todos os homens na minha vida.

— Eu te escuto.

— Não escuta, não — diz ela. — Eu queria tanto poder fumar um cigarro, mas os meus acabaram nos anos 90.

— Anos 90? — pergunto. — Mas isso já faz mais de trinta anos.

— Eu achei que no começo ia morrer. Mas agora tudo está maravilhoso.

— Maravilhoso como? — pergunto, desconfiado.

— Meu marido parou de me ligar falando que deixou as chaves debaixo do tapete.

— Ele te largou também? — digo, triste. — E foi bem aqui nessa lanchonete?

— Não. Foi em casa mesmo — diz ela. — Eu estava sentada no sofá, assistindo minha novela. De repente, ouvi ele dizer que não me amava mais. E o resto… você sabe.

— Se foi em outro lugar, o que você está fazendo aqui?

— Eu vim aqui tomar um café decente. A única coisa boa que aquele idiota sabia fazer na cozinha era o café — diz ela, com desdém.

— Sinto muito por isso.

— Aquele cretino me falou que ia pra Las Vegas com a minha melhor amiga. A Darlene. Aquela piranha. Acho que eles devem ter chegado lá, porque eu finalmente tive paz. Mas desde então… estou presa aqui. Sem conseguir me mexer ou fumar. Por acaso você fuma?

— Sinto muito, mas eu parei depois que comecei a namorar a Erica — digo. — Ela dizia que o cheiro deixava ela com náusea.

— Que vadia! — responde Moira, sem hesitar.

— E por falar nela... lá vem a minha princesa do drama de novo — digo, olhando pra porta e vendo a mesma cena de sempre. — Puta que pariu, que vontade de enfiar esse guarda-chuva no meu rabo. Ou no dela.

— Vai por mim enfiar coisas no rabo não vai te ajudar nessa situação — diz a Moira.

Ela entra, faz todo o ritual: sacode o guarda-chuva, ajeita o cabelo, olha em volta como se fosse a primeira vez. Depois de me encontara na multidão, se senta na mesa com a mesma cara de antes. Aquela expressão de quem já decidiu tudo.

— Oi, amor — digo.

— Nossa, o dia hoje está terrível — diz ela. — Eu só vim aqui porque precisava conversar com você sobre uma coisa.

— Que eu sou um péssimo namorado, que você não me ama mais e toda essa merda — digo, revirando os olhos. — Nós já passamos por isso, Erica. Por que você não vai embora e me deixa em paz? Eu já entendi. Eu sou horrível.

— Nossa, que grosso — diz ela. — O que eu tenho pra dizer é algo sério. Eu sei que pode ser terrível, mas você vai superar. Eu sei…

Eu suspiro. De novo, diante da ladainha.

— Não é você, sou eu — diz ela. — Mas podemos continuar amigos.

— Podemos continuar fodendo. Eu gostava de foder com você — digo. — E mesmo que agora eu não possa mexer as pernas, sinto que meu pau está com uma ereção enorme.

— Thomas, por favor, leva a sério o que eu estou falando — diz ela. — Eu estou terminando com você.

— Nossa, que novidade!

— E eu sempre, sempre vou estar aqui por você — diz ela.

— Nossa, quantos “sempres”.

— Acabou! — diz ela, se levantando, pegando as coisas e saindo.

— Tchau, amor — digo, sem entusiasmo.

Ela sai. De novo. E eu fico me sentindo um caco.

Até que ouço Moira rir. Alto. Estridente.

— Pode rir — digo. — Eu mereço isso.

— Não é isso — diz ela, ainda rindo. — Eu adoro a parte que ela fala “não é você, sou eu”.

— Eu sei. Irônico, né? Se é ela e não eu, então deveria ser eu quem queria terminar. Não o contrário.

— Um conselho: mulheres são complicadas mesmo.

— Eu concordo — diz uma voz grossa, vinda do fundo da lanchonete.

— Quem falou isso? — pergunto, virando o pescoço pra tentar ver.

— Fui eu. O cara do boné azul, perto da porta do banheiro.

Olho ao fundo e o vejo. Um sujeito gordo, mãos sobre a mesa, camisa rasgada nas mangas, boné estilo caminhoneiro. De costas pra mim.

— Fala aí, cara — digo. — Também está nesse inferno há quanto tempo?

— Não muito — diz ele. — Mas ela tem razão. Mulheres são complicadas.

— Eu não entendo o que fiz pra merecer ser punido assim — digo.

— Não é culpa sua — diz ele. — Reviver isso faz parte do processo de superar essa merda.

— E o que você está fazendo aí? Sua namorada terminou com você também?

— Fui demitido do meu emprego — diz ele. — Meu chefe me mandou uma menssagem e disse que não precisava mais de mim. Arrumou alguém mais jovem. Eu só tenho 45 anos. Mas aparentemente precisava de alguém novo pra transportar mercadoria pela fronteira. Eu só dormi uma vez. Uma.

— Você sabia disso, Moira? — pergunto.

— O Buzz ali sempre conta essa história — diz ela. — Supera isso, seu idiota! — grita pra ele.

— Supera você o fim do seu casamento! — grita ele de volta. — Tenho certeza de que seu marido te largou porque você é feia.

— E seu chefe te dispensou porque você é um maldito preguiçoso! — retruca ela.

— Então todos vocês estão aqui porque não conseguem superar alguma coisa? — pergunto.

— Sim — diz Moira.

— Com certeza! — grita Buzz.

— Isso aí — diz outra voz no meio daquelas pessoas de costas.

— Meu gato fugiu de casa e nunca mais voltou — diz um homem. — Acho que ficou com raiva por eu ter dado uma ração velha pra ele. Ele odiava aquilo.

— Vocês são todos loucos — digo.

— Loucos ou não, estamos todos presos aqui — diz Moira.

— Lá vem ela de novo — digo, olhando pra porta e vendo a Erica com o maldito guarda-chuva.

— Podia tentar dizer pra ela a verdade — diz o Buzz.

— Eu já falei — digo. — Já disse que sentia muito. Que amo. E toda essa merda. Mas ela não quer saber.

— Talvez, ao invés de falar… que tal só escutar? — diz Moira.

— Eu já escutei — digo. — “Acabou”, ela diz o tempo todo. “Acabou”.

— Só escuta — repete Moira.

A Erica se aproxima. O som da chuva lá fora parece diminuir, como se o mundo estivesse prendendo a respiração. Ela se senta na mesa, como sempre, mas algo está diferente.

A luz da lanchonete muda. Sai do neon artificial e mergulha numa claridade suave, amarelada, como no dia em que ela apareceu pela primeira vez. Um fim de tarde comum. Quase bonito.

Os clientes congelados começam a se mexer. A garçonete pisca. O cara do boné coça a cabeça. O ambiente parece mais vivo, mais real, como se o tempo tivesse voltado a funcionar por alguns instantes.

— Nossa, como está chovendo — diz Erica, tirando o casaco molhado com cuidado. — Quase eu não consegui chegar, mas eu precisava.

Ela me olha. E aquele olhar… Não é o mesmo de sempre. Não é só cansaço. É peso. É tristeza. É decisão.

— Obrigada por ter vindo assim tão em cima da hora — diz ela, com a voz baixa, quase quebrada. — Precisamos conversar, Thomas. E já faz um tempo que eu estou querendo te dizer isso.

Ela faz uma pausa. Longa. Como se cada palavra fosse uma pedra que ela precisa carregar até a borda da boca. Como se estivesse escolhendo com cuidado o que vai me destruir.

Eu não digo nada. Não respiro. Não me mexo.

Porque pela primeira vez, talvez, ela esteja prestes a dizer algo diferente. Algo verdadeiro. Algo que não veio do looping.

E eu estou aqui. Esperando. Com o coração batendo como se fosse a primeira vez.

Ela respira fundo. Olha pra mim como se estivesse vendo alguém que não via há anos. Como se, pela primeira vez, eu estivesse realmente ali.

— Eu não sei mais como dizer isso sem parecer cruel — diz ela. — Mas eu preciso que você escute. Só escute.

Eu não falo. Não interrompo. Não tento prever o fim. Só escuto.

— Eu te amei, Thomas. De verdade. Por muito tempo. Mas em algum momento... Em algum momento eu comecei a sentir que estava sozinha mesmo quando você estava do meu lado.

Ela olha pra xícara na mesa, como se procurasse coragem no fundo do café.

— Você sempre foi gentil, engraçado, intenso. Mas também era como se estivesse sempre em outro lugar. Como se estivesse esperando que eu fosse alguém que eu não sou.

A luz da lanchonete parece pulsar. As pessoas continuam se movendo, mas em silêncio. Como se o mundo estivesse ouvindo junto comigo.

— Eu tentei. Tentei ficar. Tentei te amar do jeito que você precisava. Mas eu comecei a desaparecer. E agora eu não sei mais quem eu sou quando estou com você.

Ela me olha. E dessa vez, eu vejo. Vejo o cansaço. Vejo o amor que virou memória. Vejo a dor de quem não quer machucar, mas precisa se libertar.

— Eu não vim aqui pra te ferir. Eu vim pra me encontrar. E pra te deixar ir. Não é você sou eu.

Eu engulo em seco. Não há looping agora. Não há repetição. Só esse momento. Cru. Vivo.

— Acabou — diz ela com pesar pegando a sua bolsa pra se levantar, depois tirando algumas notas e jogando sob a mesa.

— Eu entendo — digo, pela primeira vez sem sarcasmo, sem defesa.

Ela para. Sorri. Um sorriso triste, mas verdadeiro. Como quem finalmente encontrou paz dentro da dor.

— Você merece alguém que te ame, Erica. E mais ainda, alguém que te escute — digo, olhando pra baixo, sentindo o peso das palavras. — Você merece ser feliz. E pra ser sincero… eu meio que me acomodei demais nesses últimos meses. Eu sinto muito.

Ela coloca a mão sobre a minha. Não diz nada. Só sorri. E nesse toque silencioso, há mais verdade do que em todas as conversas que tivemos.

Ela se levanta. Coloca o casaco com movimentos lentos, quase cerimoniais. Me olha uma última vez.

— Ainda podemos ser amigos — diz ela, com a voz pesada.

— Eu sei — respondo, tentando sorrir, mas o rosto não obedece. Só tristeza. Só aceitação.

— Obrigada por entender — diz ela.

E sai. Sem guarda-chuva. Mas dessa vez, não parece fugir. Parece seguir em frente. Como se o mundo lá fora finalmente tivesse espaço pra ela.

Eu fico ali, parado. E então, pela primeira vez em muito tempo, sinto meus músculos relaxarem. Meus pés não parecem mais grudados ao chão. Meu corpo não está mais colado à cadeira. Eu posso me mexer.

Pego meu casaco do lado do banco. Dou um último gole no café — frio, amargo, mas simbólico. Me levanto.

Olho pra trás. Moira está lá, sentada. Unhas vermelhas impecáveis sobre a mesa. Cabelo loiro, cheio, encaracolado, como uma pintura esquecida num canto de museu.

— Obrigado — digo.

— De nada, querido — responde ela.

Começo a caminhar até a saída. Mas antes, me viro de novo.

— Você não vem? — pergunto.

— Não — diz ela, convicta. — Meu marido vai voltar quando cansar daquela Darlene. Eles sempre voltam. Homens. Sabe como são.

— Tchau, Moira — digo.

— Tchau, Thomas — responde ela, ainda de costas. — Venha me visitar de vez em quando.

Eu sorrio. Me viro.

— E traga cigarros quando vier, pelo amor de Deus — grita ela.

— Tchau, Buzz — digo, já perto da porta.

— Tchau, Thomas — responde ele, com a voz grave e resignada.

Abro a porta. O ar da chuva me toca como se fosse novo. E então, um gato branco passa por entre a porta, miando, deslizando pelas minhas pernas como se soubesse exatamente pra onde ir.

— O maluco do gato — grito, rindo pela primeira vez. — Acho que você tem visita.

A porta range ao ser completamente aberta. O ar da rua entra, úmido, carregado de chuva e cheiro de asfalto molhado. Meus pés tocam o chão como se fosse pela primeira vez. O mundo parece novo. Ou pelo menos diferente.

E então, do fundo da lanchonete, uma voz explode:

— Whistles! — grita ele. — Eu sabia que você ia voltar.

Eu paro. Olho pra ele. Buzz está lá, no mesmo lugar, com o boné azul torto na cabeça e aquele sorriso torto de quem já viu demais.

Mas agora, tudo parece mais leve. Como se o peso tivesse sido redistribuído. Como se, ao sair, eu tivesse deixado algo pra trás — e levado outra coisa comigo.

Eu não respondo. Só sorrio. Um sorriso pequeno, mas verdadeiro.

E sigo. Pra fora. Pra frente.

A chuva cai, mas não me molha. O mundo respira. Pela primeira vez em muito tempo eu também.

Fim.

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