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O "Herdeiro"

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Resumo

Aos doze anos, eu acordei no corpo de uma personagem secundária. Não a protagonista — a filha do vilão. Aquela que aparece pouco, que os leitores chamavam de "a coitada", e cujo destino eu conhecia porque tinha lido os comentários num ônibus e achado um lixo. Eu tinha três dias antes de me mandarem para o meu pai. E o registro de nascimento, feito às pressas por dois velhos abalados, dizia menino. Foi o único fio solto que aquela história me deixou, e eu peguei ele com as duas mãos. Ninguém neste mundo vai saber que eu sou mulher. Nem ele. Sete anos depois eu tenho dezoito, moro no último andar de um prédio que meu pai passou onze anos comprando para engolir uma cidade que não é nossa, e eu já entendi uma coisa: neste mundo, quem não manda é usado. Eu não quero salvar ninguém. Não quero ser reconhecida, não quero vingança e não quero mudar nada. Eu quero herdar tudo o que aquele homem construiu. E o único obstáculo entre mim e isso é um rapaz de dezenove anos do lado errado da guerra, que passou o semestre inteiro dizendo o que pensa de mim em voz alta no meio do pátio — e que ainda não sabe o meu sobrenome.

Gênero
Romance
Autor
Ametoria
Status
Em Andamento
Capítulos
10
Classificação
n/a
Classificação Etária
18+

Capítulo 1 — O último andar

Aleks

O carro que me esperava em Valência era cinza, comum, com placa da cidade. Ninguém pediu documento, ninguém disse meu nome. O motorista abriu a porta de trás, esperou eu entrar e fechou.

— Trânsito ruim — ele disse. — Quarenta minutos.

Foram cinquenta e três. Contei.

A cidade passou do lado de fora em três camadas. Primeiro o subúrbio feio que toda cidade tem e esconde de quem chega de avião. Depois um pedaço de porto, guindaste, contêiner empilhado até parecer parede. Depois prédio, prédio, prédio, tão colados uns nos outros que o céu virou uma faixa entre eles.

Em Kesztóvia dá para ver o céu inteiro de qualquer esquina. Aqui um pedaço dele entra no aluguel.

O motorista parou numa rua sem nada de especial e apontou com o queixo.

— É aquele.

Vinte e dois andares de vidro escuro, novo em folha, plantado numa quadra de prédios velhos. Não tinha placa. Não tinha nada dizendo o que era ou de quem era, o que numa rua daquelas é praticamente um anúncio de página inteira.

— Bonito — falei.

— É o que dizem.

---

O saguão cheirava a coisa nova. Cimento curado e aquele cheiro de carpete que ainda não foi pisado.

Um homem me esperava perto do elevador. Uns quarenta anos, terno sem graça, cara de quem trabalha demais.

— Sr. Kovács.

— Aleks.

— Aleks. — Ele entregou duas chaves e um telefone. — Vinte e dois é do seu pai. Vinte e um é seu. Vinte está vazio, dezenove tem uma equipe de obra que sai na sexta. Do décimo pra baixo é escritório de verdade, empresa de verdade, gente de verdade que não sabe de nada.

— A garagem?

— Dois carros no seu nome. O preto está lá embaixo.

— Qual preto?

— O de dois lugares. — Ele fez uma pausa. — Seu pai perguntou se você precisava mesmo de um carro de dois lugares.

— E o que você respondeu?

— Que não era eu que pagava.

Achei graça. Cinco anos e ainda acho graça de papel com meu nome nele.

Ele me passou uma pasta fina.

— Endereço da faculdade, matrícula, o resto. Seu pai pediu para conferir se você tinha lido.

— Li.

— Ele pediu para eu conferir, não para eu acreditar.

— Justo.

O elevador subiu direto do térreo ao vinte e dois, sem parar. Alguém tinha programado assim de propósito. Gostei de quem quer que tenha sido.

---

A cobertura estava pronta e vazia.

Sala grande o bastante para dar eco, cozinha que ninguém tinha usado ainda, três suítes com as portas abertas e as camas feitas. Pedra clara no chão, madeira nas paredes, tudo que dinheiro compra e nada que diga alguma coisa sobre quem vai morar ali. Meu pai gosta assim. Casa boa e sem cara de ninguém.

Duas paredes de vidro do chão ao teto.

Larguei a mala perto da porta e fui até uma delas.

Dava para ver quase tudo dali. À esquerda, para o norte, os telhados foram ficando mais baixos e mais velhos até virarem aquele bairro de pedra que sai em cartão-postal — quadra fechada, rua estreita, prédio de três andares com sacada de ferro. Cavendish. Cada porta daquelas paga pedágio para o mesmo homem desde antes do meu pai nascer.

À direita, para o sul, o porto. Guindaste, galpão, o rio cortando tudo, um comboio de caminhão parado numa fila que não andava. Dumitrescu.

E no meio, entre os dois, o vidro onde eu estava.

Fiquei ali um tempo. Era conferência. É diferente ver o mapa e ver a coisa.

Meu pai comprou este terreno onze anos atrás, através de uma construtora que pertence a uma holding que pertence a um senhor de setenta e três anos que mora em Kesztóvia e cria coelho. O senhor recebe uma quantia todo mês para assinar o que aparece. Ele já assinou catorze imóveis em Valência. Nunca veio conhecer nenhum.

Ninguém deste lado nunca perguntou nada. Onze anos é muito tempo, e dinheiro estrangeiro comprando prédio caro não é notícia numa cidade que vive de vender prédio caro.

Peguei a mala e desci um andar.

O vinte e um é menor e é meu. Sala e cozinha num cômodo só, grande, com a mesma parede de vidro. Um quarto. Closet do tamanho do quarto, o que é ridículo e eu não vou reclamar. Banheiro com porta que tranca por dentro.

Testei a tranca. Funcionava.

Abri a mala, tirei o moletom de cima e joguei no sofá.

---

A faculdade fica a quinze minutos a pé, o que é conveniente porque eu não pretendo ir muito.

O prédio é antigo e caro, do tipo que tem escada de pedra na entrada só para a subida ser lenta e ser pública. O pátio estava cheio. Setembro, primeiro dia, gente se reencontrando aos gritos.

Sentei num banco de canto e fiquei olhando.

Não olho pessoas. Nunca soube fazer isso — meu pai olha uma pessoa por seis segundos e sabe se ela mente, se ela deve dinheiro e se ela vai chorar quando apanhar. Eu olho uma pessoa e vejo uma pessoa.

Mas eu sei sobrenome.

Passei quatro anos decorando as famílias desta cidade em papel, sentado no chão do escritório do meu pai enquanto ele fingia que não estava me deixando ler. Sei quem casou com quem, quem herdou o quê, quem devia e para quem.

Então fiquei ali, ouvindo chamarem uns aos outros.

Um Ferrante. Dois Marchetti, provavelmente primos. Uma menina que os amigos chamavam de Sabbatini, o que quer dizer que o pai dela é dono de quatro construtoras e de nenhuma delas ao mesmo tempo.

E, no meio do pátio, um grupo de uns oito, rindo mais alto do que o resto.

No centro do grupo, um rapaz de casaco preto aberto, encostado na parede como se a parede precisasse dele.

Não precisei de sobrenome nenhum para saber quem era. Todo mundo naquele pátio já tinha olhado para ele pelo menos uma vez, e ele tinha percebido todas.

---

O atrito aconteceu no terceiro dia, na porta da sala.

A turma inteira parada no corredor, esperando abrirem. Uma menina de cabelo curto virou para mim e perguntou de onde eu era.

— Kesztóvia.

— Sério? Meu tio trabalhou lá. É frio mesmo?

— É.

— Só isso? É frio?

— Muito frio.

Ela riu. As duas amigas dela riram. Não foi engraçado, e mesmo assim as três riram, e uma voz falou atrás de mim.

— Cuidado com esse. Estrangeiro só fala com você enquanto está sem visto.

O grupo dele riu. O dele riu mais alto que o dela, porque era maior.

Me virei.

De perto ele era mais novo do que parecia de longe. Dezenove, talvez. Bonito de um jeito caro, do tipo que nunca precisou aprender a ser mais nada.

— Damian — ele disse, e estendeu a mão. — Cavendish.

Ele disse o sobrenome separado. Deu uma pausinha antes.

Apertei a mão dele.

— Aleks.

Esperei.

Ele esperou.

O corredor todo esperou.

— Aleks — ele repetiu.

— Isso.

Soltei a mão dele, entrei na sala e sentei na terceira fileira.

Ele ficou na porta mais tempo do que precisava.

---

Saí antes do fim da aula e fui até o bairro de pedra, o do norte.

Levei quarenta minutos andando porque quis andar. A rua ia estreitando conforme eu subia, o asfalto virava paralelepípedo, os prédios encolhiam. Dá para saber exatamente onde começa o território dos Cavendish sem ninguém dizer: é onde as fachadas ficam bonitas de repente. Eles cobram há tanto tempo que o dinheiro virou arquitetura.

Entrei num restaurante que fazia esquina. Meio-dia e vinte, oito mesas ocupadas, cheiro bom.

O dono estava no caixa. Sessenta e poucos anos, camisa branca, avental.

Pedi café e perguntei quanto ele pagava.

Ele parou.

— Como?

— Por mês. Para os Cavendish. Quanto?

O pano na mão dele parou de se mexer. Ele olhou para a porta, depois para mim, depois de novo para a porta.

— Você é da polícia?

— Deus me livre.

— Então não é da sua conta.

— Não é mesmo — concordei. — Só que eu vou pagar esse mês.

Contei o dinheiro no balcão. Chutei alto de propósito, porque chutar baixo teria sido constrangedor para os dois.

Ele olhou para as notas como se fossem um bicho.

— Eu não pedi isso.

— Não pediu.

— Não quero.

— Também não quer devolver.

Ele não devolveu.

Bebi o café, que era muito bom, e deixei o pagamento do café separado, do lado, porque uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

Na porta, virei.

— Quando o homem vier receber, conta que já está pago.

— Ele vai perguntar quem pagou.

— Vai.

— E o que eu digo?

— Que você não sabe. — Empurrei a porta. — É verdade.

---

Meu pai atendeu no segundo toque.

— Você pagou o pedágio de um restaurante.

— Notícia voa.

— Aleks.

— O café era ótimo. Sério. Quando você chegar eu te levo.

Silêncio do outro lado. Consigo ouvir meu pai fechar os olhos por telefone.

— A ideia — ele disse, com a paciência de quem explica uma coisa que já explicou — era ninguém nesta cidade olhar duas vezes pra nada antes de eu pisar nela.

— Ninguém olhou.

— Uma família inteira está olhando desde as duas da tarde.

— Estão olhando pro nada. Não dei nome, não dei cara, não dei nem sotaque. O homem não sabe quem eu sou.

— Eles não precisam do seu nome pra somar. Precisam só de motivo pra procurar, e você deu.

— Em três dias eles iam saber de qualquer jeito.

— Em nove.

— Em três.

— Eu tinha calculado nove, Aleks.

— Você calcula sempre pra mais, é um problema que você tem.

Ele respirou fundo. Deixei ele respirar.

— O restaurante fica em quê? — ele perguntou, e a voz tinha mudado. Aquela mudança que ele faz sem perceber, quando para de brigar e começa a trabalhar.

— Esquina da Sesto com a via velha. Dois andares, fachada de pedra, o dono é dono do imóvel também. Sessenta e poucos anos, sem filho na casa.

— Ele aceitou?

— Ele não devolveu.

— Não é a mesma coisa.

— É melhor do que a mesma coisa.

Ele ficou quieto de novo, e dessa vez o silêncio era do tipo bom.

— Está comendo? — ele perguntou.

— Estou.

— Está comendo mesmo ou está dizendo que está comendo?

— Estou comendo mesmo, o restaurante era ótimo, eu acabei de te falar isso.

— Você comeu o café.

— Café é comida em algumas culturas.

— Em nenhuma cultura.

— Você não conhece todas.

Ouvi ele bufar. Alguém falou alguma coisa perto dele, do outro lado, e ele respondeu tapando o telefone. Voltou.

— Uma semana — ele disse.

— Eu sei.

— Uma semana, Aleks. Não faça mais nada.

— Ok.

— Não foi isso que eu ouvi.

— Eu disse ok.

— Você disse ok do jeito que você diz ok.

— Só existe um jeito de dizer ok.

Ele desligou.

Fiquei com o telefone na mão, no meio do andar vazio, com a cidade inteira acesa dos dois lados do vidro.

Sete dias.

Dava para fazer bastante coisa em sete dias.

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