Prólogo
A Ligação
Até receber aquela ligação, eu acreditava que heranças eram presentes. Hoje sei que algumas são armadilhas.
A chuva constante e fria caía lá fora e embaçava a janela de vitral, a luz do dia que a pouco amanhecera não era visível com tantas nuvens. Apesar disso, era um bom dia para um café da manhã demorado e ao lado de quem se ama.
O telefone de Lucas tocou ao lado da sua xícara de café. Ao atender uma voz quebrou o silêncio da nossa pequena cozinha:
— Bom dia, falou com o senhor Lucas?
A voz da mulher era firme, educada e impessoal. Daquelas pessoas que conseguem mudar a vida de alguém sem alterar o próprio tom de voz. Lucas colocou o celular no viva-voz enquanto limpava as migalhas do rosto.
— Bom dia, sou eu.
— Meu nome é Helena. Sou assistente do doutor Augusto Ferraz. Estou entrando em contato porque o senhor foi citado no testamento de um familiar falecido.
Nós nos entreolhamos. Lucas franziu a testa.
— Acho que houve algum engano.
— O senhor conheceu um homem chamado Álvaro Falkenberg?
Ele demorou alguns segundos para responder.
— Conhecer é uma palavra forte... Acho que o vi duas ou três vezes quando era criança.
— O senhor Álvaro Falkenberg faleceu há cerca de três semanas. Conforme consta em testamento registrado em cartório, deixou uma propriedade rural em seu nome.
Me escapou um riso. Discreto e incrédulo. Daqueles que escapam antes que a cabeça tente impedir. Lucas também sorriu de uma maneira estranha. Era quase absurdo. Quem deixaria uma propriedade inteira para um sobrinho tão distante?
— Desculpe... — falei, segurando o sorriso. — Tem certeza de que ligou para a pessoa certa?
— Tenho absoluta certeza.
Houve uma breve pausa.
— O senhor é Lucas Santana Falkenberg, correto?
Ele confirmou. E, naquele instante, a possibilidade de um engano começou a desaparecer.
Na tarde do mesmo dia, fomos visitar sua avó. Se alguém ainda pudesse nos ajudar a entender quem havia sido Álvaro Falkenberg, essa pessoa era Dona Ingrid. Ela nos recebeu como sempre fazia. Com café passado na hora. Um bolo simples sobre a mesa. E um olhar que fazia qualquer visita se sentir esperada.
Dona Ingrid tinha olhos grandes. Muito expressivos. Sempre tive a impressão de que eles iniciam uma conversa antes mesmo que ela dissesse qualquer palavra.
Esperamos o café ser servido. Lucas segurou a xícara por alguns segundos antes de perguntar.
— Vó... por que o tio Álvaro deixaria uma propriedade para mim?
Assim que Lucas pronunciou o nome “Álvaro”, a colher bateu uma vez na porcelana.
Só uma.
Ela parou de mexer o café. Pela primeira vez desde que chegamos, aqueles olhos deixaram de procurar os nossos. O silêncio durou apenas alguns segundos. Mas pareceu muito maior.
— Então ele se foi...
A voz saiu baixa. Sem surpresa. Mais parecida com a confirmação de uma notícia que ela já esperava receber.
Lucas trocou um rápido olhar comigo.
— A senhora... já sabia?
Ela respirou fundo. Depois voltou a olhar para nós. Os olhos continuavam calmos e levemente marejados. Mas agora carregavam um peso que eu não tinha percebido quando chegamos.
— Nas famílias antigas, meu filho... algumas notícias viajam depressa. Outras levam anos para encontrar quem precisa delas.
Não perguntamos o que ela queria dizer. Naquele momento, parecia apenas uma daquelas frases que as avós dizem quando viveram mais do que conseguem explicar. Hoje eu sei que não era.
Lucas apoiou a xícara sobre a mesa.
— Como ele era?
Dona Ingrid sorriu de leve. Era quase possível ver uma lembrança subindo aos seus pensamentos.
— Reservado. Muito reservado.
Ela olhou pela janela da cozinha. Parecia enxergar alguma coisa muito distante dali.
— Quando era menino, dizia que um dia moraria no alto de uma montanha.
— Uma montanha? — perguntei.
Ela soltou uma pequena risada.
— Ele dizia que, de lá, conseguiria ver qualquer pessoa chegando muito antes de baterem à porta.
Fez uma pausa.
— Acho que passou a vida inteira procurando um lugar assim.
Ninguém falou nada por alguns instantes. O único som na cozinha era o da chaleira esfriando sobre o fogão.
Descobrimos muito pouco naquela tarde. Álvaro nunca se casou. Nunca teve filhos. Era reservado. E, às vezes, simplesmente desaparecia por semanas. Ninguém sabia para onde ia. Ou talvez ninguém perguntasse.
Saímos da casa de Dona Ingrid levando muito mais perguntas do que respostas. A principal delas era simples. Por quê? Por que Lucas? Ele não era o sobrinho mais velho. Nem o mais próximo. Nem o único. Ainda assim...Foi o nome dele que apareceu no testamento.
Três dias depois, recebemos as chaves da propriedade. A escritura. Alguns documentos. E um envelope amarelado. O advogado o colocou sobre a mesa quase sem cerimônia.
— Ah... isto também foi deixado para o senhor.
Lucas abriu o envelope. Dentro havia apenas uma folha dobrada. Sem assinatura. Sem data. Somente uma frase escrita à mão.
“Existem casas que guardam lembranças. Esta guarda escolhas. Não confie em quem chegar tarde demais.”
Olhei para Lucas.
— Estranho... e sinistro.
Falei no tom mais dramático que consegui. Ele soltou uma risada discreta.
— Você assiste filmes de terror demais.
— Nós dois assistimos.
Guardamos a carta junto aos documentos. Naquele momento, ela parecia apenas a excentricidade de um velho solitário. Hoje eu sei que era um aviso. Porque, quando o primeiro visitante sombreou o batente da nossa porta...
...já estávamos afundados até a cabeça naquilo.
Seja lá o que fosse.




