Capítulo 1
Algumas pessoas cresceram sonhando em conhecer o mundo, mas eu cresci observando-o através de uma janela. O vidro estava frio sob as pontas dos meus dedos enquanto eu apoiava minha testa nele. Lá fora, a manhã fervilhava de um jeito que eu só podia imaginar. Crianças corriam pela calçada, suas risadas sendo levadas pela brisa. Uma mulher lutava para segurar seu chapéu de abas largas enquanto o vento tentava arrancá-lo de sua cabeça, e um senhor parava para cumprimentar todos que passavam por ele, como se os conhecesse a vida inteira.
O mundo além dos portões sempre pareceu mais barulhento do que aquele em que eu vivia.
Eu me perguntava como era a sensação de caminhar sem que alguém decidisse para onde você tinha permissão de ir. Entrar em uma loja apenas porque algo chamou sua atenção. Sentar-se debaixo de uma árvore em um parque sem pedir permissão antes. Aquelas coisas eram comuns para qualquer pessoa, mas, para mim, pareciam quase míticas.
Nossa propriedade era enorme. Acres de jardins perfeitamente aparados, fontes de mármore e cercas-vivas altíssimas cercavam a mansão. Cada cômodo era lindo, cada corredor polido até brilhar, cada peça de mobiliário cara o suficiente para pertencer a um museu.
No entanto, apesar de toda a sua beleza, ela nunca pareceu um lar de verdade. Parecia uma gaiola com paredes mais bonitas.
Eu não conseguia me lembrar de uma época em que tivesse permissão para ir além dos portões sozinha.
Quando criança, eu acreditava que todas as famílias viviam assim. Vovó me dizia que o mundo lá fora era perigoso e que as crianças que se afastavam demais de casa muitas vezes se arrependiam. Eu acreditava em cada palavra, porque ela era tudo o que eu conhecia.
Quando tive idade suficiente para perguntar por que não podia frequentar a escola como todo mundo, tutores simplesmente começaram a chegar à casa.
Quando eu me perguntava por que nunca tive amigos, Vovó me lembrava de que a solidão forjava o caráter.
Quando eu perguntava sobre meus pais, as respostas sempre desapareciam atrás do silêncio. Às vezes, ela dizia que eles viajavam com frequência. Em outras, afirmava que estavam tratando de assuntos familiares importantes no exterior.
Com o tempo, ela parou de responder completamente. Por anos, convenci a mim mesma de que aquilo bastava, até que um dia deixou de bastar.
Eu encarava os portões de ferro ao longe. Eles eram impossivelmente altos, suas barras pretas desaparecendo em meio a trepadeiras floridas, que tinham sido cuidadosamente cultivadas para suavizar sua aparência.
Engraçado. Nem as flores conseguiam esconder o fato de que ainda eram grades.
Uma menina passou saltitando com um balão amarelo brilhante apertado em sua mão. Ela não devia ter mais de seis anos. Ela riu tão alto que, mesmo através do vidro grosso, imaginei que pudesse ouvi-la.
Sorri sem perceber. Perguntei-me qual seria o nome dela,
perguntei-me se ela tinha amigos, perguntei-me se ela já tinha olhado por uma janela desejando poder sair.
Provavelmente não.
O pensamento fez meu peito doer de um jeito que eu não conseguia explicar.
Às vezes, eu imaginava atravessar aqueles portões.
Apenas uma vez. Só para saber qual era a sensação de ser livre. Apenas para descobrir se o mundo era realmente tão assustador quanto me ensinaram, ou se era simplesmente diferente.
"Angel."
A voz da minha avó ecoou de algum lugar atrás de mim.
Endireitei-me imediatamente.
Nunca havia raiva na voz dela, mas aprendi há muito tempo a não deixá-la esperando.
"Sim, Vovó?", respondi, afastando-me da janela pela última vez.
A menina lá fora desapareceu na esquina, e o sorriso sumiu do meu rosto.
Encontrei minha avó na cozinha.
A cozinha não era como o resto da mansão. Não estava cheia de pinturas imponentes, antiguidades caras ou salas tão grandes que faziam você se sentir pequena. Em vez disso, cheirava a chá fresco, pão assado e ao leve aroma de lavanda que sempre acompanhava minha avó onde quer que ela fosse.
Ela estava sentada na ponta da longa mesa de madeira, exatamente onde sempre se sentava.
Vovó Evelyn era uma mulher que carregava consigo um tipo de elegância que a idade jamais poderia tirar. Ela estava com quase oitenta anos, mas ainda havia uma beleza serena nela que fazia as pessoas olharem duas vezes. Seu cabelo prateado estava sempre perfeitamente arrumado, preso delicadamente para longe do rosto, e sua postura permanecia ereta, apesar dos anos que se passaram.
Seus traços guardavam vestígios da mulher que ela devia ter sido. Maçãs do rosto marcantes, suavizadas pelo tempo. Olhos cor de avelã gentis que pareciam notar tudo. Linhas finas ao redor da boca que contavam histórias de anos passados sorrindo, preocupando-se e guardando segredos. Ela se vestia de forma simples, mas elegante, geralmente com vestidos de cores suaves e as pérolas que tinham pertencido à sua mãe.
Para qualquer outra pessoa, ela provavelmente parecia uma senhora graciosa, mas eu sempre notei a tristeza por trás de seus olhos. O modo como certas perguntas a faziam ficar quieta e o jeito como, às vezes, ela olhava para mim, como se estivesse vendo outra pessoa.
Um criado estava ao lado da mesa, servindo chá na xícara de porcelana da minha avó. No momento em que entrei, a mulher olhou na minha direção e ofereceu um sorriso educado.
"Srta. Angel."
Retribui o sorriso.
"Bom dia."
Depois de colocar o bule, o criado recuou e fez uma pequena reverência.
"Seu chá, senhora."
"Obrigada", respondeu minha avó gentilmente.
O criado fez mais uma reverência antes de sair da cozinha, fechando a porta atrás de si.
Caminhei até a mesa e sentei-me à frente da minha avó. Entre nós, havia um vaso cheio das rosas vermelhas mais bonitas que já tinha visto.
Meus olhos permaneceram nelas mais tempo do que pretendia.
"Elas são lindas", eu disse baixinho.
Minha avó olhou para as flores.
"São sim."
Estendi a mão levemente, tomando cuidado para não tocá-las.
"A mamãe gostava de rosas?"
A pergunta saiu da minha boca antes que eu pudesse contê-la.
Seus dedos pararam ao redor da xícara de chá e seus olhos se voltaram para baixo.
"Não sei por que você pergunta essas coisas", ela disse suavemente.
Franzi a testa.
"Porque eu não sei quase nada sobre ela."
Minha avó desviou o olhar.
Eu não estava tentando deixá-la chateada. Eu nunca tentava. Só queria saber pequenas coisas. Do que minha mãe gostava. O que a fazia rir. Se ela tinha o meu sorriso ou os meus olhos.
Qualquer coisa.
"Você terminou seus estudos agora", disse ela, ignorando minha pergunta. "Deveria se concentrar no que vem a seguir."
Eu a encarei.
"Vovó..."
"Angel."
Sua voz era gentil, mas carregava um aviso.
Fechei a boca.
Ela buscou o chá, dando um gole lento.
"Algumas coisas é melhor deixar no passado."
Era sempre essa frase.
Olhei para as rosas novamente.
Eu me perguntava que tipo de lembranças podiam fazer alguém se recusar a falar sobre a própria filha.
Minha avó notou minha expressão e suspirou.
"Suba e vá descansar um pouco."
Pisquei.
"Eu fiz algo de errado?"
"Não."
Sua resposta veio rapidamente.
"Você não fez nada de errado, Angel."
Mas ela ainda não queria olhar para mim.
"Por favor", ela acrescentou baixinho. "Apenas vá."
Levantei-me devagar da cadeira.
Por um momento, pensei que a conversa tivesse acabado. Eu já estava me virando em direção à porta quando a voz da minha avó me deteve.
"Angel."
Olhei para trás.
Ela ainda estava sentada à mesa, com as mãos cruzadas elegantemente à frente. Havia algo diferente em sua expressão agora.
"Temos um evento para comparecer esta noite."
Pisquei.
"Um evento?"
"Um baile."
A palavra sozinha parecia estranha.
Um baile.
Eu tinha lido sobre eles em livros. Salões elegantes repletos de música, vestidos lindos, dança e pessoas vestidas como se pertencessem a outro mundo.
Eu a encarei por um momento, certificando-me de que tinha ouvido corretamente.
"Nós vamos?"
Minha avó deu um pequeno aceno de cabeça.
"Sim."
Um sorriso lentamente se espalhou pelo meu rosto antes que eu pudesse contê-lo.
"Sério?"
Coloquei a mão sobre o peito, sentindo uma estranha empolgação vibrar ali.
Um baile. Eu estava realmente indo a algum lugar. Não apenas ao jardim.
Não apenas aos mesmos cômodos dentro da mesma casa. Algum lugar lá fora, algum lugar cheio de gente.
Minha avó me observava, mas não sorriu.
Normalmente, quando eu estava feliz, ela tentava compartilhar isso. Mesmo que seus sorrisos fossem contidos, mesmo que eles nem sempre chegassem aos olhos. Mas, desta vez, ela apenas olhou para mim. Quase como se estivesse com medo de algo.
"Algum problema?", perguntei.
"Não", respondeu ela rapidamente.
Inclinei a cabeça levemente, mas, antes que pudesse perguntar qualquer outra coisa, ela desviou o olhar.
"Você deve se preparar. Saímos esta noite."
Balancei a cabeça, incapaz de esconder minha empolgação.
"Claro."
Assim que fui dispensada, segurei as laterais do meu vestido e apressei-me para sair da cozinha.
Tentei andar com calma, mas, no momento em que cheguei à escadaria, minha contenção desapareceu.
Levantei o vestido um pouco e subi correndo, com o coração já acelerado com o pensamento de abrir meu guarda-roupa.
Meus vestidos estavam intactos há anos. Belos trajes que ficavam pendurados ordenadamente em um espaço que eu raramente tinha motivo para visitar.
Sedas, rendas e cores que eu tinha esquecido que possuía. Pela primeira vez no que parecia uma eternidade, eu tinha um lugar onde usá-los.
Abri a porta do meu quarto e atravessei o recinto em direção ao closet.
A empolgação era quase infantil, mas eu não me importava.
Esta noite, eu não estarei encarando uma janela.
Esta noite, eu farei parte do mundo que eu só tinha observado à distância.
Abri as portas do closet e sorri. Eu não fazia ideia de que a noite pela qual eu ansiava tanto seria o momento em que toda a minha vida começaria a mudar.



🥹Poor thing so isolated and so alone