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All The Night Longer

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Resumo

Alexia Sylvane nunca ficou tempo suficiente em nenhuma cidade pra chamar de casa. Sete mudanças em dezesseis anos. A tia nunca explica por quê. A irmã sabe mais do que diz. E Alexia sente que há algo errado com a própria vida - sem conseguir nomear o quê. Quando chega a Helsinque, tudo muda. Cristina Lindqvist se torna sua primeira amiga de verdade. E Andrew - loiro, silencioso, com olhos que parecem carregar séculos - aparece no momento exato em que Alexia cai da bicicleta na frente de uma papelaria. Ele a carrega até o hospital. E a partir dali, nenhum dos dois consegue mais fingir que aquilo foi um acidente. Mas os Lindqvist guardam segredos tão antigos quanto seus próprios corações parados. E o sangue nas veias de Alexia carrega uma herança que nunca deveria existir - entre vampiros e lobos, entre dois mundos que nunca deveriam se misturar. Ficar pode custar tudo. Ir embora custaria mais. 🐺🩸 "Girassóis sempre olham pro sol. Mas Andrew encontrou o dele numa calçada em Helsinque - e nunca mais levantou."

Status
Em Andamento
Capítulos
3
Classificação
n/a
Classificação Etária
13+

Capítulo 1 -Helsinki

A luz da manhã entrava fraca pela janela, cinzenta e mansa como quase

tudo em Helsinki naquela época do ano. Alexia abriu os olhos devagar.

Ficou deitada olhando pro teto branco do quarto novo — sempre branco,

sempre diferente, sempre o mesmo tipo de novo — e respirou fundo.

Primeiro dia. De novo.

Ela já tinha perdido a conta de quantas vezes acordou assim. Quarto

estranho, cidade estranha, escola estranha. Sete mudanças em dezesseis

anos. Amsterdã, Lisboa, Berlim, Praga, Estocolmo, Reykjavík, e

agora Helsinki. Cada vez a tia Esme dizia a mesma coisa — "vai ser bom pra

vocês, vai ver" — e cada vez Alexia fingia acreditar. Não porque fosse

ingênua, mas porque discutir com Esme era como discutir com o vento:

gasta energia e não muda a direção.


Levantou. O espelho do banheiro devolveu o rosto de sempre — sardas

demais, cabelo ruivo e cacheado que nunca obedecia, olhos esverdeados

que a tia dizia serem iguais aos da mãe. Alexia nunca soube se isso era

carinho ou crueldade. Falar da mãe sem falar da mãe. Um fantasma feito de

adjetivos soltos.

Vestiu uma blusa de frio, calça jeans, tênis All Star de cano médio — o

mesmo uniforme invisível de sempre, roupa que diz "não me olha" sem

precisar de palavras. Pegou a mochila e desceu.

Amy já estava na cozinha.

A irmã mais velha andava de um lado pro outro abrindo gavetas,

fechando armários, procurando alguma coisa com aquela energia nervosa

que Alexia conhecia de cor. Amy era loira, altura mediana, pele clara como

a de Alexia mas de um jeito diferente — a de Amy parecia calma, a de Alexia

parecia inquieta. Duas versões da mesma pintura, feitas por artistas

diferentes.

— Ande, Alexia. Não quer chegar atrasada no primeiro dia.

— Chegar cedo também não resolve nada — disse Alexia, sentando na

cadeira e puxando a caneca de café que Amy tinha deixado na bancada.

— Alexia.

— Tô tomando, tô tomando.

Bebeu devagar. O café estava fraco demais — Amy nunca acertava o

ponto — mas Alexia não disse nada. Olhou pra irmã que ainda vasculhava a

cozinha e percebeu, sem querer, o que ela procurava. Levantou, abriu a

segunda gaveta da esquerda e tirou a chave do carro.

— Era isso?

Amy olhou pra chave, depois pra Alexia, e soltou o ar.

— Como você sempre sabe?


— Porque você sempre perde no mesmo lugar.

Amy pegou a chave e balançou a cabeça. Mas sorriu — aquele sorriso

rápido que era o jeito dela de dizer obrigada sem usar a palavra.

— Cadê a tia? — perguntou Alexia, pegando a mochila.

— Trabalho. Mandou eu te levar. Vamos?

* * *

O carro era um Volvo velho que rangia nas curvas e cheirava a couro

gasto. As ruas de Helsinki passavam pela janela como uma pintura em tons

de cinza e verde — prédios baixos, árvores altas, pessoas de casaco

andando com a cabeça abaixada contra o vento. Alexia encostou a testa no

vidro frio e ficou olhando sem ver.

Amy dirigia em silêncio. Não era o silêncio bom que às vezes existia

entre as duas — era o outro, o cheio de coisas não ditas, o que pesava.

— Vai ficar tudo bem — disse Amy, sem tirar os olhos da rua.

— Você sempre diz isso.

— Porque sempre fica.

— Fica, sim. E depois a gente se muda de novo.

Amy não respondeu. Apertou o volante com as duas mãos e fez uma

curva. O colégio apareceu no fim da rua — fachada branca, estátuas na

entrada, um gramado onde alguns alunos já estavam sentados. Parecia um

postal. Parecia todas as escolas por onde Alexia já tinha passado — bonitas

por fora, solitárias por dentro.

— Boa sorte — disse Amy, parando o carro.

Alexia abriu a porta. Parou.

— Nem precisa desejar, Amy. Sempre que começo a me adaptar, temos

que nos mudar.


Desceu antes que a irmã pudesse responder. Não olhou pra trás.

* * *

A diretoria ficava no fim de um corredor comprido que cheirava a

madeira encerada e livros velhos. Uma senhora de cabelos brancos e óculos

redondos atendeu Alexia com a simpatia exagerada de quem sabe que

alunos novos estão sempre assustados.

— Bem-vinda, querida. Aqui estão seus horários e a lista de livros. A

diretora está ocupada agora — ela indicou uma porta fechada de onde

vinham vozes firmes e irritadas — mas não se preocupe, ela não é má

pessoa. Só que alguns alunos gostam de testar os limites.

Alexia pegou os papéis e agradeceu. Não teve dificuldade de achar a

sala — anos de escolas novas tinham ensinado a navegar corredores

desconhecidos como quem lê mapas. A sala era grande, clara, com carteiras

quase todas ocupadas. Alexia varreu o lugar com os olhos e sentiu o alívio

habitual: a única carteira vaga era no fundo.

Perfeito. Por mais que fosse boa aluna, Alexia nunca gostou da primeira

fileira. A primeira fileira era pra quem queria ser visto. Alexia queria o

contrário.

Sentou, colocou a mochila no chão, e estava tirando o caderno quando

ouviu uma voz.

— Olá. Me chamo Cristina. Como se chama?

Alexia levantou os olhos. A garota na carteira ao lado era bonita de um

jeito que chamava atenção sem pedir — pele muito branca, quase pálida,

olhos verdes, cabelos castanhos escuros e longos. Tinha um sorriso fácil,

aberto, desses que parecem custar pouco.

— Oi. Alexia. Prazer em conhecer.

— Senta aqui do meu lado, vai — disse Cristina, como se já fossem

amigas. Como se a conversa já tivesse começado antes de Alexia chegar.


O professor entrou. A aula começou. E pela primeira vez em sete

cidades, Alexia não sentou sozinha.

* * *

No intervalo, as duas lancharam juntas no pátio. Cristina falava como

respirava — sem pausa, sem esforço, como se o silêncio fosse um espaço

que precisava ser preenchido. E Alexia, que tinha passado a vida inteira no

silêncio, descobriu que gostava de ouvir. Não era barulho — era companhia.

Em algum momento, uma folha escapou do caderno de Alexia e planou

até o chão. Cristina pegou antes que o vento levasse.

— Nossa, que desenho lindo. Você que fez?

Alexia sentiu o rosto esquentar.

— Sim. Eu gosto de desenhar. Me distraio, relaxo um pouco. Esqueço

dos problemas.

— Você é nova e já tem problemas? Nossa, onde esse mundo vai parar —

disse Cristina, rindo.

— Não tenho problemas de verdade. É só que... é estressante viver

mudando de cidade. Por isso não tenho amizades. Só tenho minha tia e

minha irmã.

Cristina parou de rir. Olhou pra Alexia com uma atenção que não estava

ali antes — uma atenção quieta, séria, que não combinava com o sorriso

fácil de um minuto atrás.

— Imagino que deve ser difícil — disse ela, e a voz tinha mudado. Tinha

ficado suave de um jeito que Alexia sentiu no peito.

— Já tá na hora de voltar pra sala — disse Cristina, levantando. —

Vamos?

Alexia foi. E enquanto andava ao lado da garota que tinha conhecido há

três horas, sentiu pela primeira vez em muito tempo uma coisa perigosa.


Esperança.

* * *

A tarde se arrastou. Alexia chegou em casa, arrumou tudo, ligou a TV,

fez pipoca. Quando Esme entrou pela porta, encontrou a sobrinha no sofá

com a expressão de quem teve um dia que não sabia classificar.

— Boa tarde, Lexi. Como foi o primeiro dia?

— Foi legal, tia. Fiz amizade com uma garota chamada Cristina. Ela é

bastante divertida. Ah, por falar nisso, ela se ofereceu pra me mostrar a

cidade esse final de semana. Posso ir?

Esme pendurou o casaco no gancho da porta. Ficou de costas por um

segundo — um segundo a mais do que o normal.

— Claro que pode. Mas depois quero conhecer essa sua amiga, tá bem?

— Tá bem, tia. Vou lá pro quarto desenhar e fazer as lições.

Alexia subiu. Sentou na escrivaninha e olhou pela janela. A vista do

quarto era uma paisagem de telhados e árvores, com o céu de Helsinki se

tingindo de laranja e roxo enquanto o dia morria devagar. Era bonito. Era

inspirador. Era temporário — como tudo.

Pegou o lápis e começou a desenhar. Não a paisagem. Uma mão

estendida. Não sabia de quem.

O dia se arrastou até anoitecer. Alexia jantou, escovou os dentes, e

deitou na cama do quarto novo, na casa nova, na cidade nova. Fechou os

olhos.

E pela primeira vez em sete cidades, dormiu pensando em voltar pro

colégio no dia seguinte.

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