Capítulo 1 - O príncipe indomável.
HENDRICK
**Dez anos antes**
O sol mal atravessara as janelas altas do castelo quando Hendrik foi arrancado do sono por três batidas insistentes na porta.
Ele abriu os olhos com um gemido irritado, a cabeça pesada pela bebida da noite anterior e o corpo afundado entre lençóis desalinhados. Havia uma bota caída perto da lareira, uma camisa pendurada numa cadeira e duas garrafas vazias sobre a mesa.
— Alteza — chamou um criado, cauteloso. — O rei deseja vê-lo imediatamente.
Hendrik enterrou o rosto no travesseiro.
— Diga ao meu irmão que eu morri.
— Ele disse que o senhor provavelmente diria isso.
Hendrik abriu um olho.
— Filho da puta.
Quinze minutos depois, com os cabelos ruivos desarrumados, ele atravessou as portas do gabinete real.
Kayon estava atrás da mesa, vestido, desperto e sério.
— Sente-se.
— Bom dia para você também.
— Hendrik.
O tom bastou.
Ele se jogou na cadeira, cruzando os braços.
— O que eu fiz agora?
Kayon soltou uma risada seca.
— Quer a lista por ordem cronológica ou por gravidade?
Hendrik ergueu uma sobrancelha.
— Se for longa, prefiro morrer ignorante.
Kayon apoiou as mãos sobre a mesa e o encarou. Havia cansaço em seus olhos.
— Você é um príncipe desta família. Irmão do rei. Filho de Ulisses. E passa os dias dormindo, as noites bebendo, transando e procurando alguma merda para transformar em problema.
— Eu não procuro problemas. Eles têm atração natural por mim.
— Isso não é engraçado.
O sorriso de Hendrik diminuiu.
— Você tem um reino inteiro para governar, Kayon. Por que está tão preocupado com o que eu faço?
— Porque a sua vida não pertence somente a você.
Hendrik endureceu.
— Lá vem.
— Christopher é nosso primo, ocupa a posição de gama e nunca usou o sangue real como desculpa para fugir das obrigações. Ele treina, trabalha, protege a matilha e entende o peso do nome que carrega.
— Então dê uma medalha para ele.
Kayon bateu a palma sobre a mesa.
— Chega!
A voz reverberou pelo gabinete.
Hendrik ficou imóvel.
— Você não é mais um garoto — continuou Kayon, controlando a raiva. — Estou cansado de assistir você desperdiçar tudo o que poderia ser.
Hendrik inclinou-se para frente.
— Eu sou jovem. Quero viver. Quero beber, viajar, conhecer mulheres e acordar sem alguém me dizendo qual merda de reunião preciso frequentar. Você já é o alfa supremo. Já existe um rei. Não precisam de outro.
— Não estou pedindo outro rei. Estou exigindo um príncipe digno do próprio título.
O silêncio pesou entre eles.
Então Kayon respirou fundo.
— Eu o inscrevi no treinamento do Reino do Sul.
Hendrik piscou.
— Você fez o quê?
— Disciplina militar, estratégia, combate, comando, patrulha e liderança.
— Você enlouqueceu.
— Você parte amanhã.
Hendrik se levantou tão rápido que a cadeira arrastou pelo chão.
— Eu não vou.
— Vai.
— Não sou um soldado seu!
— É membro da família real e está sob minha autoridade enquanto rei.
— Vá se foder, Kayon.
— Escolha melhor as próximas palavras.
— Ou o quê?
— Ou eu escolho por você.
Antes que Hendrik respondesse, a porta se abriu.
Ulisses entrou.
Mesmo sem a coroa, o antigo rei possuía uma presença capaz de diminuir qualquer sala.
— Basta.
Hendrik virou-se para o pai.
— Ótimo. Talvez alguém nesta família ainda tenha bom senso.
Ulisses fechou a porta.
— Seu irmão tem razão.
A expressão de Hendrik caiu.
— Pai...
— Não. Você vai ouvir. Eu o protegi por tempo demais das consequências das suas escolhas. Sua mãe também. Sempre acreditamos que chegaria o dia em que você decidiria crescer.
Hendrik cerrou a mandíbula.
Ulisses se aproximou.
— Esse dia não chegou. Então vamos empurrá-lo até ele.
— Eu não quero um cargo.
— Não interessa o que você quer! — Ulisses explodiu. — Você é um homem, Hendrik. Um príncipe. Tem sangue, nome e responsabilidades dentro desta matilha. Chega de festas, brigas e mulheres diferentes saindo do seu quarto. Chega de viver como se amanhã fosse problema de outra pessoa.
Hendrik passou a língua pelos dentes, furioso.
— Vocês decidiram isso sem mim.
— Porque, se dependesse de você, continuaria fazendo cagada até os cinquenta anos — respondeu Kayon.
Hendrik lançou ao irmão um olhar assassino.
Kayon sustentou.
— Suas malas já estão sendo preparadas. Parte dos seus pertences seguiu esta manhã para o Sul. Você parte ao amanhecer.
— Eu odeio você.
— Sobreviverei.
Hendrik saiu do gabinete batendo a porta.
Na manhã seguinte, toda a raiva que carregava pareceu pequena quando encontrou Elira no pátio.
A menina tinha dez anos e correu até ele ao perceber os soldados da escolta reunidos no pátio, todos preparados para assumir suas formas lupinas e seguir viagem.
— Tio Hendrik?
A voz saiu trêmula.
Ele se agachou diante dela.
— Ei, pequena.
Os olhos de Elira se encheram de lágrimas.
— Você vai embora?
Algo apertou o peito dele.
Desde o primeiro dia em que a segurara nos braços, recém-nascida, Hendrik sentia por ela um afeto que nunca soubera explicar. Era feroz, protetor, instintivo.
— Só por um tempo.
Elira balançou a cabeça desesperadamente.
— Não. Não vai.
— Elira...
Ela se jogou contra ele.
— Por favor, não vai! Eu amo você! Não vai embora, tio, por favor!
O choro veio tão forte que o pequeno corpo tremia inteiro.
Hendrik fechou os braços ao redor dela, sentindo o coração se partir.
— Eu vou voltar.
— Promete?
Ele beijou os cabelos da sobrinha.
— Prometo.
Foi preciso que Angel a segurasse quando Hendrik se afastou e assumiu sua forma lupina. O corpo humano cedeu lugar ao lobo magnífico que carregava dentro de si: enorme, imponente, coberto por uma pelagem ruiva intensa que parecia incendiar-se sob a luz da manhã. Ao redor dele, os soldados da escolta também se transformaram, formando uma pequena tropa de lobos que aguardava apenas sua partida.
Elira gritou o nome dele quando Hendrik disparou em direção à floresta, seguido pela escolta, até que sua imensa figura ruiva desapareceu entre as árvores.
Nas semanas seguintes, ela parou de comer direito.
Depois vieram as noites sem dormir.
A febre.
O cansaço.
Os curandeiros não encontravam doença alguma que explicasse por que uma menina saudável parecia definhar lentamente.
E, muitas noites distante dali, Hendrik acordava no Reino do Sul com o peito apertado, como se alguma coisa invisível o chamasse de volta para casa.