A história de Hendrick.

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Resumo

Hendrick sempre viveu como se o peso de ser um príncipe jamais pudesse alcançá-lo. Irmão de KAYON, acostumado à liberdade e a uma vida sem grandes responsabilidades, ele nunca teve pressa para ocupar um lugar de destaque na alcateia muito menos para encontrar a companheira predestinada que o destino parecia determinado a esconder. Até que Kayon decide que chegou a hora de o irmão assumir seu verdadeiro lugar. Enviado para longe do reino e submetido a meses de treinamento intensivo, Hendrick retorna diferente: mais forte, disciplinado e disposto a aceitar as responsabilidades que antes evitava. Quanto ao amor, porém, ele acredita já ter encontrado seu próprio caminho. Afinal, existe alguém ao seu lado, e encontrar sua companheira depois de tantos anos parece cada vez mais improvável. Até que, em meio a um momento de absoluta felicidade ao lado de sua família, tudo muda. Um olhar. Um reconhecimento impossível. E a última pessoa que Hendrick imaginaria encontrar diante de si revela-se justamente aquela que o destino escolheu para ele. Agora, entre sentimentos, lealdades e escolhas capazes de mudar tudo, Hendrick descobrirá que fugir das responsabilidades era fácil. Difícil será fugir dela.

Gênero
Romance
Autor
JA
Status
Complete
Capítulos
111
Classificação
n/a
Classificação Etária
18+

Capítulo 1 - O príncipe indomável.

HENDRICK

**Dez anos antes**

O sol mal atravessara as janelas altas do castelo quando Hendrik foi arrancado do sono por três batidas insistentes na porta.

Ele abriu os olhos com um gemido irritado, a cabeça pesada pela bebida da noite anterior e o corpo afundado entre lençóis desalinhados. Havia uma bota caída perto da lareira, uma camisa pendurada numa cadeira e duas garrafas vazias sobre a mesa.

— Alteza — chamou um criado, cauteloso. — O rei deseja vê-lo imediatamente.

Hendrik enterrou o rosto no travesseiro.

— Diga ao meu irmão que eu morri.

— Ele disse que o senhor provavelmente diria isso.

Hendrik abriu um olho.

— Filho da puta.

Quinze minutos depois, com os cabelos ruivos desarrumados, ele atravessou as portas do gabinete real.

Kayon estava atrás da mesa, vestido, desperto e sério.

— Sente-se.

— Bom dia para você também.

— Hendrik.

O tom bastou.

Ele se jogou na cadeira, cruzando os braços.

— O que eu fiz agora?

Kayon soltou uma risada seca.

— Quer a lista por ordem cronológica ou por gravidade?

Hendrik ergueu uma sobrancelha.

— Se for longa, prefiro morrer ignorante.

Kayon apoiou as mãos sobre a mesa e o encarou. Havia cansaço em seus olhos.

— Você é um príncipe desta família. Irmão do rei. Filho de Ulisses. E passa os dias dormindo, as noites bebendo, transando e procurando alguma merda para transformar em problema.

— Eu não procuro problemas. Eles têm atração natural por mim.

— Isso não é engraçado.

O sorriso de Hendrik diminuiu.

— Você tem um reino inteiro para governar, Kayon. Por que está tão preocupado com o que eu faço?

— Porque a sua vida não pertence somente a você.

Hendrik endureceu.

— Lá vem.

— Christopher é nosso primo, ocupa a posição de gama e nunca usou o sangue real como desculpa para fugir das obrigações. Ele treina, trabalha, protege a matilha e entende o peso do nome que carrega.

— Então dê uma medalha para ele.

Kayon bateu a palma sobre a mesa.

— Chega!

A voz reverberou pelo gabinete.

Hendrik ficou imóvel.

— Você não é mais um garoto — continuou Kayon, controlando a raiva. — Estou cansado de assistir você desperdiçar tudo o que poderia ser.

Hendrik inclinou-se para frente.

— Eu sou jovem. Quero viver. Quero beber, viajar, conhecer mulheres e acordar sem alguém me dizendo qual merda de reunião preciso frequentar. Você já é o alfa supremo. Já existe um rei. Não precisam de outro.

— Não estou pedindo outro rei. Estou exigindo um príncipe digno do próprio título.

O silêncio pesou entre eles.

Então Kayon respirou fundo.

— Eu o inscrevi no treinamento do Reino do Sul.

Hendrik piscou.

— Você fez o quê?

— Disciplina militar, estratégia, combate, comando, patrulha e liderança.

— Você enlouqueceu.

— Você parte amanhã.

Hendrik se levantou tão rápido que a cadeira arrastou pelo chão.

— Eu não vou.

— Vai.

— Não sou um soldado seu!

— É membro da família real e está sob minha autoridade enquanto rei.

— Vá se foder, Kayon.

— Escolha melhor as próximas palavras.

— Ou o quê?

— Ou eu escolho por você.

Antes que Hendrik respondesse, a porta se abriu.

Ulisses entrou.

Mesmo sem a coroa, o antigo rei possuía uma presença capaz de diminuir qualquer sala.

— Basta.

Hendrik virou-se para o pai.

— Ótimo. Talvez alguém nesta família ainda tenha bom senso.

Ulisses fechou a porta.

— Seu irmão tem razão.

A expressão de Hendrik caiu.

— Pai...

— Não. Você vai ouvir. Eu o protegi por tempo demais das consequências das suas escolhas. Sua mãe também. Sempre acreditamos que chegaria o dia em que você decidiria crescer.

Hendrik cerrou a mandíbula.

Ulisses se aproximou.

— Esse dia não chegou. Então vamos empurrá-lo até ele.

— Eu não quero um cargo.

— Não interessa o que você quer! — Ulisses explodiu. — Você é um homem, Hendrik. Um príncipe. Tem sangue, nome e responsabilidades dentro desta matilha. Chega de festas, brigas e mulheres diferentes saindo do seu quarto. Chega de viver como se amanhã fosse problema de outra pessoa.

Hendrik passou a língua pelos dentes, furioso.

— Vocês decidiram isso sem mim.

— Porque, se dependesse de você, continuaria fazendo cagada até os cinquenta anos — respondeu Kayon.

Hendrik lançou ao irmão um olhar assassino.

Kayon sustentou.

— Suas malas já estão sendo preparadas. Parte dos seus pertences seguiu esta manhã para o Sul. Você parte ao amanhecer.

— Eu odeio você.

— Sobreviverei.

Hendrik saiu do gabinete batendo a porta.

Na manhã seguinte, toda a raiva que carregava pareceu pequena quando encontrou Elira no pátio.

A menina tinha dez anos e correu até ele ao perceber os soldados da escolta reunidos no pátio, todos preparados para assumir suas formas lupinas e seguir viagem.

— Tio Hendrik?

A voz saiu trêmula.

Ele se agachou diante dela.

— Ei, pequena.

Os olhos de Elira se encheram de lágrimas.

— Você vai embora?

Algo apertou o peito dele.

Desde o primeiro dia em que a segurara nos braços, recém-nascida, Hendrik sentia por ela um afeto que nunca soubera explicar. Era feroz, protetor, instintivo.

— Só por um tempo.

Elira balançou a cabeça desesperadamente.

— Não. Não vai.

— Elira...

Ela se jogou contra ele.

— Por favor, não vai! Eu amo você! Não vai embora, tio, por favor!

O choro veio tão forte que o pequeno corpo tremia inteiro.

Hendrik fechou os braços ao redor dela, sentindo o coração se partir.

— Eu vou voltar.

— Promete?

Ele beijou os cabelos da sobrinha.

— Prometo.

Foi preciso que Angel a segurasse quando Hendrik se afastou e assumiu sua forma lupina. O corpo humano cedeu lugar ao lobo magnífico que carregava dentro de si: enorme, imponente, coberto por uma pelagem ruiva intensa que parecia incendiar-se sob a luz da manhã. Ao redor dele, os soldados da escolta também se transformaram, formando uma pequena tropa de lobos que aguardava apenas sua partida.

Elira gritou o nome dele quando Hendrik disparou em direção à floresta, seguido pela escolta, até que sua imensa figura ruiva desapareceu entre as árvores.

Nas semanas seguintes, ela parou de comer direito.

Depois vieram as noites sem dormir.

A febre.

O cansaço.

Os curandeiros não encontravam doença alguma que explicasse por que uma menina saudável parecia definhar lentamente.

E, muitas noites distante dali, Hendrik acordava no Reino do Sul com o peito apertado, como se alguma coisa invisível o chamasse de volta para casa.