1 - Um Encontro Inesperado
Enquanto eu abria o Espaço Sereno, uma brisa fria brigava com a luz do sol para invadir o local. O contraste entre o calor suave dos primeiros raios e o vento gelado faz o ar parecer vivo, pulsante. Pensei comigo: “mais um dia típico de maio aqui em Santa Felicidade”. O céu estava limpo, de um azul cristalino, com poucas nuvens dispersas as portas de vidro refletiam o brilho do dia, ao mesmo tempo, deixavam o frio se arrastar para dentro, trazendo com ele o aroma fresco do outono. Era como se o clima de Curitiba, com toda sua teimosia, quisesse fazer parte daquele momento, enchendo o estúdio de uma energia particular.
Senti um dos cheiros que eu mais gosto na vida: o de pão assado vindo da padaria logo em frente. Parei, fechei os olhos e apreciei aquele instante. Mas não demorei muito para voltar à realidade. “Vamos lá, Letícia, acorde! Hoje o dia vai ser cheio”, pensei, como se precisasse me dar um empurrãozinho.
Terminei de organizar o local, liguei o computador e coloquei a água para ferver, pronto para preparar meu chá. Depois, conferi a qualidade dos colchonetes — afinal, a primeira aula de pilates do dia começaria em breve. Aos poucos, o pessoal foi chegando, o estúdio foi ganhando vida com o movimento.
— Bom dia, Letícia, como vai? — Amanda disse, enquanto entrava.
— Estou bem, senhora? — respondi com um sorriso no rosto.
— Estou bem querida, obrigada…
— Bom dia! — Entrou Carlos, parecendo estar com frio e foi direto para o segundo andar
— Bom dia, seu Carlos.
E aos poucos, os alunos da turma de pilates da manhã apareciam. Eu estava radiante, o pilates estava fazendo muito sucesso aqui no Espaço Sereno. Tínhamos um grupo bastante diverso: senhoras de idade, mulheres, homens, jovens rapazes e moças. Matheus, nosso professor, fez toda a diferença com sua força e energia contagiante, sempre trazendo mais ânimo para começarmos bem o dia.
— Bom dia, Letícia, tudo bem? — Matheus chegou sorridente, me cumprimentando com um beijo no rosto.
— Bom dia, Matheus! Tudo ótimo, e com você? A manhã está bem gelada, né? — respondi, pegando a chave do armário para que ele guardasse suas coisas.
— Que nada, deve estar uns 17ºC lá fora. Vai dizer que ainda não se acostumou com o frio daqui? — ele brincou, rindo.
— Ah...nossa...— respondi com um sorriso, desviando o olhar. — Acostumar, acho que já me acostumei... mas sinto falta do meu Norte, a.. isso eu sinto.
— Algum dia você se acostuma, Let. — Ele se virou de volta, pegando as chaves da minha mão e seguindo em direção ao armário, enquanto os alunos já estavam no segundo andar, conversando e se preparando para os primeiros alongamentos.
De repente, uma moça entrou no Espaço Sereno. Seus cabelos ruivos soltos, caindo levemente sobre os ombros, ela vestia uma calça legging preta, uma camisa longa e uma blusa de tricô preta por cima. Seu olhar curioso percorreu o ambiente, e logo percebi que ela poderia ser uma nova cliente. Ela entrou de forma hesitante, mas com interesse evidente nos olhos.
— Bom dia, tudo bem? Precisa de algo? indaguei, com um sorriso no rosto.
— Bom dia. Tudo é com você? ela respondeu em um tom de voz mais baixo, como se estivesse insegura.
— Você veio para a aula de pilates? Vai começar daqui a cinco minutos.
Ficamos em silêncio por um momento, eu a observava enquanto ela desviava o olhar para os quadros na parede.
— Sim, acho que sim… Não sei, é a minha primeira vez aqui e gostaria de ter mais informações.
— Claro, respondi com carinho.
— Aqui é o Espaço Sereno, um estúdio de yoga e bem-estar. Aqui temos as mais diversas aulas para o seu
bem estar, pilates, yoga, reiki, massoterapia, com diferentes tipos de massagens, como relaxantes e terapêuticas. Também oferecemos treinamento funcional e dança, incluindo aulas de dança livre e dança do ventre. O que você procura exatamente?
— Na verdade, eu só queria fazer algo diferente, que me trouxesse mais leveza para o dia e para a mente.
— Então eu acredito que o pilates e yoga vai te ajudar. Temos aulas às segundas de manhã, quartas de manhã e às sextas à tarde. Quer fazer uma aula experimental hoje?
— É, eu acho que sim.
— Que bom! Você precisa apenas do seu nome completo, número do RG e que assine um termo de consentimento, apenas por precaução, ok? Daí você já pode subir para a aula do Matheus, que já começou.
— Ok, claro. Meu nome é Ana Bianowski e aqui está o meu documento,
— Perfeito, só um minuto, por favor. Aqui, assine o termo para mim, por gentileza.
— Claro.
— Perfeito! Pode subir para a sua aula experimental. Espero que goste. Se precisar de algo, pode falar comigo, sou a Letícia mais conhecida como Let.
— Beleza, obrigada, Letícia.
— De nada!
Eu a observo subir pelas escadas, seu andar hesitante e cuidadoso. Havia nela algo que chamava minha atenção. Era como se uma energia baixa a envolvesse, uma aura de insegurança que contrastava com a vivacidade que eu esperava ver em alguém que estava prestes a começar uma nova jornada.
Uma confusão de empatia e curiosidade me invadiu. O que você trouxe até aqui? Havia uma fragilidade em sua presença que me fez querer ajudá-la a se sentir à vontade, a se libertar das correntes invisíveis que a prendiam. Era como se ela carregasse um fardo que a impedisse de brilhar. “Espero que essa aula de pilates seja o primeiro passo para ela encontrar o nível que deseja”, pensei comigo.
Fico realizando as tarefas administrativas do local durante a aula de pilates, quando a aula chega ao fim, Ana é a primeira a se levantar, a expressão em seu rosto transparece uma mistura de alívio e angústia.
— E aí como foi a aula experimental? Gostou? vai querer voltar
— Assim, acho que sim foi boa, eu vou tentar voltar sim.
— Que ótimo! Respondo com entusiasmo, enquanto o pessoal aos poucos, vai saindo.
Ela olha para o relógio e sem hesitar, se dirige à saída, apressada. Um frio na barriga me acomete, e decidi segui-la discretamente.
Lá fora, eu a observo correr até um carro estacionado na calçada. A porta do veículo se abre, e ela entra apressadamente, seus ombros curvados e a cabeça baixa, como se quisesse se esconder do mundo.
Nesse momento, a adrenalina se intensifica, pois não senti uma energia boa naquele momento. Observo de longe, havia um rapaz dirigindo, não consegui observar muitos detalhes mas parecia um rapaz jovem de cabelos loiros, a figura sombria dele se destaca contra a luz do dia, mas há uma tensão palpável no ar, como se uma tempestade estivesse prestes a desabar. O motor ronca, e em um instante, o veículo se afasta, levando Ana embora. “O que aconteceu entre eles?”
Um movimento na esquina chama minha atenção. É Adilson, o padeiro, que está parado, observando a cena com uma expressão de preocupação. Nossos olhares se encontram por um breve momento, e sinto um misto de alívio e inquietude. Ele sabe que algo não está certo.
O coração acelerado, eu me pergunto: “o que Ana carrega consigo?” “E como isso irá afetar não apenas a ela, mas a todos nós?” Enquanto o carro desapareceu na rua, a sensação de que algo sombrio se aproxima me envolve, e percebo que esse é apenas o começo de uma história muito mais complexa.


