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Kennedy
O grave da música vibrava pelo piso de madeira da casa de praia, fazendo as latas de refrigerante meio cheias na mesa de centro chacoalharem. Era aquela noite úmida típica da Carolina do Norte, que parecia pesada, com o ar denso de maresia e o cheiro de marshmallow tostado vindo da fogueira na areia.
Sentei-me na ponta do sofá enorme, com os pés encolhidos por baixo de mim, observando o caos. Aquilo era a vida. Ou, pelo menos, era o que deveria ser.
“Kennedy! Acorda, Ken!”
Pisquei, virando a cabeça bruscamente na direção do som. Peyton balançava um celular na minha frente, com os olhos brilhando daquela energia frenética que só surge quando alguém descobre uma fofoca de alta qualidade na cidade.
“Desculpa”, ri, afastando o cabelo da testa. Ele estava colado na minha pele por causa da umidade, uma bagunça que provavelmente não me favorecia em nada, mas eu não ligava. Eu usava um moletom grande demais e shorts jeans — meu uniforme não oficial. “Eu só viajei aqui.”
“Você estava encarando a porta da varanda”, disse Peyton, baixando a voz enquanto se inclinava. “Esperando pelo garoto de ouro?”
Senti aquele calor irritante e familiar subir pelo pescoço. “Não sei do que você está falando.”
“Claro, e eu sou a Rainha da Inglaterra”, ela provocou, me dando um empurrãozinho no ombro. “Sério, não sei por que você não vai lá fora. Ele está perto da churrasqueira há vinte minutos e acho que ele está te procurando. Ou talvez seja só o meu lado romântico falando.”
Olhei na direção da porta de vidro de correr. Lá fora, o pátio estava banhado pelo brilho alaranjado das luzes que passamos a manhã inteira pendurando. Cade estava ali, conversando com Weston e Declan, com uma cerveja em uma mão e a outra apoiada no parapeito. Ele ria de algo que Declan disse, com a cabeça jogada para trás e o cabelo castanho-areia captando a luz. Ele parecia descolado sem fazer esforço, o tipo de cara que nem precisava tentar para prender a atenção de todos — mesmo quando nem estava no ambiente.
“Ele não está me procurando, Pey”, falei, mantendo a voz monótona. “Ele provavelmente está ocupado falando sobre... sei lá, motores de barco ou estatísticas de basquete.”
“Você é modesta demais. Você é a melhor arremessadora da quadra, Ken. Até ele sabe disso.”
“É”, murmurei, pegando um punhado de salgadinhos da tigela entre nós. “Como um dos caras. É só isso que eu sou.”
Levantei-me, precisando me mover. O ambiente lá dentro estava sufocante e o som constante da música estava começando a me dar dor de cabeça. Caminhei pelo meio da multidão, acenando para pessoas que eu conhecia desde o jardim de infância. Essa era a beleza e a maldição de Sandy Shores: não existiam estranhos. Você conhecia os segredos de todo mundo, as histórias vergonhosas da infância deles e o drama atual antes mesmo de eles entrarem pela porta.
Encontrei Jake, meu melhor amigo desde os cinco anos, encostado no balcão da cozinha, em uma conversa profunda com Grace. Ele olhou para cima, sorriu e seus olhos brilharam.
“Olha só quem apareceu!” Jake gritou sobre a música, largando a bebida para me puxar para um abraço lateral. “Eu estava prestes a enviar uma equipe de busca. Você estava escondida no canto.”
“Eu não estava escondida”, me defendi, pegando um limão da travessa de frutas e colocando na boca. “Só observando a vida selvagem.”
“A vida selvagem está bêbada”, Grace acrescentou com uma risada leve, ajeitando os óculos. “E, pelo visto, alguém tentou organizar um mergulho à meia-noite.”
“Isso soa como uma ideia terrível”, eu disse, embora pudesse sentir a familiar vontade de aventura debaixo da minha pele. Eu amava a água, especialmente à noite. Era o único momento em que o oceano parecia verdadeiramente meu, calmo, vasto e indiferente às pressões de uma garota de dezoito anos que ainda não sabia muito bem onde se encaixava.
“É mesmo”, concordou Jake, revirando os olhos. “Mas vamos fazer isso de qualquer jeito. Vai entrar?”
“Talvez mais tarde”, falei. “Vou pegar uma bebida nova. Acho que deixei minha água no deck dos fundos.”
“Você quer dizer que vai passar pela porta da varanda e torcer para ser notada”, Jake provocou, piscando para mim. Ele sabia de tudo — cada paixonite, cada coração partido, cada esperança estúpida e secreta que eu guardei nos últimos três anos.
“Cala a boca”, ri, empurrando o ombro dele, mas meu coração já estava acelerado.
Caminhei pela cozinha lotada, passando pelas pessoas reunidas perto da geladeira. Cheguei à porta de vidro e a empurrei, saindo para o ar fresco com cheiro de maresia.
A noite estava silenciosa ali fora, separada do grave da música pelo vidro grosso. O som das ondas batendo na areia era como um batimento cardíaco rítmico e reconfortante.
Foi então que os vi. Cade, Weston e Declan estavam aglomerados perto da borda do deck, com as vozes baixas. Entrei nas sombras da porta, com a intenção de chamar a atenção deles e anunciar minha presença antes de caminhar até o cooler.
Mas então, ouvi meu nome.
“Só estou dizendo”, a voz de Weston veio até mim, carregada de uma mistura de diversão e irritação. “Ela tem andado muito por aqui ultimamente. Você já pensou em, sabe, dar um passo além? Ela claramente está a fim de você, Cade.”
Congelei. Minha respiração travou na garganta e uma pedra fria se formou no meu estômago. Eu não deveria ter ficado. Eu deveria ter me virado e voltado para o barulho, para a segurança dos meus amigos. Mas eu estava paralisada.
A risada de Cade soou amarga, dura no ar noturno. Não era a risada calorosa e fácil a que eu estava acostumada. Era desdenhosa.
“Kennedy?”, ele perguntou, como se a ideia fosse ridícula.
“É, Kennedy”, insistiu Declan, encostando no parapeito. “Ela é gata, engraçada e basicamente já é da família. Pouparia muita dor de cabeça.”
“Olha”, disse Cade, e sua voz caiu para um nível de frieza clínica que destruiu o mundo que eu vinha construindo cuidadosamente por anos. “A Kennedy é uma garota incrível. É como uma irmã para mim. Mas não faz meu tipo. Vocês sabem disso. Eu gosto de... não sei, garotas que não ficam tentando me vencer no basquete o tempo todo ou que não cheiram a peixe porque passaram seis horas no píer.”
Uma onda de risadas percorreu o grupo.
“Além disso”, continuou Cade, com a voz mais baixa, mas não menos cruel. “Ela é uma moleca. Ela nem sabe manter uma conversa que não seja sobre esportes ou videogame. Preciso de alguém um pouco mais... não sei. Sofisticada? Alguém que realmente se esforce.”
Senti como se alguém tivesse enfiado a mão no meu peito e apertado. O ar pareceu sumir do deck, me deixando ofegante nas sombras.
“Entendi”, disse Weston, mudando o tom. “Faz sentido. Só estava conferindo.”
“Não se preocupa com isso”, disse Cade. “Ela é só uma parceira. Estou procurando outra coisa neste verão.”
Não ouvi o resto. Eu não conseguia. O som do meu próprio coração era um rugido ensurdecedor nos meus ouvidos.
Não sou o tipo dele.
Todas as vezes que fiquei até tarde na marina para ajudá-lo a consertar o motor de um barco, achando que era um momento de conexão. As vezes que dividimos batatas fritas na lanchonete, as vezes que sentamos no teto do carro dele vendo o pôr do sol — eu tinha entendido tudo errado. Eu estava jogando um jogo diferente, em uma realidade diferente, enquanto ele me olhava sob a lente de uma obrigação fraternal e desinteressante.
Recuei, com meus tênis não fazendo som algum no deck de madeira. Virei-me e voltei para dentro de casa, mas a música já não parecia uma festa. Parecia um funeral.
Meu peito doía, uma dor física aguda que tornava difícil respirar. Eu precisava ir embora. Eu precisava estar em qualquer outro lugar que não fosse aqui, nesta casa, cercada por pessoas que provavelmente estavam sentindo pena de mim — ou pior, que nem tinham notado que eu estava desmoronando.
Abri caminho pela multidão, indo em direção à porta da frente.
“Ken? Aonde você vai?”
Era o Jake. Sua voz soava preocupada, com a testa franzida. Ele segurou meu braço, me parando antes que eu alcançasse a varanda.
“Eu... esqueci que prometi à minha mãe que estaria em casa à meia-noite”, menti, com a voz trêmula. “Só estou cansada, Jake.”
Ele olhou para mim, olhou de verdade, e sua expressão suavizou. Ele me conhecia bem demais. Ele sabia quando eu estava mentindo e quando eu estava machucada. Seus olhos piscaram em direção ao deck dos fundos e depois voltaram para o meu rosto. A compreensão veio a ele lentamente, como uma nuvem escura passando pelo sol.
“Ele disse alguma coisa?”, a voz de Jake estava perigosamente baixa.
“Não importa”, sussurrei, puxando meu braço. “Porque ele estava certo. Eu não sou o tipo dele. E acho que finalmente cansei de tentar ser.”
Não esperei ele responder. Passei por ele, saí para a noite fria e escura e comecei a caminhar para casa, enquanto as lágrimas, finalmente, começavam a cair.




Oh poor Kennedy, seriously, that was harsh 😢 💔