Nas ondas do rádio
À noite, a cidade parecia outra.
As ruas ficavam mais silenciosas, as luzes dos postes desenhavam sombras compridas sobre o asfalto e, em algum lugar entre uma avenida movimentada e uma rua quase vazia, as pessoas começavam a contar seus segredos para desconhecidos.
Alguns por mensagem.
Outros por telefone.
E alguns simplesmente ligavam para ouvir uma voz do outro lado.
— Boa noite, meus amores! — disse Lyra, aproximando-se do microfone. — Mais uma noite de *Fim de Festa* começando por aqui. Duas horas juntinhos, sem compromisso, sem julgamento e, principalmente, sem música ruim... Bom, pelo menos eu vou tentar garantir essa última parte.
Ela sorriu.
Não era necessário que ninguém a visse sorrir.
Era justamente uma das coisas que Lyra havia aprendido durante os anos de rádio: um sorriso também podia ser ouvido.
E a voz dela carregava o sorriso.
Quente, marcante, ligeiramente rouca nas pontas e com uma intensidade que fazia até uma simples frase parecer uma confidência.
— Eu sou L. Mendes, e se você acabou de chegar, pode ficar. A casa é sua.
A luz vermelha sobre o estúdio permanecia acesa.
NO AR.
Lyra recostou-se na cadeira e olhou para a tela do computador.
Havia uma fila de pedidos.
Românticos, tristes, alguns completamente absurdos e ela adorava os absurdos.
— Vamos começar com o pedido da Carol, que está trabalhando no turno da noite e jurou que, se eu não tocar essa música, ela vai desligar o rádio e me abandonar. Carol, eu sei que você não faria isso comigo.
O telefone tocou, Lyra olhou para o aparelho e atendeu.
— Fim de Festa, boa noite.
— Oi... — A voz do outro lado era baixa, quase um sussurro, havia algo rouco nela. Não exatamente pela idade. Era mais como se aquela voz tivesse passado tempo demais guardando palavras.
Lyra ajeitou-se na cadeira.
— Oi. Quem está falando?
Silêncio.
Por alguns segundos, ela pensou que a ligação tivesse caído.
— Vocês têm Banda Lyra aí?
Lyra ficou imóvel por uma fração de segundo.
Banda Lyra.
Ela conhecia aquele nome muito bem, mas isso não apareceu em sua voz.
— Temos sim.
Um pequeno sorriso apareceu.
— Acho que temos quase todas. Qual é seu nome?
— Umbra.
Lyra repetiu mentalmente.
Umbra.
— Certo, Umbra. E qual você quer ouvir?
A resposta veio sem hesitação.
— Me Deixa Cair.
Lyra ficou alguns segundos em silêncio.
Não o suficiente para parecer estranho para quem estivesse ouvindo.
Mas o suficiente para que o nome da música pesasse dentro dela.
— Olha... — Lyra ajeitou a folha de pedidos sobre a mesa. — Você acabou de escolher uma das músicas mais deprimentes da Banda Lyra. Tem certeza de que quer começar a noite assim?
— Eu gosto dela.
Lyra sorriu de lado e tentou deixar a voz mais leve.
— Mas me conta uma coisa. Você gosta dela porque é boa ou porque gosta de sofrer?
Dessa vez, houve uma pequena pausa.
— Talvez os dois.
Lyra soltou uma risadinha.
— Ah, então você é do meu time.
Esperou.
Nada.
O sorriso dela diminuiu.
— Umbra...
A voz veio mais cuidadosa.
— Está tudo bem?
— Por quê?
— Porque normalmente as pessoas ligam para pedir uma música e dizem alguma coisa como "manda um beijo para minha namorada" ou "essa é para o meu cachorro que fez aniversário".
Ela sorriu.
— Você chegou pedindo Me Deixa Cair. Tenho o direito de ficar curiosa.
Umbra respirou fundo.
— Essa música me faz pensar.
Lyra ficou quieta.
— Pensar em quê?
A resposta veio tão baixa que quase se perdeu na ligação.
— Em cair.
O sorriso desapareceu completamente.
Lyra olhou para a luz vermelha sobre o vidro.
NO AR.
Havia milhares de pessoas ouvindo.
Mas naquele instante, parecia que só existiam duas.
Ela e aquela voz.
— Umbra...
Fez uma pequena pausa.
— Quando você diz "cair"... você está falando da música ou de você?
Silêncio.
Longo demais.
Lyra não insistiu.
— Tudo bem. Você não precisa responder.
Esperou mais alguns segundos.
— Só me promete uma coisa.
— O quê?
Lyra apoiou os dedos sobre a mesa.
— Não toma nenhuma decisão importante enquanto estiver ouvindo rádio.
Umbra ficou em silêncio.
Lyra acrescentou:
— Principalmente porque eu tenho péssimo gosto musical depois da meia-noite e posso acabar piorando sua situação.
Uma risada muito pequena escapou do outro lado.
Quase imperceptível.
Mas Lyra ouviu.
E sorriu.
— Pronto. Já fiz você rir. Minha missão da noite está parcialmente cumprida.
— Você é estranha.
— Sou profissional.
Dessa vez, Umbra riu de verdade.
Pouco, mas riu.
Lyra respirou aliviada.
— Agora falando sério...
Ela baixou a voz.
— Se essa música é o que você precisa ouvir agora, eu vou colocar, mas fica comigo até ela acabar.
Umbra demorou para responder.
— Tá.
— Combinado?
— Combinado.
— Então temos um acordo.
Lyra sorriu.
— Você fica aí. Eu fico aqui. E a gente escuta.
Silêncio.
— Obrigado, L. Mendes.
Lyra sentiu alguma coisa apertar no peito.
— De nada, Umbra.
A ligação caiu.
Ela permaneceu com a mão sobre o telefone por alguns segundos.
Depois olhou para o registro da chamada.
Número desconhecido, nenhum nome, somente uma palavra.
Umbra.
Ela respirou fundo, então voltou ao microfone.
— Bom...
Ela sorriu.
— O próximo pedido é para alguém que aparentemente decidiu que hoje era uma ótima noite para me deixar preocupada.
Uma pausa.
— Você sabe quem você é.
Ela não disse o nome.
— E escolheu uma música que... bom...
Lyra olhou para a tela.
— É melhor ouvir até o fim.
A música começou.
Os primeiros acordes preencheram o estúdio, Lyra deixou alguns segundos passarem. Então apertou o botão do microfone novamente.
— E, já que estamos falando de cair...
Ela sorriu.
— Uma dica da L. Mendes para esta madrugada: se você estiver em um lugar alto, saia de perto da janela.
Pausa.
— Se estiver dirigindo, encosta o carro se precisar.
Mais uma pausa.
— E se estiver pensando demais...
Ela soltou uma pequena risada.
— Bom, nesse caso eu não tenho uma solução. Pensamento não tem botão de desligar. Se tivesse, eu já teria comprado três.
A música continuava.
— Mas fica aqui comigo.
A voz ficou mais suave.
— Só até a próxima música.
Ela deixou o microfone.
Por alguns minutos, não falou mais nada, apenas deixou a canção preencher o espaço. Quando terminou, Lyra voltou à programação.
— E sobrevivemos a essa.
Sorriu.
— Viu? Nem foi tão terrível.
Pegou a próxima ficha.
— Agora vamos para uma música completamente diferente porque, aparentemente, alguém aqui precisa urgentemente lembrar que a vida também tem músicas que fazem a gente querer dançar.
O programa continuou.
Lyra voltou a brincar.
Atendeu outros ouvintes, riu, comentou músicas, fez piadas. Mas, de vez em quando, olhava para o telefone, esperava e nada. Quando faltavam poucos minutos para o encerramento, Lyra olhou novamente para o aparelho.
Nenhuma nova ligação, ela poderia simplesmente terminar o programa, mas não conseguiu.
— Bom, meus queridos... Chegamos ao fim de mais uma noite de Fim de Festa.
Ela sorriu.
— Obrigada a todo mundo que ficou comigo. Obrigada a quem ligou, a quem pediu música, a quem ficou quietinho do outro lado do rádio só ouvindo.
Fez uma pausa.
— E essa última vai para você, Umbra, que ligou para mim hoje.
Lyra olhou para o telefone.
— Talvez você ainda esteja ouvindo.
Um pequeno sorriso.
— Talvez tenha desligado o rádio.
Ela respirou.
— Mas, se estiver aí...
A música começou a tocar baixinho.
— Amanhã tem mais.
Pausa.
— E depois de amanhã também.
Lyra sorriu.
— Então aparece.
A música aumentou um pouco.
— Liga.
Ela olhou para o telefone.
— Pede uma música.
Seu sorriso ficou mais largo.
— Pode pedir uma feliz dessa vez. Eu prometo que não vou julgar.
Uma pequena risada.
— E se não quiser falar...
Ela deixou a frase pairar.
— Tudo bem.
Sua voz suavizou.
— Às vezes a gente só precisa saber que tem alguém do outro lado.
A música continuou.
— Então fica por aí.
Ela respirou.
— A gente se encontra amanhã.
Lyra aproximou-se do microfone.
— Vamos voar juntas pelas ondas do rádio?
A música aumentou.
— Eu sou L. Mendes...
Ela sorriu.
— E esse foi o Fim de Festa.
A luz vermelha apagou.
— Até a próxima, gente.
FORA DO AR.
O estúdio ficou silencioso, Lyra tirou os fones.
Ficou alguns segundos olhando para o telefone.
Nenhuma ligação, nenhuma mensagem.
Ela pegou o moletom, antes de sair, olhou novamente para o registro da chamada.
23h17: Umbra.
Lyra passou o dedo pela tela.
— Que os céus cuidem de você, garota... E que você apareça amanhã.
Ela ficou mais alguns segundos parada, então apagou a luz e fechou a porta.
O estacionamento estava quase vazio, Lyra caminhou até sua moto a Harley Davidson XL1200C Sportster esperava sob a iluminação fraca do estacionamento. Preta perolada, detalhes em lilás e roxo. O pequeno neon lilás refletia no chão escuro, acompanhando o contorno do motor.
Lyra passou a mão pelo tanque.
— Meu bebê...
Ela sorriu, aquela moto não era apenas uma moto, era uma história. Guto havia encontrado aquela máquina anos atrás e conseguido comprá-la com muito sacrifício para ela, quando Lyra completara vinte e um anos. Desde então, ela cuidava daquela Harley como se fosse parte da família.
Colocou o capacete preto, pequenos raios lilases atravessavam a pintura. Montou, girou a chave e o motor despertou com um ronco grave.
Lyra sorriu, normalmente, aquele som bastava para mudar seu humor. Naquela noite, não. Ela acelerou, mas não como costumava fazer. A cidade passou pelas laterais enquanto a moto avançava pelas ruas escuras, as lâmpadas dos postes piscando sobre o asfalto. Lyra conhecia aquelas ruas, conhecia atalhos, conhecia lugares onde gostava de parar, conhecia lugares onde já havia passado noites inteiras, mas naquela noite não estava indo para lugar algum, estava apenas andando, Umbra continuava em sua cabeça.
A garota que queria cair.
Por mais de uma hora, Lyra vagou pela cidade sem saber exatamente o que estava procurando. Talvez um lugar, talvez uma resposta, talvez apenas alguma coisa que fizesse aquela sensação estranha dentro do peito desaparecer, não encontrou nenhuma das três. Até que, já no centro, algo chamou sua atenção.
Lyra reduziu a velocidade.
Uma rua lateral.
O parque da cidade.
Do lado mais escuro, quase escondido atrás das árvores, havia um muro enorme. Ela passou direto, freou, olhou pelo retrovisor, voltou, parou a moto. O motor permaneceu ligado por alguns segundos, depois, Lyra o desligou e o silêncio pareceu ainda maior.
Ela desceu, o calor do motor subia em ondas, misturando-se ao ar úmido da noite, um pouco de fumaça escapava da máquina, o vapor da rua se espalhava próximo ao chão, o lugar era escuro, mas não tão escuro quanto o que havia naquele muro. Lyra ficou parada, observando, o muro estava coberto por um enorme grafite, ou melhor... Por vários.
Formas sombrias se misturavam umas às outras. Silhuetas com olhos vazios, rostos distorcidos, bocas abertas em gritos que pareciam não produzir som. Havia figuras que pareciam rir, outras pareciam chorar. Sombras se contorciam entre cores escuras, correntes atravessavam algumas das figuras, cordas, amarras, mãos tentando alcançar alguma coisa, palavras quase escondidas entre fumaças e sombras. Acusações. Culpa. Medo. Dor.
Lyra deu um passo, depois outro.
Quanto mais olhava, mais detalhes encontrava. Era como observar uma história que alguém havia decidido contar sem usar uma única frase inteira, mas havia algo estranho.
No centro do mural... Um espaço vazio, grande demais. Perfeitamente perceptível em meio àquela confusão, como se algo tivesse sido planejado para estar ali, ou como se o artista tivesse começado a pintar e, por alguma razão, simplesmente parado.
Lyra franziu a testa.
— O que faltou aqui?
A pergunta saiu baixinho. Ela se aproximou, nas bordas do mural havia manchas de cores diferentes. Lilás, roxo, laranja, azul... Alguns traços mais vivos escondidos sob as camadas escuras. Como se aquela pintura tivesse sido feita sobre outra. Como se alguém tivesse tentado apagar alguma coisa.
Lyra inclinou a cabeça e passou os olhos lentamente pela parede.
Por que alguém faria aquilo?
Por que cobrir uma obra inteira?
E por que deixar justamente aquele espaço vazio?
Ela chegou ainda mais perto, a ponta dos dedos encontrou a parede fria.
Lyra tocou o mural e ficou assim por alguns segundos.
Como se pudesse sentir, através da tinta, alguma coisa que o artista havia deixado ali, como se pudesse alcançar alguém.
O olhar percorreu novamente toda a extensão da parede.
Do alto até o chão, dos rostos às sombras, das correntes ao vazio, até chegar ao rodapé.
Foi quando ela viu uma pequena assinatura quase escondida entre as manchas de tinta. Duas palavras.
H. Void.
Lyra franziu a testa, não reconheceu, não sabia quem era, não sabia o que significava. Apenas ficou olhando, depois afastou a mão da parede. Por algum motivo, sentiu um arrepio, olhou mais uma vez para o mural, para o vazio, para a assinatura. Guardou o nome na memória sem saber por quê. Então olhou para a moto. O neon lilás ainda iluminava discretamente o chão. E, pela primeira vez naquela noite, Lyra teve a sensação de que talvez não tivesse vagado pela cidade sem propósito.
Talvez tivesse encontrado alguma coisa.
Só não fazia ideia do quê.
E foi embora sem perceber que, naquela noite, havia acabado de colocar os olhos sobre uma história que ainda não sabia ler.


