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SINTAXE: A gramática dos Deuses

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Resumo

Em um mundo devastado, uma colônia isolada sobrevive sob um domo opressor, governada pelos Anciões e guiada pela fé em uma presença que seus habitantes chamam de Deus. Quando um atentado interrompe a comunicação com essa entidade, antigas certezas começam a ruir. Enquanto a colônia mergulha no medo e na desconfiança, Samuel descobre que há segredos escondidos por trás da religião, de conhecimentos esquecidos e daqueles que governam seu povo. Ao presenciar um assassinato, Samuel acaba entrando no centro de uma conspiração que pode mudar tudo o que conhece. Algumas verdades foram enterradas por uma razão.

Status
há 9 horas
Capítulos
5
Classificação
n/a
Classificação Etária
18+

Capítulo 1 - A morte de Deus

O sino tocava.

Uma vez.

Duas.

Na terceira badalada, J. P. Lee olhou para trás.

Uma coluna de fumaça negra subia por trás dos telhados e se espalhava sob o grande domo.

 Pessoas corriam pelas ruas estreitas. Algumas apontavam para o edifício central. Outras permaneciam imóveis, com as mãos unidas diante do peito.

J. P. Lee continuou correndo.

Passou por uma mulher que chorava.Por dois guardas que carregavam baldes.Por um grupo de homens que gritava alguma coisa que ele não conseguiu ouvir.Não olhou para trás novamente.

O jardim ficava do outro lado da praça, além dos estábulos e as casas dos administradores. Era pequeno e cercado por um muro baixo de pedras claras. As árvores cresciam ali sem as fileiras cuidadosas dos campos de cultivo.

J. P. Lee atravessou o portão.

Tropeçou.

Caiu de joelhos.

Ficou alguns segundos com as mãos apoiadas na terra, tentando recuperar o fôlego.

Escondeu um caderno em uma rachadura da árvore amarela, um ipê.

Ele não sabia quem viria.

Nem sabia o nome do informante.

Só sabia do combinado.

Aquela árvore.

Aquele lugar.

O sino continuava.

Então ouviu passos.

J. P. Lee levantou o rosto.

O noviço estava parado na entrada do jardim.

Os dois ficaram olhando um para o outro.

O homem estava sem fôlego. A veste escura grudava em seu corpo. Havia uma pequena queimadura na manga.

— O que você fez?

J. P. Lee se levantou devagar.

— Você sabe o que eu fiz.

O noviço deu alguns passos.

— Você foi escolhido. 

Você tinha o don de ler a sintaxe divina.

J. P. Lee não respondeu. 

— Eles disseram que você cumpriria uma profecia.

 — Eu não cumprirei profecia alguma.

— Você foi escolhido por Deus. 

J. P. Lee olhou para o céu.

O domo cobria tudo acima deles. As nuvens permaneciam imóveis sobre a cidade.

— Deus me pediu o meu filho.

O noviço baixou os olhos.

— Era uma prova de fé.

— Meu filho tem nove anos.

O noviço parou.

J. P. Lee respirou fundo.

— Eu conheço as Escrituras.

 — Então sabe que a fé exige obediência.

— Fé não exige que um pai mate o próprio filho.

O rapaz apertou os punhos.

— Você não compreende a vontade de Deus.

J. P. Lee deu um passo à frente.

— Eu compreendo perfeitamente.

— Não.

— Compreendo o suficiente para saber que não vou entregar meu filho.

O noviço ficou em silêncio.

Atrás deles, alguma coisa desabou.O som atravessou o jardim.

J. P. Lee fechou os olhos por um instante.Quando tornou a abri-los, havia lágrimas em seu rosto.

— Quantas pessoas estavam lá?

O noviço não respondeu.

— Quantos?

— Os Anciões estavam reunidos.

J. P. Lee assentiu.

— Eu sei.

— Você trancou as portas.

— Sim.

— E colocou fogo.

J. P. Lee olhou para a fumaça.

— Sim.

— Você destruiu os registros.

— Registros podem ser escritos novamente.

— Os artefatos.

 O mundo espiritual...

J. P. Lee voltou o rosto.

O noviço percebeu que havia dito demais.

— O quê?

— Nada.

— Você sabe o que havia lá.

O rapaz não respondeu.

J. P. Lee se aproximou.

— Você sabe.

— Pare.

— Aquilo não era Deus.

 O noviço recuou.

— Não diga isso.

— Eu vi o que havia naquela sala.

— Você não viu Deus.

— Não.

J. P. Lee olhou para o edifício em chamas.

— Vi um artefato sagrado.

 O noviço ficou imóvel.

— E agora está queimando.

O rapaz levou a mão à cintura.

J. P. Lee percebeu.

Não recuou.

O noviço retirou a relíquia de guerra. Pequena, escura, perfeitamente lisa. Não havia lâmina. Não havia corda.

J. P. Lee conhecia aquilo. Um dos artefatos dos antigos, uma arma de fogo. Era assim que chamavam

.O noviço segurava a arma com as duas mãos.

— Pelo Conselho dos Anciões...A voz falhou.Ele fechou os olhos por um instante.Depois continuou:

— Pela lei da cidade e pela vontade de Deus, J. P. Lee, você foi condenado à morte.

J. P. Lee observou o rapaz. Não havia raiva em seu rosto.

— Você vai fazer isso?

As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto do noviço.

— Eu preciso. 

J. P. Lee olhou para o céu outra vez. Depois se ajoelhou. 

Ajoelhou-se devagar, ajeitando a roupa sobre as pernas.Suas mãos repousaram sobre os joelhos.O noviço tremia.

— Diga suas últimas palavras.

J. P. Lee ficou alguns segundos em silêncio.Então levantou o rosto. Observou que folhas amarela caiam da árvore.

— Faça o que tem que ser feito.

O noviço chorou.

J. P. Lee respirou fundo.

— Estou pronto para ver a face de Deus.

O noviço fechou os olhos.

Por um instante, nenhum dos dois se moveu.Então veio o disparo. J. P. Lee tombou para o lado.A arma caiu sobre a terra.O noviço ficou imóvel.Depois correu até ele.Ajoelhou-se.Segurou o corpo do amigo.

— Perdoe-me.

Nada. 

Os olhos vazios olhavam para cima

.— Por favor... Apertou J. P. Lee contra o peito.

— Eu sinto muito.

O sino continuava tocando.

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