Prólogo
Jornal da Noite, oito meses antes dos acontecimentos.
— As buscas por uma família desaparecida no Parque de Lífios foram oficialmente encerradas nesta tarde, doze dias depois do último contato com os desaparecidos. Segundo a administração da reserva, as equipes percorreram mais de cento e vinte quilômetros de trilhas, mas não encontraram vestígios que indiquem onde os quatro visitantes possam estar.
[Imagens aéreas mostram uma extensão contínua de mata. Homens uniformizados caminham em fila por uma trilha estreita. Um cão farejador bebe água ao lado de uma viatura.]
— Marcelo e Sônia Valença chegaram ao parque com os dois filhos na manhã do dia 14. Câmeras da entrada principal registraram o veículo às oito horas e dezessete minutos. No sistema administrativo, a visita consta como encerrada às dezesseis e quarenta e dois.
[Fotografias da família ocupam a tela junto de uma imagem tirada pela câmera do estacionamento do centro de visitantes.]
— Não existem, porém, imagens do automóvel passando por nenhuma das três saídas monitoradas. A administração atribui a ausência a uma falha simultânea no armazenamento das câmeras, registrada entre quatro e seis da tarde. O veículo também não foi localizado nas estradas próximas.
— A hipótese inicial é de que Marcelo tenha utilizado um acesso secundário e deixado voluntariamente a região com a família. Parentes contestam essa versão.
[A irmã de Sônia aparece diante de um portão, segurando uma fotografia de Sônia contra o peito. Seus olhos estão inchados.]
IRMÃ DE SÔNIA: — Ela deixou roupas no hotel, os documentos das crianças, remédios... Ninguém abandona tudo isso sem falar com ninguém. A gente só quer saber onde procuraram. Cada pessoa do parque mostra um mapa diferente pra gente.
REPÓRTER: — Moradores afirmam que outros desaparecimentos ocorreram nos últimos anos. Os números, no entanto, divergem. Em nota, o Parque de Lífios reconhece cinco casos desde 2012. Um levantamento feito por familiares e associações locais reúne dezessete nomes. Parte deles não aparece nas estatísticas oficiais porque, segundo a administração, não há comprovação de que essas pessoas tenham desaparecido dentro dos limites da reserva.
[A tela exibe cartazes colados num muro: rostos, datas e telefones. Alguns papéis estão desbotados pela chuva.]
— No caso da família Valença, o último sinal de celular foi registrado próximo ao Setor Norte. Apesar disso, as buscas se concentraram inicialmente no Setor Leste, a quase nove quilômetros de distância. Segundo o coordenador da operação, as equipes foram direcionadas à região depois que cães farejadores indicaram uma possível passagem naquela direção.
[O chefe de operações do parque aparece diante de uma área cercada por fitas.]
REPRESENTANTE DO PARQUE: — Temos procedimentos técnicos. Nem todas as decisões podem ser explicadas em tempo real às famílias, porque isso prejudicaria o trabalho das equipes. Não há qualquer evidência de crime. O parque possui áreas extensas, terreno irregular e visitantes frequentemente ignoram as rotas autorizadas.
REPÓRTER: — Um dos caminhos do Setor Norte permanecia interditado naquela semana. O parque informou que nenhuma equipe de vigilância circulou pelo local. Ainda assim, moradores disseram ter visto um veículo de manutenção entrando na área durante a madrugada. A placa não foi identificada. As buscas poderão ser retomadas caso surjam novas informações.
APRESENTADOR: — A Polícia Civil mantém o caso em aberto. Até o momento, não há suspeitos, pedidos de resgate nem movimentações bancárias posteriores ao desaparecimento.
[As fotografias da família desaparecem. Entram imagens institucionais do parque: o sol atravessando as copas das árvores, crianças caminhando por uma passarela, um rio de águas claras e placas indicando trilhas cercadas por flores.]
Preservar é não deixar desaparecer.




