A noite em que ela foi embora
Luna Montenegro sabia sorrir para uma plateia de dez mil pessoas.
Sabia inclinar o rosto no ângulo exato em que os refletores transformavam suas feições em perfeição divina. Sabia agradecer aos patrocinadores com a doçura calculada que exigiam dela e converter a intrusão mais vil de um repórter em uma resposta de elegância irretocável. Sabia cantar sobre dores dilacerantes e amores impossíveis enquanto milhares de desconhecidos choravam, certos de que ela descobrira o segredo para ser feliz.
O que Luna já não sabia — o que esquecera em algum ponto do caminho, sufocado por exigências e holofotes — era como respirar dentro da própria casa. O ar ali parecia rarefeito, pesado, impregnado de uma tensão invisível que fazia seus pulmões queimarem.
— Você vai mesmo sair daqui desse jeito?
A voz de Dante não foi um chamado; foi um golpe de chicote. Atravessou a penumbra do quarto, afiada, atingindo-a pelas costas antes que a ponta dos seus dedos encostasse na maçaneta.
Luna estancou diante do espelho de corpo inteiro.
O vestido preto de seda abraçava cada curva de seu corpo como uma segunda pele, revelando a linha pálida e delicada dos ombros. Os cabelos escuros caíam em ondas densas e voluptuosas até o meio das costas, e a maquiagem impecável disfarçava com maestria as sombras sob seus olhos. Por fora, ela era o triunfo. A estrela impecável que estampava capas de revistas, o troféu cobiçado, a mulher por quem fotógrafos se descontrolavam na linha de frente dos eventos.
Por dentro, ela era pura cinza. Um cadáver elegante que se recusava a cair.
— Desse jeito como, Dante? — a voz dela saiu baixa, mas carregada de uma fadiga que vinha do fundo dos ossos.
Ele soltou uma risada curta. Um estalo seco, desprovido de qualquer traço de humor.
— Não começa.
Luna fechou os olhos. As pálpebras pesavam. Conhecia aquele tom até nas entranhas. Era o prelúdio do horror. O aviso de que qualquer palavra que dissesse seria distorcida em provocação, qualquer tentativa de defesa seria rotulada como loucura ou ingratidão, e qualquer silêncio seria usado como prova de sua apatia e desdém.
— Estou pronta para o evento — disse ela, abrindo os olhos e encarando o reflexo dele atrás de si. — Foi exatamente o que você exigiu.
— Eu exigi que você estivesse pronta. Não que aparecesse como uma vadia querendo chamar atenção com esse decote.
Um golpe surdo atingiu o peito de Luna. Ela virou-se devagar, as mãos frias cravadas na bolsa de festa.
— Você aprovou esse vestido ontem. Você mesmo me disse que ele era perfeito.
— Ontem eu não sabia que a Helena estaria lá com algo parecido! — ele deu um passo à frente, a voz subindo uma oitava, a veia de sua têmpora pulsando com fúria contida. — Você quer o quê, Luna? Que a imprensa diga que você está copiando a ex-mulher do meu investidor? Que faça o Grupo Avelar virar piada antes mesmo do contrato ser assinado?
— Você está realmente me humilhando e gritando comigo por causa da coincidência da roupa de outra mulher?
— Estou discutindo porque você é incapaz de pensar no meu nome! Parece que faz questão de me contrariar, de me testar até o meu limite!
A crueldade daquela acusação travou a garganta de Luna. A resposta ficou presa em um nó amargo.
Dante Avelar era fascinante e aterrorizante na mesma proporção. Possuía uma beleza magnética, irretocável, quase cruel. Cabelos perfeitamente alinhados, terno sob medida e uma postura de homem invencível que dominava qualquer ambiente. Diante do mundo, era o príncipe perfeito: o empresário dedicado, o homem que segurava a cintura de Luna com uma firmeza protetora, que beijava seu rosto diante das câmeras com uma devoção que arrancava suspiros do país inteiro.
Mas, quando as portas pesadas do apartamento se fechavam e as luzes das câmeras se apagavam, o encanto ruía.
No lugar do protetor, emergia um carcereiro. Um homem devorado pela necessidade obsessiva de controle. Dante não apenas gerenciava sua carreira; ele reivindicava sua alma. Decidia a roupa que ela usava, os minutos exatos que levava para responder a uma mensagem, quem podia abraçá-la no camarim e até o tom de dor que ela podia dar às suas próprias canções.
— Eu não vou discutir — Luna murmurou, sentindo as lágrimas queimarem atrás dos olhos, mas recusando-se a deixá-las cair. Ela não daria esse gosto a ele. Não mais. — Podemos ir? Os carros já devem estar esperando.
Dante permaneceu imóvel. Seus olhos escuros varreram o rosto dela com uma frieza cirúrgica.
— Você está podre por dentro ultimamente, Luna. Uma casca vazia. O que diabos está acontecendo com você?
Ela quase riu. Uma risada histérica, rasgada, que prendeu na garganta.
O que está acontecendo comigo?
Ela estava definhando. Dormia à base de remédios porque o tique-taque do relógio parecia uma contagem regressiva para a próxima explosão dele. Ensaiava até perder as forças só para atrasar o momento de voltar para aquele apartamento blindado. Aprendera a engolir a própria voz, a mutilar suas opiniões, a andar sobre cacos de vidro todos os dias. Nos últimos meses, o único momento em que conseguia puxar o ar de verdade era quando ele não estava na mesma sala.
Mas falar isso significaria a guerra. E ela não tinha mais forças para lutar.
— Estou exausta, Dante. Só isso.
— Exausta? — Ele deu dois passos rápidos, encurtando a distância entre eles até que seu hálito quente e ríspido tocasse a pele do rosto dela. — Você tem uma equipe inteira lambendo seus pés. Viaja de primeira classe, mora na porra da cobertura mais cara dos Jardins e faz a única coisa que sabe fazer, que é cantar. Exausta de quê, me diz? De ser mimada?
A pergunta atingiu a ferida aberta em seu peito, inflamando uma dor antiga.
Luna desviou o olhar, o queixo tremendo imperceptivelmente.
— Esquece.
— Não! Olha para mim quando eu estiver falando com você! — ele esbravejou, segurando o queixo dela com os dedos de ferro, forçando a cabeça dela para cima.
Os olhos de Luna encontraram os dele. Por um milissegundo, o monstro esteve completamente visível ali: cruel, impaciente, ameaçador.
Então, como uma máscara grotesca sendo ajustada, a tensão do rosto dele se desfez. A pressão em seu queixo diminuiu até virar um carícia suave. Ele sorriu. Um sorriso lindo, devastador e falso.
Era essa a dinâmica doentia. Ele incendiava o mundo dela, reduzia-o a cinzas e, no momento seguinte, estendia a mão para limpá-la, agindo como se ela fosse a louca por ter sentido o calor do fogo.
— Não vamos estragar nossa noite por um surto seu, meu amor — ele disse, a voz subitamente aveludada, enquanto alinhava com esmero a própria lapela. — Hoje é a noite mais importante da nossa vida. O Grupo Avelar está fechando os patrocínios da sua turnê mundial. Há homens naquele salão que têm o poder de transformar você em um ícone global... ou de sumir com você.
O estômago de Luna revirou. Uma náusea gelada subiu por sua garganta.
Sempre a mesma ameaça velada.
A carreira.
Os contratos.
A dívida eterna que ele fazia questão de cobrar todas as noites.
— Eu sei exatamente a importância dessa noite — ela disse, a voz fina como uma linha de nylon prestes a arrebentar.
— Ótimo. Porque muita gente grande investiu rios de dinheiro em você, Luna. Não estrague tudo.
Ela ergueu o queixo, livrando-se do toque dele, e o encarou nos olhos:
— Eu investi minha vida inteira em mim, Dante.
O sorriso dele apagou no ato.
O silêncio que caiu sobre o quarto foi assustador. Tão denso que o som abafado das buzinas lá embaixo parecia vir de outro planeta. Dante deu um passo lento em sua direção, a sombra do seu corpo cobrindo a luz que vinha da janela.
— Cuidado com o tom que você usa comigo — ele sussurrou, cada palavra caindo como uma pedra pesada. — Você não é nada sem mim. Lembra disso.
Antes que ela pudesse respirar, ele agarrou sua mão. O aperto foi forte demais, o anel dele cravando na pele delicada do dedo de Luna. Ela enrijeceu cada músculo do corpo, um sobressalto involuntário de puro terror.
— Você está uma pilha de nervos — ele murmurou, o tom agora falso, carinhoso, deslizando o polegar sobre o dorso da mão dela com uma lentidão sádica. Se alguém estivesse vendo, juraria que era um gesto de devoção. — Precisa aprender a confiar em quem moldou você. Eu sou o único que quer o seu bem de verdade.
Luna olhou para a mão dele aprisionando a sua.
Houve um tempo em que ela acreditara naquilo. Quando era apenas uma garota com uma violão e um sonho grande demais para o peito, cantando para trinta pessoas em bares esfumaçados. Dante surgira como um salvador. Ele tinha os contatos, o poder, o dinheiro e a lábia. Ele prometera o mundo a ela — e dera. Mas o preço... o preço era a sua própria humanidade.
Ela percebeu, com um desespero sufocante, que confundira dependência com amor e submissão com gratidão.
— Vamos nos atrasar — a voz dela não passou de um sopro rouco.
Dante soltou a mão dela com desdém, como se descartasse algo sem valor.
— Vá na frente. Preciso dar um telefonema antes.
Luna não perguntou. Não queria saber. Pegou a bolsa, virou as costas e caminhou até a porta. A cada passo que dava para fora daquele quarto, sentia como se estivesse escapando de um cativeiro, mesmo sabendo que a corrente ainda estava presa ao seu pescoço.



