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A Regra dos Três Segundos

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Resumo

Rebecca e Ryu são inseparáveis há 10 anos. Ela aprendeu cedo a não levar desaforo para casa. Ele é o garoto exemplar de ascendência japonesa, que carrega o peso das tradições e das expectativas de um futuro brilhante. O laço entre eles foi selado aos 14 anos, no pátio de uma escola ao som de Everlong do Foo Fighters. Desde então Rebecca criou uma regra silenciosa para sobreviver à intensidade do que sente, nenhum toque, nenhum olhar, nenhum abraço, nenhum pensamento sobre ele, deve durar mais de três segundos. Mas em uma noite de sexta feira, essa regra vai ser testada. Será que ela vai resistir aos seus sentimentos ou se entregar a ele?

Status
há 21 horas
Capítulos
1
Classificação
n/a
Classificação Etária
18+

Capítulo 1


O cheiro de pipoca amanteigada com queijo derretido era a fragrância oficial das noites de sexta no meu apartamento.

Era o nosso ritual. Um acordo que ninguém nunca precisou dizer em voz alta, construído em dez anos de uma amizade que, vista de fora, não fazia muito sentido. Para mim, era só a minha vida.

Ela se sustentava numa coleção de filmes que ia dos clássicos cult às comédias românticas que eu só admitia assistir com ele.

E “ele”, claro, era Vitor Ryu. Ou só Ryu, apelido que ninguém além de mim tinha o direito de usar.

Eu estava no sofá de veludo bege, presente dele. Era fundo, macio e parecia me engolir, o que combinava com meu humor.

Vestia um camisetão preto desbotado do Foo Fighters, comprado no primeiro show a que fomos juntos, alguns meses antes. Ele chegava quase aos meus joelhos, e o logo já estava gasto, mas o tecido ainda guardava aquela noite.

Meu cabelo preto, comprido até o meio das costas, estava preso num coque frouxo que ia desmanchar a qualquer momento. Ali dentro eu me sentia pequena: magra, de estatura mediana, escondida sob o algodão largo.

— Você vai mesmo pôr pimenta nisso de novo? — a voz dele me trouxe de volta.

Ryu estava debruçado na bancada da cozinha americana, de jeans e camiseta preta básica que parecia feita sob medida para o corpo definido, resultado de anos de natação que eu acompanhei de perto.

Era bem mais alto que eu e ocupava o apartamento inteiro com a presença dele, de um jeito que me deixava sem ar se eu pensasse demais. Estava descalço. Ver os pés dele no meu chão era o ponto máximo da minha intimidade doméstica.

Os traços japoneses pareciam mais soltos ali, longe da vigilância dos pais. Para o mundo, ele era Vitor, o filho exemplar. Para mim, era só o meu Ryu.

— É tradição, Ryu. Pipoca apimentada para filme de terror — respondi, entregando as tigelas que eu mesma tinha pintado. — Não tente mudar o sistema.

Ele sorriu, aquele sorriso fácil que fazia meu estômago despencar como um elevador sem freio.

— Clássico do horror ou mais um daqueles filmes B que você me obriga a ver para eu não estudar no fim de semana?

— Primeiro: você estuda demais. Segundo: respeite os clássicos — retruquei, dando um tapinha no braço dele ao passar para pegar as cervejas.

O contato durou pouco, e ainda bem. Eu tinha uma regra, inventada anos atrás e nunca dita em voz alta: nenhum toque, nenhum olhar, nada que parecesse demais podia passar de três segundos. Um, dois, três… e se afastar. Mesmo assim, senti o calor da pele dele através do algodão fino, e por um instante nossos olhares se cruzaram.

Sempre que os olhos escuros de Ryu encontravam os meus, algo me apertava o peito. Ele parecia enxergar através de todas as minhas camadas, para além da garota durona, atrevida e autossuficiente que eu me esforçava tanto para mostrar.

Ryu conhecia a outra, a sensível, que ele já tinha flagrado chorando escondida até no final de comédias românticas bobas, enquanto eu jurava a todo mundo que meu coração era de pedra.

Desviei o rosto e senti o peso do cabelo roçar nas costas ao me afastar. Essa era a regra: não demorar, não pensar, não sentir.

— Você está tensa hoje — ele observou, cruzando os braços. Para encará-lo, eu precisava inclinar a cabeça. — Seu irmão enchendo o saco de novo?

— O de sempre. O Felipe acha que eu tenho doze anos e vive me vigiando — dei de ombros, abrindo as cervejas. — E você? Como vai a pressão de ser o filho de ouro?

Ryu suspirou, e o brilho em seu rosto diminuiu.

— Meus pais voltaram a falar do Japão. A pós em Tóquio. Dizem que é essencial para a minha formação.

Meu coração falhou. O Japão ficava do outro lado do mundo. O Japão era o fim da nossa rotina. Era Ryu quem me obrigava a encarar a realidade, quem mantinha meus pés no chão. Sempre tinha sido a minha âncora.

— E o que você respondeu?

— Que ia pensar. — Ele me olhou fixo.

Havia uma pergunta ali, mas eu não podia respondê-la.

— Hoje, porém, o Japão pode esperar. Vamos ao filme — disse, quase como um desabafo.

Nos ajeitamos no sofá, luzes apagadas, só o brilho da TV. Eu segurava a cerveja gelada, tentando esfriar o rosto que fervia.

O filme começou, mas minha cabeça estava longe, em cada momento dos últimos dez anos em que ele foi a única pessoa que de fato me enxergou.

Numa cena de susto, eu pulei. A garrafa inclinou e um gole generoso de cerveja escorreu direto para o meu joelho, encharcando a barra do camisetão.

— Droga! — sussurrei, tentando secar com a mão.

Ryu riu baixo, aquele som quente de que eu tanto gostava, e se inclinou para pegar um guardanapo na mesinha. Nossos ombros se encostaram.

O cheiro dele me envolveu, baunilha com cedro. Era o perfume que eu mesma tinha escolhido para ele usar num encontro, anos antes. Eu queria que ele estivesse bonito para outra pessoa, mas agora o cheiro era uma doce punição só minha.

Ele não se afastou. E então, às 22h em ponto, o anel de luz da Alexa, na estante, acendeu em azul.

Eu tinha esquecido o alarme que programei para todos os dias, para não dormir tarde nas noites de trabalho, e que nunca desativei às sextas. A música que começou a tocar não era um toque qualquer. Era “Walk”, do Foo Fighters.

O riff de guitarra rompeu o silêncio tenso. Ryu não recuou. Ao contrário, a mão dele, ainda com o guardanapo, passou a limpar a cerveja no meu joelho em movimentos lentos, circulares.

Era a minha regra caindo, justo a mais perigosa. Ryu não se moveu. Um. Dois. Três.

Dave Grohl começou o refrão com uma força que parecia nascer no meu próprio peito, cantando sobre esperar tempo demais.

Meu alarme interno gritava, mas o corpo não obedecia. Quatro. Cinco. A mão dele, quente através do tecido úmido, era difícil de descrever. Minha pele ardia, e a música dizia que ele já tinha esperado o bastante. Seis. Sete.

Virei o rosto devagar. Ele nem olhava para o filme, olhava para mim, com uma intensidade que eu não via havia anos. A mão parou exatamente quando a música chegou ao ápice, mas continuou ali, firme no meu joelho.

O som do filme sumiu. Só restavam a voz de Dave Grohl e as batidas ensurdecedoras do meu coração. Dez anos de silêncio convergindo para aquele instante.

A regra dos três segundos estava em pedaços, e pela primeira vez eu não queria recolher os cacos. Só queria saber se Ryu, o garoto exemplar que eu amava havia dez anos, estaria finalmente pronto para me amar de volta.

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