Raven
Eu encontro o garoto na cozinha.
Nos últimos meses, éramos só eu e Catherine em casa, e ainda faltam algumas horas para ela voltar do trabalho. Eu estava contando com um tempo de qualidade sozinho com meu notebook antes de sair para o treino de beisebol. Jogo minha mochila no canto, chuto os tênis para longe e sigo para as escadas. Passo pela cozinha com um olhar rápido, mas então paro e olho de novo.
O garoto sentado num banco no meio da cozinha olha para mim com preguiça. Não há curiosidade no seu olhar azul — apenas uma avaliação calma e muito delineador. Ele está vestindo uma camiseta preta e jeans pretos, e seu cabelo comprido — também preto — cai sobre seus ombros e testa. Ele parece tão deslocado na nossa cozinha iluminada pelo sol quanto Marilyn Manson numa festa infantil. Por um momento, penso que dei de cara com um ladrão ou algo assim, mas ele está calmo e imóvel demais, como se devesse estar ali. Então, noto a mochila esportiva surrada e estufada a seus pés e percebo que ele não está indo embora.
Ele está chegando.
Meu coração afunda. Não pode estar acontecendo. Catherine disse que não acolheria mais nenhum menor adotivo até que eu terminasse o ensino médio. Nós tínhamos conversado sobre isso. Ela concordou. Mesmo antes disso, quando ela acolhia alguém, ela sempre discutia comigo. Como é que isso...
Ouço a porta dos fundos abrir e fechar, seguida pelo som de passos leves. Catherine aparece no corredor, carregando alguns livros em uma mão e uma caixa de sapatos na outra. Ela parece agitada, como se estivesse correndo de um lado para o outro há algum tempo, com a pele brilhando de suor. Ela diminui o passo ao me ver, mas logo abre um sorriso e vem até mim para me dar um beijo no rosto.
“Oi, mãe”, digo, me esquivando do beijo. Ela me lança um olhar de compreensão, recua e olha para o garoto.
“Vejo que você já conheceu o Raven?”
“Raven?” Olho para ele novamente. Dada a sua clara preferência por tudo que é preto, o nome combina tanto que chega a ser uma piada de mau gosto.
“Sim, este é o Raven.” Ela passa por mim, entra na cozinha e coloca suas coisas sobre a mesa. “Raven, este é o meu filho James.”
“Prazer em conhecê-lo”, diz o garoto, baixando a cabeça num aceno lento e pensativo.
“Prazer”, diz Catherine, virando-se para mim, e só agora noto como ela está nervosa. O suor, o rosto corado, a maneira como ela mexe com os dedos — tão diferente do seu jeito calmo e controlado de sempre. Fico pensando se ela está apenas se sentindo culpada por quebrar nosso acordo ou se há algo mais.
“O Raven vai morar conosco por um tempo”, ela me diz. “Sinto muito por te contar assim, mas foi um arranjo de última hora. Ele tem quinze anos, então vocês têm idades bem próximas, por isso tenho certeza de que vocês vão...” Os olhos dela saltam de mim para o garoto e voltam, e fica claro que ela queria dizer ‘ser amigos’, mas termina com: “...ficar bem. Tenho certeza de que vocês vão se dar bem.”
Olho para o garoto novamente. Ele sustenta meu olhar, imperturbável. Admito que ainda não sei nada sobre ele, e a única coisa que ouvi dele foi ‘prazer em conhecê-lo’, e é errado julgar as pessoas com base em suas roupas ou, neste caso, no uso exagerado de maquiagem. Apesar de tudo isso, duvido imediatamente que nós dois possamos nos dar bem.
“Raven, deixe-me te mostrar seu quarto.” Catherine faz um gesto convidativo.
“Sim, senhora.” Ele se levanta, pegando sua mochila.
Dou um passo para trás, permitindo que eles saiam da cozinha. Quando o garoto passa por mim, sinto um cheiro de algo doce — perfume? Shampoo? Ele passa por mim sem olhar, mas no pé da escada, ele para e olha para trás, me lançando aquele mesmo olhar calmo e avaliador de antes.
“O quê?” digo.
Ele dá de ombros e, para minha surpresa, um canto de sua boca se curva num sorriso irônico. Então, ele pisca para mim. Antes que eu possa perguntar o que diabos aquilo deveria significar, ele se vira e segue Catherine escada acima, enquanto eu permaneço parado sozinho, sentindo-me mais inquieto do que deveria.
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