Capítulo 1
EMMALINE
Sua puta nojenta!
Não toque nessa comida ou eu arranco sua mão.
Vem cá, minha Emmy… Vem aqui, Emmy querida!
Coitadinha da Emma, ninguém pra te ajudar?
Sua mãe devia ter pensado duas vezes nas consequências de te deixar pra trás!
“Não é culpa dela”, pensou enquanto corria. “A mãe dela nunca a teria abandonado se soubesse o que ia acontecer. Com certeza não.”
Emmaline estava fugindo desde que completara 16 anos. Já fazia 6 anos. Tinha ido de Chicago, Illinois, até Salt Lake City, Utah.
Depois de deixar Illinois, viajou a pé até o Missouri. Ficou lá por um ano, trabalhou e morou num apartamento. Até que ele a encontrou, e ela teve que pegar um ônibus para Nebraska. Ficou lá por mais um ano, até ele aparecer de novo.
Roubou um carro e dirigiu de Nebraska até Utah, abandonando-o algumas cidades antes. Dessa vez, ficou em becos, achando que assim deixaria menos rastros. E, por quatro anos longos e difíceis, acreditou que estava certa.
Até hoje.
Estava fechando o trabalho sozinha quando os três capangas do chefe invadiram o lugar. Tentaram sequestrá-la, batendo na sua cabeça com uma garrafa, mas ela revidou. Eles conseguiram acertá-la algumas vezes, jogá-la de um lado pro outro e fazer uns cortes feios no rosto e nos braços. A roupa do trabalho ia ter que ir pro lixo.
Em Chicago, já tinha morado com uma gangue chamada Demon Dragons. Não foi escolha dela, mas da mãe. Nasceu nos Demon Dragons e tinha as marcas pra provar.
Teria ficado na casa, apesar da dor que sofria. Não sabia bem por quê, mas o coração doía ao lembrar dos bons momentos que tivera lá. Será que uma parte dela ainda esperava que as coisas voltassem a ser como antes? No fundo, sabia que não. Principalmente agora que estava fugindo. Principalmente depois de ser acusada de traição contra a família.
Mas não tinha cometido crime nenhum, e ninguém acreditava nela. Não tinha matado ninguém, se é isso que estão pensando. Não. A acusação era de ter transado com o filho do chefão da gangue Scarlet Death. O mesmo filho que, na época e até hoje, morava em Londres, Inglaterra.
Não sabia quem tinha espalhado o boato, mas ele acabou com qualquer chance de acordo com a gangue britânica. Estavam à beira de uma guerra, e o chefe dela ficou furioso quando descobriu. Imediatamente, entrou em contato com a Scarlet Death para pedir perdão.
Claro que a Scarlet Death não fazia ideia do que ele estava falando. Consideraram o acordo desfeito por causa do comportamento ridículo e dos pedidos de desculpas covardes. Declararam guerra e atirariam à vista. O chefe dela ficou possesso e a culpou. Tirou-a da mãe e a espancou como punição.
Pouco depois, encontraram a mãe dela com um tiro na cabeça. A bala nunca apareceu. Depois daquele dia, o chefe a acorrentou e a torturava todos os dias.
Ela tinha 12 anos.
Não conseguia afastar as lembranças, que turvavam sua visão.
Sua vagabundinha!
Quem você pensa que é pra dormir com quem bem entender?
Calma, Emmy, eu não quis dizer isso. Você é uma menina tão boazinha.
Não feche os olhos, Emma. Se fechar, juro que gravo isso na sua pele.
O estômago embrulhou com a última lembrança quando finalmente chegou ao acampamento. Conseguiu clarear a mente enquanto pegava suas coisas e as enfiava numa mochila.
Bang
Virou a cabeça e viu os três capangas que o chefe tinha mandado atrás dela. Tinham tentado estuprá-la durante o sequestro, e as provas estavam estampadas neles. Os paus estavam esmagados entre as pernas, as calças rasgadas, e dois deles estavam cobertos de sangue. Um já tinha um olho roxo. Ela flexionou a mão, lembrando.
“Nojentos.”
Saiu correndo para o outro lado do beco e disparou até chegar à rua. Atravessou quase se matando várias vezes. Mas os tinha perdido. Chegou do outro lado e, ao olhar para trás, só viu carros passando.
Mesmo fora de vista, não perdeu tempo. Virou-se e correu entre outros prédios. Percorreu mais alguns quarteirões até parar num ponto de ônibus.
Olhou em volta e, como não viu ninguém, começou a se trocar. Pegou o moletom e o colocou por cima da blusa ensanguentada, tirando-a por baixo. Depois, vestiu a legging por baixo da saia e a tirou assim que a legging estava no lugar. Calçou as meias e os tênis velhos e gastos, tirando os sapatos pretos rasgados.
Depois de se trocar e ajeitar as coisas, pegou a roupa do trabalho e a jogou fora. Uma pontada de culpa apertou o peito ao pensar em como tinha deixado a loja.
A porta tinha sido arrombada, várias mesas e cadeiras estavam quebradas. Buracos de bala marcavam as paredes, e o chão estava sujo de sangue. Na maior parte, o dela.
Tinham ficado alguns cacos de vidro presos no cabelo, na cabeça e no rosto. O braço esquerdo estava cortado do ombro até o pulso, depois de terem jogado ela contra uma mesa quebrada. Era um corte feio, que provavelmente ia infeccionar, mas teria que lidar com isso depois.
Correu até o ponto de ônibus assim que o veículo parou e abriu as portas. Subiu os degraus, pegou o pouco de dinheiro que tinha no bolso e entregou ao motorista.
“Até onde der pra ir com isso, por favor”, disse com um sorriso que não chegou aos olhos.
O homem a olhou com curiosidade, reparando no estado dela. Olhou para o dinheiro na mão e o enfiou no pote.
“Pode andar o quanto quiser. O ônibus não para. Se ainda estiver aqui quando o próximo motorista assumir, eu aviso que você pode ficar pelo tempo que precisar.”
O sorriso dela vacilou. “O-obrigada”, gaguejou.
O homem assentiu e fechou as portas. Ela agradeceu mentalmente pela sorte de ter encontrado aquele motorista naquela noite e foi até o fundo do ônibus.
Ao se sentar, não conseguiu evitar a esperança de que, dessa vez, conseguiria fugir de vez. Fechou os olhos e deixou o sono levá-la.
Como você pôde?! Você tirou tudo de nós! De mim!
Que bicho imundo você é.
Apodreça no inferno, monstro.
Que Demon Dragon você é, sua selvagem nojenta!
Como um pai consegue olhar pra essa cara de traidora?
Acordou de repente dos pesadelos que não paravam. O ônibus ainda estava em movimento, mas agora havia uma nova motorista no banco da frente. Uma senhora, pelo que parecia. Era tarde da noite ou de madrugada, não dava pra saber.
Olhou em volta e viu que era a única passageira. Resolveu testar o pouco de coragem que ainda tinha e foi até o banco do motorista, sentando-se logo atrás. A senhora olhou para ela pelo retrovisor e a encarou antes de voltar a atenção para a estrada.
“Onde estamos?”
A senhora olhou para ela de novo. “Na Califórnia. A próxima parada é San Diego.” A voz era suave e carinhosa, como se soubesse de tudo pelo que ela tinha acabado de passar.
“Tá bom. Acho que vou descer lá. Obrigada… por, sabe… fazer isso”, disse, tímida. A senhora apenas assentiu, mantendo os olhos na estrada.
Levantou-se e voltou para o assento. Não demorou vinte minutos para chegarem à próxima parada. Pegou a mochila e desceu do ônibus, dando um aceno discreto para a mulher antes que ela partisse.
“Então é aqui que vai ser o lar…”



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