Capítulo 1
Natalie
“Ninguém nunca vai te amar como eu amei.”
Foram as últimas palavras que ele me disse enquanto eu o via sangrar no chão da cozinha durante seis dos minutos mais longos da minha vida.
Não acredito que isso aconteceu hoje.
Olho para minhas mãos trêmulas, cobertas de sangue, enquanto o paramédico me leva para a parte de trás da ambulância e me ajuda a entrar. Ele cuida do corte acima do meu olho, do meu nariz quebrado e dos vários cortes e hematomas espalhados pelo meu corpo. Meu olho está tão inchado que mal consigo abri-lo. Pareço ter saído de uma luta de boxe. Ele me entrega uma bolsa de gelo para o rosto, e eu encosto a cabeça para trás.
Pelas janelas traseiras da ambulância, vejo o legista retirando o saco com o corpo da minha casa em uma maca. Uma mistura de ansiedade e alívio toma conta de mim. A porta de trás se abre, e Noah aparece.
Noah trabalha na polícia de Detroit há dez anos e subiu rápido na carreira, tornando-se detetive. Ele se dedica a resolver crimes na cidade, conhecida pela alta criminalidade.
“Nattie”, ele diz baixinho, olhando para mim com tristeza enquanto se senta aos pés da maca onde estou deitada.
“Tudo indica legítima defesa. Vimos as amarras no quarto. Você está livre para ir, mas preciso das suas roupas como prova. Vamos mandar uma policial mulher para o hospital com você para tirar algumas fotos e fazer o kit de agressão.” Assinto, sentindo um enjoo no estômago.
Acabei de matar meu namorado de quinze anos em legítima defesa.
“Desculpa não ter percebido, Nattie. Ninguém imaginaria que o Tom faria uma coisa dessas. Principalmente com você.” Ele diz, com arrependimento nos olhos. “Sou detetive, deveria ter visto os sinais.” Balança a cabeça e passa a mão no rosto, frustrado. Noah é como um irmão mais velho para mim, meu melhor amigo. É um homem grande, com cabelo castanho comprido até os ombros, e parece um fisiculturista, porque malhar é como ele lida com o estresse do trabalho.
Noah, Tom e eu crescemos juntos no mesmo prédio baixo, em um dos bairros mais problemáticos de Detroit. A vida foi difícil, mas para todas as crianças dali era assim. Noah é alguns anos mais velho que eu, mas sempre me tratou como uma irmã. Ele cuidava de mim. É inteligente, gentil e me protegia quando meus pais, esses dois desgraçados, sumiam em suas bebedeiras. Provavelmente se sente culpado porque, desde que virou detetive, não esteve tão presente, e a situação acabou saindo do controle sem que ele percebesse.
Tom era o oposto de Noah: loiro, magro, comia o que queria e nunca engordava um grama. Começamos a namorar aos quatorze anos. Éramos felizes. Quando fiz dezessete, engravidei da Molly, e foi aí que ele começou a mudar. A pressão de cuidar de nós duas foi demais, e Tom começou a beber, usar drogas, trair e, depois, a me agredir. Ele nos odiava e acabou se tornando igual aos meus pais. Como eu já tinha passado por isso uma vez na vida, aceitei tudo de novo, me culpando por deixar a história se repetir.
Durante anos, consegui esconder. Molly agora tem doze anos, e no dia em que ele me bateu na frente dela, há um ano, eu soube que as coisas tinham que mudar. Ver o medo nos olhos dela me fez perceber que precisava ir embora. Não podia deixar minha filha achar que aquilo era amor, porque não é. E não podia arriscar que ele um dia descontasse nela.
Comecei a planejar minha fuga, juntei dinheiro escondido e arrumei um apartamento. Quando contei para o Tom que ia embora, ele pirou. E foi assim que acabei aqui. Ele me atacou, me estuprou e me encheu de porrada. Depois de uma briga feia, acabei enfiando uma faca de cozinha duas vezes na barriga dele. Ele sangrou até morrer no chão da cozinha enquanto eu ligava para o 911.
Além de ficar ajoelhada ao lado dele, pressionando o ferimento, não fiz nada para ajudá-lo enquanto o via lutar para respirar. Você até pensaria que isso me afetaria mais, mas o filho da puta mereceu tudo o que levou. Só fiquei aliviada por ter sido eu a matá-lo, e não o contrário, pelo menos pela Molly.
“Me conta o que aconteceu, Nattie”, Noah diz, tirando-me dos meus pensamentos.
Meu olho encontra o dele, e eu respiro fundo. “Eu disse que ia embora. Não posso deixar a Molly passar por isso. Ele surtou e me estuprou. Depois, acabamos brigando. Ele me deu um soco na barriga e depois um joelhada no rosto. Peguei uma faca de cozinha no balcão e o esfaqueei duas vezes.” Ele anota tudo enquanto falo.
“Há quanto tempo isso vem acontecendo?”
“A Molly tinha uns cinco anos quando começou, foi quando ele realmente se afundou na bebida, ficando cada vez mais agressivo e irracional. No começo, era pouco, de vez em quando. Mas nos últimos anos, ele ficou bem mais violento. Sempre me acusava de trair ele, então me obrigava a trabalhar no turno do dia no restaurante e começou a me prender na cama à noite, entre outras merdas.” Digo, envergonhada. Lágrimas escorrem pelo meu rosto machucado e inchado.
Como é que eu cheguei aqui?
Noah continua me olhando com compaixão. “Tudo bem. Eles vão te levar para o hospital agora. Não vou ficar longe. A Molly ainda está com a Barb?” Assinto de novo.
“Por favor, pede para a Barb ficar com ela uns dias. Não posso deixar ela me ver assim. Daqui a uns dias, eu vou buscá-la e explico… alguma coisa.”
Como é que vou contar para minha filha de doze anos que matei o pai dela?
No hospital, fazem o kit de estupro, que só confirmaria que ele me atacou. Tiraram fotos do meu corpo nu, anotando os hematomas nos pulsos, braços, pescoço, o olho roxo, o nariz quebrado e o lábio cortado. Tudo apontava para abuso, e era exatamente isso.
Depois do exame, me visto e me sento na cadeira, esperando uma carona para casa. Noah entra na sala e se senta na minha frente.
“E agora, qual é o plano?”, ele pergunta, enquanto seus olhos percorrem meus ferimentos.
“Não posso ficar aqui. Tem muita lembrança, muito trauma. Preciso recomeçar.” Noah me olha, decepcionado.
“Sinto muito que você queira ir embora, mas entendo perfeitamente. Me diz o que posso fazer para ajudar.”
“Me ajuda a me mudar para um lugar quente.” Dou uma risadinha.
“Chega de inverno, né?” Ele sorri, sabendo o quanto eu odeio frio.
“É. Se vou recomeçar, vou para um lugar quente. Sempre quis morar em Los Angeles.” Ele sorri, se levanta e bagunça meu cabelo, me dando um beijo no topo da cabeça.
“Tá bom, vou te ajudar a arrumar trabalho e um apartamento.” Levanto também, e ele aponta para a cadeira de rodas.
“Obrigada, Noah. Não sei o que faria sem você.” Digo, com um sorriso fraco.
“Não sei o que vou fazer sem você. Você é como uma irmã para mim.”
“Eu sei, mas você precisa tirar mais férias mesmo, e agora pode vir nos visitar em Los Angeles.” Ele abre um sorriso largo, e eu me sento na cadeira de rodas.
“Parece um bom plano.” Ele diz e me empurra para fora do hospital até o carro, onde começamos a planejar minha viagem pelo país para recomeçar nossa vida.
A/N: Apesar do passado de Natalie, este livro não contém alertas de conteúdo, pois não entro em detalhes sobre o abuso que ela sofreu. Espero que estejam animados para ver como a história vai se desenrolar! E sim, coloquei esse conflito bem claro logo no começo para vocês. xoxo









can’t wait to see where this journey takes me!
🪝🪝
He should have lived to see prison. Death sounded too easy