1 | hola, ¿qué tal?
Eu sou conhecido como o quieto. Aquele com uma máscara de indiferença no rosto. Um cara que não se abala. Ou era isso que eu pensava até hoje.
Enquanto luto com o zíper da minha mala, praguejando sem paciência, consigo ouvir a voz irritada da minha mãe em algum lugar da casa. É com o meu pai, parece que ele esqueceu de buscar algo na lavanderia. Não passa nem um minuto e minha irmã entra no meu quarto, digitando apressada no celular, com a cara fervendo de raiva.
“O Uber chega em cinco minutos. Aqueles dois estão me deixando maluca e você nem se arrumou, Jordan. Por que vocês estão fazendo isso comigo!?”
Paro o que estou fazendo e fico em silêncio, encarando-a, na esperança de que nossa telepatia de irmãos finalmente funcione para que eu não precise dizer o que realmente penso sobre me trocar. Então, analiso minhas calças de moletom confortáveis e uma camiseta larga.
“Eu estou vestido”, respondo com um tom seco.
“Você não vai vestir isso para conhecer os Silva!” O tom exasperado dela tornou-se tão familiar para mim nas últimas semanas que apenas reviro os olhos, tentando ignorar enquanto ela continua falando sobre a importância de causar a melhor impressão possível no noivo dela, Marc Silva, e na família dele.
Não há nada de ruim que eu possa dizer sobre meu futuro cunhado. Honestamente, tenho uma ótima opinião do cara que conquistou tanto, sendo tão jovem. O cargo dele como gerente geral em uma das grandes corporações de Londres é algo admirável, mas, mais do que isso, a forma como ele trata minha irmã mais velha é o motivo pelo qual o respeito ainda mais.
O relacionamento deles é possivelmente uma das histórias mais clichês: Sonya era secretária na empresa, Marc era seu chefe, um solteiro atraente com sotaque espanhol e um terno que custa mais do que o salário mensal dela. Nada disso importou — status social diferente, nacionalidade diferente, histórias diferentes ou as fofocas circulando sobre eles — eles eram loucos um pelo outro e, depois de um ano de namoro, ele a pediu em casamento. E foi assim que acabei no meio de todo esse drama de fazer mala e me preocupar se minhas meias combinavam.
Desde que me entendo por gente, Sonya e eu somos inseparáveis. Embora ela seja seis anos mais velha que eu, sempre senti que ela era mais minha melhor amiga do que irmã. Sempre nos apoiamos e eu não poderia estar mais feliz por ela, mas o fato de o namorado ser espanhol e eles terem escolhido casar no país dele está me deixando louco. O mais longe que viajei nos meus dezoito anos foi Belfast, na Irlanda do Norte, o que nem conta se você mora na Inglaterra. Nunca andei de avião. Odeio casamentos grandes. Não falo espanhol. O único lugar onde me sinto confortável é o bairro onde cresci, em Londres. Asfalto molhado, prédios de tijolos vermelhos, um pequeno grupo de pessoas com o tom de pele parecido com o meu e meu treino diário no clube de futebol local. É justo dizer que não gosto muito de sair da minha zona de conforto, então essa viagem de fim de semana para o litoral da Espanha não é algo que eu esteja ansioso para fazer.
Não tenho escolha a não ser ir.
Os Silva parecem ser uma família grande, daquelas barulhentas e vibrantes, com parentes indiscretos, porém bem-intencionados, que nunca vão embora. E eles estão caprichando nesse casamento, já que Marc é o mais velho dos filhos e o primeiro a se casar.
“Pelo menos vista um jeans, querido, por favor, não vamos para um dos seus jogos de futebol.”
“Você deveria ficar feliz por eu estar usando terno no seu casamento, não abuse. Estou confortável com meu moletom.”
Ela dá um tapa no meu ombro, sorrindo a contragosto enquanto mostro a língua para ela, mas eu cedo e vou até o armário trocar por uma calça jeans. Ela me manda um beijo e sai do quarto marchando, enquanto a buzina de um carro é ouvida na frente da nossa casa humilde, que fica em uma fileira de casas parecidas. O Uber está aqui para nos levar ao aeroporto de Heathrow.
O fato de minha mãe ser jamaicana e ter crescido naquela ilha adorável e quente deveria ser um indício de que eu herdaria geneticamente o amor pelo verão, pelas praias ou pelo clima quente. Mas nuvens cinzentas e pesadas que ficam baixas, muitas vezes descarregando chuva, teimosas e melancólicas como o meu humor, são o que eu prefiro, e a Inglaterra é perfeita para isso. Então, quando o ar quente e úmido de Valência me atinge ao sair pela porta automática do aeroporto, eu instantaneamente odeio. A temperatura, segundo meu aplicativo de clima, é menor do que realmente parece, e é como se alguém estivesse apontando um secador de cabelo na minha cara.
Solto um suspiro de alívio quando o ar-condicionado fresco me atinge ao entrar no carro de Marc. Enquanto dirigimos pela cidade, que eu nem me dei ao trabalho de pesquisar no Google, vejo ruas movimentadas, palmeiras altas e vastos parques verdes, prédios antigos e históricos misturados com uma arquitetura extravagante recém-construída. Estou realmente impressionado. Nunca fui muito de viajar, mas algo nessa cidade desperta meu interesse, mesmo observando através de um carro em movimento.
A casa de Marc é algo que, na verdade, eu deveria chamar de villa. Ou mansão. Tem até uma praia particular. E uma piscina. Há vários carros na entrada, e a casa de dois andares é cercada por árvores altas, belas cercas vivas e arbustos de flores que cheiram como nada que eu já tenha sentido no meu bairro sujo, molhado e de concreto em Londres. Uma brisa assobia através das palmeiras, atraindo-me com a promessa de algo misterioso, como se houvesse um segredo prestes a ser descoberto.
Enquanto minha família e eu atravessamos a porta, agradeço o ar mais fresco, mas o interior ainda me deixa sem fôlego. É espaçoso e amplo, com tetos altos e cores vivas nas paredes. Os móveis parecem confortáveis e convidativos, vasos com flores deslumbrantes estão sobre as mesas e fotos de rostos sorridentes estão em cada bancada e, embora tudo pareça definitivamente caro, há um calor no ambiente e eu me sinto bem-vindo. Fico parado no meio da sala e olho maravilhado enquanto limpo o suor do lábio superior. Tenho orgulho de onde venho, sempre tive, mas pela primeira vez na minha vida, desejo ter algo bonito e agradável como isso.
“Ei, Jordan, venha por aqui, eu pego sua mala mais tarde e levo para o seu quarto”, Marc me chama pelo longo corredor até a grande sala de estar, e meus pais nos seguem. Com sorrisos largos, os pais de Marc nos dão as boas-vindas à casa deles e, com o inglês ruim deles e nosso espanhol ruim, conseguimos nos entender.
Há algo de especial nesta casa: a energia que sinto ao observar e ouvir, o clima das pessoas que estão constantemente circulando, entrando e saindo dos cômodos, falando alto como se estivessem discutindo, mas, na verdade, é apenas o jeito deles de conversar. Sempre tem alguém correndo para me oferecer uma limonada gelada e refrescante ou petiscos saborosos que eles chamam de tapas. Conheço um monte de primos jovens que correm parando para me mostrar seus brinquedos e tios que me perguntam sobre minha carreira no futebol, já que a Espanha tem alguns dos melhores clubes do mundo. As tias apertam minhas bochechas sem vergonha e me chamam de guapo, o que eu não sei o que significa, mas apenas sorrio e concordo mesmo assim.
E então uma garota linda passa — ela está falando ao telefone, com fones de ouvido, cabelos longos castanho-chocolate caindo sobre os ombros em ondas. Ela olha para mim do outro lado da sala e sorri; seus olhos são impressionantes, castanhos dourados e selvagens, mas ela não se apresenta e apenas desaparece em algum lugar da casa, em sua minissaia de tênis e top. Fico pensando se é uma das irmãs de Marc. Aparentemente, são cinco, como Marc disse antes, e devemos conhecê-las em um grande jantar de família hoje à tarde.
De repente, mal posso esperar.