Chapter 1
Hoje eu vim aqui contar um relato pessoal, não uma poesia como de costume.
Para quem não sabe, a minha relação comigo mesma e com a comida nunca foi das melhores.
Isso até esse ano.
Eu desenvolvi transtornos alimentares (bulimia) e também distorção de imagem. Entretanto, meus problemas não foram levados a sério por ninguém, nem mesmo por "profissionais" da área, o que me fez piorar ainda mais. Tudo o que eu buscava era "validação", era ouvir que meus problemas eram validos e não era normal não comer/comer e passar mal, que não era normal querer cometer suicídio, que não era normal passar o dia todo trancada no quarto buscando algum mísero motivo para não enfiar uma lamina na artéria do meu punho e acabar de vez com aquilo que eu chamava de "vida".
Em toda a minha vida, em quase 17 anos, esses últimos meses são os primeiros que posso dizer que estou bem, que estou feliz - mas nem sempre também.
Eu queria vir aqui falar apenas das partes boas, mas será que são realmente boas sem as partes ruins? Eu queria vir aqui tentar mostrar a vocês que nunca estamos satisfeitos com nada, que somos rasos.
Mas como consegui sair disso pra estar como estou?
A resposta é simples - o tempo. Por mais clichê, o tempo realmente cura tudo (ou a maioria).
Esse é o primeiro verão da minha existência qual estou feliz com quem sou.
Na verdade, não foi tão simples.
Eu passei por milhares de altos e baixos, eu encarei a morte frente a frente, felizmente (ou não) eu estava preparada. Eu passei por diversas tentativas de suicídio, eu passei por diversos momentos bons que me fizeram agradecer por não ter conseguido - e milhares de momentos ruins que fizeram querer ter feito. O amor e o ódio são a mesma merda, então eu sempre me amei ou ainda me odeio?
E sabe o que é pior do que passar por tudo isso? É ter passado por tudo isso sozinha. Eu clamava a Deus e a todas as outras divindades possíveis para o mínimo de dó de mim, e nunca adiantou. Eu merecia? ou eu queria? Eu nunca fui ouvida.
Porém, não estou aqui para que sintam pena de mim, para que vejam que fui miserável em 70% da minha vida. Eu estou aqui para mostrar que eu passei por cima de tudo isso e consigo dar o melhor de mim na maioria das vezes. Eu queria fazer um texto totalmente diferente, mas eu também queria que as linhas da minha vida fossem diferente. Não escolhemos o nosso destino.
Depois de um período de tempo, eu percebi onde havia chego, e percebi também que não queria ficar lá (graças à minha mãe, quem achou as diversas cartelas de remédios no meu quarto). E desde então, eu venho tentando me mudar. Ainda tenho altos e baixos, mas minha vida não se baseia mais em tentar me matar.
A ultima vez que quis enfiar uma lâmina na minha jugular, tem exatamente um ano. Dia 26/09/2023 - isso é meu recorde. Não me orgulho de falar isso, mas prefiro um ano do que um mês.
Eu diria que desde esse dia não fui mais a mesma, eu prometi a mim mesma que não me permitiria chegar tão baixo novamente, e felizmente, venho cumprindo desde então - logicamente vivo baixos, mas não negativos.
Nunca me esforcei tanto para algo quanto para finalmente mudar. Eu estou conseguindo.
A recuperação é lenta e dolorida, arrisco comentar que é, inclusive, quase pior do que estar tão fundo. Leva tempo, paciência, pessoas. Arranca tudo o que você tem e faz você ter mais coisas apenas para poder arrancar de novo.
As recaídas com a comida me fizeram querer morrer de novo, mais de 2 anos em recuperação é algo tenebroso.
Me ver chorando em público na frente do meu pai por precisar comer UM doce me fez querer morrer, me fez querer evoluir. Me ver chorando em frente a UMA folha de alface me fez querer arrancar meu cérebro, me ver vomitando após comer uma banana com aveia me fez querer arrancar meus olhos, meu intestino, meu tudo. Ver você rindo da minha cara por esse problema, me fez querer te matar e me matar; fez eu terminar.