A Entrevista
O calor abafado da tarde grudava na pele de Lara enquanto ela apertava a pasta com seu currículo contra o peito. Estava no último ano da faculdade de Publicidade, mas o preço das mensalidades aumentara de forma brutal nos últimos meses. O estágio que tinha mal pagava o aluguel de seu pequeno apartamento, e a ameaça de trancar o curso rondava sua mente como um fantasma incômodo.
Naquela manhã, navegando por anúncios de emprego, um deles chamou sua atenção:
“Assistente pessoal — salário acima da média, benefícios, flexibilidade de horário. Discrição essencial.”
A vaga parecia boa demais para ser verdade. Não havia nome da empresa, apenas um endereço no centro da cidade e um e-mail para contato. Movida pelo desespero — e pela curiosidade —, Lara enviou seu currículo. Para sua surpresa, menos de uma hora depois, recebeu a resposta com o horário da entrevista.
O prédio era luxuoso, de vidro espelhado e recepção impecável. Lara sentiu-se fora de lugar com seu vestido simples e sandálias baixas. A recepcionista, uma mulher de olhar afiado, pediu que ela aguardasse. Poucos minutos depois, um homem apareceu.
Ele tinha presença. Era alto, ombros largos, cabelos negros perfeitamente alinhados, barba aparada. O terno preto realçava o porte imponente, e os olhos — de um castanho quase dourado — pareciam analisá-la como se pudessem ler cada pensamento.
— Lara, não é? — a voz grave dele reverberou de forma quase física.
— Sim… — respondeu, tentando não demonstrar nervosismo.
— Sou Adrian Moretti. Podemos conversar no meu escritório.
O andar superior era silencioso e amplo. O escritório dele tinha janelas enormes com vista para a cidade, e um aroma amadeirado envolvia o ambiente. Adrian sentou-se atrás da mesa, entrelaçando os dedos.
— Li seu currículo… Você tem experiência como estagiária, mas aqui, o trabalho vai além. Preciso de alguém que saiba lidar com situações… incomuns.
— Incomuns? — Lara franziu a testa.
— Sim. Meu negócio exige discrição, comprometimento… e, às vezes, saber seguir ordens sem questionar.
O modo como ele disse seguir ordens enviou um arrepio por sua espinha. Havia algo no tom dele — algo perigoso e excitante.
— O salário é três vezes o que você ganharia em um emprego comum. Mas preciso ter certeza de que você está disposta a… se adaptar.
Lara tentou manter a compostura, mas percebeu que seu corpo reagia à proximidade dele. O cheiro, a postura dominante, o olhar intenso… tudo parecia cuidadosamente calculado para desestabilizá-la.
Adrian se levantou, aproximando-se dela até que pudesse sentir o calor de sua presença. Seus dedos roçaram de leve no queixo dela, obrigando-a a levantar o rosto.
— Você está disposta a fazer o que for necessário para manter este emprego, Lara?
Ela engoliu seco.
— Sim… estou.
O canto dos lábios dele se curvou num sorriso lento, carregado de promessa.
— Então, começamos amanhã. Mas lembre-se… comigo, não há meio-termo.
Lara saiu do escritório com o coração disparado e uma sensação estranha entre as pernas. Não sabia exatamente no que estava se metendo — mas algo nela queria descobrir.
Lara acordou cedo, mas o sono tinha sido leve e inquieto. Passou boa parte da noite pensando no olhar de Adrian Moretti e nas palavras dele. Seguir ordens sem questionar. A frase ecoava como um enigma que queimava em sua curiosidade.
No espelho, escolheu um conjunto mais formal: saia lápis preta, camisa branca com um botão a menos fechado do que o necessário e um salto discreto. Não queria parecer provocante de propósito… mas também não queria parecer frágil.
Quando chegou ao prédio, a recepcionista a encaminhou diretamente ao último andar. Adrian estava de pé, ao lado da janela, falando ao telefone. O sol da manhã entrava pelas cortinas abertas, realçando a linha firme de seu maxilar e a postura confiante.
Ele encerrou a ligação e caminhou em sua direção.
— Pontual. Gosto disso. — o tom baixo e rouco carregava uma aprovação silenciosa. — Hoje você vai me acompanhar em tudo. Observar, anotar… e aprender.
Durante a manhã, Lara percebeu que Adrian não era apenas um homem de negócios comum. As reuniões eram cercadas de códigos, conversas sussurradas e contratos assinados de forma quase clandestina. Havia algo por trás daquela fachada de empresário bem-sucedido — algo que ele não deixava transparecer por completo.
Na hora do almoço, ele a surpreendeu:
— Venha comigo. — disse, abrindo a porta do elevador.
O carro dele, um sedã preto luxuoso, tinha um aroma marcante que a envolveu imediatamente. Eles pararam em um restaurante reservado, com mesas afastadas e iluminação intimista. Adrian pediu vinho sem consultá-la, e ela percebeu que ele gostava de assumir o controle.
Enquanto comiam, ele a observava com atenção, como se cada gesto dela fosse parte de uma avaliação silenciosa.
— Lara… — disse, recostando-se na cadeira. — Você é boa em manter segredos?
Ela respirou fundo.
— Sim.
— Ótimo. Então preciso que entenda algo: trabalhar comigo significa cruzar limites. Alguns… profissionais. Outros, pessoais. — o olhar dele se aprofundou, e um calor inexplicável subiu pelo corpo dela. — E quero ter certeza de que você está pronta.
No caminho de volta, ele estacionou o carro num estacionamento subterrâneo vazio. Silêncio. Então, sem aviso, inclinou-se em sua direção, prendendo-a entre seu braço e a porta. Seu perfume, quente e amadeirado, a envolveu.
— Confio em você para fazer o que eu mandar? — sussurrou, a voz arranhando sua pele como seda e aço ao mesmo tempo.
O coração de Lara batia tão rápido que ela mal conseguia responder.
— Sim… — a palavra saiu quase como um suspiro.
O canto da boca dele se ergueu num sorriso que não era apenas de satisfação, mas de posse. Ele se afastou, ligou o carro e voltou a dirigir como se nada tivesse acontecido. Mas Lara sabia: aquela era apenas a primeira prova.
Naquela noite, sozinha em seu apartamento, ela sentiu as pernas trêmulas ao lembrar do olhar dele. Sabia que algo perigoso estava prestes a começar. E, mais perigoso ainda… ela queria que começasse.
A segunda manhã de Lara no escritório começou com um clima diferente. Ao entrar, notou que a recepcionista nem sequer pediu para que ela aguardasse — apenas fez um sinal para que subisse.
Adrian estava sentado à mesa, revisando alguns documentos. Sem levantar os olhos, disse:
— Feche a porta.
O tom seco não deixava espaço para perguntas. Lara obedeceu, sentindo o coração acelerar.
Ele então ergueu o olhar, e aquele castanho intenso pareceu atravessar sua pele.
— Hoje você não vai apenas observar. Vai participar.
Ele entregou um tablet com uma lista de nomes e endereços.
— Preciso que ligue para essas pessoas e organize reuniões. Algumas serão presenciais. E, quando estivermos juntos, quero que siga minhas instruções sem hesitar.
O jeito como ele disse sem hesitar fez a temperatura do corpo dela subir.
Durante a manhã, ela trabalhou lado a lado com ele, e a proximidade se tornava cada vez mais sufocante — e viciante. Adrian se inclinava para ver as anotações dela, e o calor de seu corpo parecia irradiar através do tecido do terno.
Por volta das quatro da tarde, ele se levantou.
— Venha comigo. — disse, já caminhando em direção ao elevador.
Eles entraram no carro e dirigiram até um hotel luxuoso no centro. Lara não entendeu, mas manteve o silêncio. No lobby, Adrian se apresentou na recepção e recebeu a chave de uma suíte.
Ao entrar no quarto, Lara olhou em volta, confusa.
— O que exatamente vamos fazer aqui? — arriscou perguntar.
Ele fechou a porta, girou a chave e se aproximou devagar.
— Vamos conversar. Mas aqui, sem distrações… e com total privacidade.
O silêncio que se seguiu era carregado. Ele tirou o paletó e o colocou sobre a poltrona, revelando a camisa branca ajustada, com o primeiro botão aberto.
— Tire o casaco. — ordenou, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
O olhar dele não desviava enquanto ela obedecia.
— Ótimo. Agora, sente-se. — apontou para a beira da cama.
Lara sentou-se, sentindo as pernas formigarem. Adrian se aproximou, parando a poucos centímetros dela. Sua mão tocou o queixo dela, erguendo-o suavemente.
— Quando eu disser algo, não quero que me pergunte “por quê”. Apenas faça. — a voz grave parecia vibrar dentro dela. — Está claro?
— Sim… — ela sussurrou, quase sem voz.
Ele inclinou-se, roçando os lábios perto do ouvido dela, sem tocá-la de fato.
— Boa garota.
O arrepio que percorreu a espinha de Lara foi tão intenso que ela quase estremeceu. Ele se afastou, pegou o celular e fez uma ligação breve, falando de negócios. Mas o controle absoluto com que conduzia a situação a deixava tensa, excitada e confusa.
Quando a reunião no hotel terminou, Adrian não explicou nada. Apenas a levou de volta ao prédio, como se tivesse sido mais um dia normal de trabalho. Mas Lara sabia que, a partir daquele momento, algo havia mudado: ele estava testando os limites dela… e ela estava deixando.
Os dias seguintes foram uma dança silenciosa entre Lara e Adrian. Ele a provocava com olhares prolongados, ordens aparentemente simples, e uma proximidade calculada que a deixava em um estado constante de expectativa.
Naquela sexta-feira, Lara entrou no escritório e percebeu que a energia no ar estava diferente. Adrian a aguardava junto à janela, de mãos nos bolsos, como se já estivesse esperando apenas por ela.
— Hoje vamos sair cedo. — disse, sem explicar o motivo. — Pegue sua bolsa.
No carro, ele dirigiu sem revelar o destino. O silêncio não era desconfortável, mas denso, quase palpável. Quando finalmente estacionou, Lara reconheceu o prédio: o mesmo hotel da primeira vez.
No elevador, Adrian não disse uma palavra. A porta da suíte se fechou atrás deles e, dessa vez, ele não perdeu tempo. Retirou o paletó e a gravata, deixando-os sobre a poltrona. Caminhou até ela com passos lentos, mas seguros.
— Lembra-se do que eu disse sobre fazer o que eu mandar? — a voz grave soou como uma promessa e uma ameaça ao mesmo tempo.
— Sim… — respondeu, sentindo a respiração acelerar.
— Então hoje… vamos começar.
Ele segurou o queixo dela, inclinando seu rosto para cima. O primeiro toque dos lábios dele foi lento, calculado, como se estivesse testando a resistência dela. Mas, quando Lara retribuiu, Adrian aprofundou o beijo, dominando cada movimento, como se quisesse provar que o controle seria sempre dele.
Suas mãos deslizaram pela cintura dela, puxando-a contra seu corpo. O calor que se espalhou pelo contato foi instantâneo. Lara sentiu-se perdida entre a firmeza dele e o próprio desejo que já não conseguia esconder.
Quando ele a soltou, foi apenas para olhá-la nos olhos.
— Eu decido quando começa… e quando termina.
Mas, ao invés de encerrar, ele a puxou pela nuca, voltando a beijá-la com mais intensidade, explorando sua boca como se quisesse deixá-la sem ar. Uma de suas mãos subiu pela coluna dela, enquanto a outra se fixava em sua cintura, prendendo-a ali.
Lara não sabia se queria fugir ou se entregar de vez. O mundo parecia reduzido àquele toque, àquela voz e à sensação de que, a partir dali, nada mais seria simples.
Quando finalmente se afastou, Adrian sorriu, satisfeito.
— Agora, volte para casa. E pense em como vai se comportar na próxima vez que eu mandar vir até aqui.
Foi só ao sair do hotel, com as pernas trêmulas, que Lara percebeu: ela já estava presa no jogo dele… e, pior, não queria sair.