Sob o Véu da Noite

All Rights Reserved ©

Summary

Ele é uma arma forjada pela disciplina brutal de Esparta, agora exilado e assombrado pelo sangue nas suas mãos. Ela é um poema nascido da dor, uma diplomata de Lesbos que usa a sua arte para esconder as cicatrizes da sua alma e uma busca desesperada por um fantasma do seu passado. Numa Grécia à beira do colapso, devastada pela guerra e pela praga, os seus caminhos colidem. Cadmo, o lobo solitário que já não tem matilha, e Roxana, a flor com espinhos venenosos, são forçados a uma aliança relutante. Juntos, mergulham no coração de uma conspiração que se estende dos becos fétidos de Atenas aos corredores de poder de Esparta, sem saberem que são peões num jogo antigo entre deuses e monstros. Para sobreviver, o guerreiro que renunciou à honra terá de se tornar o escudo de alguém. Para vencer, a poetisa que fugiu da sua fúria terá de se tornar uma arma. Perseguidos por generais, manipulados por uma deusa da discórdia e ligados por uma profecia que os define como a âncora e a tempestade, eles descobrirão que a maior batalha não é contra exércitos, mas contra os demónios que carregam por dentro. Sob o Véu da Noite é uma fantasia histórica sombria e épica sobre redenção, poder e o preço terrível do amor em tempos de guerra. Uma tragédia grega para uma nova geração.

Genre
Fantasy
Author
CadmoBR
Status
Ongoing
Chapters
9
Rating
n/a
Age Rating
18+

Capítulo 1: O Mar e os Espectros

O balanço da trirreme era um lamento. A madeira gemia sob a pressão das ondas, e Cadmo amaldiçoou a fraqueza do seu próprio corpo, que insistia em acompanhar aquela dança doentia. Forçou as pálpebras, mas o cheiro era uma prisão: sal, maresia e a mistura rançosa de peixe podre e do suor de homens confinados há tempo demais. Na cabine claustrofóbica, o baque das ondas contra o casco era um tambor a martelar-lhe os ouvidos, um ritmo irregular que desfazia qualquer tentativa de disciplina.

Acima, os passos pesados e ritmados dos soldados no convés eram uma afronta. Ordem. Controle. Tudo o que o seu estômago, agora um punho fechado na garganta, se recusava a obedecer.

Virou-se no catre estreito, o tecido grosseiro a arranhar-lhe a pele. Suor frio escorria-lhe pelas têmporas. As suas mãos, trêmulas, enterraram-se sob a manta áspera. Controle-se, a voz do seu tio ecoou na sua mente, fria como o gelo do Taigeto. Um espartano domina o corpo. Mas o mar não era um campo de treino. O mar não obedecia. Lá fora, o uivo do vento trazia fragmentos de vozes, sussurros que se desfaziam no caos.

Demóstenes, pensou. O general estaria no convés, a sua voz firme a impor ordem à própria tempestade. Cadmo tentou agarrar-se a essa imagem de controle, mas o sono arrastou-o para um lugar onde não havia controle algum.

Estava de volta à Cripteia. A lua cortava o céu como uma foice. A floresta do Taigeto era um emaranhado úmido, o ar pesado com o cheiro de terra, folhas apodrecidas e algo mais... um odor almiscarado e selvagem. Corria, os pés a afundarem-se na lama. Gritos ecoavam atrás de si — não palavras, apenas sons guturais, desesperados. Ele sabia o que viria a seguir. Sempre vinha.

Não quero fazer isto. A frase morreu-lhe na garganta. Tentou fechar os olhos, mas as suas mãos estavam ocupadas. Seguravam algo pesado. Quente. Pegajoso como sangue fresco. As figuras indistintas à sua frente ganharam forma, os seus olhos a brilhar com uma luz não humana, olhares que o despiam até à alma. O peso da lâmina tornou-se insuportável. Um grito rasgou o ar — era a sua própria voz? — e a terra encharcou-se enquanto os corpos se dissolviam num redemoinho de sombras.

Acordou engasgado, o coração a bater como um tambor de guerra. A cabine continuava escura, mas o balanço do navio confirmava que o inferno era real. Levou um minuto para perceber que os gritos que ainda ecoavam na sua mente vinham dos seus próprios lábios. Olhou para as mãos — mãos de guerreiro, marcadas por cicatrizes e calos —, mas que naquele momento pareciam frágeis, estranhas, como se pertencessem a outro homem.

Passos aproximaram-se, firmes e seguros. A porta abriu-se. Demóstenes entrou, trazendo consigo o cheiro de ar limpo da tempestade, tingido de vinho e óleo de oliva. A lamparina na sua mão projetava sombras dançantes no rosto cansado, mas os seus olhos brilhavam com uma determinação que Cadmo, a contragosto, admirava. O seu olhar, treinado para avaliar terreno e homens, deteve-se por um instante no brilho do suor na testa de Cadmo.

— A tempestade atrasou-nos, mas Salamina está próxima. — A voz do general era um fato, não uma consolação. Ele lançou um pedaço de pão seco para o seu colo. — Coma. A sua cara parece a de um fantasma.

Cadmo encarou a comida, a garganta a contrair-se. A ideia de mastigar aquela pasta seca fez-lhe o estômago revirar.

Demóstenes soltou uma risada baixa, desprovida de humor.

— Venha ao convés. O Templo de Poseidon está a brilhar como um farol. Talvez valha a pena ver antes que os deuses nos afundem de vez.

Cadmo assentiu, mas não se moveu. O peso do pesadelo era uma âncora fria na sua alma. Demóstenes esperou um momento, uma concessão silenciosa, e saiu, fechando a porta com cuidado. Pelas frestas, a luz escapava. Cadmo ficou a olhar para elas, a tentar esquecer que, abaixo deles, as águas escuras engoliam tudo, até memórias.

Levantou-se devagar, o chão frio e instável sob os pés descalços. No canto, o elmo de bronze do pai brilhava fracamente. Era mais antigo, de um estilo que já não se usava. Mais pesado. O último elo. Aproximou-se e deu dois toques secos na lateral.

Clang. Clang.

O som metálico era um ritual. Algo sólido quando tudo desmoronava.

Ao subir para o convés, o vento gelado atingiu-o como um soco. Segurou o corrimão, os nós dos dedos brancos. Então, viu. O mar estendia-se, cinzento e implacável. No horizonte, o Cabo Sunião erguia-se, um dedo de pedra apontado a um céu de chumbo. No alto do penhasco, as colunas de mármore do Templo de Poseidon recortavam-se contra as nuvens, tão perfeitas que doíam. Um frio percorreu-lhe a espinha, um que não tinha nada a ver com o vento. Era o frio de se sentir pequeno, observado por algo antigo e indiferente.

Demóstenes estava à proa, imóvel como uma estátua.

— Julga-nos, não julga? — murmurou ele, sem se virar.

Cadmo não respondeu. O templo parecia mesmo julgá-lo. Tirou uma amêndoa do bolso e mastigou-a devagar, o amargor na língua a tentar sobrepor-se ao amargor na alma.

Quando a neblina engoliu o horizonte, eles chegaram a Salamina. O riso nervoso dos soldados cessou, substituído pelo silêncio pesado que precede batalhas e funerais. A névoa era um véu sujo sobre o mar, escondendo o que restava de Atenas. A trirreme arrastou-se até à enseada do Pireu. Uma corrente grossa bloqueava a entrada; as torres de vigia, vazias, eram como olhos mortos. Nenhum som vinha da cidade. Apenas sombras e, por cima das longas muralhas, finas colunas de fumaça subiam retas para o céu indiferente.

A tripulação desembarcou com a lentidão de homens derrotados. As botas afundaram na areia molhada.

— Três meses no inferno — resmungou um soldado, cuspindo na água. — Para chegar a um cemitério.

Ninguém riu. Acenderam fogueiras com madeira úmida, a fumaça acre fazendo os olhos lacrimejarem. Demóstenes desapareceu com dois batedores, retornando ao anoitecer com o rosto transformado numa máscara de granito e um pergaminho com os selos quebrados na mão.

— Estamos em quarentena — anunciou ele ao pequeno círculo de oficiais, a voz desprovida de emoção. — Ordens da assembleia. Ninguém entra, ninguém sai. Risco de “contaminação”.

A palavra pairou no ar, pesada e indigesta. Naquela noite, ao redor do fogo trêmulo, os sussurros começaram, venenosos como a fumaça. Cadmo sentou-se afastado, mas o vento trazia os fragmentos até ele.

— Contaminação? É a peste, eu digo... Voltou para terminar o serviço.

— Não seja idiota. Se fosse a peste, a cidade estaria em chamas, não em silêncio — cortou um hoplita mais velho. — Isso é traição. Os magistrados estão a fechar os portões para o povo não fugir. A fome faz até os ratos morderem os seus donos.

Uma risada seca e febril ecoou. Era de um jovem recruta.

— A cidade está a devorar-se por dentro. Mas não são os homens. É algo mais. Há algo na água...

Cadmo levantou-se e afastou-se, o estômago a revirar. Devorar-se por dentro. A frase grudou na sua mente, entrelaçando-se com as imagens do seu pesadelo: os corpos a dissolverem-se em sombras, o peso da lâmina, o sangue. Eram a mesma coisa. Uma cidade ou um homem, apodrecendo de dentro para fora.

Nesse momento, um soldado levantou-se de súbito, o rosto vermelho de raiva.

— Não vou morrer de fome nesta praia! — berrou ele para Demóstenes. — Se Atenas não nos quer, que as suas muralhas queimem!

Demóstenes, que observava tudo em silêncio, não ergueu a voz. Moveu-se com uma calma letal, a mão repousando sobre o punho do gládio.

— Você morrerá de velhice antes que eu permita um motim sob o meu comando. Sente-se.

O soldado hesitou, mediu a determinação nos olhos do general, e sentou-se, resmungando. A tensão na praia tornou-se tão espessa quanto a névoa.

Demóstenes aproximou-se de Cadmo, parando ao seu lado. Juntos, olharam para as fracas luzes de Atenas, uma mancha doente no horizonte.

— Eles nos abandonaram aqui para apodrecer — disse Cadmo, a voz rouca. Não era uma pergunta.

— Sim — respondeu Demóstenes, entregando-lhe um odre. — Vinho. Forte e azedo. Beba. Amanhã, descobriremos que tipo de monstros estamos a enfrentar. Os que estão dentro das muralhas, ou os que já estão dentro de nós.

Cadmo bebeu um gole longo. O líquido queimou-lhe a garganta, mas não apagou o frio que vinha da alma. Acima deles, as gaivotas gritavam, as suas vozes como um presságio no ar pesado.