Passo 1: Começando o Dia Errado
Lex Silvas
22/11/25
Feliz aniversário pra mim. Vinte e dois anos de vida desperdiçados nesta cidade que fede a fritura barata e gasolina adulterada. Vinte e dois anos cercado por pessoas que insistem em se chamar de amigos e família, mas que não passariam no teste mais básico de afeto humano. Feliz porcaria de aniversário. Se houvesse justiça, eu teria recebido como presente uma arma embrulhada em papel colorido — balas incluídas — com um laço vermelho, só para acabar com tudo de uma vez. Comigo junto, claro. Mas não, não é para tanto. Eu não sou tão dramático assim. Ou talvez seja, mas prefiro fingir que não. Pilulas, eu deveria me entupir de pílulas, minha mãe tem um monte delas mesmo.
O bolo que foi comprado às pressas está sobre a mesa, coberto por uma camada de glacê que parece cimento doce. As velas piscam como se soubessem que estão prestes a morrer, e eu rio sozinho, porque até elas têm mais propósito do que eu.
O telefone vibra. Uma mensagem curta:
“Parabéns, cara.”
Eu não respondo.
Outra mensagem.
“Faz alguma coisa hoje, não fica trancado.”
Eu continuo em silêncio.
O relógio marca nove da noite. O som distante de fogos de artifício invade a janela, mas não há festa pra mim. Só este quarto abafado, este bolo indigesto e a certeza de que o mundo não se importa.
Talvez seja este o verdadeiro presente: a lembrança de que ninguém está realmente olhando.
Realidade:
Bom, tudo isso foi um sonho e eu só acordo na minha cama, suado, com o travesseiro grudado na cara e duas constatações me atropelam como um caminhão sem freio: ninguém liga para o meu aniversário e eu estou atrasado para o trabalho. De novo.
Meu nome, antes de mais nada, é Phillip Kowalski. Um americano genérico e sem graça, segundo avaliação própria e irrefutável. Pele clara demais para o sol que nunca me convida a abraçá-lo, cabelo curto e indeciso entre o castanho e o escuro, como se nem ele soubesse o que quer da vida. Olhos azuis — não os de propaganda de colírio, mas os que parecem sempre à beira de uma alergia existencial.
Visto o uniforme da mediocridade: moletom cinza ou azul-marinho, às vezes com uma jaqueta jeans por cima, como se isso fosse me proteger de alguma coisa além do frio. O rosto é liso, sem barba, sem marcas, sem história. A expressão? Neutra. Nem triste, nem feliz. Só… presente. Como uma cadeira vazia em uma sala de espera.
Sou o tipo de cara que você vê no metrô e esquece antes da próxima estação. O tipo que aparece em fotos de grupo e ninguém sabe dizer o nome. Um rosto que poderia ser qualquer um, mas infelizmente sou eu. E se não fosse pela minha boa criação, eu certamente teria entrado no mundo do crime, porque essa vida de acordar cedo e trabalhar é a maior roubada que já inventaram.
Levanto às pressas, tropeço no chinelo, visto o uniforme do O’Malleys — aquele restaurante que não sabe o que quer ser. Restaurante chique, pub decadente ou cenário de cena de crime. Talvez tudo ao mesmo tempo. É onde eu trabalho. E odeio.
Minha mãe está na sala, dormindo bêbada, com o cigarro aceso entre os dedos e usando bobs no cabelo. Que bom saber que ela não incendiou a casa enquanto dormíamos. Pelo menos os cabelos dela vão ficar perfeitos assim que ela acordar. Eu simplesmente tiro o cigarro da mão dela, coloco na minha boca, dou um trago profundo e saio do meu apartamento decrépito e sem graça, rumo ao meu inferno pessoal. Também conhecido como trabalho.
Chegando lá, é claro que tomo um esporro do meu chefe pelo atraso. Ele não grita, ele rosna. E me manda direto para a cozinha, para lavar pratos. Atividade que ele sabe que eu odeio. E que, por isso mesmo, me dá com gosto.
A pilha de louça parece ter saído de um ritual satânico. Pratos com restos de molho coagulado, copos com marcas de batom e talheres que parecem ter sido usados para dissecar alguma coisa que eu acredito que não era comida. A água da pia está morna e gordurosa, como se tivesse sentimentos. E eu estou lá, afundado até os cotovelos, pensando que talvez o crime não fosse uma ideia tão ruim.
Depois de duas horas de tortura líquida, finalmente chega a minha pausa. Eu saio pela porta dos fundos, atravesso o corredor estreito com cheiro de fritura e desinfetante, e vou até o estacionamento. O céu está cinza, como sempre. O vento traz um cheiro de escapamento e desesperança. Minha vida é essa mesmo? Eu penso.
Encosto no muro, acendo um cigarro e fico ali, olhando os carros parados como se fossem túmulos com rodas. Dou uma tragada longa, como se o cigarro fosse me responder alguma coisa. Mas ele só queima. Como tudo.
Até que, do nada, escuto uma voz masculina, grossa, rouca de quem já fumou mais do que viveu, me pedir um trago.
Eu me viro e o olho.
Está encostado na mureta do estacionamento como se fosse dono do lugar. Tem a mesma idade que eu, talvez um pouco mais vivido, ou só mais cansado. Cabelo curto, escuro, com aquele corte que não é corte — só o tempo passando. A barba cheia cobre metade do rosto, mas não esconde os olhos, que me encaram com uma calma quase ofensiva. Olhos escuros, fundos, como se guardassem segredos que ninguém pediu para ouvir.
Veste uma camiseta cinza escura, simples, sem estampa, como quem não quer chamar atenção, mas chama. O corpo é firme, mas não atlético. Tem aquela postura de quem já brigou e perdeu, mas aprendeu a ficar de pé. O cheiro de cigarro se mistura com o de desodorante barato e alguma coisa metálica, talvez óleo de motor ou só o ar da cidade.
Ele não sorri. Só estende a mão, esperando o cigarro, como se fosse óbvio que eu ia dar. E, por algum motivo, eu dou.
Ele traga fundo e depois sopra a fumaça com calma, como se estivesse exorcizando alguma coisa.
— Eu estava precisando disso — diz ele. — Estou muito nervoso. Obrigado.
Ele me devolve o cigarro com um gesto quase cerimonioso. Parece mais leve, como se aquele trago tivesse resolvido metade da vida dele.
— De nada — digo, o encarando de cima a baixo. — E por que está nervoso, estranho?
— Eu preciso conseguir esse emprego.
— Emprego? Está indo para uma entrevista? — pergunto, tragando o cigarro.
— É um teste aberto de elenco. E eu não posso perder essa oportunidade.
— Elenco pra quê? Um filme?
— Isso — diz ele, com um brilho nos olhos que não combina com o estacionamento sujo onde estamos. — Eu me preparei pra isso a semana toda. Você devia tentar.
— Eu?
— É. Você faz o perfil. Magro, rosto bonito, e aposto que vão gostar de você lá — diz ele, com uma naturalidade que me irrita e me intriga ao mesmo tempo. — Podia tentar.
— Não dá. Estou no meu horário de trabalho agora.
— Eles vão pagar 300 pratas pela produção.
— 300 pratas? Isso é sério?
Olho para a porta do restaurante. O’Malley’s me espera com sua luz amarelada e cheiro de fritura velha. Depois olho para o estranho, que continua ali, como se fosse um portal para outra vida.
— Quer saber? Que se foda — digo, apagando o resto do cigarro na sola do meu sapato. — Onde é esse teste maravilhoso?
Chegando ao estúdio, eu me surpreendo ao descobrir do que se trata. E não, o teste de elenco não é para um filme do Scorsese, a menos que o Scorsese tivesse desenvolvido um súbito interesse em filmar gente pelada. Isso mesmo: estou falando de pornô.
E, para ser honesto, essa ideia não me assusta tanto quanto deveria. Já estou de saco cheio do O’Malleys mesmo, e não que eu ache que vá conseguir um papel num filme desses, olha pra mim, mas porque não tentar e fracassar? Amanhã de manhã eu posso procurar outro emprego, um que pague melhor do que o último.
Na fila, o rapaz que veio comigo se apresenta como Orion Walley. Nome de estrela, mas cara de quem ainda mora com a mãe. É um sujeito até que legal, fala rápido, faz piada de tudo, e comigo ali parece mais relaxado. Talvez porque eu seja o único idiota que aceitou vir junto nessa loucura.
O corredor do estúdio tem cheiro de desinfetante misturado com suor antigo. As paredes são pintadas de branco, mas já amareladas pelo tempo. Há cartazes colados com fita adesiva, anunciando “Teste Aberto — Elenco Masculino e Feminino”. As cadeiras de plástico estão ocupadas por gente nervosa, alguns mexendo no celular, outros encarando o chão como se fosse um abismo.
Orion cutuca meu braço.
— Olha só, Kowalski, parece que estamos prestes a virar estrelas do entretenimento adulto.
Eu rio, mas é aquele riso curto, seco, que não engana ninguém.
— Estrelas decadentes, talvez — digo.
Ele dá de ombros e volta a mexer no celular. Eu fico ali, olhando para a porta fechada do estúdio, pensando que talvez este seja o momento mais absurdo da minha vida. E, por algum motivo, eu não quero estar em outro lugar.
A sala do teste parecia uma mistura de consultório médico com sala de interrogatório. Uma mesa comprida, três avaliadores com pranchetas e olhares clínicos, e uma fila de candidatos que pareciam ter sido arrancados de diferentes cantos da cidade.
O primeiro a entrar foi um sujeito chamado Bruno, alto, musculoso, com cara de quem passa mais tempo na academia do que em casa.
— Nome? — Bruno Torres. — Altura? — Um e oitenta e cinco. — Tamanho do dote? — Vinte centímetros. — Ativo, passivo ou os dois? — Os dois.
Ele respondeu como quem recita a lista de compras.
Depois veio uma garota chamada Melissa, baixinha, nervosa, mas com um sorriso que parecia ensaiado.
— Nome? — Melissa Perry. — Altura? — Um e sessenta. — Tamanho do dote? Ela riu, ajeitou o cabelo. — Não tenho, mas posso improvisar. — Ativa, passiva ou os dois? — Os dois, se pagarem bem.
A sala anotou em silêncio, como se fosse tudo normal.
Chegou a vez de Orion Walley, o sujeito que tinha me arrastado até ali. Ele parecia mais confiante do que no estacionamento.
— Nome? — Orion Walley. — Altura? — Um e setenta e oito. — Tamanho do dote? — Quinze centímetros. — Ativo, passivo ou os dois? — Ativo. Mas posso negociar.
Os avaliadores trocaram olhares, anotaram e chamaram o próximo.
Finalmente, meu nome ecoou.
— Nome? — Phillip Kowalski. — Altura? — Um e setenta e cinco. — Tamanho do dote? — O suficiente para estragar a noite de alguém. — Ativo, passivo ou os dois? — Nenhum. Só estou aqui porque odeio lavar pratos.
A sala ficou em silêncio por alguns segundos. Um dos avaliadores levantou a sobrancelha, outro anotou qualquer coisa na prancheta, e o terceiro sorriu como quem tinha acabado de encontrar um novo tipo de louco.
Eu fiquei ali, parado, pensando que talvez esse fosse o momento mais surreal da minha vida. E, por algum motivo, eu não queria sair correndo.
— Obrigado, senhoras e senhores. Deixem o telefone de vocês com a moça ali perto da porta e nós ligaremos para outro teste ainda esta semana — diz um dos homens, sem levantar os olhos da prancheta.
Orion sorri para mim e eu sorrio de volta, pensando que essa merda foi mesmo uma perda de tempo. Todos começam a sair da sala, arrastando cadeiras e murmurando entre si, quando de repente escuto a voz grossa do avaliador:
— Ei, você. O piadista de moletom — diz ele.
— Eu? — pergunto, me virando e vendo ele me chamar para perto da mesa.
Me aproximo a poucos passos e apenas o encaro, sem saber se deveria rir ou fugir.
— Eu só estava brincando — digo.
— Qual o seu nome, garoto? — pergunta ele.
— Phillip.
— Quando foi a última vez que fez teste de HIV? — dispara ele, sem cerimônia.
— Sei lá… uns dois meses atrás — respondo, meio sem acreditar na pergunta.
Ele puxa um cartão de debaixo da mesa e me entrega.
— Procure esse cara amanhã de manhã diga que o Sr. Moss te mandou.
— Por quê? — pergunto, segurando o cartão como se fosse uma bomba-relógio.
— Bem-vindo à indústria do entretenimento adulto, garoto — diz ele, com um sorriso.
— O meu amigo, o Orion, é quem queria esse trabalho. Eu só vim acompanhar ele — digo, estendendo o cartão de volta. — Devia dar isso para ele.
O homem apenas ri, um riso curto e debochado.
— Leve o seu amigo junto então. E lembre-se: nada de sexo pelos próximos três dias. Ele vai pegar as suas informações e te pedir pra fazer o teste de hiv de novo se for preciso.
Fico ali parado, sem entender direito. Eu passei?
Saio da sala ainda atordoado, com o cartão queimando na minha mão. No corredor, Orion está encostado na parede, mexendo no celular. Quando me vê, levanta os olhos.
— E aí? — pergunta ele. — O que ele queria?
Eu mostro o cartão.
— Nós conseguimos — digo.
— Nós?
— Sim, cara. Eu e você — digo.
Orion arregala os olhos, depois solta uma risada nervosa.
— Caralho, Kowalski… como? Você por acaso bateu uma pra ele? — pergunta o Orion.
— Eu nem precisei.