Coisas De Garotas

All Rights Reserved ©

Summary

Allison aproveita que mudou pra uma nova cidade onde ninguém a conhece com a família pra mudar também de identidade, agora ela tem a chance de viver como um verdadeiro garoto.

Genre
Lgbtq
Author
LexSilvas
Status
Complete
Chapters
1
Rating
n/a
Age Rating
13+

Coisas De Garotas (Conto)

Lex Silvas

01/04/10

Introdução:

Eu sou uma garota,

como mais eu poderia me definir?

Eu sou apenas mais uma garota,

feita de carne ossos e pele,

comum e sem graça.

Sou uma relés mortal,

uma garota com uma vagina.

Mas hoje eu não quero

ser uma garota…

Hoje não…

Parte 1

Antes de mais nada, é melhor eu começar por onde todas as histórias geralmente começam: Um homem conhece uma mulher e eles se apaixonam, eles namoram e se casam e eventualmente tem filhos. Compram uma bela casa ou quase isso, também um carro e planejam passar o resto de suas vidas patéticas juntos. Eles até que são felizes, nos primeiros anos, até perceberem que suas vidinhas são o que se pode chamar de miserável e ridículas e um deles passa a procurar algo para dar um agitada nas coisas. E é ai que o “Felizes para sempre” termina. Ele começa a ter um caso com uma colega de trabalho que ele conhece a anos. Já ela, por sua vez, chora muito após descobrir toda a verdade, os dois têm uma briga feia e ela resolve que o melhor a se fazer é ir embora, com destino a uma cidade que ninguém a conheça, levando consigo duas malas cheias de roupas, algumas caixas empilhadas em seu carro com o máximo de objetos dentro delas que conseguiu colocar é claro, e ela jamais poderia esquecer de levar também as suas duas filhas…

Essa mulher em questão, caso ainda não tenha ficado claro, é a minha mãe, o nome dela é Meryl, ela dirigiu a noite toda e chorou por mais da metade do percurso. Eu sou Allison Carter, uma garota comum do Texas, com meus cabelos longos e loiros e finos, com grande olhos azuis, pele branca e estatura mediana, eu estou com os meus 16 anos, dizem que eu sou a que mais se parece com a minha mãe, mas eu acho que é exagero, eu sempre me achei mais parecida com o meu pai. No banco de trás comigo está a minha irmã mais nova, ela se chama Julie, ela tem 8 anos e é sem sombra de duvidas a pessoa mais irritante que eu conheço. Minha mãe dirige o carro por uma auto estrada, entra numa pequena cidade virando o carro a esquerda da rodovia, quase batendo em outro carro, é mais difícil do que parece dirigir e chorar ao mesmo tempo. Ela pede pra que eu procure um endereço num envelope de carta amassado, o que dificulta um pouco a minha tarefa. Ela para o carro ao encontrarmos o endereço. Minha mãe nos faz entrar numa casa velha e feia. E diz que ali será o nosso novo lar. Que piada de mal gosto eu penso, eu já tinha um lar, ou pelo menos era isso que eu achava. Ela conversa com o proprietário para acertar tudo e pegar as chaves. A casa já veio parcialmente mobilhada, com moveis velhos e empoeirados. Minha irmã e eu subimos as escadas para escolhermos os nossos quartos, ela escolhe o quarto menor no fim do corredor e eu fico com o que dá de frente ao quarto maior que provavelmente vai ser o da minha mãe. Esse era o nosso modesto lar nesta bosta de cidade no fim do mundo. Minha mãe pede para que nós a ajudemos a tirar as coisas do carro, ela bem que tenta, mas não consegue nos convencer de que está mais animada. Por isso, então eu não disse a ela que não gostei nada dessa merda de lugar, eu só quero as coisas que eu fui obrigada a deixar pra trás de volta, isso é pedir muito, acho que não.

Parte 2

Eu remexo a primeira caixa que a minha mãe trouxe pra dentro de casa, encontro um camisetão do meu pai e uma bermuda jeans velha, na pressa eu acabei trazendo muitas coisas que pertenciam a ele. Visto as roupas após um breve banho frio e pra completar o meu “look” com um tênis all star azul e um boné preto de basebol com todo o meu cabelo enfiado dentro dele, nunca gostei desse cabelo desse tamanho, assim que puder vou cortar ele bem curto. Eu atravesso o jardim da frente para ir pegar as ultimas caixas que sobraram no carro,já era bem no fim da tarde. De repente , uma bola de futebol americano me atinge no rosto. Isso doeu, e dou pra caralho. Eu me volto para a direção de onde a bola veio, e vejo um garoto sem camisa vindo em minha direção.

— Você está bem cara? Pergunta ele preocupado enquanto atravessa a rua.

Eu só balanço a cabeça em afirmação mostrando que eu estou bem.

— Você está se mudando para aqui. Que legal, eu moro na casa ali da frente. Me diz ele apontando pro outro lado da rua. — O meu nome é Eric. Qual é o seu?

— Allison! Me apresento estendendo a mão com muita má vontade.

Ele me cumprimenta com um sorriso.

— Nossa as suas mãos são bem suaves para um garoto. Diz ele.

Garoto, como assim, garoto, só então eu me toco que eu estava mesmo parecido com um. Resolvo então me calar e deixar ele pensar isso. O cometário dele dobre as minhas mãos me deixou um pouco constrangida, então escondo as elas colocando-as entre as minhas axilas.

— Eu preciso ir agora. Diz ele apanho a bola do chão. — Eu sinto muito por ter te acertado. A gente se vê por ai. Tchau! Despede-se ele.

Eu passo o o resto do dia pensando por que eu deixei ele pensando que eu sou um garoto. Eu não sou, pra ser um garoto você precisa ter um pênis, e gostar de garotas, mas bem que eu gostaria de ter um só pra saber como ele funciona na pratica, e quanto as garotas, talvez uma ou outra me sejam interessantes, mas isso não quer dizer nada Outra pergunta que insisti em ficar martelando na minha cabeça é: Por que eu gostei tanto de que ele pensasse isso sobre mim? Talvez só pelo fato de que eu, lá no fundo, gostaria que todos nós nascêssemos com os dois, pênis e vagina. Todos nós seriamos o que os médicos chamam de hermafrodita, e poderiamos escolher de acordo com o dia e a ocasião o que gostaríamos de ser, meninos ou meninas, não só héteros ou gays, homem ou mulher, ativos ou passivos. Quer saber, eu quero que o XX e XY vão para o quinto dos infernos. Eu gostaria de ter o direito de escolher.

Parte 3

Minha mãe nos levou ao mercado, queria comprar comida e algumas outras coisas que precisávamos, já que na pressa de fugirmos da nossa casa antiga, deixamos para trás escovas de dentes, a maioria das nossas roupas e fotos. Nossa vida de agora em diante era outra, gostássemos disso ou não. A noite, eu tentava dormir, mas ouvia a minha mãe chorando em seu quarto lamentando e se culpando por tudo. Eu queria tanto dizer pra ela que ficaríamos bem, mas a verdade é que eu não sabia se tudo ficaria mesmo bem. Fomos matriculadas na escola local pouco tempo depois e minha mãe conseguiu um emprego como garçonete, ela estava realmente disposta a recomeçar tudo do zero. Nos não víamos ou falávamos com o meu pai desde que saímos de casa, acho que ele nem fazia ideia de onde estávamos. Logo no primeiro dia de aula eu me senti como a Carrie, a estranha. Pensei se é pra recomeçar, que não seria um recomeço de onde eu parei. Eu posso ser uma nova pessoa diante daqueles estranhos todos. Como eu sabia que era terminantemente proibido usar boné na escola, eu tomei a drástica, porém já pensada antes, decisão de cortar os meus cabelos, deixá-los bem curtos mesmo. As roupas em questão comprei algumas de segunda mão, todas masculinas e largas e algumas eu já tinha porque tinha trazido as do meu pai por engano, e quanto aos seios, como eu não tenho nada muito volumoso, foi só enrolar uma gaze em volta deles passando pelas costas. Treinei em frente ao espelho como engrossar a voz, parei de passar o creme da minha mãe nas mãos, passei a usar uma colonia masculina que era do meu pai. Essa foi parte fácil, a parte difícil vai ser convencer alguém de que eu possivelmente tenho um pênis e como fazer pra crescer uma barba. Enfio meias no meio das minhas pernas, o que já resolve um problema, espero que nenhuma menina resolva mexer ali por ventura; eu faço pequenos pontos com a maquiagem da minha mãe e espalho grosseiramente com a mão, coisas bem sutil no rosto que pareçam pelos. E pronto… agora, eu estava, ou melhor, me sentia diferente, pronta para o meu recomeço. Como eu não conhecia ninguém na escola, fico na minha, sem puxar muita conversa ou chamar a atenção pra mim. Passo por um corredor lotado de alunos, uma garota passa por mim, e eu tenho a impressão de que ela piscou pra mim, não sei se foi porque ela me achou legal ou se foi coisa da minha cabeça. Logo mais a frente, finalmente um rosto conhecido, é o meu vizinho Eric, ele é moreno e alto, olhos castanhos escuros, tem mãos grandes e grossas, como as de um atleta, e um ar de garoto gente boa da vizinhança, eu jamais andaria com alguém como ele na minha antiga escola, mas se eu quero ser um garoto de verdade, esse é um exemplo a ser seguido, preciso dar um jeito de observá-lo mais de perto. Ele sorri surpreso ao me ver ali, só quando eu me aproximo é que vejo que ele está acompanhado de uma garota, uma bela garota devo dizer. Ele me cumprimenta e me apresenta ela. O nome dela é Gwen, ela é líder de torcida. Ela é loira, mais alta do que eu e menos do que o Eric, olhos verdes e pernas longas e bonitas. Até o jeito como ela fala é propositadamente sensual. O sinal toca, ela se despede de Eric o beijando e se vai junto a multidão. Eu também tenho que ir pra minha primeira aula do dia. Eric me pede para que eu o encontre depois da aula no intervalo. Depois de algumas aulas chatas, eu não via a hora de me encontrar com o Eric novamente, gostava de observá-lo em perfeita sintonia com sua masculinidade, gostaria de ser como ele. Quando o encontro no intervalo, sou apresentada ao Bruce, outro amigo de Eric, observei ele também, mas não havia nenhum traço nele que eu quisesse copiar. Bruce é a pessoa com a boca mais suja que tinha na escola, todas as frases dele começavam ou terminavam com “porra”. Exemplo: “ Porra, eu quase catei aquela mina; aquele professor é chato pra porra!; o filme de ontem era uma porra. “ Bruce é baixo e magro, de pele negra, olhos castanhos escuros e adora falar mais do que a boca.

Parte 4

Agora eu era um garoto, falava como um, andava como tal e aprendi a arrotar e a peidar em frente aos outros sem o menor constrangimento. Bruce e eu nos tornamos amigos também só porque ele vivia no nosso pé, então não teve outro jeito a não ser nos tornamos próximos. Depois da escola íamos num terreno próximo que estava abandonado nos limites da cidade de carro que o Eric pegava com o pai dele emprestado, pra fumar, beber cervejas e falar sobre garotas, sexo e muitos palavrões. O mundo dos garotos não era diferente do que eu havia imaginado. Havia algo em tudo isso que quanto mais eu descobria, mais eu queria saber, era como uma força estranha, me puxando cada vez mais pro fundo dessa piscina figurativa. Em casa a minha mãe vivia concentrada no seu próprio drama que nem notou a minha mudança, ou pelo menos ela me ignorava a ponto de não ligar. Julie por outro lado, notou o suficiente pra me chamar de maluca, mas na verdade eu percebi que era ela quem andava agindo de maneira maluca ultimamente, colocando sobras de comidas nos bolsos para sabe-se lá o que.

- To pensando em ligar para o seu pai. Dizer pra ele que estamos bem sem ele, essas coisas. Diz minha mãe enquanto jantamos na sala assistindo TV.

— Fala como se ele ligasse pra nós. Digo irritada.

— Eu posso falar com ele também? Pergunta Julie.

— Eu não sei querida, talvez. Responde a minha mãe.

— Eu sinto saudades de casa e dos meus brinquedos. Diz Julie.

— Nós podemos comprar brinquedos novos. Assim que eu me estabilizar no emprego novo. Diz minha mãe.

— Será que vocês podem ficar quietas, eu quero assistir TV. Digo bastante irritada.

— Ai Allison, está cada vez mais parecida com o seu pai. Mal humorada que só. Diz minha mãe se mostrando ofendida.

Eu largo o meu prato no chão e subo as escadas furiosa ignorando qualquer coisa que minha mãe diga depois disso.

Parte 5

A noite, estou deitada na minha cama lendo o livro “O apanhador no campo de centeio”, estou na parte que o Holden está na casa do professor dele. De repente ouço algo bater na minha janela e paro imediatamente a minha leitura pra vero que de onde o som está vindo, já que o escuto mais algumas vezes. Me levanto devagar e abro as cortinas, olho pela janela e vejo o Eric no meu jardim, me abaixo rapidamente pra que eu posso clocar uma blusa que esconda os meus seios, espero que ele não os tenha visto.

— Ei, eu sei que você está, eu já te vi. Diz ele sussurrando.

Eu visto o meu moletom velho apressadamente e verifico pr um breve relance no espelo do meu guarda-roupas se está tudo bem escondido, não muito, mas vai ter que servir.

— Ei, Allison. Aparece ai cara. Diz ele. — Eu não vou embora até falar com você, cara.

— O que você quer? Pergunto abrindo a janela.

— Pare de bater punheta, seu pervertido e vamos dar uma volta! Diz ele com extremo desdém.

— Já está muito tarde, Eric. Amanhã temos aula. Digo.

— Para de ser chato cara, e desce logo. Eu vou te esperar aqui na calçada. Diz ele. — Vê se não demora, e coloca os sapatos.

Eu o obedeço, coloco os meus tênis e abro a minha porta pra ver se todos estão dormindo, mas ouço a minha mãe chorando no quarto dela mais uma vez, ela descobriu que o vinho combinava bem com as lágrimas e enchia a cara amaldiçoando o meu pai e sua vida ordinária e também a mulher com quem ele estava dormindo. Antes de sair, eu encosto a minha porta e eu arrumo a cama com alguns travesseiros para parecer que tem alguém dormindo lá. Me ajeito, pra me disfarçar mais e depois com toda a tranquilidade do mundo, pulo a janela, sorrateiramente e atravesso o jardim e vejo o carro do Eric parado mais a frente.

Parte 6

Eric não está sozinho pra minha surpresa, Gwen também está lá. Eles querem me levar a uma festa. Já passava das 10 horas da noite. Gwen me olhava por sobre os ombros enquanto Eric dirigia por entre as ruas e o rádio tocava “ I Gotta Feeling” Do Black Eyed Peas. Eric cantava o refrão da música de maneira errada e totalmente desafinado o que me fez rir. Quando chegamos ao local, Eric procurou um lugar para estacionar, haviam muitos carros parados em frente a uma casa grande e bonita. Gwen trata logo de sair do carro e me levar junto, deixamos Eric para trás pra que ele pudesse manobrar o carro. Ela me puxa pelo braço, abre a porta da casa e assim que entramos a música estava tão alta que eu mal podia ouvir o que ela dizia, pegamos uma bebida que nos servimos direto de um barril de cerveja. Bruce também está lá e assim que nos viu quis saber onde está o Eric. Gwen se distancia de nós e vai falar com umas amigas da escola que também estavam lá. Eu tento me enturma, beber, dançar, beber mais um pouco, até que uma garota que eu não conhecia se aproxima de mim e nós começamos a dançar juntos, ela parece estar bêbada, e, a uma certa altura, queria que eu a levasse até um dos quartos, não queria ficar mal na frente dos outros, então resolvo agir, levo ela pra o andar de cima onde ficam os quartos sem saber direito o que eu ia fazer se ela quisesse algo mais do que só beijar. No quarto, as luzes estão apagadas, eu afasto o mão dela das minhas calças gentilmente toda vez que ela vai se aproximando de lá, pra que ela não descubra o meu segredo. Nós nos beijamos, aquela era a primeira vez que eu beijava uma garota, se não fosse pelo gosto ruim da bebida na minha boca, tenho certeza de que o beijo teria sido bem melhor. Pra minha sorte a garota acaba caindo no sono antes mesmo que comecemos a ir mais além, também não era pra menos, ela estava tão bêbada que não foi nenhuma surpresa pra mim. E eu a enrolo num lençol antes de sair do quarto pra ninguém desconfiar, e mesmo sem ter feito nada, além de alguns inocentes beijos, ninguém perguntou o que de fato aconteceu entre eu e a garota, só presumiram o que pareceu óbvio. A partir do momento que eu entrei naquele quarto, para todos os outros, nós havíamos feito sexo, mesmo se eu dissesse o contrario, o que não faria. Um pouco depois, vi a Gwen discutindo com o Eric. Ela o empurra e depois vai embora pisando duro no chão sem olhar pra trás.

— E ai, Eric. O que houve com a Gwen? Pergunto ao me aproximar dele.

— Ela deve estar de TPM. Sabe como são as mulheres. Responde ele bebendo a sua cerveja.

— Melhor do que você pensa. Digo revirando os olhos.

— Nem me diga, cara.

— E pra onde ela foi? Pergunto.

— Não sei e não me importo!

— Vocês estavam, brigando por quê?

— Deixa pra lá. Ela que vá a merda. Diz ele nervoso.

— Ah qual é? Nós somos amigos. Pode me contar o que houve entre vocês. Insisto.

— Eu não quero falar sobre isso, caralho. Me deixa em paz. Diz ele em um tom alto saindo de cena pela porta dos fundos.

Pouco depois ouço alguém gritar “Polícia”. Algum dos vizinhos certamente irritado pelo barulho chamou a polícia. Bruce me puxa pela gola pra que eu possa correr, eu não vi o Eric, nem a Gwen mais naquela noite. De volta a minha casa, eu caminho pelo jardim e vejo a minha irmã saindo da garagem.

— O que você está fazendo ai tão tarde? Pergunto.

Ela leva um grande susto.

— Pensei que você estava dormindo. Comenta ela com a mão no peito.

— Não respondeu a minha pergunta ainda. Digo a ela.

— Não é da sua conta!

— Ah sim é da minha conta o que quer que você esteja aprontando, Julie.

— Tá bom eu digo, mas vai ter que me prometer que não vai contar nada pra mamãe. Diz ela.

— O que é?

— Jura primeiro! Ordena ela.

— Eu juro, agora fala logo garota. Digo a apressando.

Ela me leva para dentro da garagem, afasta algumas caixas e me mostra um cachorro. Ele parece velho e cansado, talvez até mesmo doente. Agora eu entendo o por que dela guardar comida nos bolsos.

— A mãe vai te matar se ela descobrir. Digo.

— Não vai não, você me prometeu não contar nada.

Eu não podia negar que havia feito uma promessa, e que agora era tarde demais pra desfazê-la. Afinal de contas promessa é dívida. E uma segredo entre irmãos é um segredo que você deve levar para o túmulo.

Parte 7

Na manhã seguinte, quase não dormir, fui até a casa de Eric, mas ele não está lá. Na escola também não o encontro, fico um tanto preocupada com isso. Recebo uma mensagem da Gwen no meu celular pedindo para que eu a encontre depois da aula, atrás do estacionamento da escola. Fiquei bastante curiosa. O que a Gwen poderia querer comigo? Talvez ela soubesse algo sobre o paradeiro do Eric. Pensei seriamente em não ir, mas a curiosidade falou mais alto. Assim que o sinal bateu, eu corro até o local onde combinamos de nos encontrar, ela já está lá me esperando.

— Você tem visto por onde anda o Eric? Trato logo de perguntar crente que esse era o assunto que discutiríamos.

— Não desde que eu terminei com ele! Responde ela dando de ombros.

— Vocês terminaram? Pergunto surpresa.

— Pensei que você já soubesse, já que você é amigo dele. Diz ela.

— Não, eu não sabia. E por que terminaram?

— Eu o peguei aos beijos com uma fulaninha qualquer na festa. Ele tentou se explicar, mas eu já sabia tudo o que eu queria saber.

— Tá, mas o que isso tem a ver comigo. Por que você quis me encontrar aqui? Pergunto.

— Porque eu queria fazer isso. Diz ela me beijando em seguida.

A Minha primeira reação devia ser a de ter afastado ela, mas eu não consigo,a sensação de beijá-la é incrível, muito diferente da garota que eu beijei na noite passada. Os lábios da Gwen tem um gosto doce por conta do seu gloss, e me fizeram sentir uma coisa que eu não consigo explicar direito. Senti a língua dela roçar na minha e ai não teve mais jeito, eu tive que a beijar de volta. Ela me convida para ir a casa dela, não sei bem porque, mas eu aceitei. Os pais dela estavam trabalhando e a casa estava totalmente sozinha. Durante todo o percurso até lá eu só penso: “ Deus, por favor, eu nunca te pedi nada, mas por favor só me de um pênis. Faça um aparecer bem no meio das minhas pernas só por hoje. Eu sei que isso é coisa do Pinóquio, mas eu gostaria de ser um garoto de verdade, só por hoje.” Na casa dela, nós fomos direto para o quarto, Gwen me beija e eu toco nos seios dela, confesso que vi mais graça em pegar nos dela do que nos meus. De repente, eu não sabia mais quem eu era, se eu queria ser um garoto, teria que fazer tudo o que um garoto faz.Nos deitamos suavemente na cama, retiro a roupa dela, primeiro a blusa e depois o sutiã, beijo os seios nus dela e vou beijando o seu corpo até chegar lá na sua vagina, que agora está lá totalmente nua pra mim. Eu caio de boca, lambendo-a com toda a vontade e também a penetrando com os dedos varias e varias vezes, tentando ao máximo dar prazer a ela, me esquecendo até de mim completamente. Eu sabia onde tocá-la exatamente, não era diferente da minha, era só mais bonita. Devo mesmo ter feito tudo certo porque ela nem percebeu que eu não precisei tirar nenhuma peça da minha roupa. Ela goza com gemidos abafados pelo seu travesseiros que ela agarrou entre os seus lábios. Ficamos deitadas na cama, rindo uma com a outra sobre besteiras que falávamos sobre muitas coisas das nossas vidas.

— Você deve ter sido o cara mais legal com quem eu já transei. Diz ela sorrindo.

Foi ai que eu me senti mal pelo Eric, ele e a Gwen mal terminaram e eu já estava caindo de boca na ex-dele, literalmente. Espero que ele não fique muito bravo comigo quando descobrir.

Parte 8

Eu sou o único garoto que tem um período menstrual, na verdade as duas únicas coisas que me faziam lembrar que eu ainda era uma garota, era o fato de eu menstruar e de não poder fazer xixi em pé, mas eu dava um jeito de fingir pra outros pensarem o contrario. Eu encontro o Eric alguns dias depois, ele havia ido visitar alguns parentes fora da cidade com os pais. Voltou com sede de vingança, ele está furioso comigo quando descobriu sobre eu e a Gwen, porque Bruce nos viu juntos naquele dia na parte de trás do estacionamento. Eu vejo ele discutindo outra vez com a Gwen, só que desta vez no pátio da escola, dessa vez tive que intervir.

— Que bosta, Eric. Não começa com essa de querer dar uma de santo pra cima de mim. Berra Gwen pra ele.

— Vai se ferrar Gwen. Diz ele enquanto me aproximo. — Você esperou eu viajar pra poder aprontar essa comigo.

— Não é nada disso que você está pensando, cara. Eu pensei que você e a Gwen tinham terminado. Digo tentando argumentar me metendo na briga.

— Eu pensei que podia confiar em você. Diz ele. — Achei que nós fossemos amigos, mas parece que eu me enganei. Diz ele agora apontando o dedo na minha cara.

— Você é mesmo um idiota, não fale com o Allison assim. Diz Gwen para me defender.

— E você não passa de uma puta! Grita ele pra ela.

— Eric, é melhor você se acalmar. E me deixar explicar tudo. Digo.

— Quer saber que se fodam vocês dois. Diz ele empurrando a Gwen.

Eu o seguro pelo braço, mas ele se vira e me dá um soco no meio da minha cara. Gwen o chuta no saco e depois tropeça e cai. Nós três estamos caídos no chão como os três patetas que somos. A diretora aparece e quer saber imediatamente o que está acontecendo. Eu e Eric somos levados para a enfermaria e depois de recebermos os cuidados necessários somos levados a diretoria. Eric discute com a diretora sobre o pretexto de que fui eu quem começou a briga. Minha mãe aparece logo em seguida, ela foi chamada pela diretora, ela já entra na sala nervosa querendo saber logo o que houve.

— Sra. Carter, o seu filho se envolveu numa briga com este outro rapaz. Diz ela apontando pro Eric. — Como a Sra. deve saber nessa escola, brigas não são toleradas.

— Filho, que filho? Pergunta a minha mãe confusa.

— Seu filho… Allison! Diz a diretora também confusa.

— Allison é minha filha mais velha, não meu filho. Diz a minha mãe me matando de vergonha.

— Filha? Não pode ser. Diz a diretora tentando assimilar as coisas.

— Ela cortou esse cabelo curto desse jeito, mas eu nunca aprovei este corte horrendo.

— Então a Sra. está me dizendo que Allison é uma garota. Oh então parece que temos um problema ainda maior do que eu pensei. Diz a diretora menos confusa do que antes agora.

Eric me encara abismado, mas não diz nada. Eu só evito de olhar diretamente pra ele. A diretora nos pede pra esperamos do lado de fora assim que o pai do Eric chega, para eles conversarem melhor. Nós nos retiramos e nos sentamos nos bancos do lado da sala. Eric depois de um tempo quebra o seu silêncio constrangedor entre nós ainda incrédulo com o que acabara de ouvir.

— Como é que você pode ser uma garota? Eu te vi fazer xixi no mictório. Diz ele.

— Eu usei uma garrafinha com água. Digo constrangida. — E você não olhou diretamente então nem percebeu.

— Que porra é isso? Você é com toda certeza um cara. Diz Eric me encarando. — Eu não bato em garotas.

— Não batia.

— O que você é uma lésbica ou o que? Uma dessas malucas, talvez? Pergunta ele.

— Eu não sou louca!

— Então é só uma maldita lésbica.

— Eu não sei se sou lésbica também. Eu só gosto de algumas garotas as vezes.

— Então o que diabos é você?

— Eu não sei!

— Como assim não sabe? Pergunta ele mais incisivo.

— Eu só não sei. Para de me encher com essas perguntas.

— Eu sei o que você é Allison, uma maldita aberração. Diz ele nervoso. — Eu quero mais é que você se foda.

Ele cruza os braços e fecha a cara.

— Eu sinto muito Eric. Eu não tinha a intenção de te magoar.

— Você me magoar, me poupe. Seu maldito esquisito, quer dizer esquisita. Diz ele me ofendendo.

— Não me chama de esquisita, eu não sou esquisita.

Nesse momento Gwen aparece no corredor onde estamos vinda da enfermaria.

— Vocês ainda estão discutindo. Diz ela revirando os olhos. — Vocês precisam crescer.

— Não estamos discutindo. Eu só estou batendo um papo com a sua namorada lésbica. Diz ele provocativo.

— Lésbica? E não entendi Eric. Diz ela.

— Gwen, não escute ele. Digo apreensiva.

— Ah então quer dizer que ela também não sabia de nada. Me permita ter o prazer de contar pra ela. Diz ele sarcástico.

— Não dê ouvidos a ele, Gwen. Imploro outra vez.

— Essa coisa que você me trocou por ele, nem é homem de verdade. É uma garota. Por debaixo disso tudo ela tem uma boceta e peitos, ela é uma maldita garota de merda que se achou no direito de nos enganar fingindo ser um garoto.

— O que? Pergunta ela incrédula. — Isso não é verdade, Allison, não é? Ele só tá falando isso porque está com ciúmes.

Eu não consigo olhar ela nos olhos e só fico lá na minha sem saber como me justificar.

— Eu sinto muito, Gwen Digo cheia de remorco.

Ela me olha e aos poucos a sua expressão vai mudando para algo mais arrasada.

— Eu não acredito em nenhum de vocês. Diz ela. — Eu só estava te usando mesmo pra fazer ciumes no Eric. Diz ela saindo correndo para longe de nós com lágrimas nos seus olhos.

— Tá feliz hein, esquisita? Pergunta ele.

— Só cala a boca Eric. Digo com raiva quase chorando também. — Acho que você já falou demais por hoje. E dai o que eu quero ser, homem ou mulher. Eu posso ser quem eu quiser, e nem você ou ninguém pode me dizer o contrário. Grito extremante triste e ofendida.

— Não é assim que as coisas são. Diz ele.

— Eu não estou nem ai pra isso. Digo cruzando os braços.

Minha mãe sai da sala da diretora, ela está muito zangada comigo, e eu sei que vou ouvir um monte dela hoje. Ela ordena que eu vá com ela e eu claramente obedeço. Vou embora sem olhar para trás, sei que estraguei as coisas e o soco que eu levei que quase quebrou o meu nariz, foi o preço que eu paguei.

Parte 9

Já no carro eu tenho que ouvir a minha mãe extremamente furiosa. Eu juro que se ela pudesse soltaria fumaça pelos ouvidos de tanta raiva de mim naquele momento. Ela dirige enquanto estou amuada e encolhida no banco do passageiro, não prestando atenção no que ela diz de maneira tão cortante e voraz.

— Ei garota. Diz a minha mãe estalando os dedos na minha frente. — No que você estava pensando. Dizer as pessoas que você é um garoto? O seu nome veio de uma tia minha que eu adorava, não de um homem qualquer.

— Eu não sei mãe! Respondo. — E o que você estava pensando quando nos colocou no carro de madrugada com as nossas coisas e saímos do estado só porque o pai estava tendo um maldito caso. A única cosa que você nos falou era que iriamos recomeçar as nossas vidas tudo do zero, hein?!

— Eu não quis dizer pra você se tornar outra pessoa merda. E o que há de errado com a garota que você é? Diz ela.

— Ela ainda está aqui, mãe, mas eu só mudei algumas coisas. Essa sou eu agora mãe… eu não quero ser só mais uma garota, só isso.

— Eu estou tentando te entender, amor. Mas eu não consigo. Diz minha mãe. — Eu só não consigo.

— Mãe só esquece. Digo.

— Eu não sei o que eu fiz de errado. Diz ela chorando.

Eu só volto a ficar amuada e quieta pelo resto do caminho.

Parte 10

Minha vida está de cabeça pra baixo, nunca imaginei que ser um garoto me traria tantos problemas. Eu estou de castigo no meu quarto, e também fui suspensa da escola por duas semana por brigar, mas minha mãe não me deixou em paz, me fez trabalhar em casa pintando algumas paredes mofadas da casa. Ela finalmente criou coragem para ligar pro meu pai após 3 meses da nossa fuga, eles brigam e discutem, passam os 20 anos de casamento á limpo, pela primeira vez eu vi que a decisão de nos levar embora foi a melhor. Um certo dia minha irmã Julie, me surpreende ao entra em casa chorando procurando por um saco de lixo, minha mãe não estava porque foi fazer hora extra no trabalho.

— Por que está chorando Julie? Pergunto.

— Não é nada, só me deixa em paz pra que eu possa encontrar um saco de lixo. Diz ela arredia.

— E pra que quer um? Pergunto. — Julie, só me conta por favor.

… Tive que ver para crer, o cachorro que Julia havia escondido estava morto e já fazia um bom tempo, o cheiro podre logo seria percebido pela minha mãe. Acho, por bem, ajudar a Julie a enterrá-lo no quintal. Organizo tudo para não deixar nenhum vestígio do meu plano. Mesmo assim, ela não parou de chorar, minha mãe estranhou o comportamento dela no jantar, ela achou, como quase sempre, que eu era a responsável por isso, só que dessa vez ela estava errada. A noite, tive que aturar o choro das duas, minha mãe de um lado chorando pelo seu casamento fracassado, e a minha irmã chorando por um cachorro estupido do outro.

Parte 11

Minhas semanas foram um verdadeiro porre, logo eu estaria de volta a escola, e eu não sabia como eu iria me comportar lá de agora em diante, ou pra quem mais o Eric tinha contado o meu segredo vergonhoso. Eu precisei ir até o mercado pra comprar algumas coisas pra o jantar, minha mãe me pediu. Estou na sessão de verduras e frutas escolhendo alguns tomates, um deles escorrega da minha mão e rola pelo chão até que para nos pés de alguém. Quando eu olho pra ver de quem foi, vejo o Eric, fico espantada e tento disfarça que o vi.

— Acho que isso é seu, esquista. Diz ele apanhando o tomate do chão e vindo na minha direção.

— Eu não estou a fim de brigar, Eric, então me deixa em paz. Digo me virando de costas pra ele.

— Calma, eu também não estou a fim de brigar, Alisson.

— Então o que você quer?

— O que aconteceu com a sua voz? Pergunta ele. — Eu gostei dela assim, mais suave, combina mais com você. Diz ele.

Eu me viro pra ele e o encaro nervosa.

— O que você quer me constranger mais ainda? Pergunto.

— Eu sinto muito. Sussurra ele quase de maneira inaudível.

— Por que e pelo que exatamente, você sente muito? Pergunto na defensiva o encarando bem nos olhos.

— Por ter te socado na cara, pra começo de conversa. Eu jamais teria te batido se eu soubesse que você é uma garota, ou seja, lá o que você quer ser. Diz ele. — E também por ter falado aquelas coisas na frente da Gwen, eu só estava puto com você, eu realmente gosto da Gwen.

Eu permaneço em silêncio por um tempo.

— E por qualquer outra coisa como te chamar de esquisita. Você não é esquisita. Diz ele baixando a cabeça.

Ele me pareceu ser sincero da parte dele.

— E eu sinto muito por ter mentido pra você sobre quem eu sou de verdade. Digo também em lamento.

— Não tem problemas, cara. Quer dizer, mina? Diz ele desconcertado. — Você é uma garota, e não tem explicação para o que uma garota faz. Não estou certo? Quer dizer… você é uma garota, eu acho.

— Eu sou sim, por enquanto.

— Sabe, eu sempre achei que existia algo de especial em você desde a primeira vez que te vi. Diz ele. — E quem sou eu pra culpar você por querer ser um garoto. Nós garotos somos demais. Diz ele rindo e me fazendo rir.

— A Gwen tá muito puta comigo? Pergunto.

— Não, acho que ela só ficou chateada com você, mas logo passa. A gwen é assim. Diz ele.

— Quando a vir pode pedir desculpas pra ela… por mim.

— Porque você mesmo não pede quando a vir. Tenho certeza que ela vai levar numa boa. Diz ele.

— Eu preciso ir, a minha mãe está me esperando. Digo.

— Claro, vai lá. A gente se vê por ai, então. Diz ele se despedindo e me entregando o tomate.

Nos despedimos e eu fui até o caixa pagar as coisas que eu havia comprado. Quando eu cheguei em casa, pensei que eu teria uma noite tranquila, mas nem bem entro em casa e ouço a minha mãe me chamar na cozinha. Coloco as sacolas de compra sob o balcão ao entrar na cozinha e vejo a minha mãe e a Julie sentadas ao redor da mesa, minha mãe deve ter pressionado ela pelo motivo de ela estar tão triste, e ela cedera e contara sobre o maldito cachorro. Lá vem bronca.

— Você sabia disso? Pergunta a minha mãe.

— É claro que não, mãe! Respondo cinicamente.

— Ela sabia sim. Ela me ajudou a enterrá-lo no jardim. Incrimina-me a minha irmã me fazendo ficar zangada com ela.

— E você, mãe, por que não se arrumou pra ir trabalhar ainda? Pergunto tentando mudar de assunto.

— Eu perdi o emprego, amor! Responde ela.

— Como alguém perde o emprego como garçonete? O que houve, você por acaso serviu batatinhas a mais pra algum cliente. Digo sarcástica.

— É mais difícil do que parece ser garçonete. Diz minha mãe respondendo a provocação.

— E o que nós vamos fazer de agora em diante? Vamos viver do que? De ar? Pergunto nervosa.

— Nossa, Allison, eu dou um jeito. Diz minha mãe.

— Pelo menos, não foi ela quem estava fingindo ser um garoto. Grita Julie.

— Pelo menos eu não deixei um cachorro pulguento morrer na nossa casa. Grito ainda mais alto.

Julie volta a chorar, e minha mãe não se contem e chora também. E eu não sei bem por que mais eu choro junto.

— Eu devo mesmo ser uma mãe horrível! Diz minha mãe em lágrimas.

— Eu não sou capaz de cuidar nem de um cachorro. Lamentou-se Julie aos prantos.

— Eu menti para todo mundo que eu sou um menino. Digo igualmente chorando alto.

Acho que digo isso por nós três, mas agora que desabafamos tudo parece estar menos confuso, pelo menos é assim que me sinto. Depois de nos acalmarmos minha mãe diz que nós vamos sair, mas não nos diz pra onde, só sabemos pra onde quando chegamos lá. Ela nos leva ao canil da cidade, decide deixar que Julie adote um cachorrinho, o que a deixa superfeliz. No canil Julie escolhe um filhote de labrador e o chama de Dug.

— Eu também te comprei algo. Diz a minha mãe pra mim enqaunto assistiamos Julie brincar com o seu cachorro recém escolhido.

Ela puxa de dentro da bolsa um camisetão masculino e me entrega, ele é de algum time de Hockey do qual eu nunca tinha ouvido falar.

— Eu percebi que você só tem usado essas porcarias masculinas que eram do seu pai. Diz ela. — E tem também isso aqui. Diz ela me dando um boné.

Eu o pego feliz da vida e coloco o boné ajeitando na minha cabeça.

— Precisamos te levar num cabeleiro de verdade, pra ele dar um jeito nesse cabelo. Quem sabe ele pode rapar um pouco mais na frente e dos lados. Vai ficar maneiro. Diz ela.

— Obrigada mãe.

— Eu sempre quis ter um menino, eu já te falei isso. Diz ela. — Parece que eu já tinha um esse tempo todo e não sabia.

— Você acha que eu fiquei bem de menino? Pergunto.

— Ah com certeza. Você tem a estrutura óssea do meu pai, e o queixo também. Diz ela enquanto me abraça.

Naquela noite, tomamos sorvete na cozinha e ficamos de bobeira até bem tarde. Foi a primeira noite desde que chegamos que eu não a ouvi chorar antes de dormir e Julie não queria mais largar o Dug, nem na hora de ir pra cama. Sorte dele.

Parte Final

Minha mãe decide que já era hora de mudar de novo, está difícil pra ela arrumar um emprego naquela cidade, ela achou que deveríamos ficar na casa da minha avó, até que a situação melhore pra nós, o que eu espero que seja logo. Eric me ajuda a arrumar as minhas coisas antes de partir. Gwen e ele estavam tentando se acertar, eu e ela mal nos falamos desde o ocorrido, achei que seria melhor assim. Pior do que magoar alguém uma vez, é magoá-la duas. Eric me promete que manteremos contato, antes de ir pra sua casa. Eu vi ele atravessar aquela rua pela ultima vez e entrar em casa. Minha mãe pedira o divorcio oficialmente pro meu pai e agora dá pra notar que ela está realmente feliz. Dirigimos pela rua onde fica a casa que moramos por alguns meses. Julie brinca com Dug no banco de trás. Minha mãe usa óculos grandes e escuros e dirige rumo a auto estrada. Grita um Adeus ao passarmos pela placa com o nome da cidade, rumo ao nosso futuro incerto, mas o que realmente importa, é que estamos juntas. E só mais uma coisa antes de terminar de contar a minha história. Seja quem você quiser ser, mas nunca se esqueça de quem você é de verdade. Eu tive a sorte, eu pude ser os dois, eu gosto de ser os dois… menino e menina. E agora quem sabe o que vai acontecer. Eu certamente não, mas eu não me importo.

Fim