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Mean Boy - O Poder Da Mentira

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Summary

Tudo começa com uma mentira boba. Daquelas que parecem inofensivas. Mas na escola, boatos ganham pernas, vozes e consequências. Quando Kieran percebe que virou alguém que nunca planejou ser, já é tarde demais para voltar atrás. Inspirado nas clássicas comédias adolescentes, Mean Boy mistura humor, vergonha alheia e aquele desconforto gostoso de reconhecer a si mesmo em meio da constante pressão social.

Status
Complete
Chapters
7
Rating
n/a
Age Rating
13+

01. Barraca Armada


14/01/24


Eu estou nervoso. É a primeira vez que trago uma garota para o meu quarto. Não sei bem como agir e não quero parecer nervoso demais e acabar assustando ela e perdendo essa chance. Meus pais saíram, então a casa é toda minha e eu convidei a Sarah para vir aqui. Ela aceitou, por incrível que pareça. Então só um lembrete para mim: Não fode com tudo Kieran, ou melhor só fode quando for hora de foder com ela no bom sentido.

Uma garota no meu quarto. Sim, um sonho realizado com sucesso. Uma garota afim de tirar a minha virgindade. Ainda é cedo para dizer, mas se ela veio até aqui isso é quase certo. Uma garota da minha escola que sei lá por qual motivo não me acha esquisito, e só aceitou o meu convite para vir aqui.

Eu sou Kieran Walker, 16 anos, ainda incrédulo com essa situação. Tenho cabelo escuro e cacheado, pele clara, orelhas um pouco grandes, mas hoje não vou deixar elas me incomodarem. Carrego aquele ar meio desajeitado, como se estivesse sempre tentando parecer mais seguro do que realmente sou, e talvez seja isso que me torna diferente.

Vamos voltar para o momento bizarro em que isso aconteceu, porque sinceramente ainda acho que tudo não passa de um sonho. Eu estava na escola, aquele zoológico humano onde todo mundo finge ser inteligente enquanto ignora o professor e sua aula chata. O cara lá na frente falava sobre equações, mas eu achava mais interessante observar a ponta do meu lápis, como se fosse um portal para outro universo.

De repente, na minha frente, Sarah mexeu no cabelo. Não foi nada demais, só um gesto rápido, mas para mim parecia uma cena de cinema em câmera lenta. Os fios escuros caíram pelo pescoço dela, e eu fiquei hipnotizado. O pescoço tinha curvas que pareciam desenhadas por algum escultor renascentista bêbado. Eu juro que vi até uma gota de luz escorrendo ali, como se o sol tivesse escolhido aquele pedaço específico da pele para brilhar.

E então, claro, aconteceu. A ereção. O corpo humano é uma máquina cruel: você está sentado, tentando parecer normal, e de repente todo o sangue do seu corpo decide fazer turismo em um único lugar e ficar parado lá. Ainda bem que eu estava sentado, porque se eu levantasse seria tipo uma bandeira hasteada no meio da sala.

Tentei disfarçar, mexendo nos cadernos, fingindo que estava anotando algo importante. E foi nesse momento que Sarah se virou. Ela olhou direto para mim e perguntou, com a maior naturalidade do mundo: — Que dia é hoje, Ki?

Uma pergunta simples. Uma pergunta que qualquer ser humano com cérebro responderia sem esforço. Mas eu não consegui. Porque meu cérebro tinha abandonado o navio. Todo o sangue estava ocupado em outra missão e sinceramente o oxigênio que deveria estar lá não estava mais também, entrama todos em greve aquela tarde. Então, em vez de responder algo coerente, eu soltei um: — Você é linda.

Ela franziu a testa: — O quê?

Eu entrei em modo pânico.

— O quê? Eu falei… 3 de outubro. Hoje é 3 de outubro — disse rapidamente.

Milagre. O cérebro voltou a funcionar por um segundo, como se Deus tivesse apertado o botão de “reset” só para me salvar da vergonha eterna.

O sinal tocou nessa hora. Todo mundo levantou animado, como se a liberdade fosse um presente divino. Menos eu. Eu fiquei sentado, imóvel, com uma ereção maior do que qualquer problema de matemática. Não podia simplesmente levantar e sair. Então fingi que estava arrumando minhas coisas, mexendo em papéis inexistentes, como se fosse o aluno mais organizado da sala.

Enquanto os outros saíam, eu só pensava em como escapar. Talvez correr até o banheiro e me aliviar um pouco. Não me julguem. Quem nunca passou por isso na escola não sabe o que é viver no limite entre a tragédia e a comédia.

Mas aí até o professor saiu da sala e a Sarah não. Ela estava lá, rabiscando alguma anotação como se fosse a pessoa mais aplicada do universo, e eu só pensava: “Vai embora, porra, levanta e sai, me ajuda.” Mas nada. Ela continuava sentada, e eu já não podia ficar parado fingindo normalidade. Ia parecer um poste no meio da sala. Então resolvi levantar rápido e sair antes que ela percebesse.

Senhoras e senhores, no momento em que eu me levantei com o plano genial de pegar a mochila o mais rápido possível e esconder o meu Monte Everest dentro das calças, ela se virou. Bem na hora. E olhou direto para lá. Não para mim, não para o meu rosto, mas para o ponto exato onde eu não queria que ninguém olhasse.

A cena foi tão desagradável que eu não soube onde enfiar a cara.

— Me desculpa — falei sem graça, tentando parecer humano. — Eu não sei o que houve comigo.

Me escondi atrás da mochila, como se fosse um escudo medieval, e só queria evaporar dali. Mas então eu vi: ela sorriu. E não foi um sorriso qualquer, foi um sorriso de “eu tive uma ideia”.

— Eu tenho que ir — soltei, já pronto para mudar de escola, de cidade, de nome, de rosto até.

— Tudo bem — disse ela, também sem graça.

Comecei a andar, mas ouvi ela sussurrar algo. Me virei e, num ato suicida de coragem, falei: — Bom, isso é comum entre os caras, Sarah. E não ajuda você ser gostosa.

Ela riu.

— Tudo bem, Kieran. Eu só nunca… tinha visto um tão grande antes — disse ela.

Boom. Minha cabeça colapsou. E aqui vai uma dica universal: não importa a idade, não importa se é verdade ou não, um homem sempre vai gostar de ouvir elogios sobre o tamanho do seu membro. Naquele instante, se ela tivesse pedido para eu correr pelado pela escola gritando frases malucas, eu teria feito. Mesmo que depois fosse preso e virasse lenda urbana.

— Grande? — perguntei, tentando esconder a felicidade que já estava estampada na minha cara. — Eu não sei se eu sou grande.

— É só que o meu ex não era assim tão… avantajado.

Ela disse “avantajado”. Essa palavra entrou no meu cérebro como um foguete. A partir dali, pelo resto da minha vida, eu iria me achar o cavalo do apocalipse. Senhoras, licença, porque o homem avantajado está passando. Iiirrrrííí.

— O que você quer dizer com avantajado? — perguntei, tentando bancar o cientista. — Ele ainda está dentro da calça, então você nem sabe o tamanho real.

Ela mordeu os lábios.

— Tem razão — disse ela.

— Quer… saber? — perguntei.

Ela balançou a cabeça dizendo que sim pra minha surpresa.

— Beleza, minha casa na… na sexta às sete — falei confiante, ou, pelo menos, tentando parecer confiante.

Coloquei a mochila nas costas e saí exibindo o volume como se fosse um troféu olímpico. Claro, só até sair da sala. No corredor já escondi, com medo de que os outros vissem e me chamassem de tarado.

E essa é a história de como eu consegui convencer a Sarah a vir me fazer uma vizitinha. Porque ela de fato veio. Sexta-feira, meus pais foram para um jantar com amigos e a casa era toda minha. Eu, sem muitas esperanças, esperei até as 7h35 para ouvir a campainha tocar. E lá estava ela. Linda, cabelos soltos, vestido leve, olhar cheio de desejo.

Ela entrou sem cerimônia, perguntou onde era o meu quarto e subiu direto. Viu meus pôsteres idiotas de bandas indies, minha coleção de bonecos, e mesmo assim não saiu correndo. Então eu pensei: “É isso. A virgindade está com as horas contados.”

No quarto estamos agora, eu tentando parecer confiante como se isso acontecesse pelo menos uma vez por semana. Ela se senta na minha cama e começa a mexer na minha gaveta, curiosa, folheando meus gibis patéticos como se estivesse analisando provas contra mim. Eu estou em pé perto da porta, como se fosse fugir a qualquer momento.

— Esses gibis são de um amigo — minto rápido. — Ele ainda lê essas coisas de criança. Eu só estou guardando pra ele.

Ela sorri, aquele sorriso que parece saber exatamente que eu estou mentindo.

— Por que não se senta aqui, Ki? — diz ela, apontando para o lado da cama perto dela.

Eu caminho em direção a cama, tropeço nos meus próprios pés, quase caio, e para disfarçar coloco a culpa no tapete. Me sento ao lado dela, tentando parecer natural, mas meu corpo inteiro é um desastre.

Ela sorri de novo, e eu tento não olhar direto para ela, porque medo e vergonha se misturam como um coquetel explosivo.

— Você me acha mesmo gostosa? — pergunta ela.

— É, claro — digo. — Você está no meu top 10. Na verdade 5. No meu top 5.

— Quanta honra — responde ela, rindo.

Eu sorrio também, meio bobo, olhando para ela.

— Pode me beijar se você quiser — diz ela, como quem dá autorização para que eu finalmente faça alguma coisa certa.

Eu me inclino para beijar, pedindo para todas as forças espirituais não me deixarem estragar tudo. Me inclino mais, até que me inclino demais e bato a cabeça nela.

— Me desculpa — digo sem graça. — Eu sou um idiota.

— Tudo bem — ela ri, e esse riso é como um perdão divino.

Ela se inclina e me beija. Primeiro lento, suave, como se estivesse testando o terreno. O gosto dela é doce, misturado com o cheiro do perfume leve que invade meu nariz. Meu coração dispara, minhas mãos tremem, e eu sinto cada segundo como se fosse uma eternidade. O beijo avança, fica mais intenso, e eu tento acompanhar sem parecer um robô mal programado.

Ela se afasta de mim, e eu ainda fico com os olhos fechados, sentindo o peso daquele beijo como se fosse uma marca gravada na pele.

— Você tem camisinha? — pergunta ela. — Não tem problemas se não tiver.

— Camisinha? Claro — digo, abrindo a gaveta dos gibis e pegando uma que consegui na aula de saúde. — Eu sempre estou prevenido.

Ela sorri.

— Beleza — diz ela voltando a me beijar.

E então, amigos, como eu posso dizer que virei homem naquela noite sem parecer o tipo de cara que conta vantagem? Simples: eu não posso. Porque eu não virei homem, nem perto disso. Eu adoraria me gabar, falar que passei a noite com ela, que ela queria mais, que eu fui o garanhão da escola. Mas não. Nunca.

O que acontece é que os meus pais chegam. Sim, chegam. Duas horas antes do previsto.

Bem na hora em que eu estou em cima dela, sem camisa, naquele momento preliminar delicioso em que tudo parece estar se entregando: eu para ela, ela para mim. O quarto inteiro respira tensão adolescente. E aí, ao longe, eu ouço a porta da sala se abrir e a voz da minha mãe ecoar: — Kieran?

Pronto. Clima assassinado. Ereção executada. Romance enterrado.

Sarah me olha, surpresa, ainda tentando entender.

— Pensei que os seus pais tinham saído — diz ela.

— Eles tinham — respondo com raiva, como se fosse culpa dela.

Eu salto da cama como se tivesse levado um choque elétrico. Corro para pegar a camiseta, mas claro que ela está do avesso, e eu tento enfiar a cabeça na manga. Sarah ri, porque é óbvio que eu pareço um idiota.

Minha mãe grita de novo lá embaixo: — Kieran, você está em casa?

— Não, mãe, eu estou no Havaí! — murmurro.

Sarah ajeita o vestido rápido, ainda rindo.

— Relaxa, não é o fim do mundo — diz ela.

Mas para mim é. Porque eu sei que, a partir desse momento, a história não vai ser “eu virei homem”. Vai ser “eu quase virei homem, mas minha mãe chegou duas horas antes e me transformou em um monge celibatário de 16 anos”.

— Quer que eu saia pela janela? — pergunta ela ainda se arrumando.

— Pela janela? — digo devagar. — Claro.

Ela se levanta da cama e me surpreende com um beijo.

— Te vejo na escola — diz ela.

— É, na escola — digo ainda sem acreditar que tem mesmo uma garota saindo do meu quarto pela janela.

Depois disso eu desço as escadas com a cara mais inocente do planeta, como se tivesse passado a noite estudando álgebra. Minha mãe olha para mim.

— Você está bem querido? — pergunta a minha mãe. — Está todo vermelho.

— Eu estou bem — digo.

E ali eu só penso: pronto, acabou. A virgindade continua intacta, e agora eu vou passar o resto da semana tentando explicar para os meus amigos que não, eu não virei lenda, eu virei piada.

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